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domingo, 20 de novembro de 2011

Pé na estrada de coração aberto

 Nesse fim de semana um amigo, que teve recentemente a oportunidade de viajar durante um mês pela Índia, me falou encantado sobre sua aventura. Não se esquivou de falar da pobreza, dos contrastes sociais, do caos urbano e dos pedintes. Sim, ele esteve lá e viu tudo isso. Mas a questão toda é essa: ele enxergou as pessoas, a cultura, o país, no sentido mais amplo que se pode conceder ao verbo "enxergar". Com doçura e generosidade, me falou da receptividade indiana, do convívio com a família onde esteve alojado, da espiritualidade que ameniza as adversidades e torna a vida mais leve. Ele estava tão feliz em seus relatos que se esqueceu de falar dos monumentos de Jaipur e do esplendor do Taj Mahal. Acho que visitou essas atrações turísticas, mas parece que não foi o que mais lhe valeu em suas caminhadas.

Há muito tempo que esse tipo de percepção, dom ou, talvez, somente bom senso, que alguns trazem consigo e outros tantos viverão a vida inteira sem ter ideia do que seja, me desperta a atenção. Bom senso porque, no mínimo, mesmo que você tenha ganho de forma fabulosa toda a sua viagem num sorteio ou bingo, você está gastando nela um artigo que não se compra e que não volta atrás: o tempo. O seu precioso tempo. Sobre ele, só lhe cabe decidir se vai usá-lo bem ou mal, se vai se divertir ou se chatear, se vai crescer, expandir sua visão e horizontes ou se vai se entediar e só deixar o tempo passar. 

Talvez tenha atentado para isso em função do lugar de onde vim. Eu cresci no estado do Pará, cidade de Belém, considerada a metrópole da Amazônia, mas já estou há mais de dez anos morando longe do Estado. Minha origem geográfica quase sempre desperta muito interesse e curiosidade.  A vastidão de nosso país e as atraentes promoções turísticas para os destinos internacionais mais tradicionais, ou comerciais, deixam a Amazônia no fim da lista de "lugares a conhecer" de quase todas as pessoas, se é que ela consta na lista. Sendo assim, o norte do Brasil é um mistério para a grande maioria. As perguntas são as mais variadas, às vezes generalistas, algumas mais específicas e outras bem absurdas. Pessoalmente, tenho o maior prazer em falar de minha terra, mas devo confessar, não é para todo mundo. 

Belém é uma cidade sui generis que já completou trezentos e noventa e cinco anos de fundação. Uma aglomeração urbana às margens do rio Guamá e baía do Guajará. Quase uma península fluvial. Todos os dias desembarcam no cais do Ver-o-Peso as mais diversas iguarias trazidas de ilhas que rodeiam a capital, lugares que conservam a mata densa e exuberante. A metrópole tem uma história forte, com todos os ingredientes da colonização brasileira. Lutas sangrentas entre colonizadores e índios, missões religiosas, escravização africana e a cabanagem - uma das três maiores revoltas populares da história do país. Teve também os grandes ciclos de prosperidade, como o da borracha, que levou à cidade riqueza, cultura e um certo delírio de europeização, lhe conferindo no período o título de Paris n’América. O clima é quente e úmido; os paraenses são receptivos e muito dançantes; a arquitetura histórica é diversa e abundante; as frutas são exóticas; e a culinária, com influência indígena, é capaz de encantar qualquer gourmet. Resumindo, a história, a cultura e o patrimônio natural são enormemente ricos. Todos esses elementos estão ali, na cidade, impressos na paisagem urbana. Estão nas nuances dos tons de pele, no cheiro da comida, no movimento das águas, no frescor das sombras das mangueiras, mas, tem que se dispor a enxergar a cidade. Tem que cheirar, sentir, ouvir e ler nas entrelinhas o que não está explícito. Não é para qualquer um. Ah sim, claro! Ela tem um monte de problemas, não tenha dúvidas, e não os esconde. Belém transpira sua identidade, com qualidades e mazelas, para quem quer realmente conhecê-la. E para quem quer, pode crer, é um encontro especial.

Parece bairrista. Pode ser, mas essa mesma disposição me acompanha nas mais diversas trips. Claro, nem todas me comovem, por maior que seja meu esforço de respirar o lugar, mas com freqüência tenho boas coisas para contar, e não preciso nem ir muito longe pra isso. Um bom exemplo são minhas andadas pela Bahia. Em função do meu trabalho, às vezes preciso viajar pelo interior do estado, muito de carro. Em algumas situações são cidades com certo porte, em outras são lugares que escaparam de povoado. Por mais singela que seja a contribuição da excursão, quase sempre o saldo é positivo. Além disso, vamos combinar, que delícia são aquelas feirinhas de beira de estrada, com artesanato, frutas do local e especialidades que você só encontra com aquela qualidade e aquele preço ali, só ali. Sem falar, é claro, dos comerciantes, que tratam você como o evento do dia.

Uma viagem pode ter diferentes motivações. Pode ser planejada ou improvisada, ser um sonho acalentado há anos ou um árduo compromisso. Pode-se ir longe ou aqui do lado. Às vezes é uma fuga emocional, e sendo assim, pode não cumprir muito bem sua função. Pode transcorrer sem quaisquer sobressaltos ou ter imprevistos diplomáticos, dissabores de fuso, de clima, altitude, idioma, cultura. Seja como for, quase sempre é um ato voluntário e dispendioso, que pode ser melhor vivenciado se reduzirmos a bagagem. Não falo de malas, cada um sabe de suas necessidades. Falo da bagagem das idéias pré-concebidas, dum formato muito rígido do que esperamos encontrar e experimentar. Não dá para aventurar-se pelo mundo procurando em todos os lugares as nossas próprias projeções. A viagem pode até cumprir com louvor todos os propósitos pré-determinados, mas é muito bom estar livre de grilhões para flexibilizar, se necessário for, esses tais propósitos durante o trajeto, e permitir-se encantar com as surpresas que quase sempre nos esperam quando saímos de casa e colocamos o pé na estrada de coração aberto.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Crônicas de viagem IV: Cidade Maravilhosa, em família



















Cristo redentor,
Braços abertos sobre a Guanabara...

Dentro do avião, sobrevoando o Rio de Janeiro, é inevitável cantarolar mentalmente a canção de Tom Jobin e Vinícius, sabiamente chamada de "Samba do Avião". Não sou carioca, nunca morei lá e minha ascendência não tem nem um pezinho no Rio, mas sou brasileira e não obstante o distanciamento genealógico e geográfico, a metrópole muito me emociona. Já havia passeado pela cidade outras quatro vezes, mas desde a última visita, lá se vão dezenove anos, e esta ida tinha algumas peculiaridades muito especiais. Levei meu pequeno, Cauê, com seis anos, e a viagem, com a desculpa de comemorar o aniversário de Karina, uma de minhas queridas cunhadinhas, reuniu toda a família mais próxima: papai, mamãe, meus três irmãos - Ricardo, Renato e Eduardo, minhas cunhadas - Lígia e a aniversariante, e minhas cinco sobrinhas - Taíssa (16 anos), Amanda (quase 15), Camila (11), Luiza (11) e Duda (4).

