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sábado, 3 de agosto de 2013

Qualidade do ar interno

Qualidade do Ar Interno, era o tema do seminário. É mais ou menos assim, aquele friozinho do ar climatizado, tão desejado para qualquer cidadão localizado entre a linha do equador e os trópicos, tem também seus efeitos colaterais indesejáveis, como o excesso de concentração de CO2 e o ressecamento do ar além do recomendado. O assunto está na pauta do dia, animado por princípios de qualidade ambiental e construção sustentável. Sendo assim, como profissional de arquitetura, me candidatei também.

Saí cedo para estar pontualmente às oito num hotel situado na orla, local do evento. Não consegui. Cheguei atrasada, correndo e um pouco perdida. Passei sem parar pela recepção do hotel perguntando:

- Onde é o seminário?
- O atendente da recepção respondeu apressado: - É no andar de baixo. É só descer as escadas.
- Obrigada!

Saindo das escadas encontrei um funcionário recolhendo o que parecia ter sido um café da manhã de recepção. Já fiquei "P" da vida por ter perdido a boca livre. Vi uma porta e entrei.

De cara levei um susto, era um seminário restrito. Haviam uns quinze gatos pintados, com fisionomias compenetradas, sentados em volta de uma mesa em forma de "U". O palestrante, um homem "elegantérrimo", bonito mesmo, fazia uma apresentação em PowerPoint com auxílio de Data Show. Que roubada, pensei. O tal homem parou de falar e perguntou:

- Você vai participar do evento?
- Respondi: - Sim, claro. Estou inscrita.

Chega pra lá, aperta um pouco e me acomodei numa cadeira, mas realmente fiquei constrangida. O público, mínimo, passou uns dez minutos, em revezamento, prestando mais atenção em mim do que no palestrante. Devia ser um grupo seleto, muito entendido em qualidade do ar interno. Pareciam não querer contribuição. Mas deixa comigo, vou me concentrar de um jeito que saio daqui expert.



E a apresentação foi desenrolando. Era tudo tão nebuloso, com minúcias biológicas. Que exagero! O nível era demasiadamente específico e começava a ver distanciar-se a tal expert. Me sentia a loura burra, sem imaginar como poderia aplicar alguma daquelas coisas num projeto de edificação. A atenção já ia longe, pensando: esse cara é um pedante, um gato, mas pedante. Deve estar todo mundo voando como eu. Até que comecei a captar alguma coisa e, então, era a minha deixa:



Palestrante: - ... como no papel da via condutora-alveolar na ventilação, tanto na entrada como na saída do ar.
Eu: - A via condutora-alveolar trabalha unicamente na ventilação? Quero dizer: com papel restrito à renovação do ar interno? Ou também trabalha na temperatura?
Palestrante: - Claro, interfere na temperatura, resfriando o sistema.
Eu: - Sendo assim, além de evitar as mudanças bruscas de trajeto e reforçar as soldas para favorecer a estanqueidade, acredito que a utilização de materiais isolantes na via condutora-alveolar deve ajudar também, conferindo maior eficiência ao sistema, não é? Neste caso, quais seriam os materiais mais indicados para essa função?
Palestrante: - Huuumm... - (pensativo) - Acredito que melhor seria prevenir para não precisar "emendas" ou "mudança de trajeto".
Eu: - Mas na prática isso é quase impossível, mesmo que o planejamento esteja redondinho. E você sabe, na hora de instalar, quem põe a mão na massa faz como quer.
Palestrante: (novamente pensativo) - ... É sem dúvida um ponto de vista interessante, mas vejo um pouco diferente. Para quem "põe a mão na massa", existem os protocolos cirúrgicos, além disso, a medicina preventiva tem evoluído muito, reduzindo a necessidade das interferências traumáticas, e nós, médicos, temos o compromisso de fomentar esse movimento.
Eu: - .............................????? - (com meio metro de queixo arrastando na mesa).

Nós médicos?! Nós quem, cara pálida? Estiquei o olho nos papéis da mulher sentada ao lado e dei um zum de fazer inveja a qualquer teleobjetiva, quando li em letras maiúsculas garrafais: NÚCLEO DE PNEUMOLOGIA DO HOSPITAL SÃO RAFAEL.

Como é que é? Pneumologia? Ai meu Deus, alguém me tira daqui! O seminário também era sobre "qualidade do ar interno", só que bem interno, precisamente do pulmão.

Plano "A": sair correndo. Considerei a chance de me bater outra vez com alguma daquelas figuras ou, pior, precisar de seus préstimos profissionais. Descartei a alternativa. Plano "B": acionar a chamada falsa do celular e sair para atender. Fala sério, é muita falta de educação ir para um evento como aquele e não desligar o celular. Posso passar por doida, mas por mal educada não. Plano "C": fingir um desmaio, mas como eram pneumologistas convictos, ainda era capaz de alguém inventar de fazer em mim uma respiração boca a boca. Se pelo menos fosse o palestrante...

Abandonei todos os planos de jerico e comecei a tossir. Uma tosse forçada, horrível, mas não tinha outro jeito, a encenação "meia boca" seria minha passagem para a liberdade. Ia tossir até minha presença ser incompatível com a continuidade da palestra. Deu até dó, eles ficaram tão preocupados e solícitos. Tirando o fato de estarem no lugar errado, na hora errada, até que eram gente boa. Pedi licença, quase sem conseguir falar (tudo fingimento) e saí. Quando passei da porta peguei uma carreira digna de São Silvestre, para não correr o risco de ver mais ninguém, e fui tirar satisfações com a recepção.

- Mas como pode? O convite está claro, é este hotel, esse dia, essa hora, vocês fizeram a maior confusão.
- O recepcionista: - Minha senhora, eu sinto muito, mas só está agendado aquele evento para hoje.
- Não é possível! Que desorganização!
- A senhora pode falar com o setor de organização de eventos para saber o que aconteceu.

- Claro, eu não ia deixar por menos. Fui falar com o setor de eventos. Queria saber do meu seminário. Chegando lá contei o que estava acontecendo. Obviamente não falei nada sobre meu breve curso de pneumologia, só cobrei explicações e providências. A moça que me atendeu parecia uma estagiária, tão meiguinha. Lendo meu convite, falou calmamente:

- É, a senhora tem razão, o evento é aqui no hotel.
- Eu não disse?
- O dia é esse mesmo.
- Você está vendo?
- Mas é do mês que vem.
- Como assim?

Ainda estou pensando até hoje se terei coragem de voltar no próximo mês para participar do seminário. Talvez se cortar o cabelo, pintar de outra cor, usar um chapéu, possa passar sem ser reconhecida.


domingo, 20 de novembro de 2011

Pé na estrada de coração aberto

 Nesse fim de semana um amigo, que teve recentemente a oportunidade de viajar durante um mês pela Índia, me falou encantado sobre sua aventura. Não se esquivou de falar da pobreza, dos contrastes sociais, do caos urbano e dos pedintes. Sim, ele esteve lá e viu tudo isso. Mas a questão toda é essa: ele enxergou as pessoas, a cultura, o país, no sentido mais amplo que se pode conceder ao verbo "enxergar". Com doçura e generosidade, me falou da receptividade indiana, do convívio com a família onde esteve alojado, da espiritualidade que ameniza as adversidades e torna a vida mais leve. Ele estava tão feliz em seus relatos que se esqueceu de falar dos monumentos de Jaipur e do esplendor do Taj Mahal. Acho que visitou essas atrações turísticas, mas parece que não foi o que mais lhe valeu em suas caminhadas.

Há muito tempo que esse tipo de percepção, dom ou, talvez, somente bom senso, que alguns trazem consigo e outros tantos viverão a vida inteira sem ter ideia do que seja, me desperta a atenção. Bom senso porque, no mínimo, mesmo que você tenha ganho de forma fabulosa toda a sua viagem num sorteio ou bingo, você está gastando nela um artigo que não se compra e que não volta atrás: o tempo. O seu precioso tempo. Sobre ele, só lhe cabe decidir se vai usá-lo bem ou mal, se vai se divertir ou se chatear, se vai crescer, expandir sua visão e horizontes ou se vai se entediar e só deixar o tempo passar. 

Talvez tenha atentado para isso em função do lugar de onde vim. Eu cresci no estado do Pará, cidade de Belém, considerada a metrópole da Amazônia, mas já estou há mais de dez anos morando longe do Estado. Minha origem geográfica quase sempre desperta muito interesse e curiosidade.  A vastidão de nosso país e as atraentes promoções turísticas para os destinos internacionais mais tradicionais, ou comerciais, deixam a Amazônia no fim da lista de "lugares a conhecer" de quase todas as pessoas, se é que ela consta na lista. Sendo assim, o norte do Brasil é um mistério para a grande maioria. As perguntas são as mais variadas, às vezes generalistas, algumas mais específicas e outras bem absurdas. Pessoalmente, tenho o maior prazer em falar de minha terra, mas devo confessar, não é para todo mundo. 

