Mostrando postagens com marcador delírios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador delírios. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de maio de 2012

TPM



- Cachorrinhos lindos! Bom dia meus amores! Hã?!?.... Bom dia? O que é isso garota? Bom dia coisa nenhuma! Estou menstruada e tenho que estar espumando de TPM. "Cadê" menina? "Cadê" esses hormônios? Eeeei, tem alguém aí dentro

E assim ela tentava afastar o complexo que a assombrava há muitos anos: a não experiência da TPM.

- Vamos lá! Vamos lá! - Depois de uma compacta e poderosa mentalização, ela conseguiu encarnar a Bruxa de Blair. - Agora estou oficialmente de TPM. Me aguentem! - Logo que saiu cruzou com o vizinho e ...

Vizinho (sorrindo): - Bom dia vizinha!
Ela (secamente): - Só se for para você!
Vizinho: - ???????

No trânsito fechou carros, avançou um sinal, xingou motorista de taxi e não deu passagem para nenhum mísero pedestre. Tudo estava dando supercerto.
Entrando no trabalho...

Secretária: - Bom dia!
Ela: - Não estou para conversa hoje. - E orgulhosa complementou: - TPM!

9h, 10h, 10h30 e nada. Nenhum telefonema, nenhuma visita, nenhuma colega de trabalho para jogar conversa fora. Impaciente, ligou para a secretária.

- Norma, o que foi que aconteceu? O mundo acabou e ninguém ma avisou?!?
- A senhora disse que não queria falar com ninguém. TPM, lembra?
- Ô Norrrma, se eu não falar com ninguém, como vou demonstrar minha TPM? Pega esse telefone que Graham Bell teve o maior trabalho para inventar e liga para todo mundo. Eu disse todo mundo! Quero reuniões intermináveis, visita de representantes, a moça do cafezinho, gente tentando vender o que não me serve para nada. Eu quero uma multidão aqui e agora!

Vendo a confusão, a amiga que fica numa mesa próxima vai até a sua mesa, senta-se e pergunta:

- Qual é o seu problema?
- Problema? Nenhum! Eu só estou com TPM.
- Você não tem TPM.
- Eu sou uma mulher e tenho direito de ter TPM.
- Direito você tem, o que você não tem é a TPM. Não tem TPM, não tem cólica, não tem enxaquecas pré-menstruais. Na gravidez não teve enjoou, inchaço, desejo, nem depressão pós-parto.
- Que maravilha! Falta dizer que não tenho estrogênio, ovário, útero, que minha barba está bem feita e meu pênis tem um tamanho invejável.
- A amiga rindo: - Tente ver pelo lado positivo, querida. Se assim for, segundo o IBGE, como macho você tem grandes chances de ter um salário maior que o meu.
- Escuta aqui: não é porque você é minha amiga e porque lhe conto coisas íntimas, que te dou o direito de duvidar da legitimidade da minha TPM. Ó, e quer saber? Eu não tenho mesmo, não tenho nada, mas sou mulherrrr - segurando os peitos - e posso mensalmente encenar uma TPM bem convincente. Melhor que isso, posso encenar uma TPM descompensada, insana e muito perigosa. Se não gostar, me processe.
- Vou pensar no assunto! 

E a amiga saiu sem dar a menor moral para ela. Ela, por sua vez, embarcou em suas próprias palavras e imaginou-se perante um tribunal de júri onde, chorando emocionada, pressionada pelo promotor implacável, enfim confessa desesperada:

- Sim, eu confesso, mas não fui eu, foi a TPM! A TPM!

O advogado de defesa alega insanidade temporária. O júri, 90% de mulheres, se identifica com infortúnio e o juiz, que tem mulher em casa, profere o veredicto:

- No ato do crime a ré não gozava plenamente de suas faculdades mentais. Portanto, este tribunal considera a ré inocente. Você está livre minha filha, pode ir.

Abrem-se as portas do imponente prédio do Tribunal de Justiça. Os repórteres, aglomerados na escadaria, disputam a cotoveladas uma declaração sua. Quando, então, um microfone alcança seus lábios, ela, aliviada, serena, e totalmente realizada, declara:

- Foi a TPM!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ai se eu te pego, ai, ai





Ai se eu te pego, ai, ai. Se te pego preparava quitutes ou pedia um delivery, mas serviria numa mesa lindamente iluminada a luz de velas, só para te impressionar. Me ofereceria em pessoa como bandeja de sushi, ou toparia rapar junto um tacho de brigadeiro. Engordava dez quilos, emagrecia vinte, se preciso fosse. Desvendaria a astrologia, a física quântica, o mercado de ações, a política econômica do governo. Falaria doce como um doce de cupuaçu. Só pegaria no violão para te cantar. Cantava baixinho, no pé do teu ouvido, músicas que falassem de amor, do meu amor por ti. Chorava sem ter porquê. Riria pelo mesmo motivo. Dançaria contigo, dançaria para ti. Talvez até acordasse cedo, bem cedo, para ver-te sob a luz dos primeiros raios de sol.
Ai se te pego. Aprenderia a contar piadas para te arrancar risos. Parava de fumar, e para ter algum sacrifício nisso, até começaria a fumar. Te calçaria um patins pra ver-te cambaleando pedindo o meu apoio ou fingiria eu cambalear para pedir o teu. Nos dias de loucura, te amarrava no pé da cama para ter certeza de que não fugiria. Ai se te pego, pegaria com cuidado cirúrgico, para sentir a pressão e a temperatura de cada centímetro. Sem pressa, ou com pressa. De um jeito ou de outro, ai se te pego.

Um dia desses me deparei com escritos de Vinícius e adivinhem? Era sobre uma dona, sobre uma bela dona, um doce amor. Mas sendo Vinícius, sobre o que mais poderia ser? O texto dedicado a uma amiga tinha mais ou menos a forma de um brainstorm de delírios amorosos, desfilando as cândidas ou tórridas intenções, aparentemente frustradas, sempre iniciadas por "se fosses louca por mim". Quando li, pensei comigo: - espera aí, eu também tenho um amigo assim, e ai se eu te pego.


Mas eu não pego, e se não o pego, não sei se me serve outro alguém. Chego a pensar que nem de longe ele desconfia de tamanhas pretensões. Ou talvez desconfie, quem sabe tenha até certeza de minhas sórdidas intenções não reveladas, veladas numa timidez que me paralisa ou na total falta de oportunidade de encontros tão casuais, quanto breves. Para minha tortura, o excomungado passeia impune, com o ar displicente que somente os inocentes conseguem ter. Quando fala, tem aquela voz grave e calma que tritura os meus sentidos. Quando ri mostra os dentes. Para quê mesmo uma pessoa tem tantos dentes? Tantos dentes lindos devem ser para mastigar minha paz. Tudo bem, mastigue, mastigue vagarosamente e se delicie, e com licença ao escritor dândi, se você não demorar muito posso esperá-lo por toda a minha vida, tenho mesmo muito tempo. E assim vou ficando, de longe, e de longe imaginando: ai se te pego, ai, ai.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Milagre da Reprodução





Muito bem, agora chegou minha hora e minha vez de contribuir de forma definitiva com a ciência, ampliando possibilidades para as teorias da "Geração Espontânea" e da "Origem das Espécies". Primeiramente devo informar que isso não nasceu numa vontade repentina e irresistível de escrever meu nome entre os grandes vultos da ciência. Não, não fiz planos, não tinha pretensões, mas de repente, não mais que de repente, a sorte me sorriu e me deu de presente a chance de observar bem debaixo do meu nariz a vida surgir e multiplicar-se sem pedir licença.


O local foi o mais improvável possível: um departamento de projetos, com muitos computadores, algumas pranchetas, mesas e bastante papéis, como um ambiente de escritório, inóspito para o delicado florescer da vida. Trabalho lá. Na rotina diária, além do desenvolvimento de projetos, está o despacho de processos, o envio de CIs (Comunicações Internas), a resposta a ofícios, a troca de mensagens e arquivos via e-mail. Um sobrepor de atividades que envolvem muitas folhas de celulose. Minha mesa nunca foi um exemplo de organização, longe disso. Os papéis vão se acumulando na ordem dos mais urgentes ou importantes para os menos, até o dia que a situação fica insustentável e tenho que tomar uma atitude corajosa: arrumar a mesa. Foi logo após um desses raros momentos de coragem que algo chamou minha atenção.



