segunda-feira, 16 de abril de 2007

E nada de Gloria Gaynor


Em Salvador, morar perto das praias as quais, no fim-de-semana, a cidade toda encara engarrafamentos para chegar, tem seu preço. Boa parte dos artefatos e serviços mais específicos só estão disponíveis na “cidade”, e tenho que enfrentar mais ou menos uns 40km para encontrá-los. Esta semana, numa dessas empreitadas, fui à Gamboa, no trecho sentido Campo Grande – Av. Contorno, e me lembrei de um sábado à noite que vivi naquela área.

Havia uma data que, motivada por entusiasmados comentários de amigos, queria conhecer uma boate gay no referido endereço: a “Tropical”. Mas, vamos combinar, por mais antigo que pareça, não é qualquer um que topa essa programação. A maioria das pessoas tem, na ponta da língua, uma lista de boas razões para não irem, quase todas recheadas de pré-conceitos dos mais caretas; e depois, ainda dizem que os freqüentadores da boate é que são cheios de “frescura”. Mas isso não era problema, eu tinha um amigo perfeito para a ocasião; não era gay, mas também curtiria a noitada.

Saímos em torno de meia-noite e, para esquentar, fizemos um pit-stop num bar na Ladeira da Barra, com vista para a Baía de Todos os Santos; um local que tinha a fama de ser GLS. Pelo que pudemos presenciar, era só fama. Encontramos um ambiente dos mais ortodoxos: casais de namorados apaixonados e animados grupos de confrades. Eu e meu amigo não nos enquadrávamos em nenhum dos dois casos. Havíamos namorado,  mas, no momento, não tinha nada entre nós. Mesmo sendo assim, quando estávamos juntos, ficávamos numa brincadeira de gato e rato, alternando os papéis, sobrando para mim, na maior parte das vezes, o papel de rato. O papo fluiu entre conhecidos em comum, músicas, filmes e acontecimentos recentes ou antigos, de um e de outro. Quase duas da manhã, saímos rumo ao nosso destino principal.

Na porta da boate, logo me animei. Apesar da chuva, a entrada estava movimentada, com uns travestis bonitos e produzidos. Ao entrarmos, nos deparamos com um ambiente de boate não sofisticada, mas como qualquer outra: luz negra, jogos de luzes piscando, fumaça de gelo seco, fumaça de cigarro e aquele repetitivo som de tum-tum-tum. A característica especial era o público: 99% masculino. Não era exatamente o que imaginava. Sabia que havia um show de transformistas, então, em algum lugar, tinha que existir um palco e um espaço adequado para espetáculos. Saímos pela boate procurando e cruzamos todo o ambiente, que tinha no fundo uma parede espelhada. O espelho nos confundiu e continuamos andando até nos depararmos com nossa própria imagem refletida. E aí, acabou? E o palco? E todo o resto? Puxei conversa com um rapaz muito dançante e perguntei pelo show. Ele me informou que havia um pavimento superior e que as apresentações aconteciam lá. No primeiro andar, encontramos um espaço reduzido também com luz negra, um bar, um pequeno palco e algumas mesas. Como o show ainda não ia começar, descemos e fomos sacudir. Na boate rolou a dança de uns gogo-boys. Nada de mais, eu mesma sou capaz de performances mais interessantes. Curtimos um pouco e fomos assistir o esperado show. As apresentações eram solos de travestis dublando cantoras como Gloria Estephan. Muito maquiadas, com cabelos ou perucas vistosas, saltos altíssimos e vestidos sensuais. As performances eram contidas, sem jogos de pernas ou movimentos bruscos, e mais caras e bocas.

Estava legal, mas não tinha nada a ver com o que havia, literalmente, fantasiado. Confesso que estava totalmente influenciada por filmes como “Gaiola das Loucas” e “Priscila, a Rainha do Deserto”. Esperava, e posso até dizer que queria muito, encontrar um lugar exageradamente colorido, cheio de drag queens, transformistas de patins, um público mais escandaloso e performático, e uma forte disposição de todos para interagir de modo geral. Para os shows, a expectativa eram muitas pessoas no palco, roupas de espetáculo, e pernas e braços passando para todos os lados. Nos intervalos das apresentações, achei que dançaria ao som de Gloria Gaynor, com o celebre “I will survive”, ou talvez “It’s raining man”. Nem uma coisa, nem outra, mas não posso dizer que me decepcionei, só caí na real. Meu amigo fez algum sucesso. Despertou o interesse de um baixinho, que lhe lançou uns olhares fulminantes, e também pegou alguns apertos quando nos amontoamos para ver o show. Eu saí no zero a zero.

