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terça-feira, 1 de março de 2011

Eu e minha sandália


Isso vai, isso não vai. Esse talvez, aquele com certeza não. Mas aquilo, que vai, é tão específico, e talvez seja melhor não ir. E aquele outro, que não vai, é tão lindo, que mal há em levá-lo para dar uma volta? Fazer a mala é sempre um tormento, um problema que nem mesmo a matemática avançada atreve-se a por mão. Mais uma vez estava eu em reviravoltas com a bagagem. A meta era uma malinha compacta para três dias em Goiás, com a família. Quando na arrumação descobri que a sandália que usaria no evento de sexta seria perfeita também para a festa de sábado, comemorei. Menos um trambolho para carregar.

Já em Goiás, na sexta à noite, calcei a sandália e circulei encantadora por um teatro lotado. No dia seguinte, pela manhã, tive que calçá-la novamente, pois havia deixado a mala na casa da prima Paula, mas acabei indo dormir na casa do primo Junior, sem nada na mão. Quando enfim reencontrei minha bagagem e troquei de roupa, verifiquei que a parte da frente dos dois pés da sandália estava começando a descolar, um contratempo popularmente conhecido como "boca de jacaré".

Ai, ai, ai, pensa rápido, pensa rápido. Eu só tinha aquela sandália para a balada da noite. Sejamos objetivos, havia duas opções. A primeira: sair e comprar outra. A segunda: improvisar. Veja bem, não era qualquer sandália, existia uma empatia entre nós. Ela estava comigo há aproximadamente dois anos, mas só havia lançado mão de seus serviços umas cinco vezes. Tratava-se de uma charmosa sandália preta de salto alto e de boa marca que, sem querer fazer merchandising, direi apenas que começa com "A" e termina com "rezzo". Então pensei: é uma boa menina e o problema é um detalhezinho de nada. Resolvido, opção improvisar! Vou sair, comprar uma daquelas colas que colam tudo e não largam de jeito nenhum e, quando voltar a Salvador, levo no sapateiro para os reparos necessários.

Colei os dois pés do calçado e considerei o assunto encerrado. À noite, já toda pronta com um pretinho básico, calçava minha linda sandália quando uma das tiras, sem qualquer comprometimento com nossa agenda, soltou na minha mão. Espera aí, acho que esta figura não está entendendo muito bem a situação. Alooouuu!!!! Às dez horas da noite não existe plano "B", e não havia chance de folga, day off, compensação e etc., era ela ou ela mesma. Catei a cola e mandei ver na tira desnaturada. Por via das dúvidas, levei a cola na bolsa.
A festa era um baile de máscaras para comemorar os quarenta e cinco aninhos da tia Ângela. Minha tia estava feliz, o salão estava lindo e os convidados animadíssimos; e o que era bom, prometia ficar ainda melhor com a chagada da banda. Enquanto isso, ia dançando timidamente ao som do DJ, beliscando algumas iguarias e bebericando um espumante, para entrar no clima. Numa dessas, retornando à mesa, senti as passadas em falso. Olhei para baixo e constatei que em um dos pés, a frente e a lateral tinham descolado, e largavam para trás um discreto rastro de pedacinhos de sola. Hé, hé, disfarça! Olhei em volta para ver se alguém acompanhava a cena e acelerei o passo até a mesa. Com toda a calma tirei a pequena e operei uma restauração com precisão cirúrgica, um mosaico com cada pecinho em seu lugar. Enquanto desenvolvia o trabalho manual, ia conversando com ela. Usei toda a minha eloqüência para explicar o seu papel naquele momento, sua importância e responsabilidade, e enchi sua bola exagerando sobre seus atributos. Falei emocionada como um treinador numa preleção antes do jogo decisivo. Dez segundos segurando e pronto: a sandália estava nova mais uma vez.

Voltei para o movimento e a farra só esquentava. Estava totalmente à vontade e entornava o espumante como há tempos não fazia. Quando a banda começou a tocar seus roques nacionais e internacionais a festa “bombou” e o salão ficou cheio de gente alucinada cantando e dançando. A bagunça era ótima. Eu pulava, dançava e cantava a plenos pulmões, abusando do meu inglês que fica fluente depois de várias taças. Nessa hora, justamente no melhor de tudo, aquela filha de uma rapariga da minha sandália acha de desmontar. Não tive dúvida, corri para a mesa e sem descalçar esvaziei o tubo de cola em cima dela, sem dó nem piedade. Novamente, dez segundinhos e pronto. Pronto? Pronto o quê? Meu pé colou! Ai meu Deus! Puxa dali, empurra daqui e nada, a sandália grudou como uma sanguessuga faminta. Gritei meu irmão Renato, que estava por perto, e pedi a presença do primo Junior, o médico da família. Reunida a junta médica, o diagnóstico foi proferido.

- Você está ferrada! Isso só no hospital!

Quer saber, se o destino nos uniu, então vamos relaxar e aproveitar. Voltei para o salão e dancei como se nada tivesse acontecido. No início, pareceu que seria uma união feliz, mas aquela sandália era bipolar. “Tô” bem, “tô” mal. “Tô” bem, “tô” mal. Quem agüenta? A desgramada começou a desintegrar. Eu não disse descolar ou desmontar, eu disse de-sin-te-grar. Naquela altura, somente um exorcismo dos mais ortodoxos poderia expulsar do corpo da sandália o espírito maligno que a assediava. Haviam pedaços seus por todo o salão e não tinha mais como disfarçar ou fingir que não era comigo. Nossa tumultuada relação estava na boca do povo. Onde eu ia, lá iam atrás de mim funcionários do buffet com aquela vassoura grande de fazer faxina por atacado, varrendo os fragmentos que deixava para trás. A louca se desfez toda, mas não largou do meu pé, premonizando que a separação seria traumática. Não obstante os contratempos, ficamos até o fim da festa. Em casa, tentei soltar com água quente, acetona e todas as receitas que me deram. Sem sucesso, me resignei e dormi coladinha com ela. Na manhã seguinte, a prima Paula me libertou cortando a pele presa com uma tesourinha. O que sobrou da desvairada foi para o lixo sem lamentações.

Mais tarde, no almoço que comemorou o aniversário do papai, comentávamos a odisséia quando tia Gê lembrou outra história. Uns dezoito anos atrás, no casamento da tia Ângela (novamente a tia Ângela), agredi com uma faca de cozinha uma sandália que estreava naquela noite. A agressão não foi despropositada, a sandália me provocou a noite inteira esfolando meu calcanhar. Mas a lembrança me levou a concluir: festas da tia Ângela e minhas sandálias são incompatíveis. Na próxima, engesso o pé.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mas quem é ruivo na família?


Pois então, sou loura, meu ex-marido moreno claro e meu filho nasceu ruivo, ruivinho mesmo, com lindos cabelinhos cacheados cor de cenoura, que permanecem até hoje, aos seis aninhos. É uma coisa linda de ver, mas bastante difícil de explicar. Toda vez que ele é apresentado a alguém a conversa rola mais ou menos assim:

- Mas que lindo ele é! Você era ruiva?

- Não!

- O pai é ruivo?

- Não!

- E quem é ruivo na família?

- Ninguém!

Diante do impasse, para quebrar o clima das inúmeras interrogações que ficam pairando no ar, eu geralmente completo:

- Mas nós tínhamos um vizinho ruivo que era um espetáculo!

Todo mundo ri e fica mais a vontade, mas permanece aquela idéia fixa sobre mim: "puladora de cerca".