A programação era alugar três carros no aeroporto e ir direto para Búzios, onde ficaríamos quatro dias. E assim foi. Saímos no começo da tarde guiados por Ricardo, que além de ser naturalmente muito bem orientado, carregava com ele nosso único GPS. Esses aparelhinhos são ótimos, mas um tanto sistemáticos. Se não for tudo exatamente como eles querem a conversa desanda. Enquanto os satélites chegavam a alguma conclusão sobre a direção a tomar, Ricardo consultou um GPS alternativo na estrada. A morena, do alto de seu um metro e oitenta, indicou o rumo certo e tudo voltou ao eixo. Na rota da região dos lagos chegamos à Búzios sem maiores contratempos. Já havia passado um carnaval no balneário e ao retornar tive novamente a mesma impressão: ô lugarzinho abençoado!

Nos acomodamos na pousada ainda encantados com a paisagem, a cidade, as edificações, tudo um charme. Cauê estava excitado com a movimentação da hospedagem e queria ver tudo ao mesmo tempo, a cem kilômetros por hora, sua velocidade habitual. Ainda com a memória de um ano atrás, quando hospedou-se numa pousada na praia de Jururê, próximo à Florianópolis, num quarto coladinho ao do tio Ricardo, saiu de nossos aposentos gritando tio Ricardo, tio Ricardo, e já foi abrindo a porta e entrando no apartamento junto ao nosso, sem me dar tempo de avisar que não era lá. No mesmo pé que entrou, saiu, mudo e branco como uma vela. Pegou o vizinho gringo de cueca.

Antes de sairmos para o jantar, que ainda era o almoço, recebemos a visita de Willian, Paula e Felipe, amigos de Eduardo e Lígia, com quem aproveitamos o drink de boas vindas oferecido pela pousada apreciando a vista dos barquinhos coloridos ancorados na praia da Armação. O festivo barman, muito conversador e enturmado, contou vários casos e comentou comigo:

- As crianças são animadas, mas aquele ruivinho é “parada dura”.

Resignada, respondi: - O ruivinho é meu.

O primeiro passeio foi pela Orla Bardot, que percorre toda a praia da Armação. O nome é uma homenagem à atriz francesa Brigitte Bardot, que esteve em Búzios na década de sessenta. E passeando pela orla, quem encontramos? A própria: Brigitte. É verdade, ela estava um pouco indiferente, dura, fria. Nem ligamos, enquanto ela ficava lá, toda estátua apreciando a vista, nos aproveitamos de sua presença e tiramos muitas fotos. Mas com Duda a conversa foi diferente. Rolou empatia instantânea e a pequena pegou no maior papo com aquele duro metal. Contou sobre nossa viagem, perguntou sobre ela e a convidou para ir conosco. Diante do absoluto silêncio de sua interlocutora a baixinha foi embora, mas não esqueceu. De vez em quando perguntava pela Brigitte, se preocupava com ela sozinha na chuva e em todos os passeios lembrava: - e se a gente convidar a Brigitte?

No dia seguinte, aproveitando o movimento do fim de semana fomos para a praia de Geribá e o anunciado passeio de barco ficou para a segunda-feira. Como combinado, na segunda nos mandamos para o píer e ficamos esperando Renato, que foi comprar o recarregador da bateria da máquina fotográfica. O recarregador ele não conseguiu, mas conseguiu deixar a gente esperando bastante. Por fim, considerando o tempo que estava nublado e um pouco instável, o comandante do barco sugeriu que deixássemos o passeio para o dia seguinte. Sem problemas.

Se na segunda o tempo não era promissor para um lindo passeio de barco pelas ilhas e praias de Búzios, na terça-feira era, no mínimo, desaconselhável. O dia amanheceu frio, chovendo e ventando. Mas não saímos dos quatro cantos do país para chegar lá e nos assustarmos com qualquer chuvinha. Comandante, queremos ir! Renato, para não fugir a regra, nos deu uma canseira novamente esperando ele que, desta vez, foi numa farmácia. A mais distante que ele achou.

Contrariando todos os prognósticos, o passeio, que tinha tudo para ser um desastre, foi maravilhoso. No barco era só a família e cantamos, dançamos, almoçamos e brindamos o aniversário de Karina, com ou sem chuva. Mauro, o comandante, carioca da gema, ia nos falando sobre o balneário. A aldeia de Armação de Búzios remonta aos mil e setecentos, quando era uma colônia de pesca de Baleias através de um mecanismo que eles chamam de armação, daí o nome do local. Apesar de hoje soar como um absurdo ecológico a pesca de baleias, era um processo artesanal de pouco impacto, que foi instinto ainda no século XVIII, quando chegaram à costa do Rio de Janeiro os navios baleeiros norte-americanos que, estes sim, quase extinguiram a espécie no período. Praias dos Ossos, Azeda, João Fernandes, das Virgens, da Tartaruga, ilha Feia, entre outros, percorremos o litoral recortado da península, repletos de enseadas protegidas pelo relevo, parando em vários lugares. A exceção de Renato e Karina, todos, não obstante o frio e a água geladíssima, caíram no mar. Papai e mamãe, fazendo bonito, chegaram a nadar até a ilha Feia, que nem é tão feia assim. Durante boa parte do passeio o comando do timão foi de Cauê, que se saiu muito bem. Além disso, nos atualizava constantemente sobre a existência e a profundidade dos peixes próximos, que ele checava a cada minuto pelo radar. Num momento coruja, fiquei observando minhas sobrinhas, já tão grandes e lindas, cada uma a seu jeito. Taíssa é a contestadora, Amanda a general. Camila tem um charme todo maroto e Luiza é pura meiguice. Sobre Duda, poderia dizer que ela é loura, e isso bastaria para ela, mas na verdade é muito mais.