Quando fomos embora, aproveitando que estávamos ali perto, tentei de todas as formas convencê-lo a pularmos o muro do Passeio Público, que ficava fechado e vigiado, para  vermos o sol nascer. Lógico que a parte do “sol nascer” era uma lorota. A orla da Baía de Todos os Santos é famosa por proporcionar aos apreciadores um belíssimo pôr-do-sol, não seria porque estávamos lá, naquela madrugada, que o sol resolveria nascer ali. Ainda assim, quando clareasse, haveria a vista do imenso azul, e como canta Gil, “não qualquer azul (...)/ o azul de qualquer poesia (...)/ é o azul que a gente fita/ no azul do mar da Bahia”. No mais, tínhamos grandes chances de viver uma excitante aventura, mas ele não topou.

Termino como o Pescador de Ilusões: “valeu a pena”. O passeio serviu para desmistificar aquela “aura” que criamos em torno dos ambientes e eventos gays, onde imaginamos que os homossexuais têm que ser necessariamente “espetaculosos”, e tudo deve ser como uma Parada Gay. Nessa tribo, como em todas as outras, as pessoas saem para se divertir, ver outras pessoas e namorar, sem qualquer compromisso de proporcionar show para quem quer que seja. Se você é da noite, gosta de boate e quer variar o point, é uma. Deixe em casa seus pré-conceitos e vá curtir. Eu recomendo.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

La Dolce Vita


Quando iniciei o blog, planejava escrever sobre uma série de coisas que povoam minha cabeça, mas de uma maneira que pudessem resultar num conteúdo inteligente, divertido e interessante para quem lesse. Mas o fato é que, no dia-a-dia, sou atropelada pelos acontecimentos domésticos, que provavelmente não são interessantes para mais ninguém, mas, para mim, por vezes, são até bem divertidos.

Essa semana começou com uma reunião na escola do meu filho, logo às 9h da segunda-feira. Imaginava ser uma reunião ordinária. Ledo engano. Era uma reunião extraordinária. O rapazinho, com três anos, anda explosivo além da conta e, quando contrariado, perde o controle e reage de forma pouco amigável. Fiquei pensando no que poderia fazer e passei o resto da manhã com uma sensação de incompetência me perseguindo.

Saí do trabalho meio-dia e, como costumeiro, passei para pegar o pequeno na escola. Chegando em casa, o portão eletrônico, que já dava sinais de enfermidade, não abriu. Tudo bem. Deixamos o carro fora e entramos. Há pouco tempo uma equipe da prefeitura vem realizando limpeza no rio que passa junto de minha casa. Nesse período, todos os dias, quando saio de casa e quando retorno para o almoço, vejo aquela “homaiada” estacionada em minha calçada, com olhos atentos a todos os nossos passos. Considerando que moro sozinha com o filhote, a situação me deixa um pouco preocupada. Meu ex-marido, pai do baixinho, tinha ficado de levar em casa algumas roupinhas do garoto que estavam com ele. Aproveitando a oportunidade, pedi que agisse como se morasse na casa, cumprimentasse os homens e fizesse notar sua presença. Nessas horas é bom ter uma figura masculina para posar na foto. Acho que a encenação foi satisfatória.

Depois do almoço, levei meu filho numa clínica ortopédica no bairro vizinho, pois tinha machucado a mãozinha numa queda há alguns dias e a mesma continuava um pouco inchada. Acho que por uma questão de segurança, ele levou sua espada - de plástico, comprada por R$3,00 nessas lojas que costumavam ser de R$1,99 - embainhada na cintura. Sem dúvida o rapaz estava num dia inspirado: comunicativo, perguntador e muito boa praça. Na clínica, conversou e brincou com a recepcionista, o servente, o médico, o técnico em radiologia, a enfermeira e alguns outros pacientes, mostrando toda sua habilidade como espadachim. Depois de diagnosticada uma pequena fratura em um dos ossinhos da mão, foi indicada a imobilização. A enfermeira chegou com o material e pediu a ele a mão para engessar, enquanto, ao lado, eu e o médico conversávamos. Concluído o gesso, a enfermeira mostrou ao médico perguntando se estava bom. O médico, tranqüilamente, respondeu que o gesso estava ótimo, mas estava na mão errada. O baixinho imediatamente falou meio cantarolado: “te enganei!”. Caímos todos na gargalhada. Eu mesma tive uma crise de riso e as lágrimas chegaram a descer. A enfermeira falou: “você rapaz...”. E ele respondeu rindo: “você é uma maluca!”.

