quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Bons momentos




Quanto vale um momento de muito prazer? Tem preço? Então, quanto valeria um momento de êxtase? Ei, espera aí! Não é bem disso que estou falando! É muito bom também, mas não é o tema. Abstraia e vamos começar novamente, canalizando para um lado mais subjetivo. Então, quanto vale? Acho que vale investimentos, algumas doses de sacrifício e inúmeras horas de espera, se necessário. Neste fim de semana que passou, vivi um destes momentos.

Deitada sobre um grande platô de pedra na gruta do Lapão, depois de descer em um rapel na negativa de aproximadamente 55m, contemplava o imenso salão na chegada da gruta, observando o restante do grupo descer, um a um. Aparentemente poderia parecer apenas mais um lugar privilegiado pela beleza natural, mas todo o contexto, para mim, significava mais. Acho que ninguém realmente notou o que se passava comigo naquele momento, também achei desnecessário comentar. Curti, solitariamente, cada segundo da experiência. Quando a lágrima rolou vagarosamente, celebrando a felicidade de estar viva naquele lugar, naquele exato momento, enxuguei rapidamente, não por não querer compartilhar, mas por não querer verbalizar nem um instante do que se passava.

A Chapada tem mesmo esse poder. Para situar, estou falando da Chapada Diamantina,e a gruta onde estávamos localiza-se a aproximadamente uma hora e trinta minutos de caminhada pela trilha a partir de Lençois. Já havia andado algumas vezes pela região, em trakings de três ou quatro dias sem vestígios de civilização, e conhecido lugares muito especiais, mas cada lugar e momento tocam a gente de maneira diferente. Além disso, por razões diversas, havia seis anos que não pisava naquelas terras. Foi bom voltar.

Gostaria de poder multiplicar esses momentos de êxtase diante de acontecimentos imprevistos. Talvez exatamente por assim ser tais momentos, imprevistos e não reproduzíveis, sejam eles tão especiais. Mas alguns ingredientes necessários para que aconteçam são possíveis de identificar: 1) lugares mágicos; 2) se acompanhada, que seja de pessoas especiais; e pelo menos nestes momentos, 3) ter “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”.

Aos vinte e cinco anos, na praia de Ajuruteua, localizada em Bragança - Pará, vivi uma sensação semelhante. Tinha ido acampar nas dunas da praia com meu namorado, que algum tempo depois viria a ser meu marido. Chegamos quando anoitecia e, rapidamente, tivemos que descarregar o material para montar o acampamento antes que escurecesse. Quando tínhamos tirado tudo do carro e a barraca estava em pé, mas ainda não totalmente fixada no chão, fomos surpreendidos por uma tempestade de areia. Mal podíamos enxergar, víamos apenas os vultos enquanto ainda foi possível ver, porque com pouco tempo a areia entrou nos olhos e não consegui mais abri-los. Ele, por usar óculos, teve uma certa vantagem, e conseguiu localizar-se e tomar as providências necessárias: colocar eu e toda a “tralha” de volta no carro. Não seria mais possível acampar. Aguardamos um tempo dentro do carro até que a tempestade se dissipasse para irmos procurar uma pousada. Quando parou, resolvi tomar um banho de mar, para tirar a areia grudada no corpo. Ele ficou esperando no carro. Não sei qual era a lua no dia, mas o céu estava limpo e a noite nem tão clara, nem tão escura. A maré estava baixa, tanto que chegando à água não tinha mais contato visual com ele. Quando comecei a entrar no mar, não creditei no que vi. A sensação foi uma mistura de surpresa, medo, curiosidade e deslumbramento. À medida que ia entrando e mais volume de água deslocando, mais brilhava a água em milhões de gotículas fosforescentes esverdeadas. Pelo amor de Deus, o que era aquilo? Nunca tinha visto, nem ouvido falar em algo semelhante. Saí correndo para buscá-lo, mas fui com um pouco de medo que fosse um delírio meu que não pudesse ser compartilhado ou que, sendo real, quando voltasse não existisse mais. Ao chegar, não falei e nem expliquei nada, disse apenas que tinha que ir comigo para ver algo e tinha que ser já. Quando voltamos, as luzes ainda estavam lá. Entramos no mar e nadamos maravilhados. Sentados no raso, ficávamos extasiados quando, ao jogar a água para cima, ela caía rolando pelos nossos corpos dividida em milhares de pontos luminosos. Simplesmente brilhávamos. Naquele momento, aquilo para mim era um milagre. Não queria saber se tinha uma explicação científica, se era uma interferência alienígena, ou se os dois dividiam um delírio. Era simplesmente um milagre.

Ao retornar para Belém, contei para algumas pessoas, que também não sabiam do que  tratava-se e escutavam a história com uma certa desconfiança. Quase um ano depois, assistindo na TV um programa de ecologia, descobri tratar-se de um fenômeno da natureza chamado bioluminescência, onde microorganismos em suspensão na água tornam-se fluorescentes, provavelmente em função de alterações de concentrações de nutrientes na água. Meu lado racional gostou de ter a informação, mas prefiro guardar a lembrança como a de um milagre que tive o privilégio de presenciar.