Na quarta-feira estava programada a volta ao Rio, para assistir à noite o Fluminense jogar contra o Vitória no Maracanã, pela sexta rodada do Brasileirão de 2010. Apesar da correria de três carros em comboio pelas vias expressas do Rio, foi tudo bem até a parada para o almoço, num restaurante no Aterro do Flamengo. O Renato, claro, nos deixou esperando novamente, desta vez uma hora, enquanto ele foi comprar o bendito recarregador da bateria. Quando saímos, já com o estado de nervos alterados, faltou combustível em um dos carros, especificamente o que eu guiava, e mal deu tempo de chegar para o acostamento. Resolvida esta etapa, fomos em direção ao hotel, com o horário começando a apertar para o jogo. Mas esse, definitivamente, não era o meu dia de sorte. Em uma das sinaleiras fiquei para trás. Aí começou: telefona para um, liga para outro, ninguém atende, os celulares descarregando, o único com carga perdido dentro do carro tocando insistentemente sem ser localizado, todos falando ao mesmo tempo, ninguém se entendendo e a tolerância atingindo o nível zero, completamente perdidos pela cidade. Quando nos encontramos novamente já estávamos perto do hotel. Mamãe que, toda desligada, já havia entrado em um quarto alheio na pousada de Búzios, novamente no hotel do Rio, procurando o banheiro do seu quarto, entrou no quarto do vizinho, que era conjugado e estava com a porta destrancada. Sorriso amarelo e muitas desculpas resolveram o imprevisto. Enquanto isso, no quarto que eu dividia com Cauê e Renato, estávamos encantados com a vista de frente para a baía da Guanabara. Cauê "futucando" todas as novidades que encontrava, me perguntou sobre uma caixinha que, a princípio, olhando por alto, também não identifiquei o que era. Daqui a pouco ele chegou com o mistério esclarecido:

- Olha mãe, é para proteger a lanterna, para não molhar.

Peguei a embalagem para ver. Era um preservativo com instruções de uso ilustradas na caixa. Sobre a linda vista, depois descobrimos que o quarto de frente para a baía tinha sido especialmente reservado por Ricardo para papai e mamãe, e, por equívoco, nos mandaram para lá. Melhor relaxar e aproveitar.

Saímos para o Maracanã uma hora antes do jogo e aprendemos uma dura lição: nunca subestime um engarrafamento numa grande cidade. O trânsito não estava parado, mas estava quase. No carro que fui ficou logo clara a divisão dos grupos. Papai e Eduardo eram os pessimistas, mamãe e Taíssa eram as neutras e, no fundo do carro, Lígia, Duda e eu, éramos as otimistas, animadíssimas. Os pessimistas iam praguejando: “já perdemos o primeiro tempo”, “vamos perder o jogo”, “os carros não andam”, “vai chover”, “é capaz de alagar as ruas”. As neutras iam rindo dos dois grupos. As otimistas iam cantando: “O Maraca é nosso! Há, há, hu, hu! O Maraca é nosso! Há, há, hu, hu!” Depois do gol do Fred no primeiro tempo, que ficamos sabendo pelo rádio, adaptamos a música. “O Fred é nosso! Há, há, hu, hu! O Fred é nosso! Há, há, hu, hu!” E não tinha nada mais engraçado que ver Duda, aquele projeto de gente falando toda animada: “- Amiiiiga, o Fred é lindo!!!!” Para matar de raiva seu pai, um flamenguista doente.

Chegamos ao Maracanã no intervalo do jogo, com o placar 1x0 para o Flu. Encontramos com o resto da turma e Willian, o amigo do Eduardo, e fomos correndo para a arquibancada. Na entrada, uma bela surpresa. Tocava no som do estádio o hino do Fluminense. Foi de arrepiar. Papai, Amanda, Camila, Luiza, Ricardo, Renato e eu subimos a rampa que dava acesso à arquibancada cantando a plenos pulmões. Só para registrar, os únicos que desandaram e não são fluminenses na família são os flamenguistas Eduardo, Ligia e Taíssa. Duda ainda está confusa.

Ao entrarmos na arena, que visão! O Maracanã é realmente tudo que sempre ouvi falar. Um templo apoteótico do esporte que mexe com as nossas emoções. Recomeça o jogo. Tudo que ficamos sabendo do primeiro tempo não se repetiu no segundo. O Flu, que havia começado o jogo com boa movimentação, toque de bola e ameaçador, voltou do intervalo com o pé no freio e não assustava ninguém. O resultado foi o crescimento do Vitória, que aos 39 minutos carimbou o gol: 1x1. Mas nosso otimismo não foi em vão e o sofrimento durou muito pouco. Três minutos depois, Alan não desperdiçou sua chance e marcou: 2x1 para o Flu, placar final. E enfim pudemos conferir o estádio sacudindo as bandeiras tricolores ao maravilhoso som de gooooooolllll!!! Foi a primeira vez que fui ao Maracanã, mas a mamãe, ao tirar por seus comentários, foi a primeira vez que ela ouviu falar em futebol. Toda interessada, perguntou:

- Almiro, quem é aquele homem de camisa amarela correndo no campo?

Um tempo depois, indignada, ela quis saber: - Por que o jogador do Flamengo não parava de segurar o jogador do Fluminense?

Mais na frente, assustada e preocupadíssima quando um jogador caiu: - Ai meu Deus, o quê vão fazer agora?

E nós ficamos a nos perguntar: - Quem se candidata a explicar o impedimento?

Uma regra de quase todas as viagens é desregular completamente a rotina de alimentação, e nessa excursão não foi diferente. Mudaram os horários, as quantidades ingeridas e, principalmente, a qualidade dos alimentos. Experimentamos muitos peixes, mariscos e saborosos temperos exóticos. Em um desses almoços, num restaurante muito conceituado do Leblon, papai escolhia com todo o cuidado seu prato, pois apesar de muito apreciar peixes e mariscos, tem uma séria alergia a camarão e afins. Depois de olhar e analisar cuidadosamente, encantou-se com um prato à base de “cavaquinha”. Em dúvida, perguntou:

- Elcy, cavaquinha é peixe ou marisco?

Mamãe: - Acho que é peixe e pelo jeito deve ser delicioso. Prova Almiro!

Animadíssimo, ele pediu o “peixe”, e como o casal tem um rol de conhecimentos bem mais amplo que os nosso, ninguém questionou. Foi só acabar de comer, na mesma hora ele começou a sentir algo incomodando. Tomou imediatamente um ante-alérgico oferecido por Karina. O remédio deve ter diminuído os efeitos da reação alérgica mas não a impediu completamente. Em poucas horas sua boca fazia inveja em Angelina Jolie e os olhos não deixavam nada a dever para Rocky Balboa na derradeira luta de cada um dos episódios de sua saga. A cavaquinha, que agora sabemos tratar-se de um crustáceo de alto potencial alergênico, rendeu uma noite de cama para o papai e alguns dias com os olhos ainda um pouco inchados.

Durante a estadia fomos ainda no Jardim Botânico, nas pedras do Arpoador, na Lapa, na feirinha de Ipanema, assistimos algumas peças e passeamos de bondinho até o morro da Urca e o Pão de Açúcar. Nesta empreitada, do alto do Pão de Açúcar, contemplando com Cauê a grande cidade recortada por morros, vegetação e mar, cheguei próximo ao seu ouvidinho e sussurrei:

- Olhe bem meu filho. Você ainda vai viajar muito na sua vida, mas acredito que não irá conhecer cidade mais linda no mundo.

