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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ai se eu te pego, ai, ai





Ai se eu te pego, ai, ai. Se te pego preparava quitutes ou pedia um delivery, mas serviria numa mesa lindamente iluminada a luz de velas, só para te impressionar. Me ofereceria em pessoa como bandeja de sushi, ou toparia rapar junto um tacho de brigadeiro. Engordava dez quilos, emagrecia vinte, se preciso fosse. Desvendaria a astrologia, a física quântica, o mercado de ações, a política econômica do governo. Falaria doce como um doce de cupuaçu. Só pegaria no violão para te cantar. Cantava baixinho, no pé do teu ouvido, músicas que falassem de amor, do meu amor por ti. Chorava sem ter porquê. Riria pelo mesmo motivo. Dançaria contigo, dançaria para ti. Talvez até acordasse cedo, bem cedo, para ver-te sob a luz dos primeiros raios de sol.
Ai se te pego. Aprenderia a contar piadas para te arrancar risos. Parava de fumar, e para ter algum sacrifício nisso, até começaria a fumar. Te calçaria um patins pra ver-te cambaleando pedindo o meu apoio ou fingiria eu cambalear para pedir o teu. Nos dias de loucura, te amarrava no pé da cama para ter certeza de que não fugiria. Ai se te pego, pegaria com cuidado cirúrgico, para sentir a pressão e a temperatura de cada centímetro. Sem pressa, ou com pressa. De um jeito ou de outro, ai se te pego.

Um dia desses me deparei com escritos de Vinícius e adivinhem? Era sobre uma dona, sobre uma bela dona, um doce amor. Mas sendo Vinícius, sobre o que mais poderia ser? O texto dedicado a uma amiga tinha mais ou menos a forma de um brainstorm de delírios amorosos, desfilando as cândidas ou tórridas intenções, aparentemente frustradas, sempre iniciadas por "se fosses louca por mim". Quando li, pensei comigo: - espera aí, eu também tenho um amigo assim, e ai se eu te pego.


Mas eu não pego, e se não o pego, não sei se me serve outro alguém. Chego a pensar que nem de longe ele desconfia de tamanhas pretensões. Ou talvez desconfie, quem sabe tenha até certeza de minhas sórdidas intenções não reveladas, veladas numa timidez que me paralisa ou na total falta de oportunidade de encontros tão casuais, quanto breves. Para minha tortura, o excomungado passeia impune, com o ar displicente que somente os inocentes conseguem ter. Quando fala, tem aquela voz grave e calma que tritura os meus sentidos. Quando ri mostra os dentes. Para quê mesmo uma pessoa tem tantos dentes? Tantos dentes lindos devem ser para mastigar minha paz. Tudo bem, mastigue, mastigue vagarosamente e se delicie, e com licença ao escritor dândi, se você não demorar muito posso esperá-lo por toda a minha vida, tenho mesmo muito tempo. E assim vou ficando, de longe, e de longe imaginando: ai se te pego, ai, ai.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Milagre da Reprodução





Muito bem, agora chegou minha hora e minha vez de contribuir de forma definitiva com a ciência, ampliando possibilidades para as teorias da "Geração Espontânea" e da "Origem das Espécies". Primeiramente devo informar que isso não nasceu numa vontade repentina e irresistível de escrever meu nome entre os grandes vultos da ciência. Não, não fiz planos, não tinha pretensões, mas de repente, não mais que de repente, a sorte me sorriu e me deu de presente a chance de observar bem debaixo do meu nariz a vida surgir e multiplicar-se sem pedir licença.


O local foi o mais improvável possível: um departamento de projetos, com muitos computadores, algumas pranchetas, mesas e bastante papéis, como um ambiente de escritório, inóspito para o delicado florescer da vida. Trabalho lá. Na rotina diária, além do desenvolvimento de projetos, está o despacho de processos, o envio de CIs (Comunicações Internas), a resposta a ofícios, a troca de mensagens e arquivos via e-mail. Um sobrepor de atividades que envolvem muitas folhas de celulose. Minha mesa nunca foi um exemplo de organização, longe disso. Os papéis vão se acumulando na ordem dos mais urgentes ou importantes para os menos, até o dia que a situação fica insustentável e tenho que tomar uma atitude corajosa: arrumar a mesa. Foi logo após um desses raros momentos de coragem que algo chamou minha atenção.



As pilhas de papéis ficavam organizadas por categorias, um montinho só de processos, outro só de projetos, outro que agrupava CIs e ofícios, e outro unindo relatórios e notas técnicas. Nitidamente, de um dia para o outro, aparentemente durante a noite, os grupos que eram organizados com apenas uma categoria de documento permaneciam inertes, enquanto que os grupos que juntavam duas categorias cresciam a olhos nus. Estranhei, mas minha formação cartesiana não podia ficar somente no “achismo”. No fim do dia me posicionei em frente à mesa com o celular e, enquanto simulava fazer uma ligação, fotografei discretamente as pilhas de papéis de vários ângulos, sem que elas se dessem conta. No dia seguinte, cedo, logo quando cheguei, repeti as fotos. Fui para o computador, calibrei a escala das fotos e medi pilha por pilha. Não deu outra, os montes cresceram em média doze milímetros durante apenas uma noite.



Aquele fenômeno que acontecia sobre a minha tutela me tirou as noites. Tinha que haver uma explicação para tal aberração. Passada a inicial confusão mental fui me consultar com os moderninhos pais dos burros, o casal Wikipédia e Google, mas ainda estava muito raso. Parti para as revistas científicas e os clássicos da literatura especializada, passeando por Darwin, e então as coisas começaram a fazer sentido.


Identifiquei que as pilhas que cresciam uniam sempre documentos do gênero masculino - reprodutores - a documentos do gênero feminino - matrizes. Ou seja, o ofício à CI, o relatório à nota técnica, e assim por diante. Bastante sugestivo. A primeira providência foi separar por gênero. Não se tratava de um ato de repressão ao amor livre, mas uma etapa de verificação de possibilidades num estudo científico, com algum prejuízo para as partes envolvidas, admito. Durante uma semana a interferência surtiu nítido efeito, o acúmulo da papelada não aumentou mais do que o normal esperado pela produção do trabalho. Na segunda semana três ocorrências puderam ser notadas. Número um: a movimentação dos documentos, com troca de posições e aproximação dos gêneros. Número dois: onde não havia possibilidade de aproximação entre os dois gêneros, iniciou-se um processo de auto fecundação com o gradual desenvolvimento do hermafroditismo. Número três: o retorno gradual do aumento das pilhas. Era a vida procurando seus meios. Numa ação mais insensata, fiquei até mais tarde no trabalho e na hora de fecharem a empresa me escondi entre mesas e cadeiras para observar durante a noite. Até altas horas estava tudo um marasmo tão grande que acabei cochilando. Lá pelas quatro da madrugada acordei com um ki-ki-ki, ká-ká-ká geral. Os documentos conversavam, sussurravam e riam entre si, como uma festinha em petit comité. Quando começou a fase do roça-roça e do nheco-nheco catei minha bolsa e parti a mil. Curiosidade científica tem limite, já tinha visto o necessário.