Belém é uma cidade sui generis que já completou trezentos e noventa e cinco anos de fundação. Uma aglomeração urbana às margens do rio Guamá e baía do Guajará. Quase uma península fluvial. Todos os dias desembarcam no cais do Ver-o-Peso as mais diversas iguarias trazidas de ilhas que rodeiam a capital, lugares que conservam a mata densa e exuberante. A metrópole tem uma história forte, com todos os ingredientes da colonização brasileira. Lutas sangrentas entre colonizadores e índios, missões religiosas, escravização africana e a cabanagem - uma das três maiores revoltas populares da história do país. Teve também os grandes ciclos de prosperidade, como o da borracha, que levou à cidade riqueza, cultura e um certo delírio de europeização, lhe conferindo no período o título de Paris n’América. O clima é quente e úmido; os paraenses são receptivos e muito dançantes; a arquitetura histórica é diversa e abundante; as frutas são exóticas; e a culinária, com influência indígena, é capaz de encantar qualquer gourmet. Resumindo, a história, a cultura e o patrimônio natural são enormemente ricos. Todos esses elementos estão ali, na cidade, impressos na paisagem urbana. Estão nas nuances dos tons de pele, no cheiro da comida, no movimento das águas, no frescor das sombras das mangueiras, mas, tem que se dispor a enxergar a cidade. Tem que cheirar, sentir, ouvir e ler nas entrelinhas o que não está explícito. Não é para qualquer um. Ah sim, claro! Ela tem um monte de problemas, não tenha dúvidas, e não os esconde. Belém transpira sua identidade, com qualidades e mazelas, para quem quer realmente conhecê-la. E para quem quer, pode crer, é um encontro especial.

Parece bairrista. Pode ser, mas essa mesma disposição me acompanha nas mais diversas trips. Claro, nem todas me comovem, por maior que seja meu esforço de respirar o lugar, mas com freqüência tenho boas coisas para contar, e não preciso nem ir muito longe pra isso. Um bom exemplo são minhas andadas pela Bahia. Em função do meu trabalho, às vezes preciso viajar pelo interior do estado, muito de carro. Em algumas situações são cidades com certo porte, em outras são lugares que escaparam de povoado. Por mais singela que seja a contribuição da excursão, quase sempre o saldo é positivo. Além disso, vamos combinar, que delícia são aquelas feirinhas de beira de estrada, com artesanato, frutas do local e especialidades que você só encontra com aquela qualidade e aquele preço ali, só ali. Sem falar, é claro, dos comerciantes, que tratam você como o evento do dia.

Uma viagem pode ter diferentes motivações. Pode ser planejada ou improvisada, ser um sonho acalentado há anos ou um árduo compromisso. Pode-se ir longe ou aqui do lado. Às vezes é uma fuga emocional, e sendo assim, pode não cumprir muito bem sua função. Pode transcorrer sem quaisquer sobressaltos ou ter imprevistos diplomáticos, dissabores de fuso, de clima, altitude, idioma, cultura. Seja como for, quase sempre é um ato voluntário e dispendioso, que pode ser melhor vivenciado se reduzirmos a bagagem. Não falo de malas, cada um sabe de suas necessidades. Falo da bagagem das idéias pré-concebidas, dum formato muito rígido do que esperamos encontrar e experimentar. Não dá para aventurar-se pelo mundo procurando em todos os lugares as nossas próprias projeções. A viagem pode até cumprir com louvor todos os propósitos pré-determinados, mas é muito bom estar livre de grilhões para flexibilizar, se necessário for, esses tais propósitos durante o trajeto, e permitir-se encantar com as surpresas que quase sempre nos esperam quando saímos de casa e colocamos o pé na estrada de coração aberto.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Serviços de cuidadora Kung Fu






Whooooau! I feel good, I knew that i would now.
I feel good, I knew that I would now.
So good, so good, Igot you.

Cantou o despertador tentando me convencer que eu estava animadíssima em acordar às cinco e meia da manhã. Tudo bem, a história era mais ou menos a seguinte.

Minha amiga Alida seria operada aquela manhã do outro lado da cidade e eu iria acompanhá-la. Não estava fazendo isso só porque há dois anos ela havia feito exatamente o mesmo por mim, mas, sobretudo, porque ela é uma grande amiga. Além disso, a danada tinha me feito uma proposta indecente do tipo “nós somos liberadas do hospital meio dia e você ganha atestado para o dia inteiro”. - Feito, “tô” dentro!

Saí de casa pouco depois das seis, peguei Alida e, como havia sido marcado, às sete horas em ponto nós estávamos na porta do hospital. Entramos, nos identificamos e ficamos esperando o atendimento. O hospital, do tipo day hospital, era um brinco: claro, espaçoso, limpo, bem decorado, café expresso, TV a cabo e aqueles lanchinhos de máquina. Era um pouco frio, mas em Salvador isso é uma qualidade maravilhosa. Aquilo ia ser uma moleza, um dia de lazer no meio da semana. Sete e dez, sete e vinte, sete e meia e nada. Ninguém nem olhou para nossa cara inchada de sono. Admito que não era exatamente uma bela visão, mas espera aí, por que mesmo que mandaram a gente estar aqui as sete? Finalmente, sete e trinta e cinco chamaram Alida e começaram o atendimento.

Mandaram a gente para um apartamento bem pequenininho, para ser mais exata: minúsculo. Enquanto a enfermeira preparava Alida, a pré-operada relacionava as minhas inúmeras possibilidades para aquela manhã.

- Você pode ler, dar uma volta no hospital, assistir TV na sala de espera, conversar com as enfermeiras...
E eu pensando: - Meu Deus, isso é praticamente um Resort.

E Alida continuava: - ...e ainda pode deitar aqui na cama e dormir até eu chegar.

Nessa hora a enfermeira muito sisuda deu um salto e disse:

- Não pode! A cama tem uma assepsia de preparação para receber o paciente. O acompanhante não pode deitar de jeito nenhum.

Me assustei com tanta inflexibilidade e fiquei conversando com meus botões: - Tudo bem, não “tô” nem fazendo questão dessa cama dura mesmo. Fica com ela pra você.

Prepararam Alida e pouco antes das nove levaram minha amiga para a sala de cirurgia. Sentei na cadeira, fiz um pensamento positivo para ela, abri o livro e comecei a ler. Li, li bastante. Depois de um tempo me arrumei de lado na cadeira, ajeitei a posição e continuei lendo. Li mais um bocado e virei para o outro lado na cadeira. Li mais um tanto e a bunda já pedia socorro, sem contar o ar condicionado que, cá pra nós, devia estar meio desregulado, aquele frio não era normal.  Escorreguei o quadril no assento na esperança vã de, talvez, aquela peça de mobiliário insensível se compadecesse de mim e, milagrosamente, reclinasse o encosto. Mas não aconteceu. Também já me incomodava todo aquele tempo com os pés para baixo. Dei uma olhada para a cama e na mesma hora desviei o olhar. Nem pensar garota, lembra da assepsia da cama e da saúde de sua amiga, isso sem falar na enfermeira nazista. Olhei de novo e na mesma hora esqueci todos os pensamentos anteriores e só imaginei o conforto de minhas pernas para cima descansando sobre aquele colchão macio. Acho que não tem problema colocar os pés aqui no cantinho. Botei as pranchas sobre a cama, relaxei e continuei minha leitura. Mas não demorou muito e começou o outro tormento. O frio era insuportável. Eu não tinha idéia que esse hospital funcionava como frigorífico clandestino nas horas vagas. O tempo passou e a posição estava confortável, mas não conseguia me concentrar na leitura porque o barulho do meu maxilar batendo de frio era ensurdecedor. Vou reclamar! Não, não vou reclamar! Será que o convite informava que o traje era esquimó completo? Eu não li. Levantei e comecei a investigar tudo no quarto, o objetivo era me movimentar. Abri o pequeno armário, estudei os objetos, a estrutura da cama, o controle das funções da cama e, quando não tinha mais nada para fazer, fui tomar um café lá fora.

Voltei para o quarto e comecei a ler novamente com as pernas para cima. Aproximadamente onze e meia alguém mexeu na porta e eu dei um pulo em pé, morrendo de medo que a enfermeira fundamentalista islâmica me visse toda espalhada com os pés na cama. Mas não, era o médico. O Doutor era um velho conhecido, o mesmo que me operou dois anos antes e namorado de outra amiga. Conversamos e ele me deu excelentes notícias sobre a cirurgia. Logo Alida estaria no quarto (e eu pensando: nada de perna para cima de novo). Continuando, ele informou que entre doze e doze e trinta nós estaríamos liberadas. Liguei para os pais de Alida e tranqüilizei-os, tudo estava dentro dos conformes.

Meio dia trouxeram a operada para o quarto. Ela estava bem, com boa aparência. Um pouco pálida, talvez, os lábios brancos, tinha uma touca na cabeça, usava aquelas batas de hospital e tinha nas pernas, operadas e rígidas, mais atadura que a mais caprichada múmia da dinastia de Tutankamon. É, pensando melhor, não tinha boa aparência. Mas isso não era o mais importante, a cirurgia tinha sido um sucesso. Estava acordada, mas um pouco grog ainda pelo efeito da anestesia. Então, perguntei:

- Como você está?

- Ela balbuciou algumas palavras dizendo: - ... ... ... ...!!

Não tenho idéia do que ela disse, mas não importa. Alida aos poucos foi recobrando a consciência e melhorando um pouco a fala. Logo depois entrou outra enfermeira, perguntou tudo, explicou tudo e no final saiu com a pérola:

- Entre três e três e meia o anestesista deve passar aqui para liberar vocês.

Pensei: - Ei, espera aí! Como assim “três e meia”? E toda aquela conversa de meio dia livre com atestado para o dia todo?

Com toda a tranqüilidade argumentei: - Mas o médico esteve aqui e disse que até meio dia e trinta estaríamos saindo.

E a enfermeira respondeu: - Mas quem libera é o anestesista, quando termina o efeito da anestesia.