As pilhas de papéis ficavam organizadas por categorias, um montinho só de processos, outro só de projetos, outro que agrupava CIs e ofícios, e outro unindo relatórios e notas técnicas. Nitidamente, de um dia para o outro, aparentemente durante a noite, os grupos que eram organizados com apenas uma categoria de documento permaneciam inertes, enquanto que os grupos que juntavam duas categorias cresciam a olhos nus. Estranhei, mas minha formação cartesiana não podia ficar somente no “achismo”. No fim do dia me posicionei em frente à mesa com o celular e, enquanto simulava fazer uma ligação, fotografei discretamente as pilhas de papéis de vários ângulos, sem que elas se dessem conta. No dia seguinte, cedo, logo quando cheguei, repeti as fotos. Fui para o computador, calibrei a escala das fotos e medi pilha por pilha. Não deu outra, os montes cresceram em média doze milímetros durante apenas uma noite.



Aquele fenômeno que acontecia sobre a minha tutela me tirou as noites. Tinha que haver uma explicação para tal aberração. Passada a inicial confusão mental fui me consultar com os moderninhos pais dos burros, o casal Wikipédia e Google, mas ainda estava muito raso. Parti para as revistas científicas e os clássicos da literatura especializada, passeando por Darwin, e então as coisas começaram a fazer sentido.


Identifiquei que as pilhas que cresciam uniam sempre documentos do gênero masculino - reprodutores - a documentos do gênero feminino - matrizes. Ou seja, o ofício à CI, o relatório à nota técnica, e assim por diante. Bastante sugestivo. A primeira providência foi separar por gênero. Não se tratava de um ato de repressão ao amor livre, mas uma etapa de verificação de possibilidades num estudo científico, com algum prejuízo para as partes envolvidas, admito. Durante uma semana a interferência surtiu nítido efeito, o acúmulo da papelada não aumentou mais do que o normal esperado pela produção do trabalho. Na segunda semana três ocorrências puderam ser notadas. Número um: a movimentação dos documentos, com troca de posições e aproximação dos gêneros. Número dois: onde não havia possibilidade de aproximação entre os dois gêneros, iniciou-se um processo de auto fecundação com o gradual desenvolvimento do hermafroditismo. Número três: o retorno gradual do aumento das pilhas. Era a vida procurando seus meios. Numa ação mais insensata, fiquei até mais tarde no trabalho e na hora de fecharem a empresa me escondi entre mesas e cadeiras para observar durante a noite. Até altas horas estava tudo um marasmo tão grande que acabei cochilando. Lá pelas quatro da madrugada acordei com um ki-ki-ki, ká-ká-ká geral. Os documentos conversavam, sussurravam e riam entre si, como uma festinha em petit comité. Quando começou a fase do roça-roça e do nheco-nheco catei minha bolsa e parti a mil. Curiosidade científica tem limite, já tinha visto o necessário.


Não havia mais dúvida, o chamego entre seres aparentemente inanimados era, sim, bastante animado. Enfim encontramos a verdadeira razão para o amontoado de papéis na minha mesa. E eu, que durante tanto tempo fui difamada e injustamente rotulada como desorganizada, malucada e descabelada enquanto tentava me achar nos tortuosos caminhos do meu canto de trabalho. Mas a redenção chegou e da escuridão da incompreensão saí para a luz do reconhecimento de minha significativa contribuição para a ciência. Não, não, não quero louros, quero apenas gozar da paz da certeza que só cumpri com o meu dever: observei, registrei e relato aqui, agora, para o mundo, mais um capítulo do maravilhoso milagre da reprodução.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Panndora Surfistinha





Definitivamente estou no ramo errado. Enquanto o blog da Panndora tem uns trinta visitantes por mês e em média três ou quatro comentários, o blog da Bruna Surfistinha batia fácil quase duas mil visitas e comentários em poucos dias. O quê que ela tem que eu não tenho? Não responda! Eu mesma sou capaz de imaginar uma lista de atributos que a garota tem com os quais não fui agraciada pela natureza. Mas não é só isso, tem um ingrediente a mais. A primeira vista a pimenta neste caso parece ser o tema central do blog. Um tema excitante, estimulante, perturbador, quente, provocante, ardente, condimentado, incendiador, "tá" bom, "tá" bom, me empolguei. Recompondo-me, o papo que rolava era sexo, não sei se "do bom" ou se "do bem", mas era sexo, e sobre sexo (ou sob, ou ora um, ora outro) todo mundo quer falar, ouvir, comentar, dar opinião, contar piada, contar vantagem, enfim, participar. Se o problema todo for esse minha gente, os problemas acabaram. Para colocar um tempero nesse blog é só jogar o assunto na mesa. Mas será mesmo o sexo a verdadeira azeitona desta empada?

Para investigarmos as reais motivações que levaram os internautas a tornarem-se seguidores fiéis do endereço na web, vamos passear no universo do blog e analisar os visitantes lançando mão de algumas hipóteses aparentemente plausíveis diante do contexto apresentado no longa metragem da Surfistinha.

Verificando friamente os relatos da profissional obstinada imortalizados na telona, vemos que nem todos seus associados buscavam nela a satisfação sexual. Sim, havia uma latente carência afetiva que a moça sabiamente soube detectar e tirar proveito, cumprindo com louvor todos os papéis que lhe eram atribuídos. Tudo bem, não podemos ignorar as ardentes horas de puro prazer, as surubas apimentadas e as festas de luxúria, mas isso era só um detalhe.

Da mesma forma aconteceu com o site. O endereço já tinha algum sucesso baseado no tema sexo e nas horas ociosas de quem não tinha uma companhia real e palpável, e nada mais proveitoso para fazer. Mas o lance “bombou” mesmo quando sua idealizadora teve a grande sacada: começou a conferir estrelas -  de uma a cinco - por desempenho dos seus clientes. Nada mais sedutor para a vaidade masculina, nada mais estimulante para o instinto competitivo dos machões. Se o cara era bem sucedido, ele acompanhava o site com empenho para saber se seria superado, por quem seria, como aconteceria coisa tão improvável, quando tal tragédia assolaria este mundo e por quantos infiéis. Se era mal sucedido, acompanhava atentamente para achar pelo menos um coitado que tivesse sido mais infeliz, afinal, ele não poderia ser o pior de todos, ah, isso não mesmo. Considerando que a moça tinha em média quatro "visitas"  (visitas reais, físicas, ao vivo e a cores) por dia, perfazendo vinte e oito por semana e cento e vinte por mês, e supondo que os seus clientes acompanhavam o comparativo de desempenho pelo menos 20 vezes ao mês, durante pelo menos três meses depois de sua curta estadia com a garota, isso totalizaria, depois de três meses de atividades ininterruptas, uma média de 7200 de visitas no site ao mês. Ai que inveja mortal. 

Resumindo, detectamos mole duas motivações regadas de testosterona que garantiram o sucesso internáutico da musa e a transformaram na mais celebre rameira brasileira de todos os tempos. Caso o atento leitor não tenha intuído, atinado ou percebido, o sexo atuou em tudo como um pano de fundo, apenas o cenário, a desculpa que justificava tanto interesse.

Por absoluta sorte do leitor, inspirada nas sábias palavras da Surfistinha, "eu hoje não estou dando, estou distribuindo". Distribuindo sapiência para concluir que, baseada nas pertinentes hipóteses, inteligentes suposições e sábias conjecturas aqui abordadas, para incrementar os acessos a este endereço internáutico é necessário apenas alguns poucos recursos que mexam profundamente com a vaidade masculina, ou outros instintos e sensações que não são necessariamente nobres, mas que podem ser igualmente - e tão facilmente - explorados, além, é claro, de muita, muita sorte. Porque, como diz a pop guru Rita Lee, "sexo é escolha, amor é sorte". “Bombar” na net também.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Será que ele liga?