Não havia mais dúvida, o chamego entre seres aparentemente inanimados era, sim, bastante animado. Enfim encontramos a verdadeira razão para o amontoado de papéis na minha mesa. E eu, que durante tanto tempo fui difamada e injustamente rotulada como desorganizada, malucada e descabelada enquanto tentava me achar nos tortuosos caminhos do meu canto de trabalho. Mas a redenção chegou e da escuridão da incompreensão saí para a luz do reconhecimento de minha significativa contribuição para a ciência. Não, não, não quero louros, quero apenas gozar da paz da certeza que só cumpri com o meu dever: observei, registrei e relato aqui, agora, para o mundo, mais um capítulo do maravilhoso milagre da reprodução.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Panndora Surfistinha





Definitivamente estou no ramo errado. Enquanto o blog da Panndora tem uns trinta visitantes por mês e em média três ou quatro comentários, o blog da Bruna Surfistinha batia fácil quase duas mil visitas e comentários em poucos dias. O quê que ela tem que eu não tenho? Não responda! Eu mesma sou capaz de imaginar uma lista de atributos que a garota tem com os quais não fui agraciada pela natureza. Mas não é só isso, tem um ingrediente a mais. A primeira vista a pimenta neste caso parece ser o tema central do blog. Um tema excitante, estimulante, perturbador, quente, provocante, ardente, condimentado, incendiador, "tá" bom, "tá" bom, me empolguei. Recompondo-me, o papo que rolava era sexo, não sei se "do bom" ou se "do bem", mas era sexo, e sobre sexo (ou sob, ou ora um, ora outro) todo mundo quer falar, ouvir, comentar, dar opinião, contar piada, contar vantagem, enfim, participar. Se o problema todo for esse minha gente, os problemas acabaram. Para colocar um tempero nesse blog é só jogar o assunto na mesa. Mas será mesmo o sexo a verdadeira azeitona desta empada?

Para investigarmos as reais motivações que levaram os internautas a tornarem-se seguidores fiéis do endereço na web, vamos passear no universo do blog e analisar os visitantes lançando mão de algumas hipóteses aparentemente plausíveis diante do contexto apresentado no longa metragem da Surfistinha.

Verificando friamente os relatos da profissional obstinada imortalizados na telona, vemos que nem todos seus associados buscavam nela a satisfação sexual. Sim, havia uma latente carência afetiva que a moça sabiamente soube detectar e tirar proveito, cumprindo com louvor todos os papéis que lhe eram atribuídos. Tudo bem, não podemos ignorar as ardentes horas de puro prazer, as surubas apimentadas e as festas de luxúria, mas isso era só um detalhe.

Da mesma forma aconteceu com o site. O endereço já tinha algum sucesso baseado no tema sexo e nas horas ociosas de quem não tinha uma companhia real e palpável, e nada mais proveitoso para fazer. Mas o lance “bombou” mesmo quando sua idealizadora teve a grande sacada: começou a conferir estrelas -  de uma a cinco - por desempenho dos seus clientes. Nada mais sedutor para a vaidade masculina, nada mais estimulante para o instinto competitivo dos machões. Se o cara era bem sucedido, ele acompanhava o site com empenho para saber se seria superado, por quem seria, como aconteceria coisa tão improvável, quando tal tragédia assolaria este mundo e por quantos infiéis. Se era mal sucedido, acompanhava atentamente para achar pelo menos um coitado que tivesse sido mais infeliz, afinal, ele não poderia ser o pior de todos, ah, isso não mesmo. Considerando que a moça tinha em média quatro "visitas"  (visitas reais, físicas, ao vivo e a cores) por dia, perfazendo vinte e oito por semana e cento e vinte por mês, e supondo que os seus clientes acompanhavam o comparativo de desempenho pelo menos 20 vezes ao mês, durante pelo menos três meses depois de sua curta estadia com a garota, isso totalizaria, depois de três meses de atividades ininterruptas, uma média de 7200 de visitas no site ao mês. Ai que inveja mortal. 

Resumindo, detectamos mole duas motivações regadas de testosterona que garantiram o sucesso internáutico da musa e a transformaram na mais celebre rameira brasileira de todos os tempos. Caso o atento leitor não tenha intuído, atinado ou percebido, o sexo atuou em tudo como um pano de fundo, apenas o cenário, a desculpa que justificava tanto interesse.

Por absoluta sorte do leitor, inspirada nas sábias palavras da Surfistinha, "eu hoje não estou dando, estou distribuindo". Distribuindo sapiência para concluir que, baseada nas pertinentes hipóteses, inteligentes suposições e sábias conjecturas aqui abordadas, para incrementar os acessos a este endereço internáutico é necessário apenas alguns poucos recursos que mexam profundamente com a vaidade masculina, ou outros instintos e sensações que não são necessariamente nobres, mas que podem ser igualmente - e tão facilmente - explorados, além, é claro, de muita, muita sorte. Porque, como diz a pop guru Rita Lee, "sexo é escolha, amor é sorte". “Bombar” na net também.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Representantes de quem?


Diz a sabedoria popular que um Governo é o espelho de seu povo. Numa democracia então, que elege seus representantes pelo voto direto, este dito deveria encontrar sua expressão máxima. Faz sentido. Em geral, buscamos afinidades na seleção de nossos representantes, seja de ideologia, propostas ou interesses. No Brasil, em especial, esta seleção ocorre muito mais focada nos candidatos, seu carisma, vida pregressa e promessas, do que nas legendas que representam, ignorando inclusive toda a bagagem associada aos partidos que os lançam.

Contudo, quando vemos na mídia a sucessão de escândalos de corrupção protagonizados por nossos representantes políticos, ignoramos o dito popular e somos realmente capazes de nos indignarmos, nos revoltarmos, como quem pensa: "quem colocou esse cara aí?" Mas pára por aí. Efetivamente não fazemos nada. Raramente levantamos o bumbum da nossa confortável poltrona para acionar Ministério Público, processar, protestar, bater panelas, ou seja lá o que for, para mostrar que não foi para isso que eles foram eleitos e que aqueles caras não nos representam; e o mais grave de tudo, não raro re-elegemos o tal cara.

Por vezes caímos na armadilha de nos conformar alegando que um povo que é capaz, entre outras coisas, de subornar quando é pego cometendo infrações, de violar com desenvoltura a lei do silêncio, que faz das calçadas a extensão de sua propriedade sem considerar o interesse comum, que faz "gato" de luz, de água, de tv a cabo, e que topa qualquer coisa para furar uma fila, não pode esperar outra coisa. E no trânsito, nosso "calcanhar de Aquiles", sem cerimônia se estaciona em vagas exclusivas para deficientes, trafega-se pela direita nos acostamentos para fugir do congestionamento e dirigimos após consumir bebida alcoólica. Parece muito fácil concluir que esse povo merece os governantes que tem.

Realmente não são atitudes nobres. Na verdade são irresponsáveis, egoístas, individualistas e nada, absolutamente nada, corretas do ponto de vista ético e social. Por vezes a justificativa e a absolvição vêm de uma explicação de linha sociológica questionável que associa a preguiça e falta de iniciativa à herança indígena, a esperteza e a pouca vontade de pegar no pesado à herança portuguesa, e a indisciplina e malemolência à herança africana, atribuindo a este coquetel molotov grande parte das mazelas de nossa sociedade. Que ótimo, parece que só herdamos o pior de cada um. Só esquecemos de mencionar que trata-se do pior de cada um revelado no pior contexto histórico possível.
Muito bem, os últimos acontecimentos na região serrana do Rio de Janeiro revelaram um outro cenário. As chuvas e enchentes que provocaram desmoronamentos e devastaram cidades como Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo, com um saldo, até então, de mais de setecentos mortos e milhares de desabrigados, provocou nesse mesmo povo uma reação solidária que se alastrou como epidemia, amplamente divulgada na mídia.

Da preguiça e da falta de iniciativa herdadas de nossos antepassados índios, vi gente levantar bem cedo no sábado e domingo, seus dias de folga, e encarar duas horas de transporte público para, ao chegar, passar o dia separando e embalando doações até altas horas da noite. Da indisciplina adquirida dos escravos africanos vi uma divisão de trabalho organizada com funções definidas para cada faixa etária, possibilitando a participação de todos. Da malemolência, ainda raiz africana, vi corpos incansáveis, parceiros voluntários nas buscas e resgates dos bombeiros. Esperteza portuguesa vi sim. Vi um anônimo muito esperto ligado quarenta e oito horas seguidas ao lado de um rádio amador para receber pedidos de socorro, encaminhar os pedidos e prestar assistência. Vi, então, que as ações ou falta de ações governamentais que potencializaram os efeitos desta tragédia natural não encontram reflexo na sociedade civil que elegeu esse mesmo governo, e, por fim, concluí: nossos representantes políticos, definitivamente, não parecem representar essa nação.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Onde vende o espírito de Natal?