Que ótimo, pela articulação da fala de Alida até meia noite a gente está em casa com certeza. A enfermeira saiu e eu não conseguia mais ficar sentada e não conseguia mais ler nem uma placa de trânsito. O que eu poderia fazer para passar o tempo? Pensa, pensa. Claro! Eu estava numa fase super puxada no treino de Kung fu, me preparando para o exame de faixa, tentando treinar todos os dias. Aquele lugar era perfeito para praticar. Afastei os móveis para abrir espaço e comuniquei para Alida minha intenção. Ela arregalou um par de olhos imensos e tentou levantar o tronco, parecia mesmo entusiasmada. Então ela começou a falar gesticulando numa linguagem toda enrolada um monte de palavras que não entendi, mas tenho certeza que era qualquer coisa tipo “ótima idéia” ou talvez “que bom, vai ser maravilhoso para a gente se distrair”. Sendo assim, comecei a treinar.

Iniciei com as defesas pessoais, passei para golpes e depois para o kati, que no Kung fu é o equivalente ao kata do Karatê. O kati tem que ser perfeito: técnico, plástico, cheio de energia. Reduzi o espaço das movimentações, mas tentava fazer os golpes corretamente. Ha! Siki! Ik! Que são os Kiais, aqueles gritos que a gente solta junto com os golpes. Acho que Alida estava empolgadíssima, porque ela não parava de se mexer a cada movimento mais brusco meu e falar sem parar coisas que eu não entendia. Até que Ha! Acertei o soro de Alida, que ficou balançando para um lado e outro puxando a agulha que estava enfiada no seu braço. Com o barulho que fez e o grito que Alida soltou, a primeira coisa que pensei foi na enfermeira bisneta de Conan, o bárbaro. Imaginei ela entrando pela porta com uma espada para me fatiar em centenas de pedaços. Depois lembrei que, talvez, Alida precisasse de socorro. Será que ela está bem? Tirando a poça de soro que fez embaixo do acesso da agulha e o fato dela estar um pouco mais pálida e quase sem sentidos, tudo parecia estar normal. Mas, por via das dúvidas, suspendi o treino.

Fomos liberadas às duas e meia, não sei por que. Levei Alida para casa e saí com a sensação de dever cumprido. Tudo havia sido perfeito. Quando cheguei em casa já eram quatro da tarde e eu estava quebrada daquela cadeira dura, de modo que não pude curtir muito as duas horas livres que me sobraram. Quanto a Alida, ela saiu com atestado para quinze dias, mas já têm uns vinte dias que ela operou e ainda não voltou para o trabalho. Tenho pensado em passar uma dessas tardes com ela, para distraí-la, acho que ela vai gostar.

terça-feira, 1 de março de 2011

Eu e minha sandália


Isso vai, isso não vai. Esse talvez, aquele com certeza não. Mas aquilo, que vai, é tão específico, e talvez seja melhor não ir. E aquele outro, que não vai, é tão lindo, que mal há em levá-lo para dar uma volta? Fazer a mala é sempre um tormento, um problema que nem mesmo a matemática avançada atreve-se a por mão. Mais uma vez estava eu em reviravoltas com a bagagem. A meta era uma malinha compacta para três dias em Goiás, com a família. Quando na arrumação descobri que a sandália que usaria no evento de sexta seria perfeita também para a festa de sábado, comemorei. Menos um trambolho para carregar.

Já em Goiás, na sexta à noite, calcei a sandália e circulei encantadora por um teatro lotado. No dia seguinte, pela manhã, tive que calçá-la novamente, pois havia deixado a mala na casa da prima Paula, mas acabei indo dormir na casa do primo Junior, sem nada na mão. Quando enfim reencontrei minha bagagem e troquei de roupa, verifiquei que a parte da frente dos dois pés da sandália estava começando a descolar, um contratempo popularmente conhecido como "boca de jacaré".

Ai, ai, ai, pensa rápido, pensa rápido. Eu só tinha aquela sandália para a balada da noite. Sejamos objetivos, havia duas opções. A primeira: sair e comprar outra. A segunda: improvisar. Veja bem, não era qualquer sandália, existia uma empatia entre nós. Ela estava comigo há aproximadamente dois anos, mas só havia lançado mão de seus serviços umas cinco vezes. Tratava-se de uma charmosa sandália preta de salto alto e de boa marca que, sem querer fazer merchandising, direi apenas que começa com "A" e termina com "rezzo". Então pensei: é uma boa menina e o problema é um detalhezinho de nada. Resolvido, opção improvisar! Vou sair, comprar uma daquelas colas que colam tudo e não largam de jeito nenhum e, quando voltar a Salvador, levo no sapateiro para os reparos necessários.

Colei os dois pés do calçado e considerei o assunto encerrado. À noite, já toda pronta com um pretinho básico, calçava minha linda sandália quando uma das tiras, sem qualquer comprometimento com nossa agenda, soltou na minha mão. Espera aí, acho que esta figura não está entendendo muito bem a situação. Alooouuu!!!! Às dez horas da noite não existe plano "B", e não havia chance de folga, day off, compensação e etc., era ela ou ela mesma. Catei a cola e mandei ver na tira desnaturada. Por via das dúvidas, levei a cola na bolsa.
A festa era um baile de máscaras para comemorar os quarenta e cinco aninhos da tia Ângela. Minha tia estava feliz, o salão estava lindo e os convidados animadíssimos; e o que era bom, prometia ficar ainda melhor com a chagada da banda. Enquanto isso, ia dançando timidamente ao som do DJ, beliscando algumas iguarias e bebericando um espumante, para entrar no clima. Numa dessas, retornando à mesa, senti as passadas em falso. Olhei para baixo e constatei que em um dos pés, a frente e a lateral tinham descolado, e largavam para trás um discreto rastro de pedacinhos de sola. Hé, hé, disfarça! Olhei em volta para ver se alguém acompanhava a cena e acelerei o passo até a mesa. Com toda a calma tirei a pequena e operei uma restauração com precisão cirúrgica, um mosaico com cada pecinho em seu lugar. Enquanto desenvolvia o trabalho manual, ia conversando com ela. Usei toda a minha eloqüência para explicar o seu papel naquele momento, sua importância e responsabilidade, e enchi sua bola exagerando sobre seus atributos. Falei emocionada como um treinador numa preleção antes do jogo decisivo. Dez segundos segurando e pronto: a sandália estava nova mais uma vez.

Voltei para o movimento e a farra só esquentava. Estava totalmente à vontade e entornava o espumante como há tempos não fazia. Quando a banda começou a tocar seus roques nacionais e internacionais a festa “bombou” e o salão ficou cheio de gente alucinada cantando e dançando. A bagunça era ótima. Eu pulava, dançava e cantava a plenos pulmões, abusando do meu inglês que fica fluente depois de várias taças. Nessa hora, justamente no melhor de tudo, aquela filha de uma rapariga da minha sandália acha de desmontar. Não tive dúvida, corri para a mesa e sem descalçar esvaziei o tubo de cola em cima dela, sem dó nem piedade. Novamente, dez segundinhos e pronto. Pronto? Pronto o quê? Meu pé colou! Ai meu Deus! Puxa dali, empurra daqui e nada, a sandália grudou como uma sanguessuga faminta. Gritei meu irmão Renato, que estava por perto, e pedi a presença do primo Junior, o médico da família. Reunida a junta médica, o diagnóstico foi proferido.

- Você está ferrada! Isso só no hospital!

Quer saber, se o destino nos uniu, então vamos relaxar e aproveitar. Voltei para o salão e dancei como se nada tivesse acontecido. No início, pareceu que seria uma união feliz, mas aquela sandália era bipolar. “Tô” bem, “tô” mal. “Tô” bem, “tô” mal. Quem agüenta? A desgramada começou a desintegrar. Eu não disse descolar ou desmontar, eu disse de-sin-te-grar. Naquela altura, somente um exorcismo dos mais ortodoxos poderia expulsar do corpo da sandália o espírito maligno que a assediava. Haviam pedaços seus por todo o salão e não tinha mais como disfarçar ou fingir que não era comigo. Nossa tumultuada relação estava na boca do povo. Onde eu ia, lá iam atrás de mim funcionários do buffet com aquela vassoura grande de fazer faxina por atacado, varrendo os fragmentos que deixava para trás. A louca se desfez toda, mas não largou do meu pé, premonizando que a separação seria traumática. Não obstante os contratempos, ficamos até o fim da festa. Em casa, tentei soltar com água quente, acetona e todas as receitas que me deram. Sem sucesso, me resignei e dormi coladinha com ela. Na manhã seguinte, a prima Paula me libertou cortando a pele presa com uma tesourinha. O que sobrou da desvairada foi para o lixo sem lamentações.

Mais tarde, no almoço que comemorou o aniversário do papai, comentávamos a odisséia quando tia Gê lembrou outra história. Uns dezoito anos atrás, no casamento da tia Ângela (novamente a tia Ângela), agredi com uma faca de cozinha uma sandália que estreava naquela noite. A agressão não foi despropositada, a sandália me provocou a noite inteira esfolando meu calcanhar. Mas a lembrança me levou a concluir: festas da tia Ângela e minhas sandálias são incompatíveis. Na próxima, engesso o pé.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Será que ele liga?