O suicídio de Dorothy Hale - Frida Kahlo


Ah... l’amour. O início de um amor é tão mágico que uma simples pernada até à padaria para comprar o pão da hora, ganha ares de um passeio às margens do Sena, sob a luz da lua, ao som de La Vie en Rose. E o nosso amado, o tão cobiçado objeto de desejo? Aos nossos olhos esse é irretocavelmente perfeito, agraciado com prendas e encantos sem paralelos na esfera terrestre. Não é fácil para um mortal segurar a pressão. Cada detalhe, cada gesto nosso é importante e pode selar definitivamente a sorte do romance. Na empreitada de fazermo-nos dignos de tal graça, vale tudo: camuflar, florear, exagerar, entre outros baixos subterfúgios, todos os recursos possíveis para nos aproximar dos moradores do Olimpo e sermos merecedores de sua atenção.

Nesse embalo, lá estava eu, na ansiedade de um quinto encontro, preparando minuciosamente cada detalhe. O cabelo, a maquiagem, as unhas, a roupa, o sapato. Apesar de gastar em média vinte minutos com cada item, tudo tinha que parecer despretensioso e casual, tipo: "só tive tempo de tomar banho e vestir qualquer coisa". A programação era um cineminha, um filme de terror, e nada poderia ser mais propício como desculpa para me encolher protegida por seus braços.

Tanta preparação não podia dar em outra: chegamos atrasados. O filme já havia começado há uns dez minutos e entramos na sala com as luzes apagadas. Um filme de terror inspira concentração e tensão. Um filme de terror com a chancela de Anthony Hopkins, por sua vez, remete a aficionados apreciadores do gênero na sétima arte. Nesse contexto, subimos as escadas correndo, eu um pouco a frente. Quando encontrei uma fila com dois lugares, parei e virei subitamente, cento e oitenta graus, ficando de frente para ele e para a tela. Mas o freio não estava muito em dia, e o eixo, um pouco desalinhado e desbalanceado pelo desgaste do tempo. Como conseqüência, perdi o equilíbrio e fui caindo lentamente, tentando alcançá-lo com a mão. Não alcancei e caí de bunda sem conseguir segurar o riso, com lampejos de gargalhada. Conseguimos logo na entrada quebrar o clima que o diretor do filme levou mais de um ano para construir. Sentados, ele, para minha surpresa e espanto, com a cara mais limpa, pediu ao desafortunado vizinho de cadeira que relatasse detalhadamente todos os acontecimentos da fita até aquele momento. Coitado do vizinho, ninguém merece. Será mesmo que isso é uma prática comum no distante Olimpo?

Saímos do cinema e fomos comer um sushi na praça de alimentação do shopping. Meu filme estava queimado com a queda, mas eu ainda tinha a noite inteira para remediar a situação e parecer uma deusa. Sentamos e o papo foi rolando entre cinema e arte, num nível de erudição e cultura totalmente incompatível com uma loura. Aprofundando as questões surgiu Frida Kahlo e seu estilo inconfundível de retratar fatos de sua vida e acontecimentos de seu tempo, quando comecei a descrever uma de suas obras. A obra foi encomendada por uma conhecida editora de revista da época, que pediu a Frida que pintasse um retrato de sua amiga que havia se suicidado recentemente pulando de um edifício. Frida, com a sutileza que lhe é peculiar, pintou como pano de fundo a mulher caindo do alto do prédio, e no primeiro plano, a suicida desfalecida no chão se esvaindo em sangue. A dona que encomendou o quadro achou uma aberração e não quis nem saber da tela. Eu, por minha vez, empolgadíssima com a vida (ou a morte) da obra, tentando descrever a queda com realidade, fui pendendo o corpo para a esquerda, lado oposto ao dele, até que perdi o controle e, pasmem, caí junto com a cadeira, eu e a cadeira com as pernas para cima. A cadeira teve um comportamento impecável. Ficou constrangida e calada, e agiu como uma dama num momento de infortúnio. Eu, é claro, ri, sem conseguir parar, sem conseguir levantar. Ele, primeiro sorriu, para mostrar a todos que assistiam que tudo estava bem, depois, vendo que eu continuava estatelada no chão, levantou-se para me erguer.

Não preciso nem dizer, era fim de linha para mim. Com essa compostura eu seria persona non grata até mesmo num churrasco na laje. Terminamos o sushi e fomos embora. No trabalho, quando contei entre risos as aventuras do fim de semana, os amigos propuseram logo um bolão, apostando se ele ligaria novamente ou não. A imensa maioria das apostas era para "não liga". Ai que drama, drama, acabei com todas as minhas chances de entrar no Olimpo pela porta da frente. Contudo, contrariando todos os prognósticos e para a surpresa geral, ele ligou. Tem maluco para tudo nesse mundo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Um filme de terror




Sabe aqueles eventos que os preparativos bagunçam toda a sua vida? Pois então, eu estava diante de um: o casamento da minha querida prima. Um casamento à noite por si só já tem sua pompa e circunstância, mas, se não bastasse, eu ainda era madrinha e as comemorações eram em outro Estado.

Além do planejamento da viagem, havia mais uma série de questões a serem cuidadosamente tratadas. Para começar, que roupa usar? É claro que eu não tinha nada no armário para isso. E o cabelo, o quê fazer? Domar os cachos ou adestrá-los, eis a questão. Saindo do capítulo "cabelos", vêm o capítulo "acessórios": bijus, bolsa, sapato. Acessórios na vida de uma mulher “é tudo” e haviam muitas considerações e simulações a serem feitas. Mas, de todos os itens a serem resolvidos, o que mais me preocupava era a famigerada maquiagem.

Do alto dos meus quarentinha confesso um pouco constrangida que muito pouco, ou quase nada sei sobre a arte de empastar o rosto com aqueles produtos “carésimos” cujas melhores marcas é necessário um biquinho para pronunciar o nome. As desculpas são variadas e quase todas bem esfarrapadas, mas a dura verdade é que eu não tenho a menor idéia do que fazer com aquele monte de pincéis e pozinhos coloridos. Muito bem assessorada por minhas amiguinhas encarei os fatos e fui à luta.

Depois de algumas pesquisas em sites especializados e um workshop organizado pelas companheiras, me lancei às compras, acompanhada das amigas Del e Jó. No shopping, entramos numa loja especializada com várias cadeiras e espelhos para maquiagem no local. A vendedora, muito pintada, falou dos produtos e, gentilmente, perguntou se eu não gostaria de experimentar, tipo assim: uma maquiagem sem compromisso. Era tudo o que eu queria, vinte minutos toda relaxada, enquanto alguém delicadamente passava algumas coisinhas no meu rosto para depois eu sair linda e com todos os trâmites da make-up dominados.

- Claro! Por que não? - Respondi.

Sentei e começou. Se você é como eu, aproveite a mamata e anote a seqüência dos passos. Primeiro: limpeza. Água e sabão nem pensar, é totalmente over. Use um produto específico que vai lhe custar algumas dezenas de reais. Segundo: tônico, para re-equilibrar o ph da sua pele. Nem parece eu falando. Terceiro: a preparação com corretivo, base e pó facial. Agora vamos parar com essa numeração que minha cabeça loura não consegue raciocinar num plano organizado. Até aí tudo estava indo muito bem. A moça exagerou um pouco em cada item, mas nada preocupante, ainda parecia equilibrada e eu ainda achava que ia ficar bonita. Então, começou o filme de terror.

Ela pegou uma brocha, parecida com aquelas de pintar muro, besuntou numa sombra dourada extravagante e passou na minha pálpebra sem dó nem piedade. A brocha não prima pela precisão, mas confere bastante agilidade. Com duas pinceladas meus olhos ficaram como duas pepitas de ouro. Del e Jó, que estavam até então boiando, acordaram assustadas e curiosas para saber onde ia dar aquilo.

- Bem, o evento é à noite, não é? – A louca enquanto me pintava ia conversando com ela mesma. – Então pode usar um tom mais escuro. O preto vai ficar ótimo!

Encharcou outra brocha na sombra preta e mandou ver em torno dos meus olhos, próximo aos cílios. Arrematou com delineador e rímel, e pediu que eu conferisse. Para as circunstâncias, um exame de corpo delito seria mais apropriado. Mas ela continuava empolgada.

- Está ficando ótimo! Hora do blush. O blush é muito importante, ele levanta a maquiagem e dá um ar saudável.