Acordei oito e meia a fim de ter tempo suficiente para tomar café da manhã com calma e me arrumar. Era o dia vinte e três de dezembro e precisava estar pontualmente às dez horas da manhã na entrada do estacionamento do shopping, exatamente a hora que abria, para encontrar facilmente uma vaga de estacionamento e ter tempo suficiente para comprar tudo até uma da tarde. Na minha lista de presentes de Natal havia vinte e duas pessoas. Para alguns, era apenas uma lembrança; para outros, amigos secretos, os presentes tinham faixa de preço pré-determinada; e outros, estes muito especiais, os presentes precisavam ser igualmente especiais. Considerando que tinha três horas para a empreitada e vinte e duas pessoas para presentear, tinha então oito minutos e alguns segundos para cada presente. Entendam, quero dizer menos de nove minutos para procurar, avaliar, decidir, pagar e embrulhar lindamente cada regalo. Era praticamente um desafio olímpico, um pentatlo natalino. Tudo bem, eu estava animada e o astral estava ótimo. Muito nova assimilei com convicção o toque de sabedoria de Lewis Carroll, compartilhado em "Alice no país das maravilhas", e não raro costumo acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã. Vamos às compras!

Na entrada do estacionamento já havia uma pequena fila, mas consegui entrar rapidamente e estacionei sem maiores problemas. No shopping, o movimento crescia visivelmente a cada minuto. Naquele ritmo, antes das cinco da tarde o prédio já teria explodido pressionado pelo acúmulo de milhares de corpos querendo ocupar exatamente o mesmo espaço no universo. Alguns presentes surgiam como mágica, um verdadeiro milagre de natal, enquanto outros escondiam-se como o diabo foge da cruz. Cada nome riscado na lista era comemorado como um prêmio num sorteio. Mas o tempo estava passando, e passando bem rápido, e ainda haviam tantos nomes. Meu otimismo estava cada vez mais tímido e o desespero já mandava torpedos pelo celular. Das oito lojas que entrei, seis tinham fila para pagar. Resolvi, então, trabalhar por atacado e numa única loja escolhi cinco presentes.

Na fila, que era bem grande, teria tempo suficiente para reavaliar a lista, fazer algumas ligações, planejar o dia e descansar. Como disse antes, "teria", mas o frenesi histérico de compradores desesperados e vendedores atordoados só conseguia inspirar em mim a angústia. Estava estática contemplando o movimento insano, um pouco selvagem, de clientes disputando produtos, vendedores e vaga na fila para pagar, quando pintou a curiosidade: "onde será que vende o tal espírito de natal?"

Era véspera de Natal, data que comemoramos o nascimento de Jesus, nos confraternizamos fazendo votos de felicidade e vislumbramos a possibilidade de recomeçarmos, de fazermos melhor, seja lá o que for. Como é exatamente que isso funciona? Chego em casa, tiro a roupa de gladiador impiedoso, a que saiu para disputar presentes a tapas, e visto a cândida roupa de "dias melhores virão". Assim? Simples assim?

Por coincidência, havia assistido há alguns dias no noticiário da TV uma matéria sobre o aumento do estresse no mês de dezembro. A reportagem apresentou alguns eventos tristes de discussões despropositadas no metrô e no trânsito, que acabam em pancadaria, acontecidos justamente em dezembro, associando os contratempos aos distúrbios do período. Os psicólogos entrevistados atribuíram o estresse aos balanços de vida que costumamos fazer nesta época. Se os especialistas estiverem certos, os balanços de vida andam acusando um resultado bastante negativo. Contudo, todos os mortais entrevistados culparam as compras e festas de fim de ano, alegando que os gastos extras, o aumento do movimento, as expectativas em torno dos preparativos das festas e o tempo exíguo para resolver tudo, geram desconforto, ansiedade e nervosismo, entre outras sensações desagradáveis.

Como não sou melhor do que ninguém, também saí do shopping estressada. Demorei mais do que podia e não comprei tudo que precisava. No carro, ia ridicularizando o espírito de Natal, questionando o próprio Natal, achando papai Noel um velho gordo e capitalista, e mandando Lewis Carroll tomar naquele lugar, junto com suas pérolas de sabedoria. No auge de minhas elucubrações céticas e cítricas começa a tocar no rádio "O Bom Velhinho", cantada por Dominguinhos. Imaginem, eu querendo desmascarar "barba branca", que não compra nada, não faz nada, e leva todos os louros, e Dominguinhos cantando:

"Como é que papai Noel não se esquece de ninguém, seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem".

Fala sério! A princípio entendi como uma provocação do "caba" e tive o impulso de desligar o rádio antes que começasse a desfiar sobre ele meu repertório de impropérios. Mas vocês sabem, o pernambucano com chapeuzinho de cangaceiro tem aquele jeitinho todo meigo e aquela voz doce como um doce de cupuaçu, que acabou operando em mim uma hipnose súbita, e não me deixou desligar. Fiquei lá, congelada, ouvindo ele cantar repetidamente: "botei meu sapatinho na janela do quintal, papai Noel deixou meu presente de natal". Devaneando, pensei: como pode? Dominguinhos é do interior de Pernambuco, cresceu na labuta e aos seis anos de idade já tocava sanfona com os irmãos em feiras e portas de hotéis de Garanhuns. Muito provavelmente papai Noel não era para ele um herói de natal e, no entanto, ele grava "O Bom Velhinho", conseguindo imprimir na interpretação tanta ternura. Claro, meu coração mole derreteu como um tablete de manteiga no asfalto do meio dia. Me senti o substrato do cocô do cavalo do bandido, uma ser sem coração e sem pátria, insensível, dura, a última das criaturas de Deus.

Voltei para casa reflexiva. Ao longo do dia e meio que faltava para a noite de Natal reformulei as idéias e coloquei cada coisa no seu lugar: a mídia, o comércio, o papai Noel, o espírito de Natal e o Natal, com toda sua simbologia e todo o seu significado. Quanto aos presentes, saí para comprar mais alguns, sem estresse, longe do shopping, e tudo deu certo. Na festa, desejei a cada um que abracei sinceros votos de Feliz Natal.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mas quem é ruivo na família?


Pois então, sou loura, meu ex-marido moreno claro e meu filho nasceu ruivo, ruivinho mesmo, com lindos cabelinhos cacheados cor de cenoura, que permanecem até hoje, aos seis aninhos. É uma coisa linda de ver, mas bastante difícil de explicar. Toda vez que ele é apresentado a alguém a conversa rola mais ou menos assim:

- Mas que lindo ele é! Você era ruiva?

- Não!

- O pai é ruivo?

- Não!

- E quem é ruivo na família?

- Ninguém!

Diante do impasse, para quebrar o clima das inúmeras interrogações que ficam pairando no ar, eu geralmente completo:

- Mas nós tínhamos um vizinho ruivo que era um espetáculo!

Todo mundo ri e fica mais a vontade, mas permanece aquela idéia fixa sobre mim: "puladora de cerca".

A história também me intrigava, mas não tinha nenhuma possibilidade de troca na maternidade, pois eu tinha visto ele sair de mim já ruivo depois de um demorado parto natural. Da mesma forma, não havia qualquer dúvida sobre a paternidade. Numa hora dessas somente a intervenção divina para explicar ou, quem sabe, alguma pegadinha da genética. Diante da dificuldade de comprovar intervenções divinas fui pesquisar a ciência dos genes.