O suicídio de Dorothy Hale - Frida Kahlo


Ah... l’amour. O início de um amor é tão mágico que uma simples pernada até à padaria para comprar o pão da hora, ganha ares de um passeio às margens do Sena, sob a luz da lua, ao som de La Vie en Rose. E o nosso amado, o tão cobiçado objeto de desejo? Aos nossos olhos esse é irretocavelmente perfeito, agraciado com prendas e encantos sem paralelos na esfera terrestre. Não é fácil para um mortal segurar a pressão. Cada detalhe, cada gesto nosso é importante e pode selar definitivamente a sorte do romance. Na empreitada de fazermo-nos dignos de tal graça, vale tudo: camuflar, florear, exagerar, entre outros baixos subterfúgios, todos os recursos possíveis para nos aproximar dos moradores do Olimpo e sermos merecedores de sua atenção.

Nesse embalo, lá estava eu, na ansiedade de um quinto encontro, preparando minuciosamente cada detalhe. O cabelo, a maquiagem, as unhas, a roupa, o sapato. Apesar de gastar em média vinte minutos com cada item, tudo tinha que parecer despretensioso e casual, tipo: "só tive tempo de tomar banho e vestir qualquer coisa". A programação era um cineminha, um filme de terror, e nada poderia ser mais propício como desculpa para me encolher protegida por seus braços.

Tanta preparação não podia dar em outra: chegamos atrasados. O filme já havia começado há uns dez minutos e entramos na sala com as luzes apagadas. Um filme de terror inspira concentração e tensão. Um filme de terror com a chancela de Anthony Hopkins, por sua vez, remete a aficionados apreciadores do gênero na sétima arte. Nesse contexto, subimos as escadas correndo, eu um pouco a frente. Quando encontrei uma fila com dois lugares, parei e virei subitamente, cento e oitenta graus, ficando de frente para ele e para a tela. Mas o freio não estava muito em dia, e o eixo, um pouco desalinhado e desbalanceado pelo desgaste do tempo. Como conseqüência, perdi o equilíbrio e fui caindo lentamente, tentando alcançá-lo com a mão. Não alcancei e caí de bunda sem conseguir segurar o riso, com lampejos de gargalhada. Conseguimos logo na entrada quebrar o clima que o diretor do filme levou mais de um ano para construir. Sentados, ele, para minha surpresa e espanto, com a cara mais limpa, pediu ao desafortunado vizinho de cadeira que relatasse detalhadamente todos os acontecimentos da fita até aquele momento. Coitado do vizinho, ninguém merece. Será mesmo que isso é uma prática comum no distante Olimpo?

Saímos do cinema e fomos comer um sushi na praça de alimentação do shopping. Meu filme estava queimado com a queda, mas eu ainda tinha a noite inteira para remediar a situação e parecer uma deusa. Sentamos e o papo foi rolando entre cinema e arte, num nível de erudição e cultura totalmente incompatível com uma loura. Aprofundando as questões surgiu Frida Kahlo e seu estilo inconfundível de retratar fatos de sua vida e acontecimentos de seu tempo, quando comecei a descrever uma de suas obras. A obra foi encomendada por uma conhecida editora de revista da época, que pediu a Frida que pintasse um retrato de sua amiga que havia se suicidado recentemente pulando de um edifício. Frida, com a sutileza que lhe é peculiar, pintou como pano de fundo a mulher caindo do alto do prédio, e no primeiro plano, a suicida desfalecida no chão se esvaindo em sangue. A dona que encomendou o quadro achou uma aberração e não quis nem saber da tela. Eu, por minha vez, empolgadíssima com a vida (ou a morte) da obra, tentando descrever a queda com realidade, fui pendendo o corpo para a esquerda, lado oposto ao dele, até que perdi o controle e, pasmem, caí junto com a cadeira, eu e a cadeira com as pernas para cima. A cadeira teve um comportamento impecável. Ficou constrangida e calada, e agiu como uma dama num momento de infortúnio. Eu, é claro, ri, sem conseguir parar, sem conseguir levantar. Ele, primeiro sorriu, para mostrar a todos que assistiam que tudo estava bem, depois, vendo que eu continuava estatelada no chão, levantou-se para me erguer.

Não preciso nem dizer, era fim de linha para mim. Com essa compostura eu seria persona non grata até mesmo num churrasco na laje. Terminamos o sushi e fomos embora. No trabalho, quando contei entre risos as aventuras do fim de semana, os amigos propuseram logo um bolão, apostando se ele ligaria novamente ou não. A imensa maioria das apostas era para "não liga". Ai que drama, drama, acabei com todas as minhas chances de entrar no Olimpo pela porta da frente. Contudo, contrariando todos os prognósticos e para a surpresa geral, ele ligou. Tem maluco para tudo nesse mundo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Um filme de terror




Sabe aqueles eventos que os preparativos bagunçam toda a sua vida? Pois então, eu estava diante de um: o casamento da minha querida prima. Um casamento à noite por si só já tem sua pompa e circunstância, mas, se não bastasse, eu ainda era madrinha e as comemorações eram em outro Estado.

Além do planejamento da viagem, havia mais uma série de questões a serem cuidadosamente tratadas. Para começar, que roupa usar? É claro que eu não tinha nada no armário para isso. E o cabelo, o quê fazer? Domar os cachos ou adestrá-los, eis a questão. Saindo do capítulo "cabelos", vêm o capítulo "acessórios": bijus, bolsa, sapato. Acessórios na vida de uma mulher “é tudo” e haviam muitas considerações e simulações a serem feitas. Mas, de todos os itens a serem resolvidos, o que mais me preocupava era a famigerada maquiagem.

Do alto dos meus quarentinha confesso um pouco constrangida que muito pouco, ou quase nada sei sobre a arte de empastar o rosto com aqueles produtos “carésimos” cujas melhores marcas é necessário um biquinho para pronunciar o nome. As desculpas são variadas e quase todas bem esfarrapadas, mas a dura verdade é que eu não tenho a menor idéia do que fazer com aquele monte de pincéis e pozinhos coloridos. Muito bem assessorada por minhas amiguinhas encarei os fatos e fui à luta.

Depois de algumas pesquisas em sites especializados e um workshop organizado pelas companheiras, me lancei às compras, acompanhada das amigas Del e Jó. No shopping, entramos numa loja especializada com várias cadeiras e espelhos para maquiagem no local. A vendedora, muito pintada, falou dos produtos e, gentilmente, perguntou se eu não gostaria de experimentar, tipo assim: uma maquiagem sem compromisso. Era tudo o que eu queria, vinte minutos toda relaxada, enquanto alguém delicadamente passava algumas coisinhas no meu rosto para depois eu sair linda e com todos os trâmites da make-up dominados.

- Claro! Por que não? - Respondi.

Sentei e começou. Se você é como eu, aproveite a mamata e anote a seqüência dos passos. Primeiro: limpeza. Água e sabão nem pensar, é totalmente over. Use um produto específico que vai lhe custar algumas dezenas de reais. Segundo: tônico, para re-equilibrar o ph da sua pele. Nem parece eu falando. Terceiro: a preparação com corretivo, base e pó facial. Agora vamos parar com essa numeração que minha cabeça loura não consegue raciocinar num plano organizado. Até aí tudo estava indo muito bem. A moça exagerou um pouco em cada item, mas nada preocupante, ainda parecia equilibrada e eu ainda achava que ia ficar bonita. Então, começou o filme de terror.

Ela pegou uma brocha, parecida com aquelas de pintar muro, besuntou numa sombra dourada extravagante e passou na minha pálpebra sem dó nem piedade. A brocha não prima pela precisão, mas confere bastante agilidade. Com duas pinceladas meus olhos ficaram como duas pepitas de ouro. Del e Jó, que estavam até então boiando, acordaram assustadas e curiosas para saber onde ia dar aquilo.

- Bem, o evento é à noite, não é? – A louca enquanto me pintava ia conversando com ela mesma. – Então pode usar um tom mais escuro. O preto vai ficar ótimo!

Encharcou outra brocha na sombra preta e mandou ver em torno dos meus olhos, próximo aos cílios. Arrematou com delineador e rímel, e pediu que eu conferisse. Para as circunstâncias, um exame de corpo delito seria mais apropriado. Mas ela continuava empolgada.

- Está ficando ótimo! Hora do blush. O blush é muito importante, ele levanta a maquiagem e dá um ar saudável.

Neste caso levantava até defunto, porque ela pegou o rolo de pintar parede e passou do maxilar até as olheiras com a voracidade de um felino faminto. Na verdade, eu já estava com medo. Olhava para minhas amigas com os olhos compridos, suplicando ajuda, socorro, qualquer interferência sensata ou desesperada, que me tirasse das mãos daquela mulher perigosa. Mas nada, as duas moscas mortas continuavam impassíveis, com a boca aberta.

A artista, enquanto pintava, toda esbaforida com os movimentos e confusa com tantos pincéis e produtos, me falava como havia se destacado no curso de maquiagem que tinha feito. Acho que muito atarefada com a atividade, acabou esquecendo de mencionar que o curso foi por correspondência, em hebraico arcaico, sem fotos ou ilustrações.

- Agora o toque final: o iluminador!

Começaram, então, longos movimentos verticais, horizontais e diagonais, por todo o rosto, totalmente inspirados em Daniel Sam do memorável "Karatê Kid", na primeira versão, quando no seu processo de aprendizado dos mistérios das lutas marciais foi escravizado pelo Sr. Miyagi, lavando e pintando toda a área de seu deck com tais movimentos. Mas não, ela não se contentava em somente imitar um grande sucesso do cinema internacional, ela tinha que inventar, e introduziu também gigantescos movimentos circulares. Quando acabou, somente com a minha cara eu era capaz de iluminar uma cidade de vinte mil habitantes. No embalo, pegou um batom bem melequento, cortou um pedaço e colocou sobre os meus lábios, como uma fatia de goiabada sobre o queijo. Totalmente sem noção, largou a bomba:

- Pronto! E aí, gostou????