Neste caso levantava até defunto, porque ela pegou o rolo de pintar parede e passou do maxilar até as olheiras com a voracidade de um felino faminto. Na verdade, eu já estava com medo. Olhava para minhas amigas com os olhos compridos, suplicando ajuda, socorro, qualquer interferência sensata ou desesperada, que me tirasse das mãos daquela mulher perigosa. Mas nada, as duas moscas mortas continuavam impassíveis, com a boca aberta.

A artista, enquanto pintava, toda esbaforida com os movimentos e confusa com tantos pincéis e produtos, me falava como havia se destacado no curso de maquiagem que tinha feito. Acho que muito atarefada com a atividade, acabou esquecendo de mencionar que o curso foi por correspondência, em hebraico arcaico, sem fotos ou ilustrações.

- Agora o toque final: o iluminador!

Começaram, então, longos movimentos verticais, horizontais e diagonais, por todo o rosto, totalmente inspirados em Daniel Sam do memorável "Karatê Kid", na primeira versão, quando no seu processo de aprendizado dos mistérios das lutas marciais foi escravizado pelo Sr. Miyagi, lavando e pintando toda a área de seu deck com tais movimentos. Mas não, ela não se contentava em somente imitar um grande sucesso do cinema internacional, ela tinha que inventar, e introduziu também gigantescos movimentos circulares. Quando acabou, somente com a minha cara eu era capaz de iluminar uma cidade de vinte mil habitantes. No embalo, pegou um batom bem melequento, cortou um pedaço e colocou sobre os meus lábios, como uma fatia de goiabada sobre o queijo. Totalmente sem noção, largou a bomba:

- Pronto! E aí, gostou????

Na hora me pintou a dúvida: “me atraco com essa mulher, furo seus 'zóios' e quebro todos os dedos para nunca mais ela fazer uma sandice desta com mais ninguém, ou faço uma cara de deslumbrada dizendo que o local e hora não merecem tal obra prima, esfregando e lavando o rosto totalmente e imediatamente para não sobrar qualquer vestígio”. Como boa garota que sou, fiquei com a segunda opção, mas alguém precisa tomar uma providência sobre aquela moça.

Não preciso nem dizer que tive que suar muito ainda para equacionar o item "maquiagem" nos preparativos para o casório, bem como todos os demais itens para não fazer feio num dia tão especial para minha priminha. No final, deu tudo certo, mas o saldo não foi positivo. Desde então evito ir àquele shopping, ou quando é imprescindível, passo há léguas da bendita loja. Até hoje tenho pesadelos horríveis com aquela mulher, vestida numa camisa de força, usando uma focinheira, cheia de pincéis, correndo ensandecida atrás de mim pelos corredores do shopping.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A pinça da ponta dourada

Vamos falar agora de uma coisa realmente importante: a pinça. Sim, a pinça de tirar pêlos, um a um. Precisei da minha, que já estava comigo há uns quinze anos, para cuidar de um ferimento na pata da minha cachorra. Aos que dirão "eeecaaa!!!", devo informar que adoro este ofício de veterinária de fim-de-semana. Mas, voltando ao nosso assunto, fiquei sem pinça. Resignada, saí o quanto antes para comprar uma.
.
Cheguei à loja toda displicente e pedi uma pinça. A atendente parou, me filmou da cabeça aos pés e, olhando-me com firmeza no fundo dos olhos, perguntou com um tom sóbrio e revelador:
.
- A senhora quer “a pinça da ponta dourada”?
.
Não foi uma pergunta qualquer, todo o contexto foi rodeado por uma aura tão especial que nesta hora o céu se iluminou de dourado ao som de uma linda melodia celestial. O quê seria “a pinça da ponta dourada"? Ainda perplexa, fui me dirigindo lentamente ao local onde ficavam as demais pinças. Neste momento a moça disse que não adiantava, “a pinça da ponta dourada" não ficava junto com as outras. Que ótimo! Uma pinça que não se mistura com qualquer um. Então ela foi ao caixa, pegou uma chave especial e andou até um armário lacrado. Destrancou o armário, abriu uma gaveta e sacou de lá um instrumento delicado, alongado e com deslumbrantes pontas douradas reluzentes que ofuscaram meu olhar. Ela colocou a relíquia na mão e esticou o braço para que eu pudesse pegar.
.
Lentamente toquei com as pontas dos dedos na jóia, primando por um cuidado que não me é peculiar, segurando-a em seguida. Oh meu Deus, o que teria de tão especial aquela pinça? E o pior, quanto custaria? Provavelmente não seria para o meu bolso. Cheia de coragem, perguntei:
.
- Quanto é?



- Veja bem, é R$10,00, mas é para a vida toda.


Eu sabia, enquanto as demais pinças não ultrapassavam os R$2,00, a pinça da ponta dourada era R$10,00. Tive que rapidamente fazer algumas considerações. Além de umas continhas básicas, pensei: se eu novamente precisasse da pinça para cuidar da patinha da minha cachorra, não teria coragem de usar a de ponta dourada para auxiliar na assepsia das feridas abertas. A pinça valeria a vida de minha cachorra? Acho que sim. Decidida, falei:


- Eu quero a pinça. Você divide no cartão?
.
Saí da loja segurando a bolsa como quem protege uma preciosidade e fui correndo para casa experimentar meu novo brinquedinho. Chegando lá me dirigi diretamente para o espelho para usar a sobrancelha como cobaia, e devo reconhecer, não é propaganda enganosa. A ponta dourada se encaixa com precisão cirúrgica na base, juntinho da raiz do pêlo, puxando o cabelo inteirinho. A raiz sai todinha e o percentual de pêlos quebrados cai a zero. Me empolguei e sai arrancando os cabelinhos enquanto no espelho revelava-se uma nova mulher.
.
Amigas, acreditem, é um verdadeiro milagre. O alto investimento inicial é integralmente recompensado pela inestimável satisfação de olhar aquela pele lisinha e livre de fiapinhos indesejáveis ao redor de uma sobrancelha de contornos perfeitos. Sem falar de outras partes do corpo que podem adquirir também contornos perfeitos. Mas fiquem muito atentas para não levarem gato por lebre. A pinça da ponta dourada é uma pinça longa, de design limpo, toda prateada, somente com as pontas douradas e brilhantes, uma verdadeira obra de arte. Concluindo, valeu os R$10,00 parcelados e o risco de vida permanente ao qual condenei minha cachorra. E São Francisco de Assis que me perdoe.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O perigo mora ao lado

Ai “Jisus”! Não quero fazer alarde, nem muito menos bancar o “cavaleiro do Apocalipse”, mais me sinto impelida por minha responsabilidade social a dividir com o maior número de pessoas possível as informações que recentemente entraram em minha vida como uma avalanche.




Atualmente estou lendo, interessadíssima, uma publicação sobre os "sociopatas", ou podemos chamar também de "personalidades anti-sociais", ou "personalidades psicopáticas", ou outras tantas identificações, mas que referem-se à mesma coisa: os terríveis, assustadores e enigmáticos "Psicopatas". O livro é uma publicação séria, talvez um pouco sensacionalista e repetitiva, de uma psiquiatra que nos últimos tempos caiu nas graças da mídia. Em seu trabalho ela aborda os traços mais característicos da personalidade destes seres, a forma como costumam agir e o elevado potencial destrutivo inerente à sua natureza.

Segundo a autora, os psicopatas são indivíduos que têm suas funções cognitivas em perfeito estado, mas são desprovidos da capacidade de sentir afeto genuíno, ou, como ela mesma afirma, incapacitados de amar. Conseqüentemente, lhes faltam ética, moral, solidariedade, compaixão e por aí vai. Em geral são pessoas inteligentes, articuladas, sedutoras e agradáveis, mas não se iludam, para atender às suas ambições mais fúteis são dissimuladas e capazes de atos sórdidos, insensíveis e cruéis, planejados em detalhes e executados com precisão. Em geral, temos a tendência de associar a palavra psicopata àqueles “miseravões”, matadores sanguinários, tipo serial killer, mas a maldade pode ser bem mais sutil.