Outra vez, quatro anos antes, quando tinha vinte e um, estava na ilha do Marajó com um grupo de dez amigos. Essa maravilha localizada no Pará é considerada a maior ilha flúvio-marítima do mundo, cercada pelo Oceano Atlântico e pelos rios Amazonas e Tocantins, com uma característica rara: praias onde as águas ora estão doces, ora estão salgadas. Passávamos o dia na praia de Joanes, no município de Salvaterra. Não sei como as coisas estão por lá hoje, mas nessa época, em 1990, a praia ainda era bem selvagem, e a vegetação chegava até a areia. Depois de curtir algumas atrações do local, como as ruínas de pedra da velha igreja jesuíta erguida no século XVII, fomos – eu, uma amiga e dois amigos – explorar a área. Entrando um pouco pela mata, nos deparamos com uma velha casinha de madeira, bem humilde. Encostado na janela estava um velhinho, sozinho, contemplando placidamente a calmaria do lugar. Ele era franzino e tinha a barba e os cabelos longos, bem branquinhos, uma imagem que lembrava o misterioso “véio do rio”, da memorável novela “Pantanal”. Puxamos conversa e ele falava pouco, mas papo vai, papo vem, fomos parar nos fundos da casa, onde havia um igarapé na beira da varanda com uma canoa encostada. Pedimos emprestada a canoa e saímos os quatro, igarapé à dentro.

O termo igarapé é de origem indígena e significa “caminho de canoa”, o que estava totalmente condizente com a situação. O caminho era um “furo”, entretenimentos naturais da ilha, que são braços de rios ou de igarapés por onde só podem navegar pequenas embarcações, porque são margeados por vegetação nativa com trechos bem estreitos. Nosso roteiro não devia ser muito conhecido e visitado, pois era tudo muito selvagem. No trajeto, aos poucos a conversa foi cessando para dar lugar ao som da mata. Ouvíamos um sutil barulho do movimento da água provocado pela canoa e o remo, galhos quebrando pelo agito dos bichos e a música, às vezes discreta, às vezes estridente, entoada pelos pássaros e outros animais. Em determinados momentos o caminho ficava tão apertado e a mata tão densa que chegava a fazer um túnel e tínhamos que abaixar na canoa para conseguirmos passar. A energia era indescritível. Uns quatro anos depois, voltei ao local. Corri tudo procurando a velha casinha, a canoa, o “véio do rio”, mas não achei. Perguntei para uns nativos, e ninguém conhecia ou lembrava ter visto ou ouvido falar. Tenha lá uma explicação lógica, ou seja uma alucinação coletiva, eu vivi aquilo e isso ninguém me tira.

Ao contrário do que possa parecer pelos relatos anteriores, pelo menos para mim, estar rodeada pela natureza não é pré-requisito indispensável para viver experiência semelhante. Em outra oportunidade tive a mesma sensação dentro de uma igreja completamente vazia. Não estava lá por motivação religiosa ou turística. Simplesmente estava lá, sozinha, atrás de uma balaustrada no primeiro pavimento, observando a nave principal, o altar, as imagens; tudo muito singelo. A igreja era a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Belém. O início da construção atual data do século XVIII e o projeto foi doado pelo arquiteto italiano Landi, que assina várias outras edificações do mesmo período que são referência na cidade. Na literatura existem alguns relatos da labuta dos negros carregando pedra e outros materiais durante a noite, para erguer seu templo. Não sei exatamente o que me comoveu, mas passei alguns minutos mágicos envolvida pela atmosfera daquele lugar.

Voltando à viagem deste fim de semana, nem todos os momentos foram “sublimes”, mas quase tudo foi divertido. Voltei com algumas feridas nos pés, mas o que é isso diante de todo o contexto. Concluindo, não posso indicar endereços certos para vivências especiais como as relatadas, mas se é para arriscar um local bastante propício, o lugar é exatamente esse: Chapada Diamantina. Confira você mesmo.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Não é só brincadeira de criança



Às vezes fico observando meu filho, com quatro anos recém completados, nas suas maravilhosas viagens da imaginação. Com freqüência, sou convidada a participar também. Viajamos o mundo, a Via Láctea, o fundo do mar, o passado, o futuro. Somos gigantes, seres híbridos, objetos inanimados; somos e fazemos tudo que queremos. Fico maravilhada com os mecanismos desta faculdade humana e tudo que ela nos proporciona.

Segundo os estudiosos no assunto, a imaginação está intrinsecamente ligada à criatividade; “é o elemento-chave do ato criador”. Tive alguns indicativos disso em minha vivência. Lá pelos vinte e quatro anos me “bati” com uma das figuras mais criativas que já conheci. Seu nome é Roberto e tinha na época uns trinta e dois anos. Esse cara soube aproveitar de todas as formas seu talento natural. Profissionalmente, era músico. Foi, entre outras coisas, o responsável pela produção musical de espetáculos que alcançaram grande sucesso no Pará, produções essas que ganharam, inclusive, prêmios fora do Estado. Por hobby, era artista plástico, e por hábito ou, talvez, porque era muito mais divertido e excitante assim ser, era criativo em tudo: na forma de relacionar-se com as pessoas, de trabalhar, de resolver problemas, de viver. Uma mente livre e linda. Costumávamos conversar andando pelas ruas nas noites de lua. Claro, em ruas que possibilitavam esse deleite. Nesses passeios, me falava de muitas coisas, mas o que mais me marcou foram os relatos de momentos com o pai, quando ainda era moleque. Entre várias brincadeiras, os dois construíram juntos, com sucata, lixo, prego e martelo, uma nave espacial que os levaria a viagens intergaláxias. Na verdade, a nave nunca saiu do quintal, mas tenho certeza que, mesmo assim, levou Roberto a lugares inexplorados e cheios de aventuras. Em outra oportunidade, os dois montaram uma tenda, no mesmo quintal, enfeitaram como um grande circo, ensaiaram alguns números, e fizeram sessões para apreciação dos vizinhos. Meu filho chegaria somente dez anos depois, mas suas histórias já me inspiravam e faziam-me arquitetar planos para a minha futura prole.