Saímos com o gesso na mão certa, deixei o pequeno em casa e fui para o trabalho. À noite, quando voltei, o portão novamente não colaborou. Desci e fiz todos os procedimentos necessários para abri-lo na mão grande. Um portão de madeira de aproximadamente 3,00m x 2,40m pesa, e novamente me veio à cabeça que, também para essa situação, a figura masculina fica linda na foto. Tudo bem, dá para resolver. Entrei e começou a novela que vivo quase todos os dias quando chego em casa à noite. A esta hora, meu filho está com saudade e querendo atenção. Da mesma forma, é a hora da refeição dos cachorros, um casal de labradores, e do gato, um exigente vira-lata que come o dia todo, e já estão morrendo de fome. Enquanto entro, o pequeno fica me chamando e puxando, os cachorros latem e correm de um lado para outro, me cobrando a hora do rango, e Pajé mia como se não comesse há dias. Às vezes, por falta de sorte, na mesma hora toca o telefone ou Eliane, minha assistente para assuntos domésticos, resolve relacionar verbalmente tudo o que preciso comprar. Sempre me vem à cabeça uma música que ouvia quando era criança e que dizia mais ou menos assim: “a véia debaixo da cama/ a véia criava um gato/ de noite o gato miava, o cachorro latia, o pintinho piava/ ai meu Deus como eu sofria”, e me dá vontade de rir.

No dia seguinte, quando retornei com meu garoto para o almoço, o portão funcionou ao primeiro toque, e entramos sob os atentos olhares da equipe de homens da prefeitura. Já com o carro do lado de dentro do muro, o portão mudou de humor e não quis fechar. Comecei a insistir na tentativa de conseguir, incomodada com a casa escancarada diante da platéia de estranhos. Como não obtive sucesso, desci para, novamente, fazer todo o passo-a-passo para fechá-lo manualmente, deixando o baixinho dentro do carro para ser mais rápida. Enquanto começava os procedimentos, meu filho, seguro no cinto de segurança da cadeirinha, começou a chamar de dentro do carro, pedindo insistentemente que o tirasse de lá. Simultaneamente, Eliane veio correndo até nós com uma cara de susto, para não dizer pânico, pedindo socorro porque havia uma cobra no telhado da área de serviço. Pra completar, a cachorra conseguiu abrir um pequeno portão que existe já dentro do lote, e tem a função de isolar a área de entrada do carro, impedindo que os cachorros fujam quando o portão eletrônico se abre. Segurei a cachorra para que não fugisse e me coloquei na frente do cachorro, para que ele não fizesse o mesmo. Esse foi um daqueles momentos quando, em fração de segundos, passam milhões de coisas pela nossa cabeça. Olhando todo o contexto, não sabia o que resolver primeiro, considerei várias possibilidades de ação e elegi o plano que me pareceu melhor. Comecei tentando, pela última vez, fechar o portão com o controle. Por sorte, consegui. Aí, pude soltar a cachorra, liberar o cachorro, tirar o pequeno de dentro do carro e, então, socorrer Eliane.

Mais do que uma assistente para assuntos do lar, Eliane é uma amiga. Uma garota de 22 anos com um juízo que eu só alcancei em meados dos trinta, já motivada pela maternidade. Na minha ausência, cuida de meu filho com todo o carinho e responsabilidade, além das demais atividades domésticas, mas coragem, com toda a certeza, não faz parte do rol de suas qualidades. Ela tem medo de ficar sozinha em casa à noite, tem medo de rã, sapo, lagartixa e outros bichinhos, fato que, considerando a área onde moro, constitui um problema.

Enquanto caminhávamos em direção à área de serviço, fiquei imaginando que deveria ser uma cobrinha de nada e tudo não passava de um grande exagero de Eliane. De qualquer maneira, não seria a primeira vez que seríamos brindados com a visita do réptil, nem a segunda; para ser exata, seria a quinta vez.

A primeira vez que fui surpreendida por uma serpente dentro de casa devia fazer um ano que morava no local, e ainda não tinha filho. Estava pintando uns artefatos na sala quando a cobra rapidamente entrou e escondeu-se debaixo do estofado. Da outra vez,  apareceu uma no caminho da saída do carro. Na terceira vez eu estava com duas sobrinhas hospedadas em casa. A cobra escondeu-se na área de serviço e foi o acontecimento do dia. Por fim, na quarta vez, o réptil foi realmente convidado. Tratava-se de uma salamanta de estimação de um amigo veterinário. A cobra tinha aproximadamente 1,50m, era dócil e todos, incluindo o baixinho, carregamos o animal, tiramos foto e tudo. Acontece que em todas as oportunidades anteriores eu ainda estava casada e, tenho que reconhecer, o “ex” tem um talento todo especial para lidar com essas situações. Em todas as vezes que elas vieram sem ser convidadas ele conseguiu reconduzi-las ao rio ou alguma área de vegetação adequada, sem se alterar e sem machucá-las. A que alojou-se na área de serviço, para delírio de minhas sobrinhas, ele pegou com a mão e saiu mostrando para todo mundo. É praticamente um “Indiana Jones”. Só que a situação agora é outra e, apesar de não ter medo e ter muita afinidade com animais e ambientes naturais, não sou nenhuma “Jane”, e não tenho qualquer habilidade de captura.