Até aí, tudo ótimo, afinal, informação nunca é demais. O problema é que, involuntariamente, alheia ao prudente distanciamento crítico, às vezes as informações começam a associarem-se a fatos da vida real, de nosso cotidiano, correndo o risco de extrapolar o limite da razoabilidade e criar um universo paralelo onde tudo e todos atingem facilmente a categoria de suspeitos, com sérios sintomas de psicopatia. Desde que iniciei a leitura, transformei meus ambientes de convívio em laboratórios e meus amigos, colegas e conhecidos em estudo de caso. Contrariando os que dirão que como psiquiatra sou uma excelente arquiteta, nas próximas linhas não vou me ater apenas a relatar fatos verídicos, e preocupantes, de pessoas que fazem parte do meu convívio. Instrumentalizada com os fundamentos recém adquiridos, vou me aventurar por terrenos movediços para uma leiga, analisando os desvios de caráter dos envolvidos.



Para começar, para qualquer pessoa com o mínimo de clareza e de bom senso, qual é o candidato número um a psicopata frio e calculista? O chefe, sempre, é claro! E quanto mais imediata for a chefia, mais elevado tende a ser o grau de psicopatia. A minha chefinha é um caso clássico. Ela é bonita, muito articulada e bem relacionada. Sorrindo, submete com requintes de crueldade seus subordinados às tarefas técnicas mais estapafurdias. As jornadas de trabalho propostas são absolutamente insanas, chegando a mais de trinta horas semanais, vampirizando todos até a última gota de sangue. Em geral, consegue manter a fachada de profissional equilibrada, mas quando a máscara cai, aos berros revela sua verdadeira face: ciumenta, possessiva e controladora. Em seu ambiente de trabalho é inadmissível reunir mais de duas pessoas sem sua presença, ou a confraternização é caracterizada como motim de cunho altamente subversivo, com sanções severas. Desconfio de suas ambições, mas pela frente ela vai se deparar com outro chefe, igualmente suspeito: o diretor do departamento. Alicerçado na inteligência privilegiada, na leitura dinâmica e no raciocínio extremamente célere, congrega rapidamente as informações manipulando-as conforme suas conveniências. Letrado em direito e na área um, usa sua habilidade com as palavras para justificar suas alterações comportamentais que culminam em rompantes de fúria, quando suas orientações expressas são sumariamente ignoradas. Se um sozinho é uma grave ameaça, os dois juntos constituem o prenúncio de problemas de dolorosas implicações.

.

Uma característica constante nos elementos com esse distúrbio psíquico é buscar ocupar posições estratégicas para suas pretensões. Nesta linha de pensamento, uma função bastante almejada é a de secretária, que tudo ouve e tudo sabe. Na empresa que trabalho temos um exemplo. Ela secretaria os assessores da diretoria do departamento e, vamos considerar, “ô baixinha sangue ruim”. Essa pessoa não pode ser considerada exatamente uma psicopata. Pela estatura, ela poderia ser enquadrada, no máximo, como uma psico”patinha”. Para um olhar desavisado pode passar por uma mulher sã, desembaraçada e simpática, apesar de temperamental. Mas, determinadas atitudes denunciam sua perversidade sórdida. Por exemplo, sua recusa doentia em assinar por mim meu ponto de freqüência quando me atraso, negando o favor com absoluta frieza e insensibilidade. Isso não pode ser um comportamento normal de uma criatura que tem a capacidade de nutrir afeição, ainda mais porque o favor é suplicado com tanto carinho e emoção. Considero ela um perigo iminente para o grupo.



O quê dizer, então, de meu namorado? Por algum tempo aquela conversa mole me envolveu de uma maneira que impediu a compreensão racional dos fatos. Agora, começo a ter um entendimento melhor. Ele é capaz de atingir o êxtase em caloradas discussões travadas com call centers dos mais diversos produtos e serviços, em embates diários que chegam a durar horas, preterindo, inclusive, uma deliciosa companhia feminina. Além disso, um companheiro que não aparece com mimos surpresa em datas improváveis e que não leva café da manhã na cama para a sua amada, não pode ser boa coisa. Tecnicamente, poderia ser considerado como um psicopata de grau elevado, pelas conseqüências nefastas de suas ações, ou falta delas, num coração sensível. Mas vou enquadrá-lo inicialmente num grau moderado, pois os danos podem ser remediados caso ocorra uma imediata mudança de atitude, tipo um presentinho hoje mesmo.



Outro indivíduo exacerbadamente suspeito é o síndico do meu condomínio. As tais taxas extras só podem ser coisa de quem não tem uma gota de sentimento e afeto por nossos rendimentos. E a frieza e a indiferença com que somos avisados reforça minha tese. Geralmente são correspondências impessoais, como quem dialoga com uma caixa registradora, que fazem rodeios e mise-em-scène de motivos para no final nos golpear duramente. Esse senhor me preocupa e deve ser vigiado de perto.



Apesar da inquestionável eloqüência dos relatos e argumentos acima expostos, que baseiam minhas suspeitas quanto ao caráter patológico dos estudos de caso, devo registrar que o diagnóstico está numa etapa clínica bastante inicial, sujeito ainda a retoques. Contudo, já é possível constatar, mesmo sob a tutela do inseparável otimismo que me caracteriza, que o mundo é sim um lugar perigoso para passear, trabalhar e viver, e a natureza humana pode ser, por vezes, surpreendentemente desagradável. Portanto, concluo este aprendiz de laudo clínico afirmando que a palavra de ordem deve ser “cautela”, pois o inimigo espreita e o perigo pode estar ao seu lado.


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Negro Gato


"Eu sou um negro gato de arrepiar

Essa minha história é mesmo de amargar
Só mesmo de um telhado, aos outros desacato
Eu sou um negro gato
Eu sou um negro gato".

Lá ia ele cantando. Na verdade a afinidade ia além do gosto pela melodia. Um negro gato era exatamente o que ele era: um bichano de pêlo curto e negro, estatura mediana para a espécie e uma soberba em nada compatível com a realidade. Falador, articulador e muito hábil no network , há algum tempo era considerado como um procurador dos interesses da comunidade “miante” do bairro, apesar de estar longe de ser uma unanimidade. Recentemente havia tomado para si a responsabilidade sobre a reforma do "beco da PGE". Nada a ver com a prestação de um serviço comunitário ou algo semelhante, ele pensava no upgrade que isso poderia render em seu status. Assim, tornou-se o maior militante da causa. 


O beco da PGE era o mais freqüentado ponto de encontro da turma do bairro. Um local para altos conchavos, cantoria, por o papo em dia e conhecer quem de novo pintava no meio da gataiada. Ficou conhecido como beco da PGE por conta de Mafalda, uma gata malandra, típica vira-lata, que andava por aqueles arredores em épocas passadas. Ela costumava dar golpes nos colegas, além de provocar a ira dos humanos, roubando quitutes deixados a vista por qualquer janela entre aberta. Certa vez, Francesco, um cozinheiro italiano de uma cantina do beco, conhecido por sua pouca paciência com os bichanos, deixou uma almôndega de isca sobre o balcão da cozinha, enquanto fervia um caldeirão de água. Quando Mafalda apareceu, não deu outra, despejou sobre ela a água fervente que, por sorte, pegou de banda. Desta vez não teve malandragem certa, Mafalda ficou “cheia de cheios e vazios”, parcialmente pelada. A bicharada, que não engolia muito a senhorita, não perdoou, e batizou o beco: "beco da Pobre Gata Escaldada", que mais tarde foi abreviado para "beco da PGE".

A empreitada da reforma era realmente grande. O beco precisava de tudo: reorganização do lay-out dos latões de lixo, penumbra adequada, isolamento acústico para possibilitar as serestas até altas horas e por aí vai. O Negro Gato contava com algumas parcerias. Tinha Tássio, um gatinho mestiço, rechonchudo, muito boa praça, que fazia o meio de campo com a comunidade, já que o Negro Gato não contava com a simpatia da galera. Os dois juntos lembravam Manda-Chuva e Batatinha, um sempre mandando e o outro sempre obedecendo, mesmo que a sabedoria notadamente não residisse na fonte do comando. Contudo, sua maior aliada era Sandra Espatódia, uma gata refinada, quase legítima angorá que, por qualquer contra-tempo, descia do salto e armava um barraco. Diziam as más línguas que ela tinha vivido um romance tórrido com o Negro Gato, que acabou com bate-boca e pancadaria de fundo passional, deixando o Negro Gato em recesso para reabilitação física durante algum tempo. Verdade ou não, o fato era que ele demonstrava um certo medo da dona. Apesar do grande interesse e empenho do trio, nenhum deles entendia nada do ofício. Tássio, bem relacionado, propôs que pedissem ajuda, e foi ele mesmo que sugeriu o nome: - Por que não falamos com Anita?