E falando em imaginário infantil, não dá para não lembrar de Monteiro Lobato com o “Sítio do Pica-pau Amarelo”. Quando criança, não li mais do que duas aventuras do Sítio, mas assisti um bom tanto da primeira produção da obra feita pela TV. Fui apaixonada pelo príncipe das Águas Claras e tive também minha boneca de pano de produção caseira, feita por minha mãe; e como torcia para que falasse. Estava louca para introduzir meu garoto nesse universo, mas como era muito novo, ainda não dava para entrar de sola com os livros da coleção, que têm histórias longas com publicações pouco ilustradas. Vibrei quando a TV anunciou a nova montagem do Sítio e não deu outra: ele amou. O Saci, o Visconde de Sabugosa, a pílula falante, o pozinho de pirim-pim-pim. Entrou tudo em nosso vocabulário, em nossas brincadeiras e no imaginário dele.

Traçando paralelos, mas guardada as devidas proporções, tive recentemente a oportunidade de visitar a exposição “Por dentro da mente de Leonardo da Vinci”. A amostra propõe-se a apresentar protótipos das engenhocas criadas por ele, desde as que foram efetivamente materializadas e funcionaram, até as que não saíram do papel. E que mente maluca o cara tinha; era o que hoje poderíamos chamar de multimídia. Ele foi do embrião do helicóptero à catraca da bicicleta. Fico elucubrando sobre as viagens que motivaram uma diversidade tão grande de projetos. Parece ter vindo desde a busca por soluções práticas para atividades do cotidiano, até o afã de dominar os elementos da natureza, de voar, de andar sobre as águas, que podem ter raiz, também, nas brincadeiras e ilusões infantis. De qualquer maneira, tanta engenhosidade nasceu, com certeza, de uma imaginação prodigiosa.

Sem dúvida existem muitos meios e motivações para o desenvolvimento da criatividade. Música, histórias, vivências, necessidades reais, práticas culturais em geral, todos são caminhos, mesmo porque, as informações, imagens e experiências reais criam um acervo a ser acessado, a serviço da imaginação e, claro, da criatividade. Mas que os devaneios da mente, por pura brincadeira, têm seu valor, ah, isso tem!

Lembro-me a primeira vez que conversei com meu filhote sobre imaginação. Por alguma razão, falei para ele: “- use a sua imaginação!” Ele respondeu: “- o que é imaginação?” Não foi fácil. Comecei dizendo a ele: “- feche os olhos, agora pense em ...”, e por aí vai. Pouco tempo depois, por sorte, caiu em minha mão um DVD do filme “Pinóquio 3000”, uma versão futurista do clássico infantil. Na história, a amiguinha de Pinóquio o desafia a brincar com ela o “jogo da imaginação”. Na seqüência, tem-se o trecho mais lindo do filme, muito colorido e musicado. Ele, recém criado, mergulha com ela na descoberta da fantasia, num jogo onde um interage com a imaginação do outro. Foi uma forma rica de ilustrar para o pequeno a liberdade do pensamento. Daí por diante, a brincadeira não parou mais.

Todos os dias, quando o busco na escola para irmos almoçar, percorremos as mesmas ruas, passamos pelas mesmas esquinas, casas, praia, mas o caminho é quase sempre diferente. Às vezes estamos num submarino, os outros carros viram grandes peixes, os coqueiros são monstros marinhos, as barracas de praia são navios naufragados. Às vezes estamos simplesmente planando no ar, como uma imensa baleia voadora. Às vezes o percurso é o espaço, cada barraca é um planeta e as pessoas são estrelas falantes. As possibilidades são infinitas. Não tem muito tempo que, ao terminarmos de montar um quebra-cabeça de grandes dimensões, sentamos sobre ele, que se transformou num tapete voador e nos levou para passear em alguns países. Como canta Xangai, “viajava o mundo inteiro nas estampas de Eucalol, (...) subia o Monte Olímpo, ribanceira lá no quintal, mergulhava até Netuno, no oceano abissal”. Sempre me lembro de Roberto, com suas histórias. Também inspirada nele, ensaiamos alguns números de equilibrismo para o “Circ du Chulé”.

Invento muito, deliro um pouco, possibilito para meu filho algumas experiências, mas “cá comigo”, acho muito melhor quando ele cria suas próprias fantasias, seus lugares secretos, suas aventuras da mente. Fico na torcida para que isso se reflita numa forma leve e criativa dele levar a vida. Para que, pelo seu caminho, materialize algumas de suas deliciosas criações, e outras tantas, pelo amor de Deus, não!!!