A história também me intrigava, mas não tinha nenhuma possibilidade de troca na maternidade, pois eu tinha visto ele sair de mim já ruivo depois de um demorado parto natural. Da mesma forma, não havia qualquer dúvida sobre a paternidade. Numa hora dessas somente a intervenção divina para explicar ou, quem sabe, alguma pegadinha da genética. Diante da dificuldade de comprovar intervenções divinas fui pesquisar a ciência dos genes.

Segundo consta, o fenômeno conhecido como "rutilismo" é provavelmente o resultado de uma mutação genética encontrada no décimo sexto cromossomo, o MC1R. Para que uma criança nasça ruiva é necessário que ambos os pais tenham a versão mutante do gene, e mesmo assim não existe nenhuma garantia que aconteça, visto que o gene é recessivo. Tente lembrar daquela aula de biologia do segundo grau, com os tais “azinho” e “azão”, heterozigotos e homozigotos, que metade faltou e a outra metade não prestou atenção. Falando de uma forma mais romantizada, o gene ruivinho não é muito eloqüente ao defender sua vez na fila, e só consegue se impor junto com seus pares. Ele pode ficar lá, escondidinho no organismo de indivíduos morenos ou loiros por várias gerações, esperando resignado a sua vez. Talvez por isso quando conseguem uma chance de surgir para o mundo são verdadeiras pimentas. Estão simplesmente tirando o atraso de gerações no silêncio e reclusão. Agora as coisas começavam a fazer sentido e reforçavam inclusive o depoimento de minha avó. Segundo ela, uma senhora de lindos olhos azuis piscina e cabelos que já foram castanhos claros, seu irmão e toda a sua descendência eram verdadeiramente ruivos ferrugem. E eu que sempre acreditei que ela havia carinhosamente inventado essa historinha para quebrar meu galho.

Somente isso já me dava condição de respirar mais aliviada. Apesar de ser uma conversa comprida e um pouco técnica demais para abordar todas as vezes que precisasse apresentar meu filho, pelo menos podia dizer que havia uma explicação plausível. Mas já que estava com a mão na massa, envolvida com minha pesquisa, não parei, e resolvi conhecer um pouco mais sobre o mundo e as especificidades dessas criaturas avermelhadas.

Descobri, por exemplo, que podemos descender em grande parte de ruivos, pois o tal MC1R, o gene que ao sofrer mutação produz cabelos vermelhos, foi encontrado numa análise de fósseis do homem de Neandertal, mas achei que a informação não acrescentou muito na minha cultura rubra. Gostei mais de saber que apenas 4% da população mundial é ruiva, com maior incidência na Escócia, onde um a cada 10 habitantes é ruivo. Eu bem que procurei, mas não encontrei nenhum estudo que indique o percentual dessas criaturas no Brasil e, especificamente, na Bahia, mas a julgar pelo entusiasmo que causam, acredito ser um percentual baixíssimo.

Por algumas ocasiões nesta década foi divulgada pela internet a provável extinção dos ruivos, talvez para aquecer o mercado de tintura para cabelos, com previsão para não haver mais nenhunzinho em 2060. Que absurdo, eu mesma sou a primeira a contestar, pois neste ano meu ruivinho estará com apenas 57 anos, na flor da idade e, mesmo que seus pêlos já estejam precocemente brancos sem possibilidade de identificação de rutilismo, ele, se Deus quiser, ainda estará aí com toda a disposição para perpetuar a espécie. Na verdade, o que acontece é que o gene, por ser recessivo, pode se tornar raro, mas não se extinguir, a menos que os ruivos ou portadores desta herança genética, desiludidos da vida, parem definitivamente de se reproduzirem. De qualquer forma a notícia, sem qualquer evidência científica sólida, não se sustentou.

No Brasil, um grupo de atores ruivos, com o bom humor que nos é característico, aproveitou a deixa e reivindicou, entre outras coisas, o direito a meia-entrada em dermatologistas, a isenção de imposto de renda para quem tem mais de 283 sardas no rosto e o firme compromisso do governo de aumentar a taxa de natalidade de crianças ruivas no país. Muito justo.

Mas voltando ao assunto da pimenta, busquei na pesquisa alguma explicação para a comum relação entre os pequenos ruivos e o temperamento hiper agitado, que quase sempre leva à carinhosa denominação de “pestinhas”. Nesta empreitada eu largava com uma ligeira vantagem, pois se fosse necessário um estudo de caso poderia lançar mão de meu exemplar caseiro e meus seis anos de observação muito próxima. Olhei, fucei, confrontei e nada. Não há qualquer fundamentação científica que ajude no desenvolvimento da hipótese. Poderia até afirmar que fiquei ligeiramente inclinada a dizer que tudo não passa de um mito criado pelo cinema, se minha experiência pessoal não gritasse justamente o contrário. Além de tudo, se não bastasse o talento natural para pegar fogo, o comportamento ainda é inflamado pelo famigerado apelido “cabelo de fogo”. Meu filhote mesmo adora o codinome, se sente o próprio e incorpora o personagem com absoluta desenvoltura.

Contudo, de todas as curiosidades que encontrei o que mais me interessou e que realmente pode ter um rebatimento prático importante é que os ruivos têm mais resistência a sedativos, precisando, em média, de vinte por cento a mais da dose de anestesia. Uma explicação é que a mesma mutação que interfere na pigmentação também poderia estimular a produção de um hormônio relacionado à dor. A outra possibilidade é um pouco mais complicada. De acordo com esta, pelo funcionamento incorreto do gene a melanina não tem um ponto de recepção ao qual se combinar, levando os pigmentos a procurarem outros receptores assemelhados para conectarem-se, como receptores de sinais de dor no cérebro. A conexão falha entre os pigmentos e os receptores de dor pode ser responsável pelo estímulo excessivo às respostas cerebrais à dor, levando a maior necessidade de anestesia. Olha só, uma característica física aparentemente tão despretensiosa influenciando numa questão realmente relevante no funcionamento do organismo. De qualquer forma, antes de sairmos super dopando os vermelhinhos, vale a pena discutir com os médicos para sabermos como isso é tratado pra valer.

Devo dizer que minhas horas de pesquisa foram bastante proveitosas. Agora sei que não posso divulgar que tenho em casa uma linda criatura em extinção, mas ainda posso afirmar tratar-se de um espécime raro, que também é muito chique. Além disso, conheci mais sobre as curiosidades do biótipo de meu pequeno, adquiri informações importantes sobre sua constituição genética e, melhor de tudo, me libertei definitivamente do rótulo de “puladora de cerca”. Hoje, quando ouço aquela maliciosa perguntinha “mas quem é ruivo na família?”, respondo tranquilamente sem me apertar:

- Veja bem, eu posso explicar!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Crônicas de viagem IV: Cidade Maravilhosa, em família



















Cristo redentor,
Braços abertos sobre a Guanabara...

Dentro do avião, sobrevoando o Rio de Janeiro, é inevitável cantarolar mentalmente a canção de Tom Jobin e Vinícius, sabiamente chamada de "Samba do Avião". Não sou carioca, nunca morei lá e minha ascendência não tem nem um pezinho no Rio, mas sou brasileira e não obstante o distanciamento genealógico e geográfico, a metrópole muito me emociona. Já havia passeado pela cidade outras quatro vezes, mas desde a última visita, lá se vão dezenove anos, e esta ida tinha algumas peculiaridades muito especiais. Levei meu pequeno, Cauê, com seis anos, e a viagem, com a desculpa de comemorar o aniversário de Karina, uma de minhas queridas cunhadinhas, reuniu toda a família mais próxima: papai, mamãe, meus três irmãos - Ricardo, Renato e Eduardo, minhas cunhadas - Lígia e a aniversariante, e minhas cinco sobrinhas - Taíssa (16 anos), Amanda (quase 15), Camila (11), Luiza (11) e Duda (4).