Já na área de serviço, Eliane não quis nem entrar, de longe me apontou onde o bicho estava e saiu gritando. Quando olhei não acreditei. Só dava para ver a cabeça, parada, observando tudo. A questão é que a tal da cabeça devia ter uns seis centímetros de largura, o que indicava ser uma cobra de tamanho considerável. Além disso, não dava para ver cor ou padrão de desenhos do couro, que poderia dar dicas sobre a espécie. Isso ia exigir medidas extremas e provavelmente teria que contatar algum órgão especializado na captura e remoção. Saí e fui dar uma olhada na lista telefônica, mas a curiosidade foi maior e resolvi espiar novamente. O local onde ela estava escondida era um pouco escuro e tive que chegar realmente perto. Foi quando observei algumas coisas pontudas sobre a continuação da cabeça, ou seja, no pescoço, mas cobra não deveria ter pescoço. Cheguei mais perto e ela movimentou-se, então apareceram as garras. Garras? Cobra incomum, pensei. Foi aí que deu para sacar, não era uma cobra, era um camaleão, ou parente próximo, e o bicho não era pequeno. Então fiquei tranqüila, até onde sei, camaleões não mordem, picam ou oferecem maiores riscos.

Proibi terminantemente Eliane de enxotá-lo com vassoura ou qualquer outra coisa. A orientação era: deixe o animal na dele, a hora que resolver ir embora, ele vai. Acho que o bicho não corria risco mesmo, minha escudeira não ia entrar no ambiente enquanto ele permanecesse lá. Tentei de todas as formas amenizar seu sentimento de medo, dizendo que ele era como um dragãozinho dos contos de fada que não cuspia fogo, mas acho que ela não curtia muito as historinhas infantis. Todo esse alarde acabou assustando também meu garoto que, em geral, é bem despachado com os animais, mas nesse caso, só topou ver a um metro de distância e no meu colo. Não demorou muito para o bichinho ir embora por decisão própria e a paz voltar a reinar no lar. De pensar que ainda estávamos na terça-feira; mal podia esperar pelo resto da semana.

Ah, sobre o portão eletrônico, levei o controle para a assistência técnica, que me garantiu que o problema era a bateria, trocando-a na mesma hora. Mas, até hoje, ele ainda não funcionou.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Só mais um texto sobre a maternidade



São relativamente comuns os relatos sobre a experiência da maternidade e/ou paternidade. Textos apaixonados, em êxtase, ou angustiados e cheios de dúvidas, ou ainda, com um pouco de tudo, que são os que parecem mais próximos da vida real. Também tenho minhas histórias e impressões. Como minha experiência pessoal é a maternidade, vou me referir especificamente a ela, apesar de acreditar que tudo, ou quase tudo, se aplica integralmente também à paternidade.

Não fui mãe cedo. Tive meu único filho aos 34 anos, apaixonada pela idéia. Quando ele chegou, já tinha mais de 6 anos de casamento, tempo pelo qual adiei a gravidez por uma conjunção de motivos, mas acredito que, sobretudo, por puro medo. Por melhores que fossem meus sentimentos e relações com marido, pais, irmãos e amigos em geral, ainda assim era a personagem principal de minha própria vida, a pessoa mais importante. Não sei se era exatamente uma questão de egoísmo, traçava os caminhos conforme meus objetivos e, já no trajeto, sempre arrumava tempo e espaço para as pessoas e causas que me eram caras. Desta forma, quase sempre, fiz o que quis. A chegada do pequeno, neste contexto, mudou tudo. Ele passou a ser a pessoa mais importante de minha vida, o protagonista de minhas cenas e, não raro, me vejo ajustando o caminho, adiando, ou mesmo desistindo de projetos por sua causa.

Não ponho em dúvida que esse exercício de renúncia, entrega e disponibilidade me faz melhor. Claro que todo mundo, em maior ou menor medida, já experimentou os efeitos positivos do sentimento do amor ou outros, quase tão nobres quanto, mas a maternidade bagunça a gente de uma maneira diferente. É um processo diário e muito dinâmico, porque as figurinhas crescem sem pedir licença e, a cada diferente fase, os desafios insistem em te lembrar que, apesar de tudo que você viveu, ouviu ou leu sobre o assunto, não sabe de nada.