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Se é para arrumar confusão...


Por favor, um "tacacá" e um "pato no tucupi". Era hora do almoço e não é muito comum consumir tacacá neste horário. Trata-se de um caldo de cor amarelo ouro preparado a partir da mandioca, com o sabor exótico, acompanhado de camarão seco, goma de farinha de mandioca e jambú, uma folha que dá dormência na boca. A iguaria é apreciada geralmente no fim de tarde, quando a temperatura está mais amena, em banquinhas instaladas nas esquinas de Belém. Mas a questão é que não sou uma fã incondicional de todos os quitutes da culinária paraense, e passeando pela feira do Ver-o-Peso ao meio-dia essa me pareceu a melhor pedida.
Para situar, o Ver-o-Peso é um dos principais pontos turísticos da metrópole amazônica, com peculiaridades que só podem ser vistas lá. Um porto onde chegam os barcos que trazem peixes e outras mercadorias das ilhas e comunidades próximas da capital. É um movimento bonito de ver, e já que estou rasgando seda para a cidade, vamos pular o parágrafo sobre a sujeira ocasional de nosso cartão postal.

Quanto ao pato no tucupi, não era para mim. Foi a escolha de meu amigo, minha agradável companhia no passeio. Enquanto aguardávamos, fui olhar as bijuterias feitas na região, com sementes, cordas, coquinhos e penas. Ele engatou num papo com a dona da barraca e ficou por lá mesmo. Quando retornava, um cara que estava sentado na barraca ao lado da nossa, passou a mão na minha barriga. Continuei andando e, um pouco mais na frente, já ao lado de meu amigo, virei e, misturando gaiatice com um tom meio invocado, falei:

-Se você encostar em mim novamente, meu namorado vai aí e quebra a sua cara!

É claro que estava brincando, mas mesmo brincando, a atitude foi uma surpresa até para mim. Não faz parte do meu show colocar qualquer pessoa que seja numa “saia justa” como essa. Meu companheiro também levou na brincadeira e sorriu. Mas o tal sujeito não entendeu do mesmo jeito. Olhou sério para nós e começou a levantar-se lentamente. Isso não deve ter durado mais do que uma fração de segundos, mas pareceu uma eternidade. Quanto mais o fulano se levantava, mais parecia ter ainda o que levantar. O bicho era realmente grande. Meu parceiro era até um homem forte e bem descolado, mas não fazia parte de nossos planos arrumar confusão.
Entrei em pânico. Que presepada eu tinha armado!? Durante o trajeto que o cara percorria para chegar até nós, pensava: “o que eu faço agora? O que faço? O que faço? Aaaaiiiii meu Deeeeus!!!” Num repente louco, me coloquei entre os dois e disparei:

- Espera aí! Eu falei meu namorado. Ele não é meu namorado. Meu namorado é da Bahia, e não está aqui. Ele (apontando para meu acompanhante), é um amigo, e é gay; uma bichona.

Meu amigo, que de gay não tem nada, não se conteve, deu uma bela gargalhada. Até nosso desafeto relaxou e sorriu também. Pra não perder o embalo, continuei:

- Mas não precisa se preocupar, você me dá seu telefone que quando meu namorado vier aqui ele vai fazer questão de te procurar.

O gaiato, muito tirado a engraçadinho, respondeu com o sotaque bem carregado: - Não, faz o seguinte, tu me dás o teu, que fico te ligando para saber quando ele chega.

Eu, cinicamente: - Não! O que é isso? Acabei de dizer que tenho namorado, e levo isso muito a sério. Nem o seu telefone eu vou guardar, vou deixar com meu amigo. Mas não precisa se preocupar, ele não vai te incomodar. É uma bicha ética.

Ele, rindo, concluiu: - Pequena, de onde tu saístes?

Por sorte, o cara era boa praça. Conversamos um pouco e ele acabou nos dando algumas dicas para aproveitar mais o passeio na feira.

Valeu a lição: não dá para brincar com essas coisas. Vai que a gente se bate com um maluco por aí. De qualquer maneira, deu para divertir e aumentar o arquivo de “histórias para contar”.

domingo, 6 de maio de 2007

Que venha a "maior idade"


Vestibulanda vai parar no canal da Doca”. Foi a manchete que papai, recém chegado de uma viagem, leu em “O Liberal”, jornal de maior circulação no norte do país.

- Que absurdo! -Ele exclamou.

Mamãe retrucou: - Querido, olhe direito a foto, essa menina não te parece familiar?

- Ele respondeu: - Eu não acredito!

Sim, era eu. Na foto estava rindo, solitária, dentro do canal da Doca, que, para minha sorte, estava vazio. Não pulei, fui jogada durante a comemoração pelo êxito no vestibular.