A programação era alugar três carros no aeroporto e ir direto para Búzios, onde ficaríamos quatro dias. E assim foi. Saímos no começo da tarde guiados por Ricardo, que além de ser naturalmente muito bem orientado, carregava com ele nosso único GPS. Esses aparelhinhos são ótimos, mas um tanto sistemáticos. Se não for tudo exatamente como eles querem a conversa desanda. Enquanto os satélites chegavam a alguma conclusão sobre a direção a tomar, Ricardo consultou um GPS alternativo na estrada. A morena, do alto de seu um metro e oitenta, indicou o rumo certo e tudo voltou ao eixo. Na rota da região dos lagos chegamos à Búzios sem maiores contratempos. Já havia passado um carnaval no balneário e ao retornar tive novamente a mesma impressão: ô lugarzinho abençoado!

Nos acomodamos na pousada ainda encantados com a paisagem, a cidade, as edificações, tudo um charme. Cauê estava excitado com a movimentação da hospedagem e queria ver tudo ao mesmo tempo, a cem kilômetros por hora, sua velocidade habitual. Ainda com a memória de um ano atrás, quando hospedou-se numa pousada na praia de Jururê, próximo à Florianópolis, num quarto coladinho ao do tio Ricardo, saiu de nossos aposentos gritando tio Ricardo, tio Ricardo, e já foi abrindo a porta e entrando no apartamento junto ao nosso, sem me dar tempo de avisar que não era lá. No mesmo pé que entrou, saiu, mudo e branco como uma vela. Pegou o vizinho gringo de cueca.

Antes de sairmos para o jantar, que ainda era o almoço, recebemos a visita de Willian, Paula e Felipe, amigos de Eduardo e Lígia, com quem aproveitamos o drink de boas vindas oferecido pela pousada apreciando a vista dos barquinhos coloridos ancorados na praia da Armação. O festivo barman, muito conversador e enturmado, contou vários casos e comentou comigo:

- As crianças são animadas, mas aquele ruivinho é “parada dura”.

Resignada, respondi: - O ruivinho é meu.

O primeiro passeio foi pela Orla Bardot, que percorre toda a praia da Armação. O nome é uma homenagem à atriz francesa Brigitte Bardot, que esteve em Búzios na década de sessenta. E passeando pela orla, quem encontramos? A própria: Brigitte. É verdade, ela estava um pouco indiferente, dura, fria. Nem ligamos, enquanto ela ficava lá, toda estátua apreciando a vista, nos aproveitamos de sua presença e tiramos muitas fotos. Mas com Duda a conversa foi diferente. Rolou empatia instantânea e a pequena pegou no maior papo com aquele duro metal. Contou sobre nossa viagem, perguntou sobre ela e a convidou para ir conosco. Diante do absoluto silêncio de sua interlocutora a baixinha foi embora, mas não esqueceu. De vez em quando perguntava pela Brigitte, se preocupava com ela sozinha na chuva e em todos os passeios lembrava: - e se a gente convidar a Brigitte?

No dia seguinte, aproveitando o movimento do fim de semana fomos para a praia de Geribá e o anunciado passeio de barco ficou para a segunda-feira. Como combinado, na segunda nos mandamos para o píer e ficamos esperando Renato, que foi comprar o recarregador da bateria da máquina fotográfica. O recarregador ele não conseguiu, mas conseguiu deixar a gente esperando bastante. Por fim, considerando o tempo que estava nublado e um pouco instável, o comandante do barco sugeriu que deixássemos o passeio para o dia seguinte. Sem problemas.

Se na segunda o tempo não era promissor para um lindo passeio de barco pelas ilhas e praias de Búzios, na terça-feira era, no mínimo, desaconselhável. O dia amanheceu frio, chovendo e ventando. Mas não saímos dos quatro cantos do país para chegar lá e nos assustarmos com qualquer chuvinha. Comandante, queremos ir! Renato, para não fugir a regra, nos deu uma canseira novamente esperando ele que, desta vez, foi numa farmácia. A mais distante que ele achou.

Contrariando todos os prognósticos, o passeio, que tinha tudo para ser um desastre, foi maravilhoso. No barco era só a família e cantamos, dançamos, almoçamos e brindamos o aniversário de Karina, com ou sem chuva. Mauro, o comandante, carioca da gema, ia nos falando sobre o balneário. A aldeia de Armação de Búzios remonta aos mil e setecentos, quando era uma colônia de pesca de Baleias através de um mecanismo que eles chamam de armação, daí o nome do local. Apesar de hoje soar como um absurdo ecológico a pesca de baleias, era um processo artesanal de pouco impacto, que foi instinto ainda no século XVIII, quando chegaram à costa do Rio de Janeiro os navios baleeiros norte-americanos que, estes sim, quase extinguiram a espécie no período. Praias dos Ossos, Azeda, João Fernandes, das Virgens, da Tartaruga, ilha Feia, entre outros, percorremos o litoral recortado da península, repletos de enseadas protegidas pelo relevo, parando em vários lugares. A exceção de Renato e Karina, todos, não obstante o frio e a água geladíssima, caíram no mar. Papai e mamãe, fazendo bonito, chegaram a nadar até a ilha Feia, que nem é tão feia assim. Durante boa parte do passeio o comando do timão foi de Cauê, que se saiu muito bem. Além disso, nos atualizava constantemente sobre a existência e a profundidade dos peixes próximos, que ele checava a cada minuto pelo radar. Num momento coruja, fiquei observando minhas sobrinhas, já tão grandes e lindas, cada uma a seu jeito. Taíssa é a contestadora, Amanda a general. Camila tem um charme todo maroto e Luiza é pura meiguice. Sobre Duda, poderia dizer que ela é loura, e isso bastaria para ela, mas na verdade é muito mais.

Na quarta-feira estava programada a volta ao Rio, para assistir à noite o Fluminense jogar contra o Vitória no Maracanã, pela sexta rodada do Brasileirão de 2010. Apesar da correria de três carros em comboio pelas vias expressas do Rio, foi tudo bem até a parada para o almoço, num restaurante no Aterro do Flamengo. O Renato, claro, nos deixou esperando novamente, desta vez uma hora, enquanto ele foi comprar o bendito recarregador da bateria. Quando saímos, já com o estado de nervos alterados, faltou combustível em um dos carros, especificamente o que eu guiava, e mal deu tempo de chegar para o acostamento. Resolvida esta etapa, fomos em direção ao hotel, com o horário começando a apertar para o jogo. Mas esse, definitivamente, não era o meu dia de sorte. Em uma das sinaleiras fiquei para trás. Aí começou: telefona para um, liga para outro, ninguém atende, os celulares descarregando, o único com carga perdido dentro do carro tocando insistentemente sem ser localizado, todos falando ao mesmo tempo, ninguém se entendendo e a tolerância atingindo o nível zero, completamente perdidos pela cidade. Quando nos encontramos novamente já estávamos perto do hotel. Mamãe que, toda desligada, já havia entrado em um quarto alheio na pousada de Búzios, novamente no hotel do Rio, procurando o banheiro do seu quarto, entrou no quarto do vizinho, que era conjugado e estava com a porta destrancada. Sorriso amarelo e muitas desculpas resolveram o imprevisto. Enquanto isso, no quarto que eu dividia com Cauê e Renato, estávamos encantados com a vista de frente para a baía da Guanabara. Cauê "futucando" todas as novidades que encontrava, me perguntou sobre uma caixinha que, a princípio, olhando por alto, também não identifiquei o que era. Daqui a pouco ele chegou com o mistério esclarecido:

- Olha mãe, é para proteger a lanterna, para não molhar.