Por falar em ler, desde a gravidez, me lancei numa frenética busca do conhecimento através da literatura especializada em bebês, educação e psicologia infantil. Tentava antecipar meus conhecimentos às fases, na ilusão inocente, quase burra, que, para aquela fase seguinte, estaria melhor preparada. Fui tão feliz neste projeto que, há tempo, não leio nada sobre o tema. Não que o conhecimento desses profissionais, que pesquisam uma vida inteira o assunto, não ajude, mas nossa intuição e bom senso são bem mais determinantes na vivência. De resto, vejo que o melhor é relaxar e aproveitar, aproveitar muito, porque passa rápido demais e, se é nossa responsabilidade e compromisso contribuir positivamente na formação dos pequenos, eles, sem qualquer compromisso ou responsabilidade, fazem muito mais pela gente. O banho de chuva, as brincadeiras que só nós entendemos, o acordar preguiçoso envolvido em carinhos e declarações de amor eterno, são momentos que, junto com ele, quando tudo está fluindo bem, me dão a sensação de que nada mais importa. Além disso, me sinto estimulada de outras formas, porque o rapazinho, apesar de tão novo, mostra que sabe (ou pensa que sabe) o que quer.

Confesso que neste quesito ajudo um bocado. Mais ou menos desde os seus dois anos e meio, pratico com ele um exercício de argumentação e contra-argumentação. Grande parte das vezes que ele quer algo (coisa ou atividade) e tal desejo não me parece uma boa idéia naquela hora, quando sou questionada sobre a negativa, respondo somente: “me convença”. Acho que não preciso dizer que choros, birras e tolices em geral, não são considerados na discussão. Só valem argumentos, e é surpreendente o que pode sair de uma cabecinha que ainda não tem nem quatro anos de vida. São sacadas, improvisos e tentativas de manipulação que me divertem e me provocam. Às vezes, o debate se estende longamente, nem sempre terminando bem. Não alivio porque ele é criança. Se o argumento não convence, paciência, ele não leva.

Há algum tempo, introduzi em nossa relação o conceito de “direito”, no sentido de prerrogativa para fazer ou deixar de fazer algo. A partir daí, passou a ser comum em nossos diálogos colocações como: “você tem direito de falar isso” ou “não tem direito de fazer aquilo”. Quando brigávamos, ele, muito invocado, me “xingava” de feia e, por vezes, tentava me bater. Eu o segurava e dizia com firmeza:
- Você tem direito de me achar feia, é um direito seu, mas não tem direito de me bater.
Tempo depois, enquanto brincávamos relaxadamente, ele, de forma carinhosa, me chamou de feia. Eu rebati:
- Poxa filho, você me acha feia? Fiquei triste!
Ele, sem pensar, respondeu de pronto: - Não fica triste mãe, é um direito meu te achar feia.
 Na hora, só consegui pensar em palavras pouco amistosas para dizer ao Sr. Nelson Aguiar e Sra. Rita Camata, respectivamente autor e relatora do Estatuto da Criança e do Adolescente, que conferiu direitos a essas criaturas.

Em outra oportunidade, fui pega de surpresa por uma dúvida sua que me pareceu um pouco precoce. Sua babá trouxe à nossa casa o enteado, um ano mais novo que meu garoto, para passar um dia conosco. Os dois rapidamente entenderam-se e começaram a brincar. O anfitrião teve um comportamento exemplar, mostrou todos os brinquedos e os emprestou sem reservas. O visitante encantou-se com tudo e, absorvido entre tantos brinquedos, não deu muita atenção para o novo amigo. Meu gatinho sentiu e, sem falar nada, levantou-se e ficou observando a cena um pouco afastado.Não demorou muito, perguntou:
- Será que ele gostou de mim ou só gostou dos meus brinquedos?