Essa e muitas outras histórias deliciosas vieram à tona na última sexta-feira, numa noite que começou com a proposta de um bate-papo regado a um jantar, às 21h, e terminou às 5h30 da manhã, com todos dançando ao som da “Festa Ploc 80’s”, com direito a “Como uma Deusa” de Rosana e “He-man” do Trem da Alegria. Viver longe da terrinha onde crescemos, estudamos e viramos gente é muito louco. Se, por um lado, expandimos um bocado nossos horizontes, por outro, corremos o risco de perder pelo caminho pessoas imperdíveis. Nessa temporada em Belém tive o prazer e a sorte de, por acaso - se é que acasos existem -, reencontrar algumas dessas figuras: tio Gema, Silvana, Ricardo, Bailosa, entre outros.

Conheci essa turma aos 17 anos, em agosto de 1986. Tinha acabado de voltar de um intercâmbio cultural, que durou seis meses, para ingressar no 3º ano científico e, em cinco meses, enfiar goela abaixo todo o conteúdo programático da prova do vestibular. Na época, não existiam tantas opções de faculdades como hoje. Para o curso que almejava – engenharia civil – havia a federal (nossa UFPa) e uma faculdade particular. As expectativas e cobranças sobre mim não eram poucas. Consegui ir para o intercâmbio, no ano do vestibular, a custa de meses de argumentação e insistência com meus pais, com o compromisso selado de, ao retornar, viver somente para estudar e passar no famigerado exame da universidade. Para completar a pressão, dois anos antes, meu irmão mais velho tinha passado em 1º lugar na federal, também em engenharia. O prognóstico eram alguns meses de trabalho duro e uma chata rotina de estudo. Mas, para minha surpresa e felicidade, não foi bem o que aconteceu. Estudei bastante, é verdade, e o resultado não poderia ter sido melhor, mas foram também, provavelmente, os meses que mais farreei.

As provas na UFPa eram divididas por áreas e, para a área de exatas, a ênfase eram nos testes de física e matemática. Em função disso, além de cursar o 3° ano, no outro turno freqüentava um curso específico dessas disciplinas. Tio Gema, então com 29 anos, era o dono do curso e o professor de matemática. Silvana, sua mulher, com 27, cuidava de toda a parte administrativa. Como anteriormente meu irmão tinha feito o mesmo curso com um resultado tão satisfatório, meus pais tinham o casal na mais alta conta. Não demorou muito, nossa turma e eles tornaram-se uma grande família. Muitas aulas, estudos, simulados de provas, viradas de noite em sala de aula, mas também muita farra, o Passo da Ladeira, o Karaokê, os botecos, o café da manhã no Hilton. Por estar acompanhada do considerado casal, meus pais me liberavam com uma facilidade que não encontrava em qualquer outra situação. Era o que se podia chamar de “dar asa à cobra”. A mim, restava aproveitar. O grupo era ótimo. Além dos já citados Ricardo e Bailosa, tinha Kalume, Ângela, Capilé, Márcio, Bello, Crispino, Helton, Pingarilho, Jaqueline, João Cralos, Cíntia e muito, muito mais. Eram tantas “peças raras” que esgotaria o blog para falar dos nomes e, principalmente, de suas excentricidades. Nossos mentores conseguiam um equilíbrio tão mágico entre a obrigação e o prazer que as atividades se confundiam e acabava sendo tudo muito prazeroso. No final, pasmem, acho que passamos todos e, o que é melhor, na federal.

A turma se dispersou e cada um começou a seguir seu caminho. Ficou um núcleo de umas dez pessoas que ainda andou junto por muito tempo e, dentro desse núcleo, Tio Gema, Silvana, os dois filhos do casal – Renata e Neto -, que ainda eram crianças, Ricardo, Kalume e eu, vivíamos juntos. Ricardo era um xodó. Éramos grandes amigos e confidentes, e não entendo muito bem porque todos os meus namorados não gostavam dele, assim como todas as suas namoradas implicavam comigo. Kalume, com um humor sarcástico, era o mais centrado de todo o grupo. Renata e Neto eram crianças de menos de 10 anos, e como não podia ser diferente, ateavam fogo no molhado. Quanto ao casal, eles são um parágrafo a parte.

Ele é uma figura apaixonante. Ao falar de seus projetos, realizações, trabalho, amigos, seus olhos brilham com uma empolgação quase infantil. O céu é o limite, mas com um diferencial: ele não é mais um sonhador, é um realizador de sonhos. Ela é uma mulher inspiradora. Guerreira incansável, sensata, justa e dotada de uma intuição digna de estudo. Prova viva de que las brujas hay.

Depois do cursinho pré-vetibular, os dois abriram em Belém uma franquia de um colégio que já era conceituado em outros estados, onde trabalhou grande parte de seus pupilos, inclusive Ricardo, Bailosa e eu. Tínhamos 19 anos e, no meu caso, foi o primeiro trabalho com carteira assinada. Oficialmente, eu era auxiliar do professor de educação artística, mas, de fato, encarava sozinha a sala de aula de turmas do 1° e 2° ano científico, e “tocava horror” com laboratórios malucos de teatro. Me lembro de uma vez que o outro sócio do colégio, estranhando o barulho e a música alta em sala de aula, reclamou com tio Gema, que respondeu:”- deixa que ela sabe o que está fazendo.” Hoje, não tenho tanta certeza assim. O colégio cresceu e, com o grupo de Belém, abriu várias outras unidades no interior do estado e em outras capitais. Depois veio um projeto grandioso, visionário, unindo educação e meio ambiente, num tempo que ainda não se falava tanto nisso. Mas o financiamento pleiteado não saiu, e todo o investimento feito se perdeu. Meus amigos quebraram e passaram o pior perrengue financeiro de suas vidas. Nós estávamos lá, choramos juntos. Vimos toda a ascensão e, sem poder fazer nada, assistimos de braços cruzados a queda brusca. Passado o período de reflexão, eles foram à luta, com nada mais do que a cara e a coragem. A essa altura, meu caminho já estava distanciando-se e, não demorou muito, me mudei para uma pós em Salvador.