Peguei a embalagem para ver. Era um preservativo com instruções de uso ilustradas na caixa. Sobre a linda vista, depois descobrimos que o quarto de frente para a baía tinha sido especialmente reservado por Ricardo para papai e mamãe, e, por equívoco, nos mandaram para lá. Melhor relaxar e aproveitar.

Saímos para o Maracanã uma hora antes do jogo e aprendemos uma dura lição: nunca subestime um engarrafamento numa grande cidade. O trânsito não estava parado, mas estava quase. No carro que fui ficou logo clara a divisão dos grupos. Papai e Eduardo eram os pessimistas, mamãe e Taíssa eram as neutras e, no fundo do carro, Lígia, Duda e eu, éramos as otimistas, animadíssimas. Os pessimistas iam praguejando: “já perdemos o primeiro tempo”, “vamos perder o jogo”, “os carros não andam”, “vai chover”, “é capaz de alagar as ruas”. As neutras iam rindo dos dois grupos. As otimistas iam cantando: “O Maraca é nosso! Há, há, hu, hu! O Maraca é nosso! Há, há, hu, hu!” Depois do gol do Fred no primeiro tempo, que ficamos sabendo pelo rádio, adaptamos a música. “O Fred é nosso! Há, há, hu, hu! O Fred é nosso! Há, há, hu, hu!” E não tinha nada mais engraçado que ver Duda, aquele projeto de gente falando toda animada: “- Amiiiiga, o Fred é lindo!!!!” Para matar de raiva seu pai, um flamenguista doente.

Chegamos ao Maracanã no intervalo do jogo, com o placar 1x0 para o Flu. Encontramos com o resto da turma e Willian, o amigo do Eduardo, e fomos correndo para a arquibancada. Na entrada, uma bela surpresa. Tocava no som do estádio o hino do Fluminense. Foi de arrepiar. Papai, Amanda, Camila, Luiza, Ricardo, Renato e eu subimos a rampa que dava acesso à arquibancada cantando a plenos pulmões. Só para registrar, os únicos que desandaram e não são fluminenses na família são os flamenguistas Eduardo, Ligia e Taíssa. Duda ainda está confusa.

Ao entrarmos na arena, que visão! O Maracanã é realmente tudo que sempre ouvi falar. Um templo apoteótico do esporte que mexe com as nossas emoções. Recomeça o jogo. Tudo que ficamos sabendo do primeiro tempo não se repetiu no segundo. O Flu, que havia começado o jogo com boa movimentação, toque de bola e ameaçador, voltou do intervalo com o pé no freio e não assustava ninguém. O resultado foi o crescimento do Vitória, que aos 39 minutos carimbou o gol: 1x1. Mas nosso otimismo não foi em vão e o sofrimento durou muito pouco. Três minutos depois, Alan não desperdiçou sua chance e marcou: 2x1 para o Flu, placar final. E enfim pudemos conferir o estádio sacudindo as bandeiras tricolores ao maravilhoso som de gooooooolllll!!! Foi a primeira vez que fui ao Maracanã, mas a mamãe, ao tirar por seus comentários, foi a primeira vez que ela ouviu falar em futebol. Toda interessada, perguntou:

- Almiro, quem é aquele homem de camisa amarela correndo no campo?

Um tempo depois, indignada, ela quis saber: - Por que o jogador do Flamengo não parava de segurar o jogador do Fluminense?

Mais na frente, assustada e preocupadíssima quando um jogador caiu: - Ai meu Deus, o quê vão fazer agora?

E nós ficamos a nos perguntar: - Quem se candidata a explicar o impedimento?

Uma regra de quase todas as viagens é desregular completamente a rotina de alimentação, e nessa excursão não foi diferente. Mudaram os horários, as quantidades ingeridas e, principalmente, a qualidade dos alimentos. Experimentamos muitos peixes, mariscos e saborosos temperos exóticos. Em um desses almoços, num restaurante muito conceituado do Leblon, papai escolhia com todo o cuidado seu prato, pois apesar de muito apreciar peixes e mariscos, tem uma séria alergia a camarão e afins. Depois de olhar e analisar cuidadosamente, encantou-se com um prato à base de “cavaquinha”. Em dúvida, perguntou:

- Elcy, cavaquinha é peixe ou marisco?

Mamãe: - Acho que é peixe e pelo jeito deve ser delicioso. Prova Almiro!

Animadíssimo, ele pediu o “peixe”, e como o casal tem um rol de conhecimentos bem mais amplo que os nosso, ninguém questionou. Foi só acabar de comer, na mesma hora ele começou a sentir algo incomodando. Tomou imediatamente um ante-alérgico oferecido por Karina. O remédio deve ter diminuído os efeitos da reação alérgica mas não a impediu completamente. Em poucas horas sua boca fazia inveja em Angelina Jolie e os olhos não deixavam nada a dever para Rocky Balboa na derradeira luta de cada um dos episódios de sua saga. A cavaquinha, que agora sabemos tratar-se de um crustáceo de alto potencial alergênico, rendeu uma noite de cama para o papai e alguns dias com os olhos ainda um pouco inchados.

Durante a estadia fomos ainda no Jardim Botânico, nas pedras do Arpoador, na Lapa, na feirinha de Ipanema, assistimos algumas peças e passeamos de bondinho até o morro da Urca e o Pão de Açúcar. Nesta empreitada, do alto do Pão de Açúcar, contemplando com Cauê a grande cidade recortada por morros, vegetação e mar, cheguei próximo ao seu ouvidinho e sussurrei:

- Olhe bem meu filho. Você ainda vai viajar muito na sua vida, mas acredito que não irá conhecer cidade mais linda no mundo.

A minha intenção não era sugestioná-lo, queria apenas que ele registrasse na memória aquele momento, que fotografasse mentalmente para comparar com tudo que ele ainda vai ver, e então tirar suas próprias conclusões. No futuro veremos se funcionou. Talvez para ele seja cedo ainda para formar qualquer conceito, mas para mim não. Ainda quero ver muita coisa e conhecer muitos lugares mágicos, mas por enquanto posso dizer que voltei do Rio com a impressão que tinha antes bastante reforçada: que Cidade Ma-ra-vi-lho-sa.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Era indizivelmente bom







Não há nada, para mim, mais iluminado que o sorriso do meu filho, um menino de quatro anos. O sorriso, o riso, a gargalhada. Ele é uma dessas crianças que tem o riso fácil, que ri com a boca, com os olhos, com o rosto e o corpo inteiro. Temos nossas brincadeiras costumeiras, endereços certos para chegarmos a boas doses de riso, mas, o mais legal é quando eles surgem por acaso, imprevistos.

Numa dessas noites qualquer, no meio da semana, estávamos o pequeno, Eliane - que trabalha na nossa casa - e eu, no recesso de nosso lar . No semestre anterior, ele havia desenvolvido com sua turminha da escola um projeto relacionado às brincadeiras infantis. Amarelinha, pega-pega, boca-de-forno, essas coisas que nossos avós já brincavam em seu tempo. O trabalho rendeu, além de muitas horas de deliciosa diversão entre eles, um caderno onde cada página traz a descrição de uma brincadeira escrita pelas próprias crianças. Que coisa linda que ficou! Aquelas mal traçadas linhas, letrinhas irregulares, palavras inacabadas. Com o caderno na mão, começamos aleatoriamente a investigar as brincadeiras.

Pega-pega, esconde-esconde, vamos de amarelinha. Improvisamos a brincadeira dentro de casa, com as divisões da cerâmica do piso. O pequeno, radiante, explicava em detalhes como se brincava, enquanto eu e Eliane fingíamos nunca ter visto ou ouvido falar do joguinho. Uma peça de lego funcionou como pedrinha e pulamos um bom tempo.