A minha intenção não era sugestioná-lo, queria apenas que ele registrasse na memória aquele momento, que fotografasse mentalmente para comparar com tudo que ele ainda vai ver, e então tirar suas próprias conclusões. No futuro veremos se funcionou. Talvez para ele seja cedo ainda para formar qualquer conceito, mas para mim não. Ainda quero ver muita coisa e conhecer muitos lugares mágicos, mas por enquanto posso dizer que voltei do Rio com a impressão que tinha antes bastante reforçada: que Cidade Ma-ra-vi-lho-sa.

domingo, 5 de julho de 2009

Memórias de viagens III: em trupe para Gramado

Se o casal de paraíbas viajando sozinhos protagonizam uma lista razoável de mancadas, imagina quando decidem sair em família. Foi o que aconteceu no último feriado de São João.



A turma, bastante eclética, tinha um grupo de crianças com três meninas, Gabi (8 anos), Cacá (6) e Lulu (6); os adolescentes e jovens adultos, com Nathália (14), Bruno (16), Paulinha (20) e Nanda (22); e os adultos, que acho desnecessário identificar as idades, com o casal Lula e Wilma, Luíza, a matriarca do grupo, e o casal de paraíbas. Ele, o paraíba, como sempre, elegeu-se o chefe da excursão, através de processos não muito legítimos. Ela, a paraíba, foi de curtição. O destino: uma semana em Gramado-RS. Mas essa aventura tem muitos capítulos, e para facilitar, vamos fatiá-la.




Capítulo I: Chegando Lá. Opção: "com emoção"



O grupo viajou dividido em dois. Passada a rotineira agonia do embarque, com os atrasos costumeiros e um congestionamento de gente no aeroporto de Salvador como eu nunca tinha visto antes, nos acomodamos no avião, ocupando nossos lugares marcados, a exceção de Paulinha, que conseguiu uma permuta com outro passageiro para ficar junto com Nathália e Bruno.



No vôo, com destino Porto Alegre, era programada uma escala em Sampa. Quando a aeronave pousou, o paraíba logo levantou-se e foi dar umas voltas para esticar o esqueleto. Neste meio tempo, três rapazes, jovens e muito educados, chegaram junto do trio Bruno, Nathália e Pulinha, e disseram, tranqüilamente, que aqueles assentos eram deles. Nossa ala jovem, completamente avoada, não se deu o trabalho sequer de verificar as passagens. Levantaram-se imediatamente e amontoaram-se no corredor, com umas carinhas de "o quê eu faço agora?"A paraíba, com uma calma que não lhe é peculiar, desconfiou do equívoco e foi checar os bilhetes de embarque. Na verdade, as poltronas dos rapazes realmente eram naquela fileira, mas do outro lado do corredor. Apenas um, o que sentou no lugar de Paula, estava totalmente certo. A paraíba explicou para eles a confusão e os dois, sem qualquer objeção, levantaram-se, permanecendo no lugar apenas o que estava correto.



Tudo tinha sido resolvido na mais completa ordem até que o paraíba, vendo tudo de muito longe e sem entender absolutamente nada, chegou intimando os rapazes, inclusive o pobre coitado que permanecia sentado no assento que era seu por direito. Nathália, totalmente sem graça, disse: "mas pai, esse lugar é dele!" A situação já estava um tanto constrangedora quando o garoto que era alvo da fúria do paraíba, mesmo estando todo certo e com uma gentileza incomum largou o golpe fatal, dizendo ao paraíba: "vocês querem ficar com esse lugar?" O paraíba, com um sorriso mais amarelo que suco de cajá, respondeu: "você faria isso?"



Novamente, todos acomodaram-se nos mesmos lugares do início da viagem, mas, provavelmente, aquele "tapa com luva de pelica" ficou latejando silenciosamente no rosto do paraíba pelo resto do trajeto. Quando chegamos em Porto Alegre, o tal rapaz, todo sorridente, com uma atenção no mínimo suspeita, se deu o trabalho de ir até Paulinha, que também o recebeu com um sorriso de orelha a orelha, para perguntar se a viagem tinha sido boa. Tanta gentileza estava, enfim, explicada.



Apesar de doido, o paraíba tem lá suas qualidades e, cheio de providência, tinha reservado o hotel e perdido algumas noites estudando o percurso no interativo "google earth". No aeroporto, ainda se achando o dono da excursão, tratou de pesquisar o táxi e acertar tudo, e, vamos combinar, considerando que seus serviços saem por custo zero, os mesmos são até satisfatórios.



Antes de sairmos em dois carros, os motoristas conversaram algo só entre eles. Quando os táxis pararam em frente ao hotel, o paraíba perguntou quanto era a corrida e começou a travar com o motora uma pequena discussão sobre o valor. Enquanto o embate inflamava-se, Wilma sentou na porta do hotel com uma fisionomia desolada e quase era possível ler num balãozinho sobre sua cabeça: "de novo não...". Lula assistia a tudo achando um pouco exagerado e Paulinha dizia: "ai meu tio".



De modo geral, ninguém estava entendendo muito a questão. A paraíba perguntou discretamente a Lula quanto tinha sido a corrida no carro deles e, para sua surpresa, Lula respondeu: "o taxista não disse o valor, falou apenas que era o mesmo de vocês". Então, caiu a ficha: o paraíba tinha toda a razão. Os dois motoristas combinaram para arbitrar um valor conforme o nível estimado de patetice dos turistas e, pelo jeito, fomos considerados de alto nível.



Antes de entrarmos no carro, o motorista havia informado que o valor não passaria de "x".Quando chegamos no hotel, o taxímetro informava um valor 25% menor que "x", e o motora teve a cara de pau de cobrar 30% a mais que "x", ou seja, quase o dobro do registrado pelo taxímetro. Deixando os tais "xis" para lá, em português claro, estávamos sendo roubados. Assim, a paraíba e Lula também entraram na discussão em incondicional apoio ao paraíba. Aos poucos, os gaúchos perceberam que não seria tão fácil e recuaram, cobrando o valor correto.



Ficamos nos instalando no hotel enquanto, em Salvador, o restante da turma embarcava rumo a Porto Alegre, com Luíza, Nanda, Lulu e Cacá. Para as pequenas, o avião era uma grande novidade. Logo que a aeronave decolou, Cacá informou que precisava urinar e Lulu apressou-se em anunciar: "ih, o motorista vai ter que parar o avião para Cacá fazer xixi."



No desembarque, longe de casa mais de 3.000km, um rosto familiar era como um oásis, e Luíza logo acenou de longe, quando veio a pergunta:
_Vó, para quem a Sra. está dando tchau? - perguntou Nanda.
_ Não é o seu pai ali? - respondeu Luíza.



Não era, mas deixa para lá.




Capítulo II: Turismo em Porto Alegre



É claro que os paraíbas ainda não tinham reservado, alugado ou programado nada em relação a carro ou qualquer outro transporte para o deslocamento de Porto Alegre para Gramado, e, diante da dificuldade em conseguir qualquer coisa no domingo, a subida para a serra teve que ser adiada para o dia seguinte. Tudo bem, vamos explorar a capital gaúcha.