Nesse período, tive algumas notícias deles. Que estavam indo bem, prosperando, que as crianças cresceram, que Renata se transformou numa mulher linda e teve uma filha, que Neto casou. Tudo de longe. Ao reencontrá-los, vi que era muito melhor. Os dois continuam lindos, harmoniosos, apaixonados pela vida, pelo trabalho, pela família. Recentemente, ele recebeu um importante prêmio na cidade, coferido anualmente a profissionais de grande destaque, reconhecimento mais do que justo pelo consistente trabalho na área da educação e por seu bem sucedido empreendedorismo, premiação que estendo à Silvana, como ele também o fez ao receber o prêmio.

Foram muitas voltas, mas juntos parece que ainda somos o mesmo grupo. Aproveitamos o reencontro para começarmos a organização de nossa festa de 21 anos de conclusão do colégio, nossa maior idade, alcançada este ano. Democraticamente, elegemos toda a diretoria da festa, com algumas funções definidas. O evento já tem local e data marcada: dia 20 de dezembro de 2007. Portanto, tratem de mexer esses traseiros gordos. Eu não vou esquecer.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

E nada de Gloria Gaynor


Em Salvador, morar perto das praias as quais, no fim-de-semana, a cidade toda encara engarrafamentos para chegar, tem seu preço. Boa parte dos artefatos e serviços mais específicos só estão disponíveis na “cidade”, e tenho que enfrentar mais ou menos uns 40km para encontrá-los. Esta semana, numa dessas empreitadas, fui à Gamboa, no trecho sentido Campo Grande – Av. Contorno, e me lembrei de um sábado à noite que vivi naquela área.

Havia uma data que, motivada por entusiasmados comentários de amigos, queria conhecer uma boate gay no referido endereço: a “Tropical”. Mas, vamos combinar, por mais antigo que pareça, não é qualquer um que topa essa programação. A maioria das pessoas tem, na ponta da língua, uma lista de boas razões para não irem, quase todas recheadas de pré-conceitos dos mais caretas; e depois, ainda dizem que os freqüentadores da boate é que são cheios de “frescura”. Mas isso não era problema, eu tinha um amigo perfeito para a ocasião; não era gay, mas também curtiria a noitada.

Saímos em torno de meia-noite e, para esquentar, fizemos um pit-stop num bar na Ladeira da Barra, com vista para a Baía de Todos os Santos; um local que tinha a fama de ser GLS. Pelo que pudemos presenciar, era só fama. Encontramos um ambiente dos mais ortodoxos: casais de namorados apaixonados e animados grupos de confrades. Eu e meu amigo não nos enquadrávamos em nenhum dos dois casos. Havíamos namorado,  mas, no momento, não tinha nada entre nós. Mesmo sendo assim, quando estávamos juntos, ficávamos numa brincadeira de gato e rato, alternando os papéis, sobrando para mim, na maior parte das vezes, o papel de rato. O papo fluiu entre conhecidos em comum, músicas, filmes e acontecimentos recentes ou antigos, de um e de outro. Quase duas da manhã, saímos rumo ao nosso destino principal.

Na porta da boate, logo me animei. Apesar da chuva, a entrada estava movimentada, com uns travestis bonitos e produzidos. Ao entrarmos, nos deparamos com um ambiente de boate não sofisticada, mas como qualquer outra: luz negra, jogos de luzes piscando, fumaça de gelo seco, fumaça de cigarro e aquele repetitivo som de tum-tum-tum. A característica especial era o público: 99% masculino. Não era exatamente o que imaginava. Sabia que havia um show de transformistas, então, em algum lugar, tinha que existir um palco e um espaço adequado para espetáculos. Saímos pela boate procurando e cruzamos todo o ambiente, que tinha no fundo uma parede espelhada. O espelho nos confundiu e continuamos andando até nos depararmos com nossa própria imagem refletida. E aí, acabou? E o palco? E todo o resto? Puxei conversa com um rapaz muito dançante e perguntei pelo show. Ele me informou que havia um pavimento superior e que as apresentações aconteciam lá. No primeiro andar, encontramos um espaço reduzido também com luz negra, um bar, um pequeno palco e algumas mesas. Como o show ainda não ia começar, descemos e fomos sacudir. Na boate rolou a dança de uns gogo-boys. Nada de mais, eu mesma sou capaz de performances mais interessantes. Curtimos um pouco e fomos assistir o esperado show. As apresentações eram solos de travestis dublando cantoras como Gloria Estephan. Muito maquiadas, com cabelos ou perucas vistosas, saltos altíssimos e vestidos sensuais. As performances eram contidas, sem jogos de pernas ou movimentos bruscos, e mais caras e bocas.