Outro desafio é o permanente processo de interação entre o que oferecemos dentro de nosso mundinho controlado, ou relativamente controlado, que é nossa casa, e as contribuições externas. Dentro, em certa medida, posso selecionar os estímulos e equilibrar as doses. Fora, os estímulos vêm de um sem número de fontes e, portanto, não há muito como controlar. Nessa linha, poderia falar de alimentação, comportamento relacionado a várias questões e outros, mas vou me referir somente a um aspecto. Meu garoto é uma criança bonita, de uma beleza diferente em nossa região. Para completar, é comunicativo, carismático e bastante sedutor. Colocações do tipo: “mamãe, por que todo mundo me chama de lindo?” Ou “todo mundo quer meu cabelo e me pede um pedaço!” Ou ainda “Todo mundo me ama, não é mamãe?”, chegam a me preocupar sobre como os tão constantes e entusiasmados comentários se processam na cabecinha dele. Além disso, somamos o fato dele ser baiano e, como tal, "não nasce, estréia", ser filho único e leonino, autêntico. Resumindo, ele é vaidoso, adora ser o centro das atenções e, realmente, “se acha”. Entendo que é importante que ele aprecie sua própria imagem, sinta-se querido e admirado, mas procuro ter cuidado com os exageros. Tento mostrar que não precisa ser, necessariamente, sempre assim e, na medida do possível, mudo o foco e chamo a atenção para outras qualidades menos “espetaculosas” que ele tem, ou que não tem, mas que é bom que desenvolva.

Nove meses atrás, pulamos uma fogueira. Eu e o pai do pequeno nos separamos. Desde então, vivemos somente ele e eu, com direito a babá durante o dia, enquanto trabalho, para os horários em que ele também não está em suas atividades externas. Antes que possa parecer que o pai sumiu, esclareço que não foi o que aconteceu. Ele continua presente e participativo, um bom pai, mas não mais faz parte de nosso convívio diário. Não tenho ainda uma avaliação muito clara de como nossa relação de mãe e filho evoluiu nesse período. Existiram fases em que ele demonstrou nitidamente estar sentindo a separação. Já em outras, agia como se sempre tivesse sido assim. No mais, o próprio convívio oscila muito de dia para dia, às vezes, de minuto para minuto. Um acontecimento recente me deu uma boa idéia dos picos de oscilações que nossa relação pode atingir, e das “saias justas” que tais situações podem proporcionar.

Há duas semanas, quando voltávamos de avião para Salvador, o rapazinho, agora com pouco mais de três anos, protagonizou o maior “piti” feito por uma criança que já tive oportunidade de presenciar. Existiam alguns atenuantes para aquele comportamento. Ele foi acordado às 3:00h da madrugada e se recuperava de uma inflamação na garganta, que lhe rendeu, além de umas febres de mais de 39ºC, algumas privações e uns procedimentos nada agradáveis para as crianças, relativos a exames médicos. Mas tudo isso ainda não me pareceu suficiente para justificar um show daquela proporção.

Enquanto entrávamos no avião, ele ia falando: “eu quero sentar na janela”. A cada janela vazia por onde passávamos, ele perguntava: “é essa?” Infelizmente, nossos lugares eram marcados, e não contemplavam janela. Constatado o fato, assim que sentamos, ele começou a chorar e gritar: “eu quero uma janela!” Todos já haviam entrado e sentado, e os comissários se preparavam para a decolagem. Quando ele começou a espernear, tirei-o de seu lugar e o segurei firmemente sentado em meu colo, tentando conter braços e pernas que, a essa altura, se debatiam, atingindo a mim e a poltrona da frente. Como costumo fazer nessas situações, não me alterei. Normalmente o teria levado para um local mais reservado, até que se acalmasse, mas, neste caso, não era possível. Mantive a calma, falando em seu ouvido: “quando você parar, nós conversamos”. Mas ele não parou tão rápido. A comissária veio até nós e perguntou: “_você quer um chocolate?” Antes que ele falasse qualquer coisa, respondi que não era para dar nada a ele. Da mesma forma, o rapaz que sentava na janela de nossa fileira ofereceu de maneira simpática o seu lugar. Agradeci, mas recusei. Seria o fim, depois de tudo, premiá-lo com um chocolate ou com a janela. Entre os gritos de “me solta”, percebia a reação das pessoas no avião, que iam desde o riso, até os olhares e murmúrios que, apesar de não poder ouvir, compreendia tratar-se de qualquer coisa sobre a minha falta de competência em educar e estabelecer limites. Não tenho idéia de quanto tempo durou aquela situação, mas quando ele parou, o avião ainda não havia saído do lugar. Coloquei-o de volta em sua poltrona. Em experiências semelhantes que vivemos, quando ele acalmava-se, pedia desculpas dizendo, com convicção, que não iria fazer mais isso. Era quando aproveitava para estabelecer um diálogo, estimulando-o a falar sobre o que tinha motivado a reação intempestiva, e então, juntos, buscávamos alternativas mais positivas para a demonstração de seus sentimentos. Mas, dessa vez, ele estava realmente com sono. Ficou calado e, aproximadamente, cinco minutos depois, dormia com a cabeça encostada em meu colo. Que bom, porque eu não tinha mesmo condições emocionais de conversar nada.