Segundo consta, o fenômeno conhecido como "rutilismo" é provavelmente o resultado de uma mutação genética encontrada no décimo sexto cromossomo, o MC1R. Para que uma criança nasça ruiva é necessário que ambos os pais tenham a versão mutante do gene, e mesmo assim não existe nenhuma garantia que aconteça, visto que o gene é recessivo. Tente lembrar daquela aula de biologia do segundo grau, com os tais “azinho” e “azão”, heterozigotos e homozigotos, que metade faltou e a outra metade não prestou atenção. Falando de uma forma mais romantizada, o gene ruivinho não é muito eloqüente ao defender sua vez na fila, e só consegue se impor junto com seus pares. Ele pode ficar lá, escondidinho no organismo de indivíduos morenos ou loiros por várias gerações, esperando resignado a sua vez. Talvez por isso quando conseguem uma chance de surgir para o mundo são verdadeiras pimentas. Estão simplesmente tirando o atraso de gerações no silêncio e reclusão. Agora as coisas começavam a fazer sentido e reforçavam inclusive o depoimento de minha avó. Segundo ela, uma senhora de lindos olhos azuis piscina e cabelos que já foram castanhos claros, seu irmão e toda a sua descendência eram verdadeiramente ruivos ferrugem. E eu que sempre acreditei que ela havia carinhosamente inventado essa historinha para quebrar meu galho.

Somente isso já me dava condição de respirar mais aliviada. Apesar de ser uma conversa comprida e um pouco técnica demais para abordar todas as vezes que precisasse apresentar meu filho, pelo menos podia dizer que havia uma explicação plausível. Mas já que estava com a mão na massa, envolvida com minha pesquisa, não parei, e resolvi conhecer um pouco mais sobre o mundo e as especificidades dessas criaturas avermelhadas.

Descobri, por exemplo, que podemos descender em grande parte de ruivos, pois o tal MC1R, o gene que ao sofrer mutação produz cabelos vermelhos, foi encontrado numa análise de fósseis do homem de Neandertal, mas achei que a informação não acrescentou muito na minha cultura rubra. Gostei mais de saber que apenas 4% da população mundial é ruiva, com maior incidência na Escócia, onde um a cada 10 habitantes é ruivo. Eu bem que procurei, mas não encontrei nenhum estudo que indique o percentual dessas criaturas no Brasil e, especificamente, na Bahia, mas a julgar pelo entusiasmo que causam, acredito ser um percentual baixíssimo.

Por algumas ocasiões nesta década foi divulgada pela internet a provável extinção dos ruivos, talvez para aquecer o mercado de tintura para cabelos, com previsão para não haver mais nenhunzinho em 2060. Que absurdo, eu mesma sou a primeira a contestar, pois neste ano meu ruivinho estará com apenas 57 anos, na flor da idade e, mesmo que seus pêlos já estejam precocemente brancos sem possibilidade de identificação de rutilismo, ele, se Deus quiser, ainda estará aí com toda a disposição para perpetuar a espécie. Na verdade, o que acontece é que o gene, por ser recessivo, pode se tornar raro, mas não se extinguir, a menos que os ruivos ou portadores desta herança genética, desiludidos da vida, parem definitivamente de se reproduzirem. De qualquer forma a notícia, sem qualquer evidência científica sólida, não se sustentou.

No Brasil, um grupo de atores ruivos, com o bom humor que nos é característico, aproveitou a deixa e reivindicou, entre outras coisas, o direito a meia-entrada em dermatologistas, a isenção de imposto de renda para quem tem mais de 283 sardas no rosto e o firme compromisso do governo de aumentar a taxa de natalidade de crianças ruivas no país. Muito justo.

Mas voltando ao assunto da pimenta, busquei na pesquisa alguma explicação para a comum relação entre os pequenos ruivos e o temperamento hiper agitado, que quase sempre leva à carinhosa denominação de “pestinhas”. Nesta empreitada eu largava com uma ligeira vantagem, pois se fosse necessário um estudo de caso poderia lançar mão de meu exemplar caseiro e meus seis anos de observação muito próxima. Olhei, fucei, confrontei e nada. Não há qualquer fundamentação científica que ajude no desenvolvimento da hipótese. Poderia até afirmar que fiquei ligeiramente inclinada a dizer que tudo não passa de um mito criado pelo cinema, se minha experiência pessoal não gritasse justamente o contrário. Além de tudo, se não bastasse o talento natural para pegar fogo, o comportamento ainda é inflamado pelo famigerado apelido “cabelo de fogo”. Meu filhote mesmo adora o codinome, se sente o próprio e incorpora o personagem com absoluta desenvoltura.

Contudo, de todas as curiosidades que encontrei o que mais me interessou e que realmente pode ter um rebatimento prático importante é que os ruivos têm mais resistência a sedativos, precisando, em média, de vinte por cento a mais da dose de anestesia. Uma explicação é que a mesma mutação que interfere na pigmentação também poderia estimular a produção de um hormônio relacionado à dor. A outra possibilidade é um pouco mais complicada. De acordo com esta, pelo funcionamento incorreto do gene a melanina não tem um ponto de recepção ao qual se combinar, levando os pigmentos a procurarem outros receptores assemelhados para conectarem-se, como receptores de sinais de dor no cérebro. A conexão falha entre os pigmentos e os receptores de dor pode ser responsável pelo estímulo excessivo às respostas cerebrais à dor, levando a maior necessidade de anestesia. Olha só, uma característica física aparentemente tão despretensiosa influenciando numa questão realmente relevante no funcionamento do organismo. De qualquer forma, antes de sairmos super dopando os vermelhinhos, vale a pena discutir com os médicos para sabermos como isso é tratado pra valer.

Devo dizer que minhas horas de pesquisa foram bastante proveitosas. Agora sei que não posso divulgar que tenho em casa uma linda criatura em extinção, mas ainda posso afirmar tratar-se de um espécime raro, que também é muito chique. Além disso, conheci mais sobre as curiosidades do biótipo de meu pequeno, adquiri informações importantes sobre sua constituição genética e, melhor de tudo, me libertei definitivamente do rótulo de “puladora de cerca”. Hoje, quando ouço aquela maliciosa perguntinha “mas quem é ruivo na família?”, respondo tranquilamente sem me apertar:

- Veja bem, eu posso explicar!

quinta-feira, 25 de março de 2010

A pinça da ponta dourada

Vamos falar agora de uma coisa realmente importante: a pinça. Sim, a pinça de tirar pêlos, um a um. Precisei da minha, que já estava comigo há uns quinze anos, para cuidar de um ferimento na pata da minha cachorra. Aos que dirão "eeecaaa!!!", devo informar que adoro este ofício de veterinária de fim-de-semana. Mas, voltando ao nosso assunto, fiquei sem pinça. Resignada, saí o quanto antes para comprar uma.
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Cheguei à loja toda displicente e pedi uma pinça. A atendente parou, me filmou da cabeça aos pés e, olhando-me com firmeza no fundo dos olhos, perguntou com um tom sóbrio e revelador:
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- A senhora quer “a pinça da ponta dourada”?
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Não foi uma pergunta qualquer, todo o contexto foi rodeado por uma aura tão especial que nesta hora o céu se iluminou de dourado ao som de uma linda melodia celestial. O quê seria “a pinça da ponta dourada"? Ainda perplexa, fui me dirigindo lentamente ao local onde ficavam as demais pinças. Neste momento a moça disse que não adiantava, “a pinça da ponta dourada" não ficava junto com as outras. Que ótimo! Uma pinça que não se mistura com qualquer um. Então ela foi ao caixa, pegou uma chave especial e andou até um armário lacrado. Destrancou o armário, abriu uma gaveta e sacou de lá um instrumento delicado, alongado e com deslumbrantes pontas douradas reluzentes que ofuscaram meu olhar. Ela colocou a relíquia na mão e esticou o braço para que eu pudesse pegar.
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Lentamente toquei com as pontas dos dedos na jóia, primando por um cuidado que não me é peculiar, segurando-a em seguida. Oh meu Deus, o que teria de tão especial aquela pinça? E o pior, quanto custaria? Provavelmente não seria para o meu bolso. Cheia de coragem, perguntei:
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- Quanto é?



- Veja bem, é R$10,00, mas é para a vida toda.