Saíram todos muito arrumados, entre lã, couro e materiais com efeito térmico, com pelo menos quatro camadas de roupa, cada um, prevendo uma nevasca de surpreender o Alaska. Lula, um incansável atleta de maratonas, lamentou ter que ficar de pernas para cima no hotel o dia todo, mas submeteu-se a tal sacrifício para acompanhar Nanda, sua filha, que não se sentia muito bem.



Mapa na mão, lá se foi o restante do grupo em direção ao centro da cidade. Na caminhada até o metrô, o paraíba, com um senso de direção apurado e uma rara habilidade em leitura de mapas, tomou a frente e, mesmo sob o protesto da paraíba, elegeu o caminho. Não demorou para perceberem a furada que haviam entrado. O passeio para pedestres logo acabou. Dividindo a rua com os carros, atravessaram túnel e entraram numa via expressa. Diante do perigo da empreitada, resolveram enfrentar o matagal, resquício da Mata Atlântica, que margeava a pista. Mas o que era uma mata selvagem, a lama nos sapatos e alguns carrapichos na roupa diante da vontade louca de curtir o passeio. Vendo tanta animação, o sol não quis ficar de fora, e nos presenteou com um calor inesperado. Com o suor escorrendo, aos poucos, como cebolas perdendo as camadas, fomos arrancando as roupas. Andamos, andamos, e nada. Não avistávamos qualquer sinal de estação de metrô, de passeio para pedestre ou mesmo de gente, a não ser as que passavam por nós a oitenta quilômetros por hora, dentro dos carros. Por mais estranho que possa parecer a cena, aquilo estava hilário, e continuamos até que Luíza, tomando a frente, declarou: "eu vou voltar!" Na mesma hora, todos a seguiram, mesmo sob o protesto do paraíba, que insistia em dizer que a estação estava logo ali na frente.


Enfim na estação, chegou o metrô que nos levaria até a parada do Mercado. No rítmo baiano, começamos a ingressar no vagão um a um, até que a porta se fechou, para nossa surpresa, deixando Nathália de fora. O paraíba não contou conversa, desceu na estação seguinte para ir resgatar a filha, enquanto a outra filha, Gabi, em prantos, chamava pela irmã, achando que nunca mais a encontraríamos. O restante seguiu até a estação do mercado, para aguardar lá. Se não fosse pela preocupação e tristeza de Gabi, a situação inusitada, novamente, inspirava o riso. Apesar de tudo, como bons brasileiros, tínhamos esperança de conseguirmos passear na cidade ainda naquele dia.



Reunidos novamente, andamos pelo centro, fomos à Praça da Alfândega, onde entramos no Museu de Artes do Rio Grande do Sul; visitamos a praça da Matriz, passamos pelo Theatro São Pedro, o Palácio Piratini, sede do Governo, a Assembléia Legislativa, e conhecemos a Catedral Metropolitana, com uma enorme cúpula; depois, almoçamos no Galpão Crioulo. Uma parte do grupo debandou e foi conhecer também o Estádio Beira Rio e o mirante da TV. Por fim, depois de muito andar e de 327 registros fotográficos de Bruno e suas performances, terminamos o dia na Usina Gasômetro, antiga termoelétrica da cidade, à beira do rio Guaíba.



Por hora, já estava de bom tamanho.






Capítulo III: A Odisséia de Subir a Serra




A segunda-feira prometia ser gloriosa. Acordamos empenhados em alugar os carros, arrumar tudo e se mandar. Luíza, cheia de aitude, não esperou ninguém. Ligou para algumas empresas, escolheu a sua e alugou um Palio preto, que rapidamente foi levado até o hotel. Lula e o paraíba decidiram-se por outra locadora e tiveram que atravessar a cidade de ônibus para ir buscar o carro. Enquanto isso, ficamos todos os demais aguardando no hotel.





Considerando o horário limite para o check-out, fechamos a conta e ficamos com a bagagem aguardando em um pequeno estar ao lado do hall do hotel. Gabi, Cacá e Lulu, que de santas não tem nada, estavam soltas, dando nó em pingo de éter. As três mexeram no computador destinado a utilização dos hóspedes e conseguiram desconfigurar absolutamente tudo. Como se não bastasse, Gabi achou no banheiro um frasco de lavanda com burrifador, para ser utilizado moderadamente dentro do próprio banheiro. Ela se encantou com o brinquedinho e borrifou lavanda em todo o hotel. Devo adimitir que ficou tudo muito cheiroso, mas a dona do hotel, que circulava por lá, pirou e saiu despejando desaforo em todos que estavam por perto. Pronto, nosso filme já estava queimado naquele hotel.


TEXTO EM ELABORAÇÃO


Depois de mais de três horas de espera, chegaram os dois. Lula com um Fiat Uno vermelho, e o paraíba com um branco. O grupo se dividiu em três carros. A turma jovem não abriu mão de ir com Luíza. As pequenas foram com Lula e os paraíbas saíram sós. Tudo arrumado, fomos em direção a Gramado. No caminho, os paraíbas na dúvida entre qual rumo seguir, estacionaram o carro atrás de uma viatura de polícia em Novo Hamburgo e desceram para perguntar. A recepção foi ótima e a conversa começou a ficar animada, com gesticulações exageradas e tal. Os outros dois carros só se aproximaram depois
Bateu o carro


Quando chegaram à Gramado, todos os contra-tempos foram compensados. A cidade é linda, realmente mais do que o esperado. Os três carros em comboio percorreram a cidade apreciando o estilo das edificações, a harmonia do urbanismo, a iluminação. Luiza, no carro com o grupo jovem, se encantava com todos os detalhes:


- Olha, que linda aquela casa! Oh, que graça aquele restaurante. Gente, que beleza é o paisagismo. Vejam as ruas, tudo tão limpo, iluminado.


Enquanto observava tudo, se afastava do centro seguindo o carro do Paraiba. Este, por sua vez, foi preciso. Com o google earth decorado, deu uma volta de apresentação na cidade e seguiu para o endereço da pousada.

Aguarde o restante do capítulo ...



sábado, 16 de maio de 2009

Memórias de viagens II: os paraíbas entre "los hermanos"



Sim, os paraíbas desta vez foram mais ousados. Passaporte na mão, atravessaram a fronteira, enfrentaram o desafio do idioma e foram dar uma banda nos parceiros do Mercosul: Argentina e Chile. Ele se achando o chefe da excursão, ela se achando a intérprete do grupo.

Saída de Salvador com um pit stop no Rio de Janeiro, rumo à Buenos Aires. Era para ser uma breve parada na Cidade Maravilhosa, tipo desce, apresenta a documentação, despacha alguma coisa e vai embora, mas eles conseguiram o improvável: perderam o avião. Ele diz que foi ela. Ela diz que foi ele. Não interessa, ficaram os dois. Tudo bem, quatro horas depois eles embarcaram.
Como bons paraíbas do Norte e Nordeste, o frio era um desafio. No Brasil conseguiram descolar uns casacos emprestados. Ela, se deu bem, chegou desfilando um esportivo Paco Rabanne de couro marrom. Ele, desceu do avião parecendo um esquimó crescido além da conta. Era um bonito casaco, mas talvez fosse mais adequado para "A Era do Gelo I", quando o gelo ainda não tinha começado a derreter. Vamos trocar dinheiro.