Agora é a vez de três-três passará. Confesso que demorei um tempinho para entender como brincava, pois não tínhamos gente suficiente para fazer pra valer. Eliane, que participava de tudo, tem vinte e três anos, mas juro, olhando ela brincar ninguém daria mais do que sete. Que tal boca-de-forno?

-Boca de forno!
-Forno!
-Faz tudo que eu mandar?
-Faz!
-Se não fizer?
-Bolo!!!!

O líder tem que determinar a tarefa e o restante se esforçar para cumpri-la, se não leva bolo (palmada na mão). Pega aquilo, vai até não sei onde. As ordens não podem ser questionadas. Bolo pra cá, bolo pra lá.

Vamos, então, experimentar a corrida de caranguejo. Sentados no chão, anda de costas para trás com os pés e mãos no piso, e não pode sentar. Eliane tropeçou, o pequeno caiu de tanto rir e eu pude, enfim, atravessar a linha de chegada com folga.

Meu menino não parava de rir. Ele estava tão empolgado e feliz com aquela movimentação que as gargalhadas se sucediam por qualquer coisa que fosse. O pequeno rostinho alvo, contornado por cachinhos cor laranja, brilhava como uma luz de fonte inesgotável. "Era indizivelmente bom".

Essa frase, que adoro, não é minha; é de Vinícius, que escreveu para descrever na crônica "Menino da Ilha" suas experiências quando criança na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. A li por volta dos vinte e cinco anos e não esqueci mais. Acho que esperei por todo esse tempo para, olhando no rosto de meu filho, naquela noite, ter exatamente essa sensação: algo indizivelmente bom. Não falei nada, somente pensei com os meus botões, saboreando cada segundo. Valeu a pena esperar todos esses anos.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Não é só brincadeira de criança



Às vezes fico observando meu filho, com quatro anos recém completados, nas suas maravilhosas viagens da imaginação. Com freqüência, sou convidada a participar também. Viajamos o mundo, a Via Láctea, o fundo do mar, o passado, o futuro. Somos gigantes, seres híbridos, objetos inanimados; somos e fazemos tudo que queremos. Fico maravilhada com os mecanismos desta faculdade humana e tudo que ela nos proporciona.

Segundo os estudiosos no assunto, a imaginação está intrinsecamente ligada à criatividade; “é o elemento-chave do ato criador”. Tive alguns indicativos disso em minha vivência. Lá pelos vinte e quatro anos me “bati” com uma das figuras mais criativas que já conheci. Seu nome é Roberto e tinha na época uns trinta e dois anos. Esse cara soube aproveitar de todas as formas seu talento natural. Profissionalmente, era músico. Foi, entre outras coisas, o responsável pela produção musical de espetáculos que alcançaram grande sucesso no Pará, produções essas que ganharam, inclusive, prêmios fora do Estado. Por hobby, era artista plástico, e por hábito ou, talvez, porque era muito mais divertido e excitante assim ser, era criativo em tudo: na forma de relacionar-se com as pessoas, de trabalhar, de resolver problemas, de viver. Uma mente livre e linda. Costumávamos conversar andando pelas ruas nas noites de lua. Claro, em ruas que possibilitavam esse deleite. Nesses passeios, me falava de muitas coisas, mas o que mais me marcou foram os relatos de momentos com o pai, quando ainda era moleque. Entre várias brincadeiras, os dois construíram juntos, com sucata, lixo, prego e martelo, uma nave espacial que os levaria a viagens intergaláxias. Na verdade, a nave nunca saiu do quintal, mas tenho certeza que, mesmo assim, levou Roberto a lugares inexplorados e cheios de aventuras. Em outra oportunidade, os dois montaram uma tenda, no mesmo quintal, enfeitaram como um grande circo, ensaiaram alguns números, e fizeram sessões para apreciação dos vizinhos. Meu filho chegaria somente dez anos depois, mas suas histórias já me inspiravam e faziam-me arquitetar planos para a minha futura prole.

E falando em imaginário infantil, não dá para não lembrar de Monteiro Lobato com o “Sítio do Pica-pau Amarelo”. Quando criança, não li mais do que duas aventuras do Sítio, mas assisti um bom tanto da primeira produção da obra feita pela TV. Fui apaixonada pelo príncipe das Águas Claras e tive também minha boneca de pano de produção caseira, feita por minha mãe; e como torcia para que falasse. Estava louca para introduzir meu garoto nesse universo, mas como era muito novo, ainda não dava para entrar de sola com os livros da coleção, que têm histórias longas com publicações pouco ilustradas. Vibrei quando a TV anunciou a nova montagem do Sítio e não deu outra: ele amou. O Saci, o Visconde de Sabugosa, a pílula falante, o pozinho de pirim-pim-pim. Entrou tudo em nosso vocabulário, em nossas brincadeiras e no imaginário dele.

Traçando paralelos, mas guardada as devidas proporções, tive recentemente a oportunidade de visitar a exposição “Por dentro da mente de Leonardo da Vinci”. A amostra propõe-se a apresentar protótipos das engenhocas criadas por ele, desde as que foram efetivamente materializadas e funcionaram, até as que não saíram do papel. E que mente maluca o cara tinha; era o que hoje poderíamos chamar de multimídia. Ele foi do embrião do helicóptero à catraca da bicicleta. Fico elucubrando sobre as viagens que motivaram uma diversidade tão grande de projetos. Parece ter vindo desde a busca por soluções práticas para atividades do cotidiano, até o afã de dominar os elementos da natureza, de voar, de andar sobre as águas, que podem ter raiz, também, nas brincadeiras e ilusões infantis. De qualquer maneira, tanta engenhosidade nasceu, com certeza, de uma imaginação prodigiosa.

Sem dúvida existem muitos meios e motivações para o desenvolvimento da criatividade. Música, histórias, vivências, necessidades reais, práticas culturais em geral, todos são caminhos, mesmo porque, as informações, imagens e experiências reais criam um acervo a ser acessado, a serviço da imaginação e, claro, da criatividade. Mas que os devaneios da mente, por pura brincadeira, têm seu valor, ah, isso tem!

Lembro-me a primeira vez que conversei com meu filhote sobre imaginação. Por alguma razão, falei para ele: “- use a sua imaginação!” Ele respondeu: “- o que é imaginação?” Não foi fácil. Comecei dizendo a ele: “- feche os olhos, agora pense em ...”, e por aí vai. Pouco tempo depois, por sorte, caiu em minha mão um DVD do filme “Pinóquio 3000”, uma versão futurista do clássico infantil. Na história, a amiguinha de Pinóquio o desafia a brincar com ela o “jogo da imaginação”. Na seqüência, tem-se o trecho mais lindo do filme, muito colorido e musicado. Ele, recém criado, mergulha com ela na descoberta da fantasia, num jogo onde um interage com a imaginação do outro. Foi uma forma rica de ilustrar para o pequeno a liberdade do pensamento. Daí por diante, a brincadeira não parou mais.