Eu sabia, enquanto as demais pinças não ultrapassavam os R$2,00, a pinça da ponta dourada era R$10,00. Tive que rapidamente fazer algumas considerações. Além de umas continhas básicas, pensei: se eu novamente precisasse da pinça para cuidar da patinha da minha cachorra, não teria coragem de usar a de ponta dourada para auxiliar na assepsia das feridas abertas. A pinça valeria a vida de minha cachorra? Acho que sim. Decidida, falei:


- Eu quero a pinça. Você divide no cartão?
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Saí da loja segurando a bolsa como quem protege uma preciosidade e fui correndo para casa experimentar meu novo brinquedinho. Chegando lá me dirigi diretamente para o espelho para usar a sobrancelha como cobaia, e devo reconhecer, não é propaganda enganosa. A ponta dourada se encaixa com precisão cirúrgica na base, juntinho da raiz do pêlo, puxando o cabelo inteirinho. A raiz sai todinha e o percentual de pêlos quebrados cai a zero. Me empolguei e sai arrancando os cabelinhos enquanto no espelho revelava-se uma nova mulher.
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Amigas, acreditem, é um verdadeiro milagre. O alto investimento inicial é integralmente recompensado pela inestimável satisfação de olhar aquela pele lisinha e livre de fiapinhos indesejáveis ao redor de uma sobrancelha de contornos perfeitos. Sem falar de outras partes do corpo que podem adquirir também contornos perfeitos. Mas fiquem muito atentas para não levarem gato por lebre. A pinça da ponta dourada é uma pinça longa, de design limpo, toda prateada, somente com as pontas douradas e brilhantes, uma verdadeira obra de arte. Concluindo, valeu os R$10,00 parcelados e o risco de vida permanente ao qual condenei minha cachorra. E São Francisco de Assis que me perdoe.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O perigo mora ao lado

Ai “Jisus”! Não quero fazer alarde, nem muito menos bancar o “cavaleiro do Apocalipse”, mais me sinto impelida por minha responsabilidade social a dividir com o maior número de pessoas possível as informações que recentemente entraram em minha vida como uma avalanche.




Atualmente estou lendo, interessadíssima, uma publicação sobre os "sociopatas", ou podemos chamar também de "personalidades anti-sociais", ou "personalidades psicopáticas", ou outras tantas identificações, mas que referem-se à mesma coisa: os terríveis, assustadores e enigmáticos "Psicopatas". O livro é uma publicação séria, talvez um pouco sensacionalista e repetitiva, de uma psiquiatra que nos últimos tempos caiu nas graças da mídia. Em seu trabalho ela aborda os traços mais característicos da personalidade destes seres, a forma como costumam agir e o elevado potencial destrutivo inerente à sua natureza.

Segundo a autora, os psicopatas são indivíduos que têm suas funções cognitivas em perfeito estado, mas são desprovidos da capacidade de sentir afeto genuíno, ou, como ela mesma afirma, incapacitados de amar. Conseqüentemente, lhes faltam ética, moral, solidariedade, compaixão e por aí vai. Em geral são pessoas inteligentes, articuladas, sedutoras e agradáveis, mas não se iludam, para atender às suas ambições mais fúteis são dissimuladas e capazes de atos sórdidos, insensíveis e cruéis, planejados em detalhes e executados com precisão. Em geral, temos a tendência de associar a palavra psicopata àqueles “miseravões”, matadores sanguinários, tipo serial killer, mas a maldade pode ser bem mais sutil.



Até aí, tudo ótimo, afinal, informação nunca é demais. O problema é que, involuntariamente, alheia ao prudente distanciamento crítico, às vezes as informações começam a associarem-se a fatos da vida real, de nosso cotidiano, correndo o risco de extrapolar o limite da razoabilidade e criar um universo paralelo onde tudo e todos atingem facilmente a categoria de suspeitos, com sérios sintomas de psicopatia. Desde que iniciei a leitura, transformei meus ambientes de convívio em laboratórios e meus amigos, colegas e conhecidos em estudo de caso. Contrariando os que dirão que como psiquiatra sou uma excelente arquiteta, nas próximas linhas não vou me ater apenas a relatar fatos verídicos, e preocupantes, de pessoas que fazem parte do meu convívio. Instrumentalizada com os fundamentos recém adquiridos, vou me aventurar por terrenos movediços para uma leiga, analisando os desvios de caráter dos envolvidos.



Para começar, para qualquer pessoa com o mínimo de clareza e de bom senso, qual é o candidato número um a psicopata frio e calculista? O chefe, sempre, é claro! E quanto mais imediata for a chefia, mais elevado tende a ser o grau de psicopatia. A minha chefinha é um caso clássico. Ela é bonita, muito articulada e bem relacionada. Sorrindo, submete com requintes de crueldade seus subordinados às tarefas técnicas mais estapafurdias. As jornadas de trabalho propostas são absolutamente insanas, chegando a mais de trinta horas semanais, vampirizando todos até a última gota de sangue. Em geral, consegue manter a fachada de profissional equilibrada, mas quando a máscara cai, aos berros revela sua verdadeira face: ciumenta, possessiva e controladora. Em seu ambiente de trabalho é inadmissível reunir mais de duas pessoas sem sua presença, ou a confraternização é caracterizada como motim de cunho altamente subversivo, com sanções severas. Desconfio de suas ambições, mas pela frente ela vai se deparar com outro chefe, igualmente suspeito: o diretor do departamento. Alicerçado na inteligência privilegiada, na leitura dinâmica e no raciocínio extremamente célere, congrega rapidamente as informações manipulando-as conforme suas conveniências. Letrado em direito e na área um, usa sua habilidade com as palavras para justificar suas alterações comportamentais que culminam em rompantes de fúria, quando suas orientações expressas são sumariamente ignoradas. Se um sozinho é uma grave ameaça, os dois juntos constituem o prenúncio de problemas de dolorosas implicações.

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Uma característica constante nos elementos com esse distúrbio psíquico é buscar ocupar posições estratégicas para suas pretensões. Nesta linha de pensamento, uma função bastante almejada é a de secretária, que tudo ouve e tudo sabe. Na empresa que trabalho temos um exemplo. Ela secretaria os assessores da diretoria do departamento e, vamos considerar, “ô baixinha sangue ruim”. Essa pessoa não pode ser considerada exatamente uma psicopata. Pela estatura, ela poderia ser enquadrada, no máximo, como uma psico”patinha”. Para um olhar desavisado pode passar por uma mulher sã, desembaraçada e simpática, apesar de temperamental. Mas, determinadas atitudes denunciam sua perversidade sórdida. Por exemplo, sua recusa doentia em assinar por mim meu ponto de freqüência quando me atraso, negando o favor com absoluta frieza e insensibilidade. Isso não pode ser um comportamento normal de uma criatura que tem a capacidade de nutrir afeição, ainda mais porque o favor é suplicado com tanto carinho e emoção. Considero ela um perigo iminente para o grupo.



O quê dizer, então, de meu namorado? Por algum tempo aquela conversa mole me envolveu de uma maneira que impediu a compreensão racional dos fatos. Agora, começo a ter um entendimento melhor. Ele é capaz de atingir o êxtase em caloradas discussões travadas com call centers dos mais diversos produtos e serviços, em embates diários que chegam a durar horas, preterindo, inclusive, uma deliciosa companhia feminina. Além disso, um companheiro que não aparece com mimos surpresa em datas improváveis e que não leva café da manhã na cama para a sua amada, não pode ser boa coisa. Tecnicamente, poderia ser considerado como um psicopata de grau elevado, pelas conseqüências nefastas de suas ações, ou falta delas, num coração sensível. Mas vou enquadrá-lo inicialmente num grau moderado, pois os danos podem ser remediados caso ocorra uma imediata mudança de atitude, tipo um presentinho hoje mesmo.