Enquanto o devolvia para seu lugar, minhas lágrimas começaram a descer insistentemente. Estando num lugar público e sendo, no momento, o centro das atenções, me vali dos longos cabelos para esconder o rosto e um constrangimento um pouco dolorido. Por fim, fui também vencida pelo sono. Adormeci, entre muitas reflexões, com a nítida sensação de que a festa está apenas começando.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Uma Tarde Incomum de Praia


O combinado parecia perfeito: sexta-feira, praia no horário do almoço. Realmente não podia ser melhor. No verão o céu de Salvador atinge o mais belo tom de azul e a praia parece murmurar: vem cá, chega aqui. Diferente de Vinícius, o dia não era exatamente “para vadiar”, mas duas horas deviam ser suficientes para “desanuviar”, afinal, não passávamos pelos melhores dias em nosso ambiente de trabalho, um órgão público. O momento era de transição política e o novo governo, que acabara de assumir, prometia de forma um pouco vaga mudanças que não tínhamos ainda como mensurar. Bem, em briga de cachorro grande é melhor não se meter, então vamos à praia. Inicialmente o programa era para aproximadamente oito pessoas, mas entre acertos e desacertos sobramos nós três: Alida, Borges e eu.

Praias do Flamengo pareceu a melhor opção. Biquíni e frescobol na bolsa, pegamos o rumo da praia. Chegando lá, já ansiosos para pisar na areia, trocamos a roupa no banheiro da barraca que acabamos ficando. Borges, que estava sem sacola, me deu algumas coisas enroladas em sua calça jeans para que guardasse na minha bolsa. Entre cerveja, água de coco e um bom mergulho, conversávamos sobre o privilégio de poder curtir uma praia tão gostosa em pleno dia de semana. Nenhum dos três baiano, concordávamos que esse povo tinha mesmo motivos para ter tão bom astral. Com quinze minutos de praia, enquanto Borges curtia o mar, fomos – Alida e eu – jogar frescobol, deixando nossas coisas, bolsa e tudo mais na mesa da barraca sobre a areia da praia, há aproximadamente 20m de onde jogávamos. Não demorou muito para que ele chegasse dando o alarme:
- Vocês pegaram as coisas da mesa? Porque meu relógio, que estava dentro do sapato, não está mais lá.

Eu, adepta convicta do pensamento positivo, não dei muita atenção, e respondi qualquer coisa tentando fazê-lo acreditar que não tinha olhado direito ou que talvez tivesse deixado em outro lugar. Alida foi pela mesma linha. Mas ele foi firme:

- Não, não. Eu tenho certeza.

Diante da insistência, fomos “averiguar” – já usando um termo compatível com os acontecimentos que viriam na seqüência. Não deu outra, haviam levado o relógio dele e minha bolsa, com todas as coisas que havíamos colocado dentro. Num lapso de confusão mental, olhei um pouco aliviada e pensei comigo: “ainda bem que não levaram o frescobol”, já planejando a praia do fim de semana que estava chegando. Recobrada a consciência e a real escala de valores, atinei que tinha perdido a chave e o documento do carro, a carteira com todos os documentos pessoais e cartões, o celular, as roupas e mais ou menos as mesmas coisas de Borges. Indaga daqui e investiga dali, indicaram o sentido do caminho de nosso larápio. Em completa sintonia, nos olhamos e saímos correndo na direção enquanto Alida gritava: "- vou ficar aqui olhando o resto das coisas e esperando vocês."

Perguntando mais ou menos 300m na frente, descobrimos que haviam pego um rapaz roubando em outra barraca e entregue para o módulo da polícia militar, localizado na divisa entre os bairros de Praias do Flamengo e Praia de Ipitanga. O módulo, que se não fosse pelas cores tristes e o péssimo estado de conservação, mais pareceria uma casa de boneca; tinha uma janela na fachada, por onde, cheia de curiosidade, coloquei a cabeça para xeretar. Dentro, numa área de aproximadamente 12m², víamos dois policiais em torno de um jovem rapaz sem camisa. Este estava sentado no chão com as mãos algemadas para trás e uma fisionomia que misturava um sincero sentimento de medo e um fingido sentimento de “não tenho nada com isso”. Para minha boa surpresa, no meio da cena estava minha bolsa com todas as coisas espalhadas aleatoriamente pelo sujo chão do módulo. Da janela, falei:

- É a minha bolsa. Que bom que vocês a acharam.