No primeiro câmbio encontrado: - quanto é? - A moça é simpática, mas fala um pouco enrolado. Pero que sí, pero que no!!?! Saíram com os pesos na mão. Quanto foi mesmo? O quê? Fomos roubados! Vamos logo para Bariloche!
Que graça é Bariloche, a porta de entrada da Patagônia argentina. A cadeia de montanhas cobertas de neve, o centro cívico, a catedral, o lago Nahuel Huape, as tonalidades do céu ao entardecer. Mal podiam esperar para esquiar! O quê? Não tem neve? Esqui só daqui a dois meses? Mas como ninguém falou nada? Tudo bem, eram inúmeras opções de passeios mais ou menos radicais nas proximidades da cidade. Foram conhecer as cavernas "Los Leones", há 30km de Bariloche, com direito, segundo as propagandas, a vistas maravilhosas, pinturas rupestres, trechos de difícil acesso, lago no interior da gruta e breu total. Vistas maravilhosas sim, mas a caverna era curtinha, o lago pequenininho, o breu era olhando só para um dos lados da caverna e a pintura rupestre, tinha que usar muito a imaginação. Quanto ao trecho de difícil acesso, se você tem mais de 95 anos, é melhor não ir. De modo geral valeu, mas para quem anda pela Chapada Diamantina, o passeio parece um pouco aquém das expectativas.

Depois de andar o dia todo, o chuveiro quentinho do hotel era uma tentação. Também tinha uma água bem quentinha no bidê, diria atéuma "água escaldante", e ele descobriu isso da pior maneira possível.

A montanha "Tronador", aparentemente a mais alta da região, ainda tinha neve. Então, vamos conhecer. Passeio contratado, saíram com máquina fotográfica em punho, sonhando com a guerra de bola de neve. Os argentinos sabem mesmo valorizar suas atrações turísticas. Um galho atravessado na estrada transforma-se em um "fragmento vegetal centenário testemunho de civilizações pré-colombianas digno de parada para registros fotográficos". Os paraíbas embarcaram nessa. Fotografa isso, fotografa aquilo, e a bateria da câmera acabou antes da metade do passeio. Não tem problema, o importante era viver o momento. Várias paradas depois chegaram ao pé da montanha, realmente linda, mas, como é? Não pode subir? Não pode por quê? Adiada a batalha de neve.

E o idioma, uma delícia. Entende-se tudo. Pararam para fazer algumas ligações internacionais, comprar jornal e etc. Depois de muito blá, blá, blá no telefone, o senhor que os atendia entregou a conta comentando:

- ¿Muchas novias, heim?
Tradução: "Muitas namoradas, heim?"
Ele não ouviu, não entendeu e deixou para lá. Ela, muito entendida de espanhol, largou a pedrada: - Si, muchas novidades.
O senhor continuou: - ¿Es muy celosa?
Tradução: És muito ciumenta?
Ela, sem entender muito bem o porquê da pergunta e completamente desnorteada, responde: - Si, muy celosa.
Tradução do que ela entendeu e pensava estar falando: “Sim, muito cheirosa”. Por hoje está bom, pega o jornal e adios!
Não dá para visitar a região sem pensar em saborear os vinhos, mesmo para os que não são exímios apreciadores, como os paraíbas. Acompanhado de parrilla, fondue ou truta, sempre ia bem. Mas foi num pequeno barzinho underground, intitulado Che (do Guevara, só para esclarecer), ainda em Bariloche, em parceria com uma pizza bem mais ou menos, que rolou o momento mais descontraído e prazeroso do vinho, talvez o mais agradável momento a dois da viagem.

Sem rumo certo, foram parar em San Martin. Pura sorte. Trata-se de uma pequena cidade linda encravada num vale no fim dos "Sete Lagos", com gabarito de no máximo três pavimentos e arquitetura dos Alpes. Optaram por uma exploração by bike. O "tur" rendeu bons momentos, lindas vistas, lindas fotos e, para ele, dores na região dos "países baixos". De San Martin, agora, para o Chile. Destino: Pucon. Foi de lá que saíram para a expedição no vulcão Vila Rica.
Neste dia tudo estava perfeito. Os paraíbas estavam se falando, o céu estava claro, sem previsão de chuva ou neve, e o frio não chegava a ser assustador. A subida não é só para profissionais, mais está longe de ser uma empreitada fácil, basta dizer que muita gente não se atreve a ir e outros tantos ficam pelo caminho. A cidade fica 800 metros acima do nível do mar, subiram mais 600 metros de carro, 400 metros de teleférico e 847 longos metros andando até o cume, de onde puderam ver a cratera do vulcão, com 600 metros de profundidade. No grupo haviam dois chilenos (os guias), uma australiana, um inglês, dois franceses, uma colombiana, um tcheco e os dois paraíbas, os autênticos representantes do Brasil. Também haviam pelo menos mais uns três pequenos grupos explorando o vulcão naquele mesmo dia. Entre português, espanhol, inglês, portunhol e outros dialetos improvisados, entenderam-se todos. Durante a caminhada, aos poucos, as pessoas iam se distanciando, ficando algumas para trás, voltando a se reunir novamente a cada parada. Cada trecho vencido era uma vitória da vontade de estar lá, de chegar, de vivenciar tudo aquilo. De cima, sacudidos intensamente pelo vento, entre a fumaça e um forte odor de enxofre, víamos a cratera, e ao redor do monte, um imenso deserto de nuvens. Foi, sem dúvida, um desafio recompensador e o momento mais emocionante da viagem.
No Chile, ainda foram conhecer Santiago, depois voltaram para a Argentina, passaram por Mendonza e finalizaram a viagem em Buenos Aires, apreciando um elaborado espetáculo de tango. Tirando o que não prestou, foi tudo ótimo. De qualquer maneira, viajar é mesmo sempre bom. Só para registrar: na volta, chegaram no horário e não perderam o vôo.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Memórias de viagens I: dois paraíbas na cidade grande


Ele, não exatamente um paraíba. Um baiano, da capital, muito tirado a esperto. Ela, veio de mais longe, do norte, quase da selva. Aparentemente desligada, imagem reforçada pelos longos cabelos dourados, mas era apenas um equívoco gerado pela aparência. Os dois, ele e ela, em São Paulo, por nove dias.