Outro indivíduo exacerbadamente suspeito é o síndico do meu condomínio. As tais taxas extras só podem ser coisa de quem não tem uma gota de sentimento e afeto por nossos rendimentos. E a frieza e a indiferença com que somos avisados reforça minha tese. Geralmente são correspondências impessoais, como quem dialoga com uma caixa registradora, que fazem rodeios e mise-em-scène de motivos para no final nos golpear duramente. Esse senhor me preocupa e deve ser vigiado de perto.



Apesar da inquestionável eloqüência dos relatos e argumentos acima expostos, que baseiam minhas suspeitas quanto ao caráter patológico dos estudos de caso, devo registrar que o diagnóstico está numa etapa clínica bastante inicial, sujeito ainda a retoques. Contudo, já é possível constatar, mesmo sob a tutela do inseparável otimismo que me caracteriza, que o mundo é sim um lugar perigoso para passear, trabalhar e viver, e a natureza humana pode ser, por vezes, surpreendentemente desagradável. Portanto, concluo este aprendiz de laudo clínico afirmando que a palavra de ordem deve ser “cautela”, pois o inimigo espreita e o perigo pode estar ao seu lado.


terça-feira, 29 de setembro de 2009

E você, também vai dançar?



Então atire a primeira pedra quem nunca passou pela solitária experiência de, na beira de uma pista de dança, ao som de uma convidativa melodia, sentir por dentro todo o seu corpo e alma dançando enquanto externamente, estático, estampa um sorriso amarelo de "eu hoje estou cansado". Os motivos podem ser os mais variados. Absoluta falta de habilidade, paralisante timidez, desconcertante escassez de par ou, pior, "enraivante" constatação de que o objeto de seu desejo está muito bem acompanhado. Não importa, seja como for, é frustrante. Quase todo mundo tem uma história engraçada, "ou não", como diria o filósofo Caetano, para contar sobre suas aventuras na pista de dança ou na beira desta. Já ouvi algumas, mas tem uma, em especial, que me diverte mais.

Tenho um amigo e colega de trabalho sergipano que é conhecido na empresa como pé-de-valsa. Sempre impecavelmente bem vestido, com uma fala grave, pausada e em tom moderado, vive escondido atrás de uns óculos, mas quando se espalha no salão ninguém junta. Segundo ele, quando era jovem, ia às festas com os amigos e enquanto a música rolava ficavam todos parados, as meninas de um lado e os rapazes de outro. De vez em quando os garotos sorteavam um mártir, que com muita coragem e resignação atravessava o salão como quem vai para a guilhotina e arriscava convidar a dama, quase sempre levando um toco que o deixava desconsertado pelo resto da noite. Revoltados com tantos mal-tratos, os garotos articularam-se e bolaram um plano no mínimo maquiavélico. Elegiam a mais "patricinhas", as bem sebosas mesmo e, em revezamento, viravam uma sarna atrás da vítima até que ela, para se livrar daquela moléstia, topava dar a honra de uma dança para qualquer um que fosse. Então os outros se posicionavam nas proximidades. A dança começava e quando a coitada já estava mais relaxada, talvez até gostando, o seu algoz a segurava firmemente pelos dois braços afastando-a uns dois palmos e dizendo em alta voz: - Você peidou!!!! - Depois disso o descarado saía sem mais explicação deixando a garota petrificada no meio do nada. Foi mais ou menos nessa época que o mercado de trabalho para psicólogos e psicanalistas “bombou” em Aracajú. Muitas garotas conseguiram superar o trauma e levam uma vida normal. Mas outras, atualmente senhoras, deixam pomposas somas nos consultórios de psicanálise até os dias de hoje.

Não faz muito tempo que as aulas de Dança de Salão popularizaram-se como a redenção para as famigeradas timidez e falta de habilidade. A atividade alcançou a mídia, virou argumento de filmes, pano de fundo de novelas e, no Brasil, até competição em instrutivo programa domingueiro de variedades, onde o intrépido apresentador, conhecido pela sutileza que mataria de inveja qualquer rinoceronte, nos brinda com apresentações de famosos dançando variados ritmos, e não posso negar que me delicio com o quadro.
Quanto à telona, Fred Astaire já fazia babar gerações anteriores, e aquele sim, sabia o que fazia. Mais recentemente, outros superstars não tão hábeis no bailado, mas muito mais talentosos no sexy appeal, como Antonio Banderas e Richard Gere, protagonizaram fitas que também giravam em torno do tema. O filme estrelado por Gere em 2004, por exemplo, que foi traduzido como "Dança Comigo", foi um remake de um filme japonês homônimo, de 1996, e trata de um advogado de meia idade um tanto entediado que encontra na dança de salão um sopro de alegria para sua vida. A versão americana desenrola a trama em torno dos dramas pessoais do protagonista. Já a versão original, a japonesa, propõe um elemento a mais, tendo em vista que no contexto nipônico tem-se também o paradoxo entre a introspecção da cultura oriental e a natural exposição da dança. No mais, tem aquele jeitinho todo especial das produções japonesas, que conseguem dizer tudo sem precisar falar nada. Seja como for, nas duas versões, bem como no “Vem Dançar” de Banderas, a dança quebra tabus e une diferentes tribos.

Como todo mundo, também já estive algumas vezes paralisada na margem da pista, mas quase sempre, por pior que seja o resultado, prefiro me arriscar nos rodopios. Sendo do Pará, adorava jogar os cabelos pra lá e pra cá ao som da lambada de Beto Barbosa, isso sem contabilizar o carimbó, o brega, o tecnobrega e por aí vai. Para um olhar mais especializado devia parecer uma afronta à boa dança, mas quem liga? Além disso, a herança genética me empurra para o meio do salão. Meus pais não podem ouvir uma música com um pouco mais de dois metros quadrados de área disponível que levantam e saem girando abraçados. Nesse embalo, são parceiros de dança há mais de quarenta anos e conseguiram disseminar por toda a prole o gosto pela brincadeira.

De olho nas benesses físicas, psicológicas e sociais que a atividade pode promover, empresas investem nas aulas como programa de valorização dos recursos humanos, e o órgão que trabalho embarcou nessa também. Contratou um casal de professores que com extrema paciência nos ensinam os segredos dos primeiros passos. Fácil não é, mas é gostoso. Alguns têm mais ritmo, outros mais coordenação e outros, bem, tem vontade, pelo menos. Não acho que chegaremos a uma companhia de dança, mas tenho certeza que vamos nos divertir.

Na nossa turma tem um colega, aquele mesmo do "você peidou!", que adora tirar uma onda de Richard Gere em "Dança Comigo". Ele freqüenta as aulas no turno da noite e não perde uma oportunidade de mostrar seus talentos, mas não falou nada em casa para a mulher sobre o curso. Num dia desses, um canal aberto da TV exibiu o citado filme. Ele fez de tudo para dispersar a esposa, mas não conseguiu tirá-la da frente do televisor no horário marcado. Enquanto o filme ia se desenrolando ele puxava outros assuntos, mas a patroa parecia hipnotizada pela fita e enquanto assistia, comentava:
- Mas olha o papelão que esse homem está fazendo, dançando por aí escondido da mulher e da família. Ah se fosse comigo!
Ele, cada vez mais encolhido na poltrona, tentava convencê-la: - Veja bem, ele não está fazendo nada de mais.    
Não tenho dúvidas que a atividade proporciona muitas coisas salutares, que vão além de uma boa oportunidade de exercitar o jogo da sedução ou dar um “zig” inocente na mulher. Fisicamente favorece o equilíbrio, a coordenação, o ritmo e até a queima de algumas calorias. Contudo, acredito que os maiores benefícios são relativos à autoestima. Numa sala espelhada você se vê mais, melhora uma postura aqui, dá um jeitinho no cabelo ali, observa seu movimento, sua silhueta, se conhece melhor, se aprecia. De modo geral, com espelhos ou não, temos a oportunidade de vivenciar um conjunto de situações que nos torna mais íntimos com nós mesmos. São detalhes, às vezes coisas que passam despercebidas, mas que ajudam a transpor o muro da timidez e fortalecer a autoconfiança. Paralelamente, num movimento antagônico ao da percepção de si mesmo, também faz o favor de nos expor, com direito a alguns deslizes, propiciando uma descontraída integração com os demais.