Na hora me pintou a dúvida: “me atraco com essa mulher, furo seus 'zóios' e quebro todos os dedos para nunca mais ela fazer uma sandice desta com mais ninguém, ou faço uma cara de deslumbrada dizendo que o local e hora não merecem tal obra prima, esfregando e lavando o rosto totalmente e imediatamente para não sobrar qualquer vestígio”. Como boa garota que sou, fiquei com a segunda opção, mas alguém precisa tomar uma providência sobre aquela moça.

Não preciso nem dizer que tive que suar muito ainda para equacionar o item "maquiagem" nos preparativos para o casório, bem como todos os demais itens para não fazer feio num dia tão especial para minha priminha. No final, deu tudo certo, mas o saldo não foi positivo. Desde então evito ir àquele shopping, ou quando é imprescindível, passo há léguas da bendita loja. Até hoje tenho pesadelos horríveis com aquela mulher, vestida numa camisa de força, usando uma focinheira, cheia de pincéis, correndo ensandecida atrás de mim pelos corredores do shopping.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Brinquedinhos imprevisíveis



Quanto mais a hora da partida aproximava-se, mais aquela bendita "lista de coisas a fazer antes da viagem" atormentava a sua paz. No início, nada menos que 90% das coisas resolvidas eram admissíveis, depois passou para 75%. O tempo correu e 40% já eram negociáveis. Agora, a poucas horas de entrar no avião rumo à BH, qualquer coisa em torno de 7,5% era completamente aceitável.

Havia alguns meses que a viagem estava sendo minuciosamente planejada, junto com uma turma de quase trinta pessoas. O motivo? Uma amostra internacional de teatro na capital mineira. Ela, como uma das protagonistas do grupo, não poderia ficar de fora desta. Aproveitando a oportunidade, convidou o maridão para acompanhá-la, afinal, nenhuma oportunidade de quebrar a rotina de um casório de 29 anos pode ser desperdiçada. Antes de fechar a mala, o toque final: escondeu lá no fundo o brinquedinho surpresa que estava levando para o seu amor. Ele não perdia por esperar.

O apetrecho estava comprado há algumas semanas, aguardando a hora certa para ser usado. A compra em si já foi uma festa a parte. Uma senhorita em cima de um belo salto chegou a seu local de trabalho carregando uma maletinha rosa choque, tão inocente como os acessórios da doce Barbie. Enquanto passava pelas mesas do escritório falava com uma e outra, até chegar ao fundo da sala, onde sentou, cruzou as pernas, descansou a maleta sobre o colo e abriu o recipiente como quem abre "as portas da esperança". Daí para frente ninguém pode conter aproximadamente 10 mulheres enlouquecidas beirando o estado de luxúria. Da malinha saíram várias preciosidades, entre elas óleo comestível de massagem, calda quente de menta, pasta de uva, pomadinha picante, canetas com tinta comestível, peças íntimas de vestuário e joguinhos eróticos. Ela encantou-se com tudo. Inicialmente pensou em levar a calda de menta e a pasta de uva, já pensando no slogan de propaganda "senta que de menta e chupa que é de uva". Depois resolveu comprar o baralho de posições e uma caneta sabor doce de leite. Como não segurou a onda, inaugurou o baralho logo no fim de semana seguinte e esforçou-se bastante para executar com precisão os contorcionismos propostos, ignorando inclusive os efeitos lombares e cervicais que, com toda certeza, perdurariam por vários dias. Agora era hora de inaugurar a caneta de doce de leite, e só de pensar lhe dava água na boca.

Tudo em relação à viagem foi decidido entre o grupo de teatro: o local da estadia, as peças a serem encenadas e as apresentações imperdíveis. O item "hotel" foi um parto a fórceps. Uns achavam caro demais, outros achavam ruim demais, outros, longe demais. Depois de muito "trololó" e pesquisas na internet chegou-se ao consenso quanto a um simpático hotel três estrelas, localizado no centro da cidade. Chegando lá, a conclusão que pareceu mais obvia era: as fotos expostas na internet não eram daquele lugar, ou as mesmas tinham sofrido uma séria intervenção no Photoshop. De qualquer maneira, a propaganda foi enganosa. O hotel era velho, feio e sujo, muito sujo. As três estrelas prometidas eram, possivelmente, as que podiam ser vistas ao cair da noite, pelos três buracos da cortina.

Os compromissos do evento internacional eram puxados, com apresentação todos os dias, não sobrando muito tempo para namorar. No penúltimo dia, os dois já na loucura por um momento a sós, deram um "zig" no grupo e se mandaram mais cedo para o hotel. No apartamento, tentaram abstrair-se do ambiente e concentrar-se no ritual. Ela procurou algo para vendar os olhos dele. Como naquele hotel não havia nada que pudesse ser chancelado pela vigilância sanitária, tirou a parte de baixo de seu babydoll e amarrou na cabeça do marido. A sorte é que de olhos vendados ele não podia conferir o resultado, mas era um armengue de dar dó. O short ficou todo contorcido, com metade da renda para cima e a outra metade para baixo, como um tapa-olho caído até a bochecha. Se não fosse pela cor da peça, verde cana, ele poderia até ser confundido com o capitão gancho fantasiado de baiana do acarajé, claro, depois de um arrastão dos mais violentos. Mas isso tudo não tinha a menor importância, ela ainda estava excitadíssima.

Cuidadosamente, ela o despiu e pediu com uma voz de seda para que ele se deitasse. Sacou a caneta e iniciou os desenhos pelo rosto, para percorrer todo o corpo em direção aos pés. Timidamente, começou com o básico: uma bola representando a cabeça e cinco tracinhos representando o corpo. Mais a vontade, deu asas ao romantismo, com coraçõeszinhos e uma casinha no alto do morro. Depois ousou com flores, bichos exóticos e tribais. Na coxa esquerda anotou a receita da pamonha mineira que havia experimentado naquela tarde e, não contendo seus impulsos profissionais, rabiscou uma planta baixa, dois cortes e uma fachada frontal. Já que estava empolgada e com tempo sobrando, aproveitou para arquitetar as soluções do projeto pendente do necrotério estadual. A essa altura ela estava na canela, com o doce se misturando nos pêlos da perna. Curiosa para apreciar sua obra, deu uma olhada geral no conjunto.

Quando viu, não pôde acreditar. Não era possível enxergar um centímetro da pele do seu amor. O doce de leite virou uma calda melequenta que escorreu por todo o corpo fazendo com que ele parecesse um boneco de lama se desmanchando. Se a agonia da meleca não bastasse, ainda havia o risco de morte pelo fato dele ter alto nível de diabetes. Ele lá, de olhos vendados, todo deitadão, não entendia muito bem o que acontecia, mas estava apreciando tudo. Assustada, mas sem querer estragar o momento, partiu para cima dele com meio metro de língua, lambendo tudo que encontrava pela frente. Ele, evidentemente, foi à loucura. Já enjoada de tanto açúcar, buscou no banheiro uns pedaços de papel higiênico, que no primeiro contato com o doce, se desfizeram ficando pregados no corpo. Beirando o desespero, molhou a toalha e começou a esfregar nele com movimentos pesados, explicando tratar-se de uma técnica oriental de estimulação. Cansada, propôs logo os “finalmentes”. Tirou o babydoll que tapava os olhos dele e a brincadeira ficou animada, não obstante o prega-prega da coreografia.

Depois de tudo, ela não podia ver ou sentir a kilômetros o cheiro de doce de leite, e a idéia de um banho lhe pareceu a coisa mais excitante da tarde. Quando chegou ao banheiro, ao olhar-se no espelho teve vontade de chorar. Seus cabelos estavam em pé em pequenos grupos, como se tivesse sido vítima sem defesa de uma descarga elétrica de alta voltagem. Mesmo depois do banho, a cabeleira nunca mais voltou a ser como antes.

O evento acabou e, enfim, chegou a hora de voltar. O hotel, para redimir-se dos muitos contratempos, ofereceu para cada quarto um brinde surpresa, embalado para presente numa caixinha. Ele, muito feliz com a experiência, planejava ansioso a próxima viagem. Ela, um pouco enjoada ainda, ia precisar de um tempo maior para se animar. Já no avião, voltando para Salvador, ela resolveu conferir o mimo oferecido pelo hotel. Quando abriu quase caiu para trás. Era meia dúzia de tabletes do mais autêntico doce de leite mineiro. Com o estômago embrulhando, exclamou apressadamente em alta voz:

- Comissária, por favor, um saquinho urgente!!!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Corta o cabelo de onde?


Todo mundo passa por aqueles dias que é melhor não abrir a boca. Com a maior parte das pessoas isso acontece um dia ou outro. Comigo é mais freqüente. O problema maior é que a gente nunca sabe quando acordou com esta pré-disposição. Tanta tecnologia disponível e ninguém se tocou de bolar um alarme no celular para nos prevenir nesses dias sombrios. Ou talvez "os céus" pudessem nos proteger das derrapadas com inspirados presságios. Seja como for, alguém precisa tomar uma providência.