Anita era uma gata tímida, moradora da rua de cima, que nada investia em marketing pessoal, mas reconhecida pela extrema competência na área. Entre outras coisas, foi a mentora intelectual da reorganização do lay-out do "Beco das Flores", a projetista da reforma da "Esquina da Pata Suja" e a principal responsável pela revitalização da "Baixa do Corre do Tamborim", com o trabalho premiado pela UNICAT e destaque na revista Felino's News.

A idéia foi prontamente aceita, apesar das desconfianças de Sandra Espatódia. Tássio se incumbiu de agendar uma reunião. No dia marcado, lá estavam os três esperando quando surgiu Anita do outro lado da rua, com os sedosos pêlos brancos no balanço da leve brisa que soprava. Aquilo para o Negro Gato foi a visão do paraíso, seu queixo caiu alguns centímetros e foi impossível evitar a baba. Era como se tudo em volta estivesse congelado e só existisse Anita, atravessando a rua em movimentos lentos e graciosos. Acordando do transe, se recompôs rapidamente, reorganizou a postura, estufou o peito e partiu em direção à visitante, cheio de clichês, patas e dedos. Aquilo de cara assustou Anita que, apesar de simples, tinha o comportamento de uma "aristogata".

As reuniões foram sucedendo-se com muitas indefinições e algumas contribuições da comunidade. Mais latas de lixo ou menos latas? Ia ser prevista a circulação de roedores, com algum entretenimento relacionado, tipo pegue-e-pague, ou não? Já se falava até em erguer um monumento à Mafalda, a "Pobre Gata Escaldada". Neste ínterim, o Negro Gato, cada dia mais encantado, não perdia qualquer oportunidade de roçar os pêlos em Anita e ronronar próximo aos seus ouvidos. Ela, com total asco, fugia "como o diabo foge da cruz", mas a situação já estava chegando num ponto insustentável, agravada ainda mais pelas escancaradas demonstrações de ciúmes de Sandra Espatódia. O Negro Gato sacava tudo e com habilidade atiçava a discórdia que massageava seu ego doentio. Tássio, com excelente humor e senso de oportunidade, amenizava o clima e o trabalho ia se desenrolando. Aparentemente a situação parecia equilibrada, mas Sandra Espatódia era ardilosa e, enquanto forjava uma atitude mais calma, armava um plano para atingir sua arqui-rival.

Anita, apesar de circular livremente pelas ruas, era a queridinha de uma madame moradora de um dos mais tradicionais edifícios do bairro. A senhora mantinha em seu luxuoso apartamento uma almofada confortável de penas de ganso, sempre limpinha, para o deleite de sua pequena. Por conta disso, Anita carregava no pescoço uma medalhinha de identificação, o que liberava sua passagem nas dependências do prédio e lhe dava um ar ainda mais distinto. Contudo, já haviam alguns dias que a tal medalha andava perdida, e isso deixava a gata angustiada.

Quando chegou o primeiro dia de lua cheia do mês, uma turma de gatos não identificados armou na frente da residência da madame uma algazarra sem precedentes. A cantoria e bateção de latas perdurou até altas horas da madrugada. A viatura da polícia esteve no local duas vezes, tentando dispersar o movimento, sem obter sucesso. Ao amanhecer o cenário era catastrófico. As latas de lixo estavam reviradas e havia resíduos de natureza diversa espalhados pela rua, passeio e até entrada da portaria. No meio de tudo, foi achada a medalhinha de Anita. A sentença do síndico e conselheiros do prédio foi imediata: Anita estava terminantemente expulsa daquela Maison. Enfim o mistério que tanto lhe preocupava foi esclarecido, sua medalha desaparecida estava com Sandra Espatódia, que soube usá-la muito bem. Desolada, a gatinha saiu meio sem rumo, cantarolando em murmúrios melancólicos:

"De manhã eu voltei pra casa
Fui barrada na portaria
Sem filé e sem almofada
Por causa da cantoria"

Ainda fragilizada, ela levantou a cabeça e tocou a vida, mergulhando fundo na reforma do beco da PGE. Conciliou interesses, harmonizou propostas e fez questão de cuidar sozinha do tão esperado monumento à Mafalda. No dia da inauguração estavam todos lá: a gataiada do bairro, os amigos, a imprensa e até algumas autoridades. O beco estava irreconhecível, sofisticadamente lindo e original. O Negro Gato não podia conter-se de tanto orgulho. Todos o congratulavam apesar de terem absoluta convicção de que a mente pensante por trás de tudo era a de Anita. A inauguração do monumento à Mafalda, que estava coberto por um manto encarnado, era o momento mais aguardado da festa, e seria uma surpresa para todos, já que Anita providenciou tudo sozinha. Na hora marcada, o Negro Gato pegou o microfone e, após um enfadonho discurso de auto-promoção, anunciou com toda a pompa e circunstância a homenagem à gata que deu o nome ao beco, puxando com um movimento brusco o manto que cobria a escultura. Foi quando ouviu-se um longo "oooohhhhh!!!!!", seguido de risos e muitas gargalhadas.

Para o espanto geral, a escultura retratava com impressionante perfeição a imagem do Negro Gato vestido com uma ceroula, na fisionomia uma expressão de dor e medo, encolhido numa postura ultrajante para o gênero masculino, tentando se proteger de Sandra Espatódia. Esta, na obra de arte, estava em posição ameaçadora, com os olhos explodindo em ira, trajando um babydoll dois números abaixo do seu, com os pêlos enrolados em bobs e segurando um rolo de macarrão, que usava para espancar o Negro Gato. A imagem era grotescamente real. Aproveitando o burburinho e galhofada que a surpresa gerou, Anita saiu à francesa com um doce gostinho de vingança na boca, enquanto ensaiava timidamente alguns passos e cantava:

"Nós gatos já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora, senhorio
Felinos, não reconhecerás"

O beco da PGE continua um sucesso incontestável, divertido, polêmico e formador de opinião. Dizem até que foi em suas noitadas que foram lançados pelo menos dois dos principais candidatos ao mais alto cargo do Estado. Contudo, a sigla do aclamado beco, com todo respeito à memória de Mafalda, sua musa inspiradora, tem novo significado em homenagem a suas mais recentes celebridades, sendo hoje, então, "o beco do Pobre Gato Espancado"

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Corta o cabelo de onde?


Todo mundo passa por aqueles dias que é melhor não abrir a boca. Com a maior parte das pessoas isso acontece um dia ou outro. Comigo é mais freqüente. O problema maior é que a gente nunca sabe quando acordou com esta pré-disposição. Tanta tecnologia disponível e ninguém se tocou de bolar um alarme no celular para nos prevenir nesses dias sombrios. Ou talvez "os céus" pudessem nos proteger das derrapadas com inspirados presságios. Seja como for, alguém precisa tomar uma providência.

Como não me dou muito bem com os celulares e não costumo ser abençoada com tais revelações divinas, lá vou eu toda serelepe e desavisada para mais um dia de trabalho. Passei o dia até bem e parecia que ia voltar para casa sem nenhuma seqüela. Era o quê parecia. Lá pelo final da tarde, conversava com minha chefona, que é mais ou menos um feitor dos tempos modernos. Quando trocávamos algumas figurinhas chegou Aragon, nosso colega de trabalho. Só para ilustrar o tamanho da trapalhada que vem pela frente, vou descrever nosso personagem. Aragon é um engenheiro de segurança de cinqüenta e poucos anos, sério e muito tímido. Para termos uma idéia, ele fala de boca fechada. Quando está muito nervoso e alterado chega a abrir a boca cinco milímetros e meio e, se chegarmos a dez centímetros da fonte emissora do som, é até capaz que a gente consiga ouvir 70% do que ele fala. É um bom profissional, mas bem mais eloqüente na escrita. A “chefa” tinha alguns assuntos pendentes com ele e na mesma hora tirou o chicote do cinto e começou a cobrar os desdobramentos dos serviços.