Entramos, nos identificamos e, contando aos policiais o que tinha acontecido, começamos a juntar as roupas e demais objetos, verificando se tudo estava lá. Foi quando, com surpresa, avistei aquela imagem inesperada de uma calcinha e uma cueca juntas no meio de tudo. A calcinha era minha, que havia trocado pelo biquíni quando cheguei na praia, mas com toda a certeza aquela cueca não fazia parte de minha indumentária. Somando os fatos, constatei que, dentro de minha bolsa, sem que eu soubesse, a cueca do meu amigo descansava placidamente há alguns centímetros de minha calcinha.

Borges é um amigo dos mais queridos. Nos conhecemos em janeiro de 2005, logo que comecei a trabalhar no Estado. A empatia foi imediata e em pouco tempo conversávamos sobre os mais variados assuntos. Não estaria exagerando se dissesse que este convívio ampliava meus conhecimentos, aguçava minha percepção e exercitava minha capacidade de associação e argumentação. Ele é o cara. Quando saiu do órgão durante pouco mais de um ano para outros desafios, “emburreci” um tanto. Mas aquela inesperada situação de calcinha e cueca publicamente juntas me deixou realmente constrangida, piorada ainda pela participação desconfiada e um pouco cínica de um dos policiais. Borges, um verdadeiro gentleman, fingiu não perceber o que acontecia.

Nossas coisas estavam todas lá, a exceção do relógio e celular dele, que o rapaz insistia em dizer que não pegou e que não sabia de nada. Achei que, cumprido os procedimentos normais, estaríamos liberados, mas não foi exatamente o que aconteceu. Enquanto nos preparávamos para sair, ouvíamos o rapaz pedir insistentemente ao policial que o liberasse, porque era menor (o que não parecia), e já haviam encontrado tudo, e ele não ia fazer mais isso, e ia nevar no próximo verão, e etc. Foi quando, num lance maluco de total falta de bom senso, o policial, que aparentemente comandava a “operação”, exclamou:

- Vai depender dela!

Arregalei os olhos sem entender muito bem o que ele queria dizer. Mas o sargento insistiu:
- Já que ele não devolveu o relógio e o celular, então é a senhora que vai decidir se a gente libera ele ou não.

Agora imaginem: sou uma moradora da área e, com freqüência, passeio de bicicleta com meu filho, corro, frequento a praia, circulo a pé ou de carro, e o delinquente juvenil, como ele queria parecer ser, era um conhecido ladrão da mesma área. Não seria nada difícil cruzar com ele pelas ruas do bairro e muito complicado se a lembrança que guardasse de mim fosse a da madame que o ferrou. Chamamos o policial para fora do módulo e, com toda a delicadeza que é necessário para conversar com a "categoria", dissemos em bom português que ele estava “queimando o meu filme” e que podia tratar de desfazer o que tinha feito. Só então fomos liberados.

Enquanto isso, Alida aguardava preocupadíssima na mesa da barraca. Preocupadíssima, mas o sol estava tão lindo, a praia uma delícia e o aroma do acarajé fritando exalava no ar. Bem, que mal poderia haver em comer um acarajé enquanto esperava? Já com o quitute na mesa, ela começou a degustar a iguaria baiana mas, atormentada pelo remorso de estar apreciando tal delícia enquanto os amigos perseguiam ladrões, os pedaços desciam quadrados. Iniciada na arte da meditação e filosofias orientais, utilizou um método pouco convencional, acho mesmo que de autoria própria, para enviar boa energia para nós. A cada pedaço ingerido, entoava mentalmente poderosos mantras. Terminado o acarajé, achou que boa energia não era suficiente para ajudar. Lembrou do meu celular que foi roubado junto com a bolsa e arquitetou uma manobra ousada. Ligaria para o ladrão, se identificaria como delegada de polícia e daria uma prensa no meliante. Não consigo mesmo imaginar essa cena. Alida é filha de italianos e tem o idioma como língua materna, o que é ainda denunciado num leve sotaque e em algumas expressões que deixa escapar. Além disso, vamos combinar, é uma mulher sofisticada, de um senso de humor agradável e gestual requintado – às vezes um pouco estabanado, para não fugir as origens. De onde sairia a marra e aquele vocabulário específico necessário para esse fim? Não sei. O fato é que cheia de coragem e determinação ela ligou, e para a sua surpresa, atendi o telefone.

Falamos rapidamente e deixei para contar tudo quando voltássemos à barraca. Já de volta, com tudo esclarecido, entre boas risadas lamentamos a perda do celular e do relógio de nosso amigo. Agora era hora de voltar. Chegando no carro, descobrimos que o celular dele não havia sido roubado, tinha na verdade caído no banco do carro, sem que ninguém percebesse.

Bem, o relógio surrupiado...R$35,00 - no camelódromo da rodoviária.

Uma tarde como essa, não tem preço.