Estava legal, mas não tinha nada a ver com o que havia, literalmente, fantasiado. Confesso que estava totalmente influenciada por filmes como “Gaiola das Loucas” e “Priscila, a Rainha do Deserto”. Esperava, e posso até dizer que queria muito, encontrar um lugar exageradamente colorido, cheio de drag queens, transformistas de patins, um público mais escandaloso e performático, e uma forte disposição de todos para interagir de modo geral. Para os shows, a expectativa eram muitas pessoas no palco, roupas de espetáculo, e pernas e braços passando para todos os lados. Nos intervalos das apresentações, achei que dançaria ao som de Gloria Gaynor, com o celebre “I will survive”, ou talvez “It’s raining man”. Nem uma coisa, nem outra, mas não posso dizer que me decepcionei, só caí na real. Meu amigo fez algum sucesso. Despertou o interesse de um baixinho, que lhe lançou uns olhares fulminantes, e também pegou alguns apertos quando nos amontoamos para ver o show. Eu saí no zero a zero.

Quando fomos embora, aproveitando que estávamos ali perto, tentei de todas as formas convencê-lo a pularmos o muro do Passeio Público, que ficava fechado e vigiado, para  vermos o sol nascer. Lógico que a parte do “sol nascer” era uma lorota. A orla da Baía de Todos os Santos é famosa por proporcionar aos apreciadores um belíssimo pôr-do-sol, não seria porque estávamos lá, naquela madrugada, que o sol resolveria nascer ali. Ainda assim, quando clareasse, haveria a vista do imenso azul, e como canta Gil, “não qualquer azul (...)/ o azul de qualquer poesia (...)/ é o azul que a gente fita/ no azul do mar da Bahia”. No mais, tínhamos grandes chances de viver uma excitante aventura, mas ele não topou.

Termino como o Pescador de Ilusões: “valeu a pena”. O passeio serviu para desmistificar aquela “aura” que criamos em torno dos ambientes e eventos gays, onde imaginamos que os homossexuais têm que ser necessariamente “espetaculosos”, e tudo deve ser como uma Parada Gay. Nessa tribo, como em todas as outras, as pessoas saem para se divertir, ver outras pessoas e namorar, sem qualquer compromisso de proporcionar show para quem quer que seja. Se você é da noite, gosta de boate e quer variar o point, é uma. Deixe em casa seus pré-conceitos e vá curtir. Eu recomendo.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

La Dolce Vita


Quando iniciei o blog, planejava escrever sobre uma série de coisas que povoam minha cabeça, mas de uma maneira que pudessem resultar num conteúdo inteligente, divertido e interessante para quem lesse. Mas o fato é que, no dia-a-dia, sou atropelada pelos acontecimentos domésticos, que provavelmente não são interessantes para mais ninguém, mas, para mim, por vezes, são até bem divertidos.

Essa semana começou com uma reunião na escola do meu filho, logo às 9h da segunda-feira. Imaginava ser uma reunião ordinária. Ledo engano. Era uma reunião extraordinária. O rapazinho, com três anos, anda explosivo além da conta e, quando contrariado, perde o controle e reage de forma pouco amigável. Fiquei pensando no que poderia fazer e passei o resto da manhã com uma sensação de incompetência me perseguindo.

Saí do trabalho meio-dia e, como costumeiro, passei para pegar o pequeno na escola. Chegando em casa, o portão eletrônico, que já dava sinais de enfermidade, não abriu. Tudo bem. Deixamos o carro fora e entramos. Há pouco tempo uma equipe da prefeitura vem realizando limpeza no rio que passa junto de minha casa. Nesse período, todos os dias, quando saio de casa e quando retorno para o almoço, vejo aquela “homaiada” estacionada em minha calçada, com olhos atentos a todos os nossos passos. Considerando que moro sozinha com o filhote, a situação me deixa um pouco preocupada. Meu ex-marido, pai do baixinho, tinha ficado de levar em casa algumas roupinhas do garoto que estavam com ele. Aproveitando a oportunidade, pedi que agisse como se morasse na casa, cumprimentasse os homens e fizesse notar sua presença. Nessas horas é bom ter uma figura masculina para posar na foto. Acho que a encenação foi satisfatória.

Depois do almoço, levei meu filho numa clínica ortopédica no bairro vizinho, pois tinha machucado a mãozinha numa queda há alguns dias e a mesma continuava um pouco inchada. Acho que por uma questão de segurança, ele levou sua espada - de plástico, comprada por R$3,00 nessas lojas que costumavam ser de R$1,99 - embainhada na cintura. Sem dúvida o rapaz estava num dia inspirado: comunicativo, perguntador e muito boa praça. Na clínica, conversou e brincou com a recepcionista, o servente, o médico, o técnico em radiologia, a enfermeira e alguns outros pacientes, mostrando toda sua habilidade como espadachim. Depois de diagnosticada uma pequena fratura em um dos ossinhos da mão, foi indicada a imobilização. A enfermeira chegou com o material e pediu a ele a mão para engessar, enquanto, ao lado, eu e o médico conversávamos. Concluído o gesso, a enfermeira mostrou ao médico perguntando se estava bom. O médico, tranqüilamente, respondeu que o gesso estava ótimo, mas estava na mão errada. O baixinho imediatamente falou meio cantarolado: “te enganei!”. Caímos todos na gargalhada. Eu mesma tive uma crise de riso e as lágrimas chegaram a descer. A enfermeira falou: “você rapaz...”. E ele respondeu rindo: “você é uma maluca!”.