Os dois seguiram debatendo os assuntos de trabalho. Na argumentação, Aragon, que normalmente é muito contido, gesticulava com as mãos na altura do baixo abdômen e região pubiana, com movimentos curtos e lentos. Como a conversa não era mesmo comigo, me permiti abstrair perdida nos meus pensamentos. Isso, para uma mente intelectual, significa absorver-se entre assuntos relevantes para a humanidade. Para uma cabeça loura, como é o meu caso, significa "só pensar besteira". Então, comecei a viajar nas mãos de Aragon, observando que seus dedos eram bem cabeludos, o que me lembrou um lobisomem ou, talvez, Tony Ramos, que é mais ou menos a mesma coisa. Era meramente uma observação, que faço questão de registrar que não me remeteu a nenhuma fantasia. Aprofundando-me mais na questão de alta complexidade, notei que, em uma das mãos, os dedos indicador e médio tinham os cabelos menores, como se tivessem sidos aparados. Totalmente alheia ao ambiente e às circunstâncias e, pior, no auge do meu surto delirante, usando um papel tipo ofício que tinha na mão, apontei para as mãos de Aragon, que nesta hora estavam na altura da região pubiana, e perguntei:

- Você corta o cabelo daí?????

Agora você, caro leitor, com todo o seu poder de imaginação, realize a cena. Imediatamente percebi o fora que tinha dado, mas a besteira já estava feita. Minha chefe, que estava de lado, como se estivesse em um filme em câmera lenta, virou a cabeça na minha direção e levantou o mais alto que pôde a sobrancelha de apenas um dos olhos. Sobre sua cabeça surgiu instantaneamente um balão com uma enorme interrogação mãe, rodeadas por inúmeras "interrogaçõeszinhas" filhas, brincando de roda em volta da genitora. Aragon, coitado, um pouco tonto ainda, lentamente baixou a cabeça e levantou a camisa, dando uma averiguada em sua calça. Sou capaz de apostar que ele pensou que estava com o zíper aberto. Quanto a mim, não me contive, desabei numa crise de riso, sem conseguir pronunciar uma palavra que pudesse explicar o ocorrido. Cinicamente, a chefona ainda teve o desplante de perguntar:

- Vocês querem que eu saia?

Com uma amiga dessas, quem precisa de inimigos? Continuei tentando pronunciar alguma coisa que pudesse ser entendida, mas os risos não deixavam, saindo apenas palavras cortadas.

- Nã-nã-não! - Dizia eu enquanto apontava as mãos dele, mas acho que isso só fazia piorar tudo. Meu colega, sem entender nada e expressando um certo medo de mim, já dava alguns pequenos passos para trás. Por fim, ainda sem parar de rir, consegui falar:

- Eu estou falando dos dedos!

A chefinha saiu rindo e Aragon, assombrado pelo terror de ficar sozinho comigo, bateu em retirada com passos largos e apressados. Fiquei enxugando as lágrimas da crise de riso, mas ainda sem conseguir parar de rir. No carro, voltando para casa, ia pensando uma maneira de esclarecer o mal-entendido, antes que os demais técnicos do órgão, avisados sobre minha excêntrica curiosidade, viessem todos me falar sobre seus hábitos higiênicos e seus cortes de preferência. 

terça-feira, 30 de junho de 2009

Mensagem Póstuma

Ele entrou na minha vida quase que por uma imposição. Nossos caminhos provavelmente espreitaram-se em muitas oportunidades, mas aguardaram o momento certo, mágico, para enfim, cruzarem-se.




Cheia de expectativas, iniciava uma nova página na minha vida profissional, em uma nova empresa, quando fomos apresentados. Confesso, não ouvi badalar de sinos, não senti calafrios e, posso supor, meus olhos não brilharam. Sua aparência não me atraiu e seu modo seco, impecavelmente profissional, que deu o tom de nossos primeiros contatos, não davam qualquer prenúncio da cumplicidade e afeto que alcançaríamos.



Aos poucos, como que tateando na penumbra, fomos relaxando. Eu, mais tímida e insegura no ambiente, limitava-me a assuntos de reuniões, troca de materiais técnicos e informações corriqueiras da empresa. Ele, querendo aproximação, arriscava temas sócio-políticos e piadas bizarras.



Assim, fomos nos chegando. Às vezes, com curiosidades e imagens de lugares longínquos e deslumbrantes ele me conduzia em viagens maravilhosas. Tinha também seus pontos fracos - todo mundo tem. Conseguia me tirar do sério com a insistência em me envolver em pirâmides e correntes e, pior, com a fixação em me evangelizar nos mais variados credos. Ainda assim, sua característica mais marcante era o humor. Amo quem me faz rir, quem com graça leva a vida e transforma infortúnios em momentos divertidos. Ele era assim, comigo e com todos. Extraía com perspicácia a comédia de nossa política, condição social e sexualidade.



Ah, por falar em sexualidade, nessa área nunca houve nenhum igual. Parecia não ter medo, não ter limites. Explorava, revelava, com sutileza e sensualidade, escorregando, por vezes, também na vulgaridade. Múltiplo, contraditório, diverso, polêmico. Esse era ele, assim éramos nós. Me perdi descobrindo todos os seus mecanismos e possibilidades.



Contudo, sua saúde era precária, sua estrutura genética desprivilegiada e seu sistema imunológico traiçoeiro. Como um ímã amaldiçoado atraía para si todos os vírus transeuntes. Já andava lento, disperso e, com freqüência, não estava acessível. Então, veio o golpe fatal. A liberdade de sua voz e seus pensamentos incomodou. A censura instalou o silêncio orquestrado pelo temor. Ele não resistiu.



Hoje, minha voz presa despede-se. Nossos amigos, em uníssono, choraram a limitação de nosso contato e agora choram a ruptura definitiva, com a imposição de sua substituição que culminou em sua morte sofrida. Descanse, sereno e convicto de que enquanto esteve entre nós foi um elo de integração e alegria.



Adeus, querido Lotus Notes, valoroso sistema amigo de intra e internet, nosso mensageiro remoto corporativo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A Revolução depois da Pílula


Outro dia estava em um setor da empresa que trabalho, onde também estavam mais nove colegas, todos arquitetos ou engenheiros. Analisava, concentradíssima, um projeto junto com um amigo, quando, de repente, ouvimos de uma colega:

"_Que bom seria se a gente, quando estivesse com muita vontade de fazer xixi e não pudesse se aliviar, tivesse a opção de entregar nossa "perseguida" para alguém fazer o favor de levar no banheiro."

Acho desnecessário dizer que nossa interlocutora é completamente tresloucada e autora de pérolas divertidíssimas, e que, por isso, ninguém se espantou. Contudo, a declaração teve um impacto instantâneo no ambiente. Imediatamente, os abnegados colegas da ala masculina prontificaram-se a ajudar conduzindo a "senhorita" ao toalete, mas não obtiveram sucesso. Diante da elucubração filosófica, não houve quem não quisesse participar e colaborar na tese inédita no meio acadêmico.

Para começar, vamos esclarecer: não se trata, propriamente, de uma mutilação. A ação seria mais elaborada e nada dolorida. Poderia ser, por exemplo, um simples processo mecânico de "desatarraxamento", algo como rosqueamento ou fixação por pressão. A princípio, imaginar aquilo me pareceu terrível, mas o pensamento é livre, o debate estava divertido e todos sentiam-se a vontade para opinar.

É claro que sempre tem gente para querer se aproveitar e o instrumento poderia ser usado para propósitos menos práticos e muito menos nobres. Por exemplo, aquela classe dos maridos descontroladamente ciumentos obrigaria violentamente suas mulheres a deixarem suas perseguidas sob a permanente guarda do cônjuge. Por outro lado, a mulher, vitimada e cansada de tanta opressão, poderia alugar uma perseguida alheia para deixar sob os cuidados do marido e fazer livre uso da sua, enquanto o parceiro imagina controlar a situação.
Já as mulheres, solidárias como são, usarão o recurso para colaborar umas com as outras. Uma amiga bem descolada poderia levar a perseguida de outra amiga, encalhada e entediada, para dar umas voltas e quebrar a rotina. Ou talvez uma senhora, casada, em dificuldades para explicar onde deixou a "sua menina", poderia contar com a ajuda de uma amiga de fé, que juraria de pé junto que a senhora deixou a mesma com ela para ser depilada.