Como não me dou muito bem com os celulares e não costumo ser abençoada com tais revelações divinas, lá vou eu toda serelepe e desavisada para mais um dia de trabalho. Passei o dia até bem e parecia que ia voltar para casa sem nenhuma seqüela. Era o quê parecia. Lá pelo final da tarde, conversava com minha chefona, que é mais ou menos um feitor dos tempos modernos. Quando trocávamos algumas figurinhas chegou Aragon, nosso colega de trabalho. Só para ilustrar o tamanho da trapalhada que vem pela frente, vou descrever nosso personagem. Aragon é um engenheiro de segurança de cinqüenta e poucos anos, sério e muito tímido. Para termos uma idéia, ele fala de boca fechada. Quando está muito nervoso e alterado chega a abrir a boca cinco milímetros e meio e, se chegarmos a dez centímetros da fonte emissora do som, é até capaz que a gente consiga ouvir 70% do que ele fala. É um bom profissional, mas bem mais eloqüente na escrita. A “chefa” tinha alguns assuntos pendentes com ele e na mesma hora tirou o chicote do cinto e começou a cobrar os desdobramentos dos serviços.

Os dois seguiram debatendo os assuntos de trabalho. Na argumentação, Aragon, que normalmente é muito contido, gesticulava com as mãos na altura do baixo abdômen e região pubiana, com movimentos curtos e lentos. Como a conversa não era mesmo comigo, me permiti abstrair perdida nos meus pensamentos. Isso, para uma mente intelectual, significa absorver-se entre assuntos relevantes para a humanidade. Para uma cabeça loura, como é o meu caso, significa "só pensar besteira". Então, comecei a viajar nas mãos de Aragon, observando que seus dedos eram bem cabeludos, o que me lembrou um lobisomem ou, talvez, Tony Ramos, que é mais ou menos a mesma coisa. Era meramente uma observação, que faço questão de registrar que não me remeteu a nenhuma fantasia. Aprofundando-me mais na questão de alta complexidade, notei que, em uma das mãos, os dedos indicador e médio tinham os cabelos menores, como se tivessem sidos aparados. Totalmente alheia ao ambiente e às circunstâncias e, pior, no auge do meu surto delirante, usando um papel tipo ofício que tinha na mão, apontei para as mãos de Aragon, que nesta hora estavam na altura da região pubiana, e perguntei:

- Você corta o cabelo daí?????

Agora você, caro leitor, com todo o seu poder de imaginação, realize a cena. Imediatamente percebi o fora que tinha dado, mas a besteira já estava feita. Minha chefe, que estava de lado, como se estivesse em um filme em câmera lenta, virou a cabeça na minha direção e levantou o mais alto que pôde a sobrancelha de apenas um dos olhos. Sobre sua cabeça surgiu instantaneamente um balão com uma enorme interrogação mãe, rodeadas por inúmeras "interrogaçõeszinhas" filhas, brincando de roda em volta da genitora. Aragon, coitado, um pouco tonto ainda, lentamente baixou a cabeça e levantou a camisa, dando uma averiguada em sua calça. Sou capaz de apostar que ele pensou que estava com o zíper aberto. Quanto a mim, não me contive, desabei numa crise de riso, sem conseguir pronunciar uma palavra que pudesse explicar o ocorrido. Cinicamente, a chefona ainda teve o desplante de perguntar:

- Vocês querem que eu saia?

Com uma amiga dessas, quem precisa de inimigos? Continuei tentando pronunciar alguma coisa que pudesse ser entendida, mas os risos não deixavam, saindo apenas palavras cortadas.

- Nã-nã-não! - Dizia eu enquanto apontava as mãos dele, mas acho que isso só fazia piorar tudo. Meu colega, sem entender nada e expressando um certo medo de mim, já dava alguns pequenos passos para trás. Por fim, ainda sem parar de rir, consegui falar:

- Eu estou falando dos dedos!

A chefinha saiu rindo e Aragon, assombrado pelo terror de ficar sozinho comigo, bateu em retirada com passos largos e apressados. Fiquei enxugando as lágrimas da crise de riso, mas ainda sem conseguir parar de rir. No carro, voltando para casa, ia pensando uma maneira de esclarecer o mal-entendido, antes que os demais técnicos do órgão, avisados sobre minha excêntrica curiosidade, viessem todos me falar sobre seus hábitos higiênicos e seus cortes de preferência. 

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Talento para pular a cerca

Tudo na vida é uma questão de talento. Talento para a música, para representar, para cozinhar e até talento para "pular a cerca". Algumas pessoas trazem esse talento nato; outras conseguem desenvolver ao longo da vida. Por outro lado, existem aquelas que, coitadas, é melhor nem tentar. No meu caso, não posso reclamar, este é um talento que não me falta. Ei, antes que as mentes maliciosas comecem a fazer mau juízo, vou esclarecer. Estou falando daquela cerca com um monte de pauzinhos enfileirados, ligados por arame, só isso. Quanto a algumas amigas, não posso dizer o mesmo.




Em um belo dia desses, minha querida chefinha, Helen, me pediu carona na saída do trabalho. Helen é uma mulher alta, de um porte "mais ou menos" atlético, mas com uma desenvoltura física equivalente a de um lutador de sumo aposentado. Como o carro estava um pouco longe, sugeri que pulássemos uma pequena cerca para cortar caminho. Isso foi um processo. Levei alguns minutos para convencê-la que era uma ação segura, rápida e que podia, inclusive, ser divertido. Claro, tive que jurar que não havia, na história daquele estacionamento, nenhum registro de acidentes mortais com a bendita cerca. Quase convencida, ela topou.



Primeiro fui eu. Passei por umas "agaves", uma plantinha que parece um ouriço do mar, sem maiores prejuízos, pulei a cerca rapidamente e fiquei do outro lado esperando-a. Entre tantos "uis", "ais" e "ai meu Deus", saiu um longo "eu acho que não vou conseguuuuuiiiiiir!!!!!!" Para socorrê-la, segurei todas as suas tralhas, abaixei a cerca e apoiei sua mão. Com a ajuda, a atleta foi até ágil e não demorou mais do que dez minutos para transpor seu obstáculo. Para incentivar, falei só uma mentirinha: - você foi muito corajosa!



Com um suspiro aliviado e cheio de orgulho, Helen saiu andando ao meu lado. Achei que o assunto estava encerrado, mas enquanto íamos pelo passeio, ela me olhou com uma cara de choro, de dar pena, e disse:



- Aquela planta me furou e tem alguma coisa escorrendo na minha perna. - Já aos prantos, ela continuou:

- Eu acho que é saaaangue!!!!



O que é isso minha gente? Uma mulher com quase um metro e oitenta e mais os quinze centímetros de salto chorando porque se espetou numas plantinhas? Achei um exagero tremendo, mas para não parecer completamente insensível com suas lágrimas, fiz uma fingida cara de preocupada e, pegando em seu ombro, disse:



- Calma, deve ser impressão sua.



Quando entramos no carro, ela levantou a barra da calça e, para a minha surpresa, a perna estava toda desgraçada e o sangue escorria. Que miséria era aquela? Como a criatura conseguiu esta proeza é um mistério que deixaremos para o universo.



Saímos no carro com ela choramingando e reclamando. A minha vontade era de mandá-la engolir o choro e manter a compostura, mas, como uma boa amiga solidária, ia dizendo:



- Calma Helinha, já passou, já passou.



Nada mais que uns três minutos depois que havíamos saído, Helen, completamente transtornada e fora de si, deu um berro e começou a se saculejar toda gritando: - ai! ai! ui!.



Fiquei morrendo de medo. Não fazia idéia de seu elevado grau mediúnico e das inesperadas incorporações de espíritos comunicantes. Em fração de segundos a mulher arrancou a roupa ficando só de sutiã dentro do carro. Para mim, era a visão do inferno, mas uma platéia masculina até apreciaria a dona de sutiã se remexendo como uma dançarina indiana, até que, enfim, ela conseguiu pronunciar algo inteligível:



- Tem um bicho na minha roooooupa!!!!!!!



Era, realmente, o que faltava. Eu já havia pulado a tal cerca algumas dezenas de vezes e nunca tive qualquer surpresa. Com Helen, tudo aconteceu. Ela continuou sacudindo a roupa até que conseguiu pegar o inseto. Nesta hora os dois atracaram-se numa luta bárbara, misto de um espetáculo de gladiadores e um evento de "Vale tudo". O bicho, no alto dos seus dois centímetros e meio, levava uma pequena vantagem, mas Helen, guerreira, não desistia. Preocupada, falei qualquer coisa que desviou a atenção do coitado. Aproveitando-se da situação, numa ação não muito leal, ela desfilou o golpe fatal, vangloriando-se com uma gargalhada mais aterrorizante do que a da madrasta da Branca de Neve, quando enfim conseguiu que a pobre menina comesse a maçã. Agora estava eu em um carro com uma mulher seminua, toda descabelada, e um defunto. Se não bastasse toda a situação, a louca ainda ia me acusando de arriscar sua vida expondo-a em aventuras no mato.



Sem muito escrúpulo, desovamos o cadáver num matagal e fui deixa-lá. Por fim, ficou a moral da história: se tem uma criatura que pode deitar a cabeça no travesseiro e dormir como um anjo é o companheiro de Helen, porque a dona não tem o menor talento para "pular cerca". Já o meu amor...

domingo, 5 de julho de 2009

Memórias de viagens III: em trupe para Gramado

Se o casal de paraíbas viajando sozinhos protagonizam uma lista razoável de mancadas, imagina quando decidem sair em família. Foi o que aconteceu no último feriado de São João.



A turma, bastante eclética, tinha um grupo de crianças com três meninas, Gabi (8 anos), Cacá (6) e Lulu (6); os adolescentes e jovens adultos, com Nathália (14), Bruno (16), Paulinha (20) e Nanda (22); e os adultos, que acho desnecessário identificar as idades, com o casal Lula e Wilma, Luíza, a matriarca do grupo, e o casal de paraíbas. Ele, o paraíba, como sempre, elegeu-se o chefe da excursão, através de processos não muito legítimos. Ela, a paraíba, foi de curtição. O destino: uma semana em Gramado-RS. Mas essa aventura tem muitos capítulos, e para facilitar, vamos fatiá-la.