Todos os dias, quando o busco na escola para irmos almoçar, percorremos as mesmas ruas, passamos pelas mesmas esquinas, casas, praia, mas o caminho é quase sempre diferente. Às vezes estamos num submarino, os outros carros viram grandes peixes, os coqueiros são monstros marinhos, as barracas de praia são navios naufragados. Às vezes estamos simplesmente planando no ar, como uma imensa baleia voadora. Às vezes o percurso é o espaço, cada barraca é um planeta e as pessoas são estrelas falantes. As possibilidades são infinitas. Não tem muito tempo que, ao terminarmos de montar um quebra-cabeça de grandes dimensões, sentamos sobre ele, que se transformou num tapete voador e nos levou para passear em alguns países. Como canta Xangai, “viajava o mundo inteiro nas estampas de Eucalol, (...) subia o Monte Olímpo, ribanceira lá no quintal, mergulhava até Netuno, no oceano abissal”. Sempre me lembro de Roberto, com suas histórias. Também inspirada nele, ensaiamos alguns números de equilibrismo para o “Circ du Chulé”.

Invento muito, deliro um pouco, possibilito para meu filho algumas experiências, mas “cá comigo”, acho muito melhor quando ele cria suas próprias fantasias, seus lugares secretos, suas aventuras da mente. Fico na torcida para que isso se reflita numa forma leve e criativa dele levar a vida. Para que, pelo seu caminho, materialize algumas de suas deliciosas criações, e outras tantas, pelo amor de Deus, não!!!

sexta-feira, 13 de abril de 2007

La Dolce Vita


Quando iniciei o blog, planejava escrever sobre uma série de coisas que povoam minha cabeça, mas de uma maneira que pudessem resultar num conteúdo inteligente, divertido e interessante para quem lesse. Mas o fato é que, no dia-a-dia, sou atropelada pelos acontecimentos domésticos, que provavelmente não são interessantes para mais ninguém, mas, para mim, por vezes, são até bem divertidos.

Essa semana começou com uma reunião na escola do meu filho, logo às 9h da segunda-feira. Imaginava ser uma reunião ordinária. Ledo engano. Era uma reunião extraordinária. O rapazinho, com três anos, anda explosivo além da conta e, quando contrariado, perde o controle e reage de forma pouco amigável. Fiquei pensando no que poderia fazer e passei o resto da manhã com uma sensação de incompetência me perseguindo.

Saí do trabalho meio-dia e, como costumeiro, passei para pegar o pequeno na escola. Chegando em casa, o portão eletrônico, que já dava sinais de enfermidade, não abriu. Tudo bem. Deixamos o carro fora e entramos. Há pouco tempo uma equipe da prefeitura vem realizando limpeza no rio que passa junto de minha casa. Nesse período, todos os dias, quando saio de casa e quando retorno para o almoço, vejo aquela “homaiada” estacionada em minha calçada, com olhos atentos a todos os nossos passos. Considerando que moro sozinha com o filhote, a situação me deixa um pouco preocupada. Meu ex-marido, pai do baixinho, tinha ficado de levar em casa algumas roupinhas do garoto que estavam com ele. Aproveitando a oportunidade, pedi que agisse como se morasse na casa, cumprimentasse os homens e fizesse notar sua presença. Nessas horas é bom ter uma figura masculina para posar na foto. Acho que a encenação foi satisfatória.

Depois do almoço, levei meu filho numa clínica ortopédica no bairro vizinho, pois tinha machucado a mãozinha numa queda há alguns dias e a mesma continuava um pouco inchada. Acho que por uma questão de segurança, ele levou sua espada - de plástico, comprada por R$3,00 nessas lojas que costumavam ser de R$1,99 - embainhada na cintura. Sem dúvida o rapaz estava num dia inspirado: comunicativo, perguntador e muito boa praça. Na clínica, conversou e brincou com a recepcionista, o servente, o médico, o técnico em radiologia, a enfermeira e alguns outros pacientes, mostrando toda sua habilidade como espadachim. Depois de diagnosticada uma pequena fratura em um dos ossinhos da mão, foi indicada a imobilização. A enfermeira chegou com o material e pediu a ele a mão para engessar, enquanto, ao lado, eu e o médico conversávamos. Concluído o gesso, a enfermeira mostrou ao médico perguntando se estava bom. O médico, tranqüilamente, respondeu que o gesso estava ótimo, mas estava na mão errada. O baixinho imediatamente falou meio cantarolado: “te enganei!”. Caímos todos na gargalhada. Eu mesma tive uma crise de riso e as lágrimas chegaram a descer. A enfermeira falou: “você rapaz...”. E ele respondeu rindo: “você é uma maluca!”.

Saímos com o gesso na mão certa, deixei o pequeno em casa e fui para o trabalho. À noite, quando voltei, o portão novamente não colaborou. Desci e fiz todos os procedimentos necessários para abri-lo na mão grande. Um portão de madeira de aproximadamente 3,00m x 2,40m pesa, e novamente me veio à cabeça que, também para essa situação, a figura masculina fica linda na foto. Tudo bem, dá para resolver. Entrei e começou a novela que vivo quase todos os dias quando chego em casa à noite. A esta hora, meu filho está com saudade e querendo atenção. Da mesma forma, é a hora da refeição dos cachorros, um casal de labradores, e do gato, um exigente vira-lata que come o dia todo, e já estão morrendo de fome. Enquanto entro, o pequeno fica me chamando e puxando, os cachorros latem e correm de um lado para outro, me cobrando a hora do rango, e Pajé mia como se não comesse há dias. Às vezes, por falta de sorte, na mesma hora toca o telefone ou Eliane, minha assistente para assuntos domésticos, resolve relacionar verbalmente tudo o que preciso comprar. Sempre me vem à cabeça uma música que ouvia quando era criança e que dizia mais ou menos assim: “a véia debaixo da cama/ a véia criava um gato/ de noite o gato miava, o cachorro latia, o pintinho piava/ ai meu Deus como eu sofria”, e me dá vontade de rir.

No dia seguinte, quando retornei com meu garoto para o almoço, o portão funcionou ao primeiro toque, e entramos sob os atentos olhares da equipe de homens da prefeitura. Já com o carro do lado de dentro do muro, o portão mudou de humor e não quis fechar. Comecei a insistir na tentativa de conseguir, incomodada com a casa escancarada diante da platéia de estranhos. Como não obtive sucesso, desci para, novamente, fazer todo o passo-a-passo para fechá-lo manualmente, deixando o baixinho dentro do carro para ser mais rápida. Enquanto começava os procedimentos, meu filho, seguro no cinto de segurança da cadeirinha, começou a chamar de dentro do carro, pedindo insistentemente que o tirasse de lá. Simultaneamente, Eliane veio correndo até nós com uma cara de susto, para não dizer pânico, pedindo socorro porque havia uma cobra no telhado da área de serviço. Pra completar, a cachorra conseguiu abrir um pequeno portão que existe já dentro do lote, e tem a função de isolar a área de entrada do carro, impedindo que os cachorros fujam quando o portão eletrônico se abre. Segurei a cachorra para que não fugisse e me coloquei na frente do cachorro, para que ele não fizesse o mesmo. Esse foi um daqueles momentos quando, em fração de segundos, passam milhões de coisas pela nossa cabeça. Olhando todo o contexto, não sabia o que resolver primeiro, considerei várias possibilidades de ação e elegi o plano que me pareceu melhor. Comecei tentando, pela última vez, fechar o portão com o controle. Por sorte, consegui. Aí, pude soltar a cachorra, liberar o cachorro, tirar o pequeno de dentro do carro e, então, socorrer Eliane.

Mais do que uma assistente para assuntos do lar, Eliane é uma amiga. Uma garota de 22 anos com um juízo que eu só alcancei em meados dos trinta, já motivada pela maternidade. Na minha ausência, cuida de meu filho com todo o carinho e responsabilidade, além das demais atividades domésticas, mas coragem, com toda a certeza, não faz parte do rol de suas qualidades. Ela tem medo de ficar sozinha em casa à noite, tem medo de rã, sapo, lagartixa e outros bichinhos, fato que, considerando a área onde moro, constitui um problema.