Dançar sincronizado com vasto repertório de passos, dançar o feijão com arroz levando umas pisadas aqui e ali. Dançar rápido, dançar lento, dançar para dar show, dançar para consumo próprio, acompanhado ou desacompanhado. Não importa muito, o importante é dançar para se divertir, para ousar, para transpor, para se permitir. Ei, e quanto a você que está aí lendo muito bem acomodado nesta cadeira, também vai dançar?

terça-feira, 2 de junho de 2009

A Revolução depois da Pílula


Outro dia estava em um setor da empresa que trabalho, onde também estavam mais nove colegas, todos arquitetos ou engenheiros. Analisava, concentradíssima, um projeto junto com um amigo, quando, de repente, ouvimos de uma colega:

"_Que bom seria se a gente, quando estivesse com muita vontade de fazer xixi e não pudesse se aliviar, tivesse a opção de entregar nossa "perseguida" para alguém fazer o favor de levar no banheiro."

Acho desnecessário dizer que nossa interlocutora é completamente tresloucada e autora de pérolas divertidíssimas, e que, por isso, ninguém se espantou. Contudo, a declaração teve um impacto instantâneo no ambiente. Imediatamente, os abnegados colegas da ala masculina prontificaram-se a ajudar conduzindo a "senhorita" ao toalete, mas não obtiveram sucesso. Diante da elucubração filosófica, não houve quem não quisesse participar e colaborar na tese inédita no meio acadêmico.

Para começar, vamos esclarecer: não se trata, propriamente, de uma mutilação. A ação seria mais elaborada e nada dolorida. Poderia ser, por exemplo, um simples processo mecânico de "desatarraxamento", algo como rosqueamento ou fixação por pressão. A princípio, imaginar aquilo me pareceu terrível, mas o pensamento é livre, o debate estava divertido e todos sentiam-se a vontade para opinar.

É claro que sempre tem gente para querer se aproveitar e o instrumento poderia ser usado para propósitos menos práticos e muito menos nobres. Por exemplo, aquela classe dos maridos descontroladamente ciumentos obrigaria violentamente suas mulheres a deixarem suas perseguidas sob a permanente guarda do cônjuge. Por outro lado, a mulher, vitimada e cansada de tanta opressão, poderia alugar uma perseguida alheia para deixar sob os cuidados do marido e fazer livre uso da sua, enquanto o parceiro imagina controlar a situação.
Já as mulheres, solidárias como são, usarão o recurso para colaborar umas com as outras. Uma amiga bem descolada poderia levar a perseguida de outra amiga, encalhada e entediada, para dar umas voltas e quebrar a rotina. Ou talvez uma senhora, casada, em dificuldades para explicar onde deixou a "sua menina", poderia contar com a ajuda de uma amiga de fé, que juraria de pé junto que a senhora deixou a mesma com ela para ser depilada.

O que não ficou muito claro e suscita uma cuidadosa pesquisa científica é de quem seriam as sensações proporcionadas pela "dita cuja". Seria da proprietária ou da portadora? Complicado. Se for sempre da proprietária, não importando onde a perseguida se encontre, poderia ser prático em alguns aspectos, mas, ocasionalmente, poderia também promover algumas "saias justas".

Vejamos: você está numa reunião formal de trabalho. Com o modelito impecável e uma retórica eloquente, causando a "maior boa impressão". Empolgada, você começa a utilizar toda aquela sua lista de palavras que ninguém sabe o que significa, mas que causam o grande impacto, quando, repentinamente, enquanto sua perseguida é utilizada indevidamente em algum canto da cidade, seus olhos começam a revirar. Muita calma nessa hora. Pode se desculpar alegando ter um alto grau de mediunidade e estar recebendo um "espírito de porco". Seja como for, o melhor é pedir licença e tratar de resgatar o que lhe pertence.

Por outro lado, se a sensação é da portadora, o que seria até muito justo pelo ônus de ter que carregar e cuidar, dificilmente atingiríamos aquela relação de parceria e cumplicidade que geralmente nutrimos com nossa "amiga íntima".

Como podemos ver, o assunto é realmente polêmico. Longe de querer encerrar o debate, escrevo aqui apenas algumas observações pessoais, mas frisando que é uma tese aberta, em fase de desenvolvimento. De qualquer maneira, deixo claro que, quando chegar na fase dos experimentos com cobaia humana, a vaga não me interessa.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Em tempos de transição lingüística




Recentemente li um artigo de Miguel Sanches, na edição especial da revista Nova Escola, sobre a nova ortografia da língua portuguesa, o qual me fez atentar para algumas questões. Fui à banca de revista para comprar apenas um jornal e lá estava ela, a tal revista, acenando para mim como se não pudesse mais viver – ou escrever – sem suas preciosas orientações. Tudo bem, o assunto tratado merece mesmo atenção.

A mudança proposta é o resultado de um acordo para unificar a ortografia oficial dos países de língua portuguesa, a fim de aproximar as nações que falam e escrevem o português (Brasil, Portugal, Angola, Timor-Leste, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Moçambique) e fortalecer mundialmente o idioma. No Brasil, a mudança está em vias de ser confirmada por um decreto do Presidente, para entrar em vigor em 2009. A partir daí, todos os textos oficiais deverão seguir a nova gramática. Nas demais manifestações escritas, as duas regras conviverão pacificamente até o fim do ano de 2011, quando então a tolerância – ao menos acadêmica e oficial – será zero.

No artigo de Sanches, ao qual me referi no início, ele vislumbra que os cuidadosos escritores de hoje, que se esmeram em tantos acentos, hífens e tremas, serão rotulados como “os do tempo da trema”. E olha nós aí, no meio desse bolo.

Curso atualmente uma especialização na área de arquitetura e engenharia civil, na qual, na fase de conclusão, terei que produzir um artigo técnico de aproximadamente vinte páginas. Escrever não me assusta, até gosto. O que me deixa, no mínimo, insegura, é escrever em tempos de transição lingüística, mais precisamente no início de 2009, o primeiro semestre dos três anos do processo de mudança.

Fiquei matutando, se escrever conforme as novas regras, qualquer coisa entre 80% e 90% dos leitores iniciais pensarão: “a toupeira que escreveu isso não se deu o trabalho sequer de acionar o corretor ortográfico do Word”. Se escrever como hoje fazemos, meu querido artigo, daqui a três anos, será visto como uma coisa “do tempo que se escrevia 'jiboia' com acento” (porque não será mais assim). Não quero parecer nem mais burra, nem mais velha, do que realmente sou.

Seja como for, a coisa não é muito simples. Podemos nos preparar para alguns anos de dúvidas e muitas consultas aos manuais práticos, de preferência, de bolso. Para ter uma “idéia” (que perde o acento) a “saída” (que continua com acento) será “agüentar” (que perde a trema) algumas investidas na gramática para lembrar dos ditongos, hiatos e outros companheiros. Se o português, não o da padaria da esquina, mas sim, o idioma, já é confuso por sua enorme riqueza e algumas incoerências, então, o que esperar do futuro? O jeito (que é com “j”, e continua assim, apesar de ter som de “g”) é relaxar (que é com “x”, mas bem que poderia ser com “ch”) e, talvez (com “z”, mas por que não com “s”?) usar (com “s”, mas com o som descaradamente de “z”) a transição lingüística (que perde a trema) como desculpa para nossos deslises (que, pelo amor de Deus, é com “z”).

sexta-feira, 7 de março de 2008

Longe de ser uma crônica esportiva




Se tivesse como ofício ser cronista esportiva, teria sérias dificuldades para garantir o leite do meu filho. Acho que uma das qualidades da crônica de esporte é a de ser praticamente instantânea. O jogo ou a competição rolou a noite, no outro dia pela manhã lá está ela, estampando as percepções do cronista nas páginas do jornal. Quando tem o prazo mais estendido é, no máximo, semanal. Esta crônica é um pouco diferente, também foi motivada por um evento esportivo, mas que rolou em novembro de 2007. Trata-se do jogo de futebol Bahia x Vila Nova, que encerrou a participação do Esporte Clube Bahia no campeonato brasileiro de futebol da série C, resultando na ascensão do time para a série B. Comecei a escrever algumas linhas logo depois do evento, mas tempo passou e os pensamentos ficaram esquecidos na gaveta, pelo menos até agora.