Capítulo I: Chegando Lá. Opção: "com emoção"



O grupo viajou dividido em dois. Passada a rotineira agonia do embarque, com os atrasos costumeiros e um congestionamento de gente no aeroporto de Salvador como eu nunca tinha visto antes, nos acomodamos no avião, ocupando nossos lugares marcados, a exceção de Paulinha, que conseguiu uma permuta com outro passageiro para ficar junto com Nathália e Bruno.



No vôo, com destino Porto Alegre, era programada uma escala em Sampa. Quando a aeronave pousou, o paraíba logo levantou-se e foi dar umas voltas para esticar o esqueleto. Neste meio tempo, três rapazes, jovens e muito educados, chegaram junto do trio Bruno, Nathália e Pulinha, e disseram, tranqüilamente, que aqueles assentos eram deles. Nossa ala jovem, completamente avoada, não se deu o trabalho sequer de verificar as passagens. Levantaram-se imediatamente e amontoaram-se no corredor, com umas carinhas de "o quê eu faço agora?"A paraíba, com uma calma que não lhe é peculiar, desconfiou do equívoco e foi checar os bilhetes de embarque. Na verdade, as poltronas dos rapazes realmente eram naquela fileira, mas do outro lado do corredor. Apenas um, o que sentou no lugar de Paula, estava totalmente certo. A paraíba explicou para eles a confusão e os dois, sem qualquer objeção, levantaram-se, permanecendo no lugar apenas o que estava correto.



Tudo tinha sido resolvido na mais completa ordem até que o paraíba, vendo tudo de muito longe e sem entender absolutamente nada, chegou intimando os rapazes, inclusive o pobre coitado que permanecia sentado no assento que era seu por direito. Nathália, totalmente sem graça, disse: "mas pai, esse lugar é dele!" A situação já estava um tanto constrangedora quando o garoto que era alvo da fúria do paraíba, mesmo estando todo certo e com uma gentileza incomum largou o golpe fatal, dizendo ao paraíba: "vocês querem ficar com esse lugar?" O paraíba, com um sorriso mais amarelo que suco de cajá, respondeu: "você faria isso?"



Novamente, todos acomodaram-se nos mesmos lugares do início da viagem, mas, provavelmente, aquele "tapa com luva de pelica" ficou latejando silenciosamente no rosto do paraíba pelo resto do trajeto. Quando chegamos em Porto Alegre, o tal rapaz, todo sorridente, com uma atenção no mínimo suspeita, se deu o trabalho de ir até Paulinha, que também o recebeu com um sorriso de orelha a orelha, para perguntar se a viagem tinha sido boa. Tanta gentileza estava, enfim, explicada.



Apesar de doido, o paraíba tem lá suas qualidades e, cheio de providência, tinha reservado o hotel e perdido algumas noites estudando o percurso no interativo "google earth". No aeroporto, ainda se achando o dono da excursão, tratou de pesquisar o táxi e acertar tudo, e, vamos combinar, considerando que seus serviços saem por custo zero, os mesmos são até satisfatórios.



Antes de sairmos em dois carros, os motoristas conversaram algo só entre eles. Quando os táxis pararam em frente ao hotel, o paraíba perguntou quanto era a corrida e começou a travar com o motora uma pequena discussão sobre o valor. Enquanto o embate inflamava-se, Wilma sentou na porta do hotel com uma fisionomia desolada e quase era possível ler num balãozinho sobre sua cabeça: "de novo não...". Lula assistia a tudo achando um pouco exagerado e Paulinha dizia: "ai meu tio".



De modo geral, ninguém estava entendendo muito a questão. A paraíba perguntou discretamente a Lula quanto tinha sido a corrida no carro deles e, para sua surpresa, Lula respondeu: "o taxista não disse o valor, falou apenas que era o mesmo de vocês". Então, caiu a ficha: o paraíba tinha toda a razão. Os dois motoristas combinaram para arbitrar um valor conforme o nível estimado de patetice dos turistas e, pelo jeito, fomos considerados de alto nível.



Antes de entrarmos no carro, o motorista havia informado que o valor não passaria de "x".Quando chegamos no hotel, o taxímetro informava um valor 25% menor que "x", e o motora teve a cara de pau de cobrar 30% a mais que "x", ou seja, quase o dobro do registrado pelo taxímetro. Deixando os tais "xis" para lá, em português claro, estávamos sendo roubados. Assim, a paraíba e Lula também entraram na discussão em incondicional apoio ao paraíba. Aos poucos, os gaúchos perceberam que não seria tão fácil e recuaram, cobrando o valor correto.



Ficamos nos instalando no hotel enquanto, em Salvador, o restante da turma embarcava rumo a Porto Alegre, com Luíza, Nanda, Lulu e Cacá. Para as pequenas, o avião era uma grande novidade. Logo que a aeronave decolou, Cacá informou que precisava urinar e Lulu apressou-se em anunciar: "ih, o motorista vai ter que parar o avião para Cacá fazer xixi."



No desembarque, longe de casa mais de 3.000km, um rosto familiar era como um oásis, e Luíza logo acenou de longe, quando veio a pergunta:
_Vó, para quem a Sra. está dando tchau? - perguntou Nanda.
_ Não é o seu pai ali? - respondeu Luíza.



Não era, mas deixa para lá.




Capítulo II: Turismo em Porto Alegre



É claro que os paraíbas ainda não tinham reservado, alugado ou programado nada em relação a carro ou qualquer outro transporte para o deslocamento de Porto Alegre para Gramado, e, diante da dificuldade em conseguir qualquer coisa no domingo, a subida para a serra teve que ser adiada para o dia seguinte. Tudo bem, vamos explorar a capital gaúcha.



Saíram todos muito arrumados, entre lã, couro e materiais com efeito térmico, com pelo menos quatro camadas de roupa, cada um, prevendo uma nevasca de surpreender o Alaska. Lula, um incansável atleta de maratonas, lamentou ter que ficar de pernas para cima no hotel o dia todo, mas submeteu-se a tal sacrifício para acompanhar Nanda, sua filha, que não se sentia muito bem.



Mapa na mão, lá se foi o restante do grupo em direção ao centro da cidade. Na caminhada até o metrô, o paraíba, com um senso de direção apurado e uma rara habilidade em leitura de mapas, tomou a frente e, mesmo sob o protesto da paraíba, elegeu o caminho. Não demorou para perceberem a furada que haviam entrado. O passeio para pedestres logo acabou. Dividindo a rua com os carros, atravessaram túnel e entraram numa via expressa. Diante do perigo da empreitada, resolveram enfrentar o matagal, resquício da Mata Atlântica, que margeava a pista. Mas o que era uma mata selvagem, a lama nos sapatos e alguns carrapichos na roupa diante da vontade louca de curtir o passeio. Vendo tanta animação, o sol não quis ficar de fora, e nos presenteou com um calor inesperado. Com o suor escorrendo, aos poucos, como cebolas perdendo as camadas, fomos arrancando as roupas. Andamos, andamos, e nada. Não avistávamos qualquer sinal de estação de metrô, de passeio para pedestre ou mesmo de gente, a não ser as que passavam por nós a oitenta quilômetros por hora, dentro dos carros. Por mais estranho que possa parecer a cena, aquilo estava hilário, e continuamos até que Luíza, tomando a frente, declarou: "eu vou voltar!" Na mesma hora, todos a seguiram, mesmo sob o protesto do paraíba, que insistia em dizer que a estação estava logo ali na frente.


Enfim na estação, chegou o metrô que nos levaria até a parada do Mercado. No rítmo baiano, começamos a ingressar no vagão um a um, até que a porta se fechou, para nossa surpresa, deixando Nathália de fora. O paraíba não contou conversa, desceu na estação seguinte para ir resgatar a filha, enquanto a outra filha, Gabi, em prantos, chamava pela irmã, achando que nunca mais a encontraríamos. O restante seguiu até a estação do mercado, para aguardar lá. Se não fosse pela preocupação e tristeza de Gabi, a situação inusitada, novamente, inspirava o riso. Apesar de tudo, como bons brasileiros, tínhamos esperança de conseguirmos passear na cidade ainda naquele dia.



Reunidos novamente, andamos pelo centro, fomos à Praça da Alfândega, onde entramos no Museu de Artes do Rio Grande do Sul; visitamos a praça da Matriz, passamos pelo Theatro São Pedro, o Palácio Piratini, sede do Governo, a Assembléia Legislativa, e conhecemos a Catedral Metropolitana, com uma enorme cúpula; depois, almoçamos no Galpão Crioulo. Uma parte do grupo debandou e foi conhecer também o Estádio Beira Rio e o mirante da TV. Por fim, depois de muito andar e de 327 registros fotográficos de Bruno e suas performances, terminamos o dia na Usina Gasômetro, antiga termoelétrica da cidade, à beira do rio Guaíba.



Por hora, já estava de bom tamanho.






Capítulo III: A Odisséia de Subir a Serra




A segunda-feira prometia ser gloriosa. Acordamos empenhados em alugar os carros, arrumar tudo e se mandar. Luíza, cheia de aitude, não esperou ninguém. Ligou para algumas empresas, escolheu a sua e alugou um Palio preto, que rapidamente foi levado até o hotel. Lula e o paraíba decidiram-se por outra locadora e tiveram que atravessar a cidade de ônibus para ir buscar o carro. Enquanto isso, ficamos todos os demais aguardando no hotel.