A programação era extensa. Muitas indicações de amigos, lugares que eles queriam rever, lugares novos para conhecer, eventos com data e hora marcadas. Nove dias dá para muita coisa. Mais ou menos. Se o horário médio para acordar não fosse 10h da manhã; se o percurso, em geral, não fosse uma pernada, um ônibus, metrô, troca de linha, metrô, pernada novamente (só num trecho); se não fosse o trânsito, as indecisões, as mancadas.

Vamos lá! Começaram pelo Museu do Ipiranga. Descolaram uma carona e ótimas companhias. Que bom! Era mesmo longe. O edifício, imponente, com três pavimentos, foi construído entre 1885 e 1890 para ser um monumento à Proclamação da Independência. Ele e ela arquitetos,"entendidos", investigaram o estilo arquitetônico, as ordens construtivas, a divisão espacial. Tinha acervo para várias horas de visitação. O cotidiano, a sociedade, o trabalho na grande São Paulo da virada do século 20. Maravilha, se o museu não fechasse às 18h e eles não tivessem chegado às 16h30. Corre, entra em sala, sai de sala. Olha, mas não lê, não dá tempo. No fim, a cada ambiente que saíam apressadamente, as portas fechavam-se atrás. O passeio no jardim, uma volta no parque, nem pensar. Não havia tempo, nem mais luz natural.

Precisavam ir à rua 25 de março. Muitas encomendas, muitas coisas para comprar. Relógios, brinquedos, lanternas, sutiãs, canetas, baterias. Olha, experimenta, pergunta o preço, pechincha, olha em outro lugar, pergunta, negocia, chora, deixa para outra hora. Saem com nada nas mãos.

Vamos ao MASP, conhecido dos dois. Exposição "Da Bauhaus aos dias de hoje"; arte conceitual. Diante de um bastão de aproximadamente 60cm, com anéis articulados e colorido como um berimbau do Mercado Modelo, definido como arte móvel, estabeleceu-se o silêncio. Se a intenção era provocar o deleite, não os tocou. Se era incomodar, eles poderiam sugerir algumas utilizações para o mesmo. Mas deixemos por conta da imaginação de cada um. Sentaram para assistir um vídeo, igualmente conceitual. Analisaram a composição, o ritmo, o vestuário, os personagens, as interpretações, a marca dos carros que protagonizavam as cenas, mas o quê dizer sobre o conteúdo do vídeo? Sobre a alma da obra? Não captaram. Tudo bem, é conceitual.

Haviam muitas recomendações para visitarem o Mercado Municipal. O prédio de época, o burburinho do movimento, o imperdível pastel de bacalhau. Ela, louca para ir. Ele, doido para sabotar o passeio. Vamos hoje. Não tem tempo, está fora da rota. E o que é que tem de bom lá mesmo? Não interessa! Vamos porque vamos! Que horas são? 13h30! Fecha às 15h. Corre, pergunta, anda mais rápido. Onde fica? Logo ali. Chegaram. Por fora, não era bem o que ela esperava. Por dentro, é só isso? Era tudo o que ele queria, e o comentário foi imediato: “vim de Salvador para ver cebola, tomate e batata?” Realmente a Feira de São Joaquim – em Salvador – era mais pitoresca. O prédio era feio e sujo, o movimento era nulo e o pastel de bacalhau não existia. Saíram decepcionados. Ele tripudiando. Ela “P” da vida. No dia seguinte, ao ver numa galeria comercial a foto de um lindo mercado, ela reconheceu a imagem que já havia visto em revistas e TV, e perguntou: “essa foto é do Mercado Municipal?” A resposta foi positiva. Eles tinham visitado o mercado errado.

Voltemos à 25 de Março. Olha mais um pouco. Pesquisa preço, garantia. No bom chinês: - Este “zafira”? - Este “nô zafira”! - Depois a gente volta.

Numa leva só, visita à Estação da Luz, Museu da Língua Portuguesa e Pinacoteca do Estado. A secular estrutura de ferro da estação, a tecnologia e exposição interativa do moderno museu, o bonito prédio e o rico acervo da pinacoteca. E lá mesmo, lá pelas tantas da visitação, depois de várias obras e artistas de projeção nacional e internacional, ele conclui: “gostei de tudo, mas realmente identifiquei-me com essa tela”, apontando para a mesma. Ela ficou chocada. Tratava-se de um óleo sobre tela de aproximadamente 2,50m x 2,00m, de Cândido Portinari. Na obra, datada de 1948 e intitulada “Floresta”, via-se dois veados estáticos no primeiro plano, contemplando a pasmaceira da mata, vários outros veados saltitantes no segundo plano, e diversos outros animais mimosos espalhados pelo quadro. O quê exatamente ele quis dizer com “identifiquei-me”? Vamos embora, que é melhor.

Corrida no Parque Ibirapuera, sushi, shopping center, pizza, Jóquei, barzinhos, lojas de fantasias, outra pizza, festa. É ótimo ir a Sampa. E, antes do avião rumo à Salvador, para finalizar, só mais um pulinho na 25.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Bons momentos




Quanto vale um momento de muito prazer? Tem preço? Então, quanto valeria um momento de êxtase? Ei, espera aí! Não é bem disso que estou falando! É muito bom também, mas não é o tema. Abstraia e vamos começar novamente, canalizando para um lado mais subjetivo. Então, quanto vale? Acho que vale investimentos, algumas doses de sacrifício e inúmeras horas de espera, se necessário. Neste fim de semana que passou, vivi um destes momentos.

Deitada sobre um grande platô de pedra na gruta do Lapão, depois de descer em um rapel na negativa de aproximadamente 55m, contemplava o imenso salão na chegada da gruta, observando o restante do grupo descer, um a um. Aparentemente poderia parecer apenas mais um lugar privilegiado pela beleza natural, mas todo o contexto, para mim, significava mais. Acho que ninguém realmente notou o que se passava comigo naquele momento, também achei desnecessário comentar. Curti, solitariamente, cada segundo da experiência. Quando a lágrima rolou vagarosamente, celebrando a felicidade de estar viva naquele lugar, naquele exato momento, enxuguei rapidamente, não por não querer compartilhar, mas por não querer verbalizar nem um instante do que se passava.

A Chapada tem mesmo esse poder. Para situar, estou falando da Chapada Diamantina,e a gruta onde estávamos localiza-se a aproximadamente uma hora e trinta minutos de caminhada pela trilha a partir de Lençois. Já havia andado algumas vezes pela região, em trakings de três ou quatro dias sem vestígios de civilização, e conhecido lugares muito especiais, mas cada lugar e momento tocam a gente de maneira diferente. Além disso, por razões diversas, havia seis anos que não pisava naquelas terras. Foi bom voltar.

Gostaria de poder multiplicar esses momentos de êxtase diante de acontecimentos imprevistos. Talvez exatamente por assim ser tais momentos, imprevistos e não reproduzíveis, sejam eles tão especiais. Mas alguns ingredientes necessários para que aconteçam são possíveis de identificar: 1) lugares mágicos; 2) se acompanhada, que seja de pessoas especiais; e pelo menos nestes momentos, 3) ter “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”.