Enquanto caminhávamos em direção à área de serviço, fiquei imaginando que deveria ser uma cobrinha de nada e tudo não passava de um grande exagero de Eliane. De qualquer maneira, não seria a primeira vez que seríamos brindados com a visita do réptil, nem a segunda; para ser exata, seria a quinta vez.

A primeira vez que fui surpreendida por uma serpente dentro de casa devia fazer um ano que morava no local, e ainda não tinha filho. Estava pintando uns artefatos na sala quando a cobra rapidamente entrou e escondeu-se debaixo do estofado. Da outra vez,  apareceu uma no caminho da saída do carro. Na terceira vez eu estava com duas sobrinhas hospedadas em casa. A cobra escondeu-se na área de serviço e foi o acontecimento do dia. Por fim, na quarta vez, o réptil foi realmente convidado. Tratava-se de uma salamanta de estimação de um amigo veterinário. A cobra tinha aproximadamente 1,50m, era dócil e todos, incluindo o baixinho, carregamos o animal, tiramos foto e tudo. Acontece que em todas as oportunidades anteriores eu ainda estava casada e, tenho que reconhecer, o “ex” tem um talento todo especial para lidar com essas situações. Em todas as vezes que elas vieram sem ser convidadas ele conseguiu reconduzi-las ao rio ou alguma área de vegetação adequada, sem se alterar e sem machucá-las. A que alojou-se na área de serviço, para delírio de minhas sobrinhas, ele pegou com a mão e saiu mostrando para todo mundo. É praticamente um “Indiana Jones”. Só que a situação agora é outra e, apesar de não ter medo e ter muita afinidade com animais e ambientes naturais, não sou nenhuma “Jane”, e não tenho qualquer habilidade de captura.

Já na área de serviço, Eliane não quis nem entrar, de longe me apontou onde o bicho estava e saiu gritando. Quando olhei não acreditei. Só dava para ver a cabeça, parada, observando tudo. A questão é que a tal da cabeça devia ter uns seis centímetros de largura, o que indicava ser uma cobra de tamanho considerável. Além disso, não dava para ver cor ou padrão de desenhos do couro, que poderia dar dicas sobre a espécie. Isso ia exigir medidas extremas e provavelmente teria que contatar algum órgão especializado na captura e remoção. Saí e fui dar uma olhada na lista telefônica, mas a curiosidade foi maior e resolvi espiar novamente. O local onde ela estava escondida era um pouco escuro e tive que chegar realmente perto. Foi quando observei algumas coisas pontudas sobre a continuação da cabeça, ou seja, no pescoço, mas cobra não deveria ter pescoço. Cheguei mais perto e ela movimentou-se, então apareceram as garras. Garras? Cobra incomum, pensei. Foi aí que deu para sacar, não era uma cobra, era um camaleão, ou parente próximo, e o bicho não era pequeno. Então fiquei tranqüila, até onde sei, camaleões não mordem, picam ou oferecem maiores riscos.

Proibi terminantemente Eliane de enxotá-lo com vassoura ou qualquer outra coisa. A orientação era: deixe o animal na dele, a hora que resolver ir embora, ele vai. Acho que o bicho não corria risco mesmo, minha escudeira não ia entrar no ambiente enquanto ele permanecesse lá. Tentei de todas as formas amenizar seu sentimento de medo, dizendo que ele era como um dragãozinho dos contos de fada que não cuspia fogo, mas acho que ela não curtia muito as historinhas infantis. Todo esse alarde acabou assustando também meu garoto que, em geral, é bem despachado com os animais, mas nesse caso, só topou ver a um metro de distância e no meu colo. Não demorou muito para o bichinho ir embora por decisão própria e a paz voltar a reinar no lar. De pensar que ainda estávamos na terça-feira; mal podia esperar pelo resto da semana.

Ah, sobre o portão eletrônico, levei o controle para a assistência técnica, que me garantiu que o problema era a bateria, trocando-a na mesma hora. Mas, até hoje, ele ainda não funcionou.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Só mais um texto sobre a maternidade



São relativamente comuns os relatos sobre a experiência da maternidade e/ou paternidade. Textos apaixonados, em êxtase, ou angustiados e cheios de dúvidas, ou ainda, com um pouco de tudo, que são os que parecem mais próximos da vida real. Também tenho minhas histórias e impressões. Como minha experiência pessoal é a maternidade, vou me referir especificamente a ela, apesar de acreditar que tudo, ou quase tudo, se aplica integralmente também à paternidade.

Não fui mãe cedo. Tive meu único filho aos 34 anos, apaixonada pela idéia. Quando ele chegou, já tinha mais de 6 anos de casamento, tempo pelo qual adiei a gravidez por uma conjunção de motivos, mas acredito que, sobretudo, por puro medo. Por melhores que fossem meus sentimentos e relações com marido, pais, irmãos e amigos em geral, ainda assim era a personagem principal de minha própria vida, a pessoa mais importante. Não sei se era exatamente uma questão de egoísmo, traçava os caminhos conforme meus objetivos e, já no trajeto, sempre arrumava tempo e espaço para as pessoas e causas que me eram caras. Desta forma, quase sempre, fiz o que quis. A chegada do pequeno, neste contexto, mudou tudo. Ele passou a ser a pessoa mais importante de minha vida, o protagonista de minhas cenas e, não raro, me vejo ajustando o caminho, adiando, ou mesmo desistindo de projetos por sua causa.

Não ponho em dúvida que esse exercício de renúncia, entrega e disponibilidade me faz melhor. Claro que todo mundo, em maior ou menor medida, já experimentou os efeitos positivos do sentimento do amor ou outros, quase tão nobres quanto, mas a maternidade bagunça a gente de uma maneira diferente. É um processo diário e muito dinâmico, porque as figurinhas crescem sem pedir licença e, a cada diferente fase, os desafios insistem em te lembrar que, apesar de tudo que você viveu, ouviu ou leu sobre o assunto, não sabe de nada.

Por falar em ler, desde a gravidez, me lancei numa frenética busca do conhecimento através da literatura especializada em bebês, educação e psicologia infantil. Tentava antecipar meus conhecimentos às fases, na ilusão inocente, quase burra, que, para aquela fase seguinte, estaria melhor preparada. Fui tão feliz neste projeto que, há tempo, não leio nada sobre o tema. Não que o conhecimento desses profissionais, que pesquisam uma vida inteira o assunto, não ajude, mas nossa intuição e bom senso são bem mais determinantes na vivência. De resto, vejo que o melhor é relaxar e aproveitar, aproveitar muito, porque passa rápido demais e, se é nossa responsabilidade e compromisso contribuir positivamente na formação dos pequenos, eles, sem qualquer compromisso ou responsabilidade, fazem muito mais pela gente. O banho de chuva, as brincadeiras que só nós entendemos, o acordar preguiçoso envolvido em carinhos e declarações de amor eterno, são momentos que, junto com ele, quando tudo está fluindo bem, me dão a sensação de que nada mais importa. Além disso, me sinto estimulada de outras formas, porque o rapazinho, apesar de tão novo, mostra que sabe (ou pensa que sabe) o que quer.

Confesso que neste quesito ajudo um bocado. Mais ou menos desde os seus dois anos e meio, pratico com ele um exercício de argumentação e contra-argumentação. Grande parte das vezes que ele quer algo (coisa ou atividade) e tal desejo não me parece uma boa idéia naquela hora, quando sou questionada sobre a negativa, respondo somente: “me convença”. Acho que não preciso dizer que choros, birras e tolices em geral, não são considerados na discussão. Só valem argumentos, e é surpreendente o que pode sair de uma cabecinha que ainda não tem nem quatro anos de vida. São sacadas, improvisos e tentativas de manipulação que me divertem e me provocam. Às vezes, o debate se estende longamente, nem sempre terminando bem. Não alivio porque ele é criança. Se o argumento não convence, paciência, ele não leva.