O que não ficou muito claro e suscita uma cuidadosa pesquisa científica é de quem seriam as sensações proporcionadas pela "dita cuja". Seria da proprietária ou da portadora? Complicado. Se for sempre da proprietária, não importando onde a perseguida se encontre, poderia ser prático em alguns aspectos, mas, ocasionalmente, poderia também promover algumas "saias justas".

Vejamos: você está numa reunião formal de trabalho. Com o modelito impecável e uma retórica eloquente, causando a "maior boa impressão". Empolgada, você começa a utilizar toda aquela sua lista de palavras que ninguém sabe o que significa, mas que causam o grande impacto, quando, repentinamente, enquanto sua perseguida é utilizada indevidamente em algum canto da cidade, seus olhos começam a revirar. Muita calma nessa hora. Pode se desculpar alegando ter um alto grau de mediunidade e estar recebendo um "espírito de porco". Seja como for, o melhor é pedir licença e tratar de resgatar o que lhe pertence.

Por outro lado, se a sensação é da portadora, o que seria até muito justo pelo ônus de ter que carregar e cuidar, dificilmente atingiríamos aquela relação de parceria e cumplicidade que geralmente nutrimos com nossa "amiga íntima".

Como podemos ver, o assunto é realmente polêmico. Longe de querer encerrar o debate, escrevo aqui apenas algumas observações pessoais, mas frisando que é uma tese aberta, em fase de desenvolvimento. De qualquer maneira, deixo claro que, quando chegar na fase dos experimentos com cobaia humana, a vaga não me interessa.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Não é só brincadeira de criança



Às vezes fico observando meu filho, com quatro anos recém completados, nas suas maravilhosas viagens da imaginação. Com freqüência, sou convidada a participar também. Viajamos o mundo, a Via Láctea, o fundo do mar, o passado, o futuro. Somos gigantes, seres híbridos, objetos inanimados; somos e fazemos tudo que queremos. Fico maravilhada com os mecanismos desta faculdade humana e tudo que ela nos proporciona.

Segundo os estudiosos no assunto, a imaginação está intrinsecamente ligada à criatividade; “é o elemento-chave do ato criador”. Tive alguns indicativos disso em minha vivência. Lá pelos vinte e quatro anos me “bati” com uma das figuras mais criativas que já conheci. Seu nome é Roberto e tinha na época uns trinta e dois anos. Esse cara soube aproveitar de todas as formas seu talento natural. Profissionalmente, era músico. Foi, entre outras coisas, o responsável pela produção musical de espetáculos que alcançaram grande sucesso no Pará, produções essas que ganharam, inclusive, prêmios fora do Estado. Por hobby, era artista plástico, e por hábito ou, talvez, porque era muito mais divertido e excitante assim ser, era criativo em tudo: na forma de relacionar-se com as pessoas, de trabalhar, de resolver problemas, de viver. Uma mente livre e linda. Costumávamos conversar andando pelas ruas nas noites de lua. Claro, em ruas que possibilitavam esse deleite. Nesses passeios, me falava de muitas coisas, mas o que mais me marcou foram os relatos de momentos com o pai, quando ainda era moleque. Entre várias brincadeiras, os dois construíram juntos, com sucata, lixo, prego e martelo, uma nave espacial que os levaria a viagens intergaláxias. Na verdade, a nave nunca saiu do quintal, mas tenho certeza que, mesmo assim, levou Roberto a lugares inexplorados e cheios de aventuras. Em outra oportunidade, os dois montaram uma tenda, no mesmo quintal, enfeitaram como um grande circo, ensaiaram alguns números, e fizeram sessões para apreciação dos vizinhos. Meu filho chegaria somente dez anos depois, mas suas histórias já me inspiravam e faziam-me arquitetar planos para a minha futura prole.

E falando em imaginário infantil, não dá para não lembrar de Monteiro Lobato com o “Sítio do Pica-pau Amarelo”. Quando criança, não li mais do que duas aventuras do Sítio, mas assisti um bom tanto da primeira produção da obra feita pela TV. Fui apaixonada pelo príncipe das Águas Claras e tive também minha boneca de pano de produção caseira, feita por minha mãe; e como torcia para que falasse. Estava louca para introduzir meu garoto nesse universo, mas como era muito novo, ainda não dava para entrar de sola com os livros da coleção, que têm histórias longas com publicações pouco ilustradas. Vibrei quando a TV anunciou a nova montagem do Sítio e não deu outra: ele amou. O Saci, o Visconde de Sabugosa, a pílula falante, o pozinho de pirim-pim-pim. Entrou tudo em nosso vocabulário, em nossas brincadeiras e no imaginário dele.

Traçando paralelos, mas guardada as devidas proporções, tive recentemente a oportunidade de visitar a exposição “Por dentro da mente de Leonardo da Vinci”. A amostra propõe-se a apresentar protótipos das engenhocas criadas por ele, desde as que foram efetivamente materializadas e funcionaram, até as que não saíram do papel. E que mente maluca o cara tinha; era o que hoje poderíamos chamar de multimídia. Ele foi do embrião do helicóptero à catraca da bicicleta. Fico elucubrando sobre as viagens que motivaram uma diversidade tão grande de projetos. Parece ter vindo desde a busca por soluções práticas para atividades do cotidiano, até o afã de dominar os elementos da natureza, de voar, de andar sobre as águas, que podem ter raiz, também, nas brincadeiras e ilusões infantis. De qualquer maneira, tanta engenhosidade nasceu, com certeza, de uma imaginação prodigiosa.

Sem dúvida existem muitos meios e motivações para o desenvolvimento da criatividade. Música, histórias, vivências, necessidades reais, práticas culturais em geral, todos são caminhos, mesmo porque, as informações, imagens e experiências reais criam um acervo a ser acessado, a serviço da imaginação e, claro, da criatividade. Mas que os devaneios da mente, por pura brincadeira, têm seu valor, ah, isso tem!

Lembro-me a primeira vez que conversei com meu filhote sobre imaginação. Por alguma razão, falei para ele: “- use a sua imaginação!” Ele respondeu: “- o que é imaginação?” Não foi fácil. Comecei dizendo a ele: “- feche os olhos, agora pense em ...”, e por aí vai. Pouco tempo depois, por sorte, caiu em minha mão um DVD do filme “Pinóquio 3000”, uma versão futurista do clássico infantil. Na história, a amiguinha de Pinóquio o desafia a brincar com ela o “jogo da imaginação”. Na seqüência, tem-se o trecho mais lindo do filme, muito colorido e musicado. Ele, recém criado, mergulha com ela na descoberta da fantasia, num jogo onde um interage com a imaginação do outro. Foi uma forma rica de ilustrar para o pequeno a liberdade do pensamento. Daí por diante, a brincadeira não parou mais.

Todos os dias, quando o busco na escola para irmos almoçar, percorremos as mesmas ruas, passamos pelas mesmas esquinas, casas, praia, mas o caminho é quase sempre diferente. Às vezes estamos num submarino, os outros carros viram grandes peixes, os coqueiros são monstros marinhos, as barracas de praia são navios naufragados. Às vezes estamos simplesmente planando no ar, como uma imensa baleia voadora. Às vezes o percurso é o espaço, cada barraca é um planeta e as pessoas são estrelas falantes. As possibilidades são infinitas. Não tem muito tempo que, ao terminarmos de montar um quebra-cabeça de grandes dimensões, sentamos sobre ele, que se transformou num tapete voador e nos levou para passear em alguns países. Como canta Xangai, “viajava o mundo inteiro nas estampas de Eucalol, (...) subia o Monte Olímpo, ribanceira lá no quintal, mergulhava até Netuno, no oceano abissal”. Sempre me lembro de Roberto, com suas histórias. Também inspirada nele, ensaiamos alguns números de equilibrismo para o “Circ du Chulé”.

Invento muito, deliro um pouco, possibilito para meu filho algumas experiências, mas “cá comigo”, acho muito melhor quando ele cria suas próprias fantasias, seus lugares secretos, suas aventuras da mente. Fico na torcida para que isso se reflita numa forma leve e criativa dele levar a vida. Para que, pelo seu caminho, materialize algumas de suas deliciosas criações, e outras tantas, pelo amor de Deus, não!!!