Antes de qualquer coisa, vamos esclarecer: não sou Bahia desde criancinha. Meu primeiro time foi o Fluminense do Rio, paixão que herdei de meu pai. Já tive camisa, bóton e saía pelas ruas de Belém com bandeira em punho para comemorar as conquistas do clube. Contudo, crescendo no Pará, quando comecei a me entender como gente, achei que tinha que ter um time na terrinha. Novamente fui influenciada por papai, e não foi para puxar o saco, somente achava que ele era o maior conhecedor de futebol que existia e, se eram suas escolhas, era porque deveriam ser os melhores. Assim, optei pelo Paysandu, o conhecido Papão da Curuzu. O envolvimento com o Papão cresceu e acabei esquecendo um pouco o primeiro amor - o Fluminense. Estava no campo do Mangueirão com amigos quando o Paysandu, vencendo o Guarani por 2x0, foi campeão da Taça de Prata em 1991, subindo para a primeira divisão. O estádio estava lindo todo coberto de branco e azul calçola.
Quando me mudei para Salvador, me envolvi ainda mais com meu clube paraense. Acompanhava apaixonadamente os campeonatos e "batia boca" com os baianos sobre jogos e resultados. Comemorei a nova conquista do Papão na série B e a subida para a primeira divisão em 2001, a conquista da Copa dos Campeões em 2002 , a participação na Libertadores das Américas de 2003 e sua histórica vitória sobre o Boca Juniors dentro de La Bombonera por 1x0. Este episódio merece um breve comentário pela raça e bravura do feito.

Sou Paysandu, sou loura, mas não sou burra. Sei que meu time, apesar das conquistas relevantes em âmbito regional, não tem grande expressão nacional, e muito menos internacional. Por outro lado, o Boca, ainda mais na Bombonera, é uma lenda. O mito da "panela de pressão" faz tremer qualquer adversário e, justiça seja feita, poucos são os desafiantes que lá se saem bem. Com o Papão foi um pouco diferente. O estádio fervia e logo no primeiro tempo, no calor dos acontecimentos, perdemos Robson com um cartão vermelho, nosso artilheiro conhecido como "Robgol". Para completar, no segundo tempo tivemos que engolir outro cartão vermelho, desta vez para o volante encrenqueiro Vânderson, que, como disse uma crônica da época, era "o mais argentino dos jogadores do time". Resumindo: o prognóstico era sombrio. Mas os paraenses, com muito açaí nas veias, não se entregam facilmente, e com nove jogadores em campo foram atrás do resultado. Foi dos pés de Iarley que saiu o gol que nos deu a vitória e levou à loucura os torcedores do Paysandu e do Boca que lá estavam, claro, por motivos diferentes. Naquela noite o Pará desceu quadrado goela abaixo de nostros hermanos porteños. No ano seguinte o Boca, reconhecendo o talento de nosso atleta, contratou Iarley para jogar na Argentina.
Mas os dias de glória ficaram distantes e fazia tempo que o Paysandu não me dava nem um motivozinho de alegria. Neste meio tempo comecei a namorar com um "baheea", ou melhor, um baiano torcedor do Bahia, e como coisa boa é namorar, iniciei também uma paquera com o time tricolor que, vamos reconhecer, tem lá seus encantos. O quê melhor que a Fonte Nova tremendo para seduzir uma pretendente à Bahia. Foi a tática utilizada pelo meu consorte para me envolver. Fomos, em plena quarta-feira, assistir Bahia x Nacional da Paraíba pelo octogonal final da série C, na Fonte Nova. O time disputava a vaga para a série B e vinha de alguns resultados não muito favoráveis. Pé-quente que sou, não perco viagem, nas poucas vezes que fui ao campo saí com resultado favorável. Desta vez não foi diferente, o Bahia ganhou por 3x0, com superioridade indiscutível. Tudo bem que o adversário não era lá essas coisas, a metade do time era roda-presa e a outra metade era deficiente visual. Não importa, o Bahia brilhou e ficou muito bem na foto. No campo devia ter em torno de quarenta e cinco mil pessoas, e foi suficiente para colorir e balançar a arquibancada. Como profissional da construção civil, não pude deixar de observar o estádio. Mesmo velho e mal conservado, o templo do futebol baiano cumpre sua função como arena. Quase lotado, me remeteu aos filmes épicos que revivem os gladiadores ou os jogos da antiguidade clássica, mas, que pena, sem um protagonista como Russell Crowe. De qualquer forma, o ambiente era realmente envolvente. Ponto para o Bahia.

Quatro rodadas depois, com o Bahia capengando no sobe-não-sobe para a segundona, lá vamos nós novamente para o campo assistir o duelo contra o Vila Nova de Goiás, no penúltimo jogo do campeonato. Se ganhasse, não dependeria de ninguém para subir e, claro, faria explodir a Fonte Nova. Se empatasse, estaria quase dentro, mas ainda dependendo de outros resultados. Se perdesse, aí meu filho, “só Jesus salva!”

Aos 44 minutos do primeiro tempo, Elias entra na grande área determinado a deixar seu nome registrado naquela tarde de domingo, mais o goleirão do Vila não deixa por menos e manda o afoito jogador para o chão.
_ É pênalti! É pênalti seu juiz, não "tá" vendo não?
E o árbitro confirmou. Convoca-se, então, o matador do time para a cobrança. Apresenta-se Nonato, com sua atlética silhueta de barril, para carimbar o passaporte do tricolor. O estádio mudo, todo de pé, esperava a hora de gritar com o peito aberto: goool!!!! Lá vai ele, com uma convicção de dar sono e então... filho da “P”, o cara perdeu o pênalti. Como ele conseguiu essa proeza? Não sei! Só sei que foi assim, e fim do primeiro tempo.

O segundo tempo foi àquela maravilha. O jogo estava tão interessante que não conseguia desviar minha atenção do gordinho sentado dois degraus abaixo na arquibancada. Acho que ele não sabia quem estava jogando, ou sequer que modalidade esportiva estava sendo celebrada. Seus olhos, cabeça, tronco e membros percorriam ansiosamente todo o estádio procurando qual seria a próxima guloseima que iria mastigar. Churrasquinho, pipoca, amendoim, sorvete, balinha e por aí vai. Era um filme engraçado de assistir. O fulano não parou de comer o jogo inteiro e consumiu tudo que podia ser comprado no local.

Fim de jogo: 0 x 0. Com os outros resultados do dia, o Bahia pôde comemorar: estava na segundona. Dá-lhe “Baheeeea”! O campo foi invadido e completamente tomado pelos torcedores. Mas não posso deixar de registrar o acontecimento triste da tarde. Ainda no segundo tempo, sem que a grande maioria dos presentes no local percebesse, parte da arquibancada do anel superior desabou de uma altura aproximada de 15 metros, matando sete pessoas. Sete torcedores que, como nós, saíram de casa para assistir um jogo e se divertir. Lamentamos! Alguns dias depois o Governador deu uma entrevista anunciando que iria demolir a Fonte Nova.

Morando em Salvador, desejei por muito tempo conhecer o famoso reduto do Bahia. Demorou bastante, mas a chance enfim chegou, e por uma grande ironia do destino, presenciei naquela triste tarde o último jogo do histórico estádio da Fonte Nova.