Considerando o horário limite para o check-out, fechamos a conta e ficamos com a bagagem aguardando em um pequeno estar ao lado do hall do hotel. Gabi, Cacá e Lulu, que de santas não tem nada, estavam soltas, dando nó em pingo de éter. As três mexeram no computador destinado a utilização dos hóspedes e conseguiram desconfigurar absolutamente tudo. Como se não bastasse, Gabi achou no banheiro um frasco de lavanda com burrifador, para ser utilizado moderadamente dentro do próprio banheiro. Ela se encantou com o brinquedinho e borrifou lavanda em todo o hotel. Devo adimitir que ficou tudo muito cheiroso, mas a dona do hotel, que circulava por lá, pirou e saiu despejando desaforo em todos que estavam por perto. Pronto, nosso filme já estava queimado naquele hotel.


TEXTO EM ELABORAÇÃO


Depois de mais de três horas de espera, chegaram os dois. Lula com um Fiat Uno vermelho, e o paraíba com um branco. O grupo se dividiu em três carros. A turma jovem não abriu mão de ir com Luíza. As pequenas foram com Lula e os paraíbas saíram sós. Tudo arrumado, fomos em direção a Gramado. No caminho, os paraíbas na dúvida entre qual rumo seguir, estacionaram o carro atrás de uma viatura de polícia em Novo Hamburgo e desceram para perguntar. A recepção foi ótima e a conversa começou a ficar animada, com gesticulações exageradas e tal. Os outros dois carros só se aproximaram depois
Bateu o carro


Quando chegaram à Gramado, todos os contra-tempos foram compensados. A cidade é linda, realmente mais do que o esperado. Os três carros em comboio percorreram a cidade apreciando o estilo das edificações, a harmonia do urbanismo, a iluminação. Luiza, no carro com o grupo jovem, se encantava com todos os detalhes:


- Olha, que linda aquela casa! Oh, que graça aquele restaurante. Gente, que beleza é o paisagismo. Vejam as ruas, tudo tão limpo, iluminado.


Enquanto observava tudo, se afastava do centro seguindo o carro do Paraiba. Este, por sua vez, foi preciso. Com o google earth decorado, deu uma volta de apresentação na cidade e seguiu para o endereço da pousada.

Aguarde o restante do capítulo ...



sábado, 16 de maio de 2009

Memórias de viagens II: os paraíbas entre "los hermanos"



Sim, os paraíbas desta vez foram mais ousados. Passaporte na mão, atravessaram a fronteira, enfrentaram o desafio do idioma e foram dar uma banda nos parceiros do Mercosul: Argentina e Chile. Ele se achando o chefe da excursão, ela se achando a intérprete do grupo.

Saída de Salvador com um pit stop no Rio de Janeiro, rumo à Buenos Aires. Era para ser uma breve parada na Cidade Maravilhosa, tipo desce, apresenta a documentação, despacha alguma coisa e vai embora, mas eles conseguiram o improvável: perderam o avião. Ele diz que foi ela. Ela diz que foi ele. Não interessa, ficaram os dois. Tudo bem, quatro horas depois eles embarcaram.
Como bons paraíbas do Norte e Nordeste, o frio era um desafio. No Brasil conseguiram descolar uns casacos emprestados. Ela, se deu bem, chegou desfilando um esportivo Paco Rabanne de couro marrom. Ele, desceu do avião parecendo um esquimó crescido além da conta. Era um bonito casaco, mas talvez fosse mais adequado para "A Era do Gelo I", quando o gelo ainda não tinha começado a derreter. Vamos trocar dinheiro.

No primeiro câmbio encontrado: - quanto é? - A moça é simpática, mas fala um pouco enrolado. Pero que sí, pero que no!!?! Saíram com os pesos na mão. Quanto foi mesmo? O quê? Fomos roubados! Vamos logo para Bariloche!
Que graça é Bariloche, a porta de entrada da Patagônia argentina. A cadeia de montanhas cobertas de neve, o centro cívico, a catedral, o lago Nahuel Huape, as tonalidades do céu ao entardecer. Mal podiam esperar para esquiar! O quê? Não tem neve? Esqui só daqui a dois meses? Mas como ninguém falou nada? Tudo bem, eram inúmeras opções de passeios mais ou menos radicais nas proximidades da cidade. Foram conhecer as cavernas "Los Leones", há 30km de Bariloche, com direito, segundo as propagandas, a vistas maravilhosas, pinturas rupestres, trechos de difícil acesso, lago no interior da gruta e breu total. Vistas maravilhosas sim, mas a caverna era curtinha, o lago pequenininho, o breu era olhando só para um dos lados da caverna e a pintura rupestre, tinha que usar muito a imaginação. Quanto ao trecho de difícil acesso, se você tem mais de 95 anos, é melhor não ir. De modo geral valeu, mas para quem anda pela Chapada Diamantina, o passeio parece um pouco aquém das expectativas.

Depois de andar o dia todo, o chuveiro quentinho do hotel era uma tentação. Também tinha uma água bem quentinha no bidê, diria atéuma "água escaldante", e ele descobriu isso da pior maneira possível.

A montanha "Tronador", aparentemente a mais alta da região, ainda tinha neve. Então, vamos conhecer. Passeio contratado, saíram com máquina fotográfica em punho, sonhando com a guerra de bola de neve. Os argentinos sabem mesmo valorizar suas atrações turísticas. Um galho atravessado na estrada transforma-se em um "fragmento vegetal centenário testemunho de civilizações pré-colombianas digno de parada para registros fotográficos". Os paraíbas embarcaram nessa. Fotografa isso, fotografa aquilo, e a bateria da câmera acabou antes da metade do passeio. Não tem problema, o importante era viver o momento. Várias paradas depois chegaram ao pé da montanha, realmente linda, mas, como é? Não pode subir? Não pode por quê? Adiada a batalha de neve.

E o idioma, uma delícia. Entende-se tudo. Pararam para fazer algumas ligações internacionais, comprar jornal e etc. Depois de muito blá, blá, blá no telefone, o senhor que os atendia entregou a conta comentando:

- ¿Muchas novias, heim?
Tradução: "Muitas namoradas, heim?"
Ele não ouviu, não entendeu e deixou para lá. Ela, muito entendida de espanhol, largou a pedrada: - Si, muchas novidades.
O senhor continuou: - ¿Es muy celosa?
Tradução: És muito ciumenta?
Ela, sem entender muito bem o porquê da pergunta e completamente desnorteada, responde: - Si, muy celosa.
Tradução do que ela entendeu e pensava estar falando: “Sim, muito cheirosa”. Por hoje está bom, pega o jornal e adios!
Não dá para visitar a região sem pensar em saborear os vinhos, mesmo para os que não são exímios apreciadores, como os paraíbas. Acompanhado de parrilla, fondue ou truta, sempre ia bem. Mas foi num pequeno barzinho underground, intitulado Che (do Guevara, só para esclarecer), ainda em Bariloche, em parceria com uma pizza bem mais ou menos, que rolou o momento mais descontraído e prazeroso do vinho, talvez o mais agradável momento a dois da viagem.

Sem rumo certo, foram parar em San Martin. Pura sorte. Trata-se de uma pequena cidade linda encravada num vale no fim dos "Sete Lagos", com gabarito de no máximo três pavimentos e arquitetura dos Alpes. Optaram por uma exploração by bike. O "tur" rendeu bons momentos, lindas vistas, lindas fotos e, para ele, dores na região dos "países baixos". De San Martin, agora, para o Chile. Destino: Pucon. Foi de lá que saíram para a expedição no vulcão Vila Rica.
Neste dia tudo estava perfeito. Os paraíbas estavam se falando, o céu estava claro, sem previsão de chuva ou neve, e o frio não chegava a ser assustador. A subida não é só para profissionais, mais está longe de ser uma empreitada fácil, basta dizer que muita gente não se atreve a ir e outros tantos ficam pelo caminho. A cidade fica 800 metros acima do nível do mar, subiram mais 600 metros de carro, 400 metros de teleférico e 847 longos metros andando até o cume, de onde puderam ver a cratera do vulcão, com 600 metros de profundidade. No grupo haviam dois chilenos (os guias), uma australiana, um inglês, dois franceses, uma colombiana, um tcheco e os dois paraíbas, os autênticos representantes do Brasil. Também haviam pelo menos mais uns três pequenos grupos explorando o vulcão naquele mesmo dia. Entre português, espanhol, inglês, portunhol e outros dialetos improvisados, entenderam-se todos. Durante a caminhada, aos poucos, as pessoas iam se distanciando, ficando algumas para trás, voltando a se reunir novamente a cada parada. Cada trecho vencido era uma vitória da vontade de estar lá, de chegar, de vivenciar tudo aquilo. De cima, sacudidos intensamente pelo vento, entre a fumaça e um forte odor de enxofre, víamos a cratera, e ao redor do monte, um imenso deserto de nuvens. Foi, sem dúvida, um desafio recompensador e o momento mais emocionante da viagem.
No Chile, ainda foram conhecer Santiago, depois voltaram para a Argentina, passaram por Mendonza e finalizaram a viagem em Buenos Aires, apreciando um elaborado espetáculo de tango. Tirando o que não prestou, foi tudo ótimo. De qualquer maneira, viajar é mesmo sempre bom. Só para registrar: na volta, chegaram no horário e não perderam o vôo.