Há algum tempo, introduzi em nossa relação o conceito de “direito”, no sentido de prerrogativa para fazer ou deixar de fazer algo. A partir daí, passou a ser comum em nossos diálogos colocações como: “você tem direito de falar isso” ou “não tem direito de fazer aquilo”. Quando brigávamos, ele, muito invocado, me “xingava” de feia e, por vezes, tentava me bater. Eu o segurava e dizia com firmeza:
- Você tem direito de me achar feia, é um direito seu, mas não tem direito de me bater.
Tempo depois, enquanto brincávamos relaxadamente, ele, de forma carinhosa, me chamou de feia. Eu rebati:
- Poxa filho, você me acha feia? Fiquei triste!
Ele, sem pensar, respondeu de pronto: - Não fica triste mãe, é um direito meu te achar feia.
 Na hora, só consegui pensar em palavras pouco amistosas para dizer ao Sr. Nelson Aguiar e Sra. Rita Camata, respectivamente autor e relatora do Estatuto da Criança e do Adolescente, que conferiu direitos a essas criaturas.

Em outra oportunidade, fui pega de surpresa por uma dúvida sua que me pareceu um pouco precoce. Sua babá trouxe à nossa casa o enteado, um ano mais novo que meu garoto, para passar um dia conosco. Os dois rapidamente entenderam-se e começaram a brincar. O anfitrião teve um comportamento exemplar, mostrou todos os brinquedos e os emprestou sem reservas. O visitante encantou-se com tudo e, absorvido entre tantos brinquedos, não deu muita atenção para o novo amigo. Meu gatinho sentiu e, sem falar nada, levantou-se e ficou observando a cena um pouco afastado.Não demorou muito, perguntou:
- Será que ele gostou de mim ou só gostou dos meus brinquedos?

Outro desafio é o permanente processo de interação entre o que oferecemos dentro de nosso mundinho controlado, ou relativamente controlado, que é nossa casa, e as contribuições externas. Dentro, em certa medida, posso selecionar os estímulos e equilibrar as doses. Fora, os estímulos vêm de um sem número de fontes e, portanto, não há muito como controlar. Nessa linha, poderia falar de alimentação, comportamento relacionado a várias questões e outros, mas vou me referir somente a um aspecto. Meu garoto é uma criança bonita, de uma beleza diferente em nossa região. Para completar, é comunicativo, carismático e bastante sedutor. Colocações do tipo: “mamãe, por que todo mundo me chama de lindo?” Ou “todo mundo quer meu cabelo e me pede um pedaço!” Ou ainda “Todo mundo me ama, não é mamãe?”, chegam a me preocupar sobre como os tão constantes e entusiasmados comentários se processam na cabecinha dele. Além disso, somamos o fato dele ser baiano e, como tal, "não nasce, estréia", ser filho único e leonino, autêntico. Resumindo, ele é vaidoso, adora ser o centro das atenções e, realmente, “se acha”. Entendo que é importante que ele aprecie sua própria imagem, sinta-se querido e admirado, mas procuro ter cuidado com os exageros. Tento mostrar que não precisa ser, necessariamente, sempre assim e, na medida do possível, mudo o foco e chamo a atenção para outras qualidades menos “espetaculosas” que ele tem, ou que não tem, mas que é bom que desenvolva.

Nove meses atrás, pulamos uma fogueira. Eu e o pai do pequeno nos separamos. Desde então, vivemos somente ele e eu, com direito a babá durante o dia, enquanto trabalho, para os horários em que ele também não está em suas atividades externas. Antes que possa parecer que o pai sumiu, esclareço que não foi o que aconteceu. Ele continua presente e participativo, um bom pai, mas não mais faz parte de nosso convívio diário. Não tenho ainda uma avaliação muito clara de como nossa relação de mãe e filho evoluiu nesse período. Existiram fases em que ele demonstrou nitidamente estar sentindo a separação. Já em outras, agia como se sempre tivesse sido assim. No mais, o próprio convívio oscila muito de dia para dia, às vezes, de minuto para minuto. Um acontecimento recente me deu uma boa idéia dos picos de oscilações que nossa relação pode atingir, e das “saias justas” que tais situações podem proporcionar.

Há duas semanas, quando voltávamos de avião para Salvador, o rapazinho, agora com pouco mais de três anos, protagonizou o maior “piti” feito por uma criança que já tive oportunidade de presenciar. Existiam alguns atenuantes para aquele comportamento. Ele foi acordado às 3:00h da madrugada e se recuperava de uma inflamação na garganta, que lhe rendeu, além de umas febres de mais de 39ºC, algumas privações e uns procedimentos nada agradáveis para as crianças, relativos a exames médicos. Mas tudo isso ainda não me pareceu suficiente para justificar um show daquela proporção.

Enquanto entrávamos no avião, ele ia falando: “eu quero sentar na janela”. A cada janela vazia por onde passávamos, ele perguntava: “é essa?” Infelizmente, nossos lugares eram marcados, e não contemplavam janela. Constatado o fato, assim que sentamos, ele começou a chorar e gritar: “eu quero uma janela!” Todos já haviam entrado e sentado, e os comissários se preparavam para a decolagem. Quando ele começou a espernear, tirei-o de seu lugar e o segurei firmemente sentado em meu colo, tentando conter braços e pernas que, a essa altura, se debatiam, atingindo a mim e a poltrona da frente. Como costumo fazer nessas situações, não me alterei. Normalmente o teria levado para um local mais reservado, até que se acalmasse, mas, neste caso, não era possível. Mantive a calma, falando em seu ouvido: “quando você parar, nós conversamos”. Mas ele não parou tão rápido. A comissária veio até nós e perguntou: “_você quer um chocolate?” Antes que ele falasse qualquer coisa, respondi que não era para dar nada a ele. Da mesma forma, o rapaz que sentava na janela de nossa fileira ofereceu de maneira simpática o seu lugar. Agradeci, mas recusei. Seria o fim, depois de tudo, premiá-lo com um chocolate ou com a janela. Entre os gritos de “me solta”, percebia a reação das pessoas no avião, que iam desde o riso, até os olhares e murmúrios que, apesar de não poder ouvir, compreendia tratar-se de qualquer coisa sobre a minha falta de competência em educar e estabelecer limites. Não tenho idéia de quanto tempo durou aquela situação, mas quando ele parou, o avião ainda não havia saído do lugar. Coloquei-o de volta em sua poltrona. Em experiências semelhantes que vivemos, quando ele acalmava-se, pedia desculpas dizendo, com convicção, que não iria fazer mais isso. Era quando aproveitava para estabelecer um diálogo, estimulando-o a falar sobre o que tinha motivado a reação intempestiva, e então, juntos, buscávamos alternativas mais positivas para a demonstração de seus sentimentos. Mas, dessa vez, ele estava realmente com sono. Ficou calado e, aproximadamente, cinco minutos depois, dormia com a cabeça encostada em meu colo. Que bom, porque eu não tinha mesmo condições emocionais de conversar nada.

Enquanto o devolvia para seu lugar, minhas lágrimas começaram a descer insistentemente. Estando num lugar público e sendo, no momento, o centro das atenções, me vali dos longos cabelos para esconder o rosto e um constrangimento um pouco dolorido. Por fim, fui também vencida pelo sono. Adormeci, entre muitas reflexões, com a nítida sensação de que a festa está apenas começando.