Aos vinte e cinco anos, na praia de Ajuruteua, localizada em Bragança - Pará, vivi uma sensação semelhante. Tinha ido acampar nas dunas da praia com meu namorado, que algum tempo depois viria a ser meu marido. Chegamos quando anoitecia e, rapidamente, tivemos que descarregar o material para montar o acampamento antes que escurecesse. Quando tínhamos tirado tudo do carro e a barraca estava em pé, mas ainda não totalmente fixada no chão, fomos surpreendidos por uma tempestade de areia. Mal podíamos enxergar, víamos apenas os vultos enquanto ainda foi possível ver, porque com pouco tempo a areia entrou nos olhos e não consegui mais abri-los. Ele, por usar óculos, teve uma certa vantagem, e conseguiu localizar-se e tomar as providências necessárias: colocar eu e toda a “tralha” de volta no carro. Não seria mais possível acampar. Aguardamos um tempo dentro do carro até que a tempestade se dissipasse para irmos procurar uma pousada. Quando parou, resolvi tomar um banho de mar, para tirar a areia grudada no corpo. Ele ficou esperando no carro. Não sei qual era a lua no dia, mas o céu estava limpo e a noite nem tão clara, nem tão escura. A maré estava baixa, tanto que chegando à água não tinha mais contato visual com ele. Quando comecei a entrar no mar, não creditei no que vi. A sensação foi uma mistura de surpresa, medo, curiosidade e deslumbramento. À medida que ia entrando e mais volume de água deslocando, mais brilhava a água em milhões de gotículas fosforescentes esverdeadas. Pelo amor de Deus, o que era aquilo? Nunca tinha visto, nem ouvido falar em algo semelhante. Saí correndo para buscá-lo, mas fui com um pouco de medo que fosse um delírio meu que não pudesse ser compartilhado ou que, sendo real, quando voltasse não existisse mais. Ao chegar, não falei e nem expliquei nada, disse apenas que tinha que ir comigo para ver algo e tinha que ser já. Quando voltamos, as luzes ainda estavam lá. Entramos no mar e nadamos maravilhados. Sentados no raso, ficávamos extasiados quando, ao jogar a água para cima, ela caía rolando pelos nossos corpos dividida em milhares de pontos luminosos. Simplesmente brilhávamos. Naquele momento, aquilo para mim era um milagre. Não queria saber se tinha uma explicação científica, se era uma interferência alienígena, ou se os dois dividiam um delírio. Era simplesmente um milagre.

Ao retornar para Belém, contei para algumas pessoas, que também não sabiam do que  tratava-se e escutavam a história com uma certa desconfiança. Quase um ano depois, assistindo na TV um programa de ecologia, descobri tratar-se de um fenômeno da natureza chamado bioluminescência, onde microorganismos em suspensão na água tornam-se fluorescentes, provavelmente em função de alterações de concentrações de nutrientes na água. Meu lado racional gostou de ter a informação, mas prefiro guardar a lembrança como a de um milagre que tive o privilégio de presenciar.

Outra vez, quatro anos antes, quando tinha vinte e um, estava na ilha do Marajó com um grupo de dez amigos. Essa maravilha localizada no Pará é considerada a maior ilha flúvio-marítima do mundo, cercada pelo Oceano Atlântico e pelos rios Amazonas e Tocantins, com uma característica rara: praias onde as águas ora estão doces, ora estão salgadas. Passávamos o dia na praia de Joanes, no município de Salvaterra. Não sei como as coisas estão por lá hoje, mas nessa época, em 1990, a praia ainda era bem selvagem, e a vegetação chegava até a areia. Depois de curtir algumas atrações do local, como as ruínas de pedra da velha igreja jesuíta erguida no século XVII, fomos – eu, uma amiga e dois amigos – explorar a área. Entrando um pouco pela mata, nos deparamos com uma velha casinha de madeira, bem humilde. Encostado na janela estava um velhinho, sozinho, contemplando placidamente a calmaria do lugar. Ele era franzino e tinha a barba e os cabelos longos, bem branquinhos, uma imagem que lembrava o misterioso “véio do rio”, da memorável novela “Pantanal”. Puxamos conversa e ele falava pouco, mas papo vai, papo vem, fomos parar nos fundos da casa, onde havia um igarapé na beira da varanda com uma canoa encostada. Pedimos emprestada a canoa e saímos os quatro, igarapé à dentro.

O termo igarapé é de origem indígena e significa “caminho de canoa”, o que estava totalmente condizente com a situação. O caminho era um “furo”, entretenimentos naturais da ilha, que são braços de rios ou de igarapés por onde só podem navegar pequenas embarcações, porque são margeados por vegetação nativa com trechos bem estreitos. Nosso roteiro não devia ser muito conhecido e visitado, pois era tudo muito selvagem. No trajeto, aos poucos a conversa foi cessando para dar lugar ao som da mata. Ouvíamos um sutil barulho do movimento da água provocado pela canoa e o remo, galhos quebrando pelo agito dos bichos e a música, às vezes discreta, às vezes estridente, entoada pelos pássaros e outros animais. Em determinados momentos o caminho ficava tão apertado e a mata tão densa que chegava a fazer um túnel e tínhamos que abaixar na canoa para conseguirmos passar. A energia era indescritível. Uns quatro anos depois, voltei ao local. Corri tudo procurando a velha casinha, a canoa, o “véio do rio”, mas não achei. Perguntei para uns nativos, e ninguém conhecia ou lembrava ter visto ou ouvido falar. Tenha lá uma explicação lógica, ou seja uma alucinação coletiva, eu vivi aquilo e isso ninguém me tira.

Ao contrário do que possa parecer pelos relatos anteriores, pelo menos para mim, estar rodeada pela natureza não é pré-requisito indispensável para viver experiência semelhante. Em outra oportunidade tive a mesma sensação dentro de uma igreja completamente vazia. Não estava lá por motivação religiosa ou turística. Simplesmente estava lá, sozinha, atrás de uma balaustrada no primeiro pavimento, observando a nave principal, o altar, as imagens; tudo muito singelo. A igreja era a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Belém. O início da construção atual data do século XVIII e o projeto foi doado pelo arquiteto italiano Landi, que assina várias outras edificações do mesmo período que são referência na cidade. Na literatura existem alguns relatos da labuta dos negros carregando pedra e outros materiais durante a noite, para erguer seu templo. Não sei exatamente o que me comoveu, mas passei alguns minutos mágicos envolvida pela atmosfera daquele lugar.

Voltando à viagem deste fim de semana, nem todos os momentos foram “sublimes”, mas quase tudo foi divertido. Voltei com algumas feridas nos pés, mas o que é isso diante de todo o contexto. Concluindo, não posso indicar endereços certos para vivências especiais como as relatadas, mas se é para arriscar um local bastante propício, o lugar é exatamente esse: Chapada Diamantina. Confira você mesmo.