Saímos com o gesso na mão certa, deixei o pequeno em casa e fui para o trabalho. À noite, quando voltei, o portão novamente não colaborou. Desci e fiz todos os procedimentos necessários para abri-lo na mão grande. Um portão de madeira de aproximadamente 3,00m x 2,40m pesa, e novamente me veio à cabeça que, também para essa situação, a figura masculina fica linda na foto. Tudo bem, dá para resolver. Entrei e começou a novela que vivo quase todos os dias quando chego em casa à noite. A esta hora, meu filho está com saudade e querendo atenção. Da mesma forma, é a hora da refeição dos cachorros, um casal de labradores, e do gato, um exigente vira-lata que come o dia todo, e já estão morrendo de fome. Enquanto entro, o pequeno fica me chamando e puxando, os cachorros latem e correm de um lado para outro, me cobrando a hora do rango, e Pajé mia como se não comesse há dias. Às vezes, por falta de sorte, na mesma hora toca o telefone ou Eliane, minha assistente para assuntos domésticos, resolve relacionar verbalmente tudo o que preciso comprar. Sempre me vem à cabeça uma música que ouvia quando era criança e que dizia mais ou menos assim: “a véia debaixo da cama/ a véia criava um gato/ de noite o gato miava, o cachorro latia, o pintinho piava/ ai meu Deus como eu sofria”, e me dá vontade de rir.

No dia seguinte, quando retornei com meu garoto para o almoço, o portão funcionou ao primeiro toque, e entramos sob os atentos olhares da equipe de homens da prefeitura. Já com o carro do lado de dentro do muro, o portão mudou de humor e não quis fechar. Comecei a insistir na tentativa de conseguir, incomodada com a casa escancarada diante da platéia de estranhos. Como não obtive sucesso, desci para, novamente, fazer todo o passo-a-passo para fechá-lo manualmente, deixando o baixinho dentro do carro para ser mais rápida. Enquanto começava os procedimentos, meu filho, seguro no cinto de segurança da cadeirinha, começou a chamar de dentro do carro, pedindo insistentemente que o tirasse de lá. Simultaneamente, Eliane veio correndo até nós com uma cara de susto, para não dizer pânico, pedindo socorro porque havia uma cobra no telhado da área de serviço. Pra completar, a cachorra conseguiu abrir um pequeno portão que existe já dentro do lote, e tem a função de isolar a área de entrada do carro, impedindo que os cachorros fujam quando o portão eletrônico se abre. Segurei a cachorra para que não fugisse e me coloquei na frente do cachorro, para que ele não fizesse o mesmo. Esse foi um daqueles momentos quando, em fração de segundos, passam milhões de coisas pela nossa cabeça. Olhando todo o contexto, não sabia o que resolver primeiro, considerei várias possibilidades de ação e elegi o plano que me pareceu melhor. Comecei tentando, pela última vez, fechar o portão com o controle. Por sorte, consegui. Aí, pude soltar a cachorra, liberar o cachorro, tirar o pequeno de dentro do carro e, então, socorrer Eliane.

Mais do que uma assistente para assuntos do lar, Eliane é uma amiga. Uma garota de 22 anos com um juízo que eu só alcancei em meados dos trinta, já motivada pela maternidade. Na minha ausência, cuida de meu filho com todo o carinho e responsabilidade, além das demais atividades domésticas, mas coragem, com toda a certeza, não faz parte do rol de suas qualidades. Ela tem medo de ficar sozinha em casa à noite, tem medo de rã, sapo, lagartixa e outros bichinhos, fato que, considerando a área onde moro, constitui um problema.

Enquanto caminhávamos em direção à área de serviço, fiquei imaginando que deveria ser uma cobrinha de nada e tudo não passava de um grande exagero de Eliane. De qualquer maneira, não seria a primeira vez que seríamos brindados com a visita do réptil, nem a segunda; para ser exata, seria a quinta vez.

A primeira vez que fui surpreendida por uma serpente dentro de casa devia fazer um ano que morava no local, e ainda não tinha filho. Estava pintando uns artefatos na sala quando a cobra rapidamente entrou e escondeu-se debaixo do estofado. Da outra vez,  apareceu uma no caminho da saída do carro. Na terceira vez eu estava com duas sobrinhas hospedadas em casa. A cobra escondeu-se na área de serviço e foi o acontecimento do dia. Por fim, na quarta vez, o réptil foi realmente convidado. Tratava-se de uma salamanta de estimação de um amigo veterinário. A cobra tinha aproximadamente 1,50m, era dócil e todos, incluindo o baixinho, carregamos o animal, tiramos foto e tudo. Acontece que em todas as oportunidades anteriores eu ainda estava casada e, tenho que reconhecer, o “ex” tem um talento todo especial para lidar com essas situações. Em todas as vezes que elas vieram sem ser convidadas ele conseguiu reconduzi-las ao rio ou alguma área de vegetação adequada, sem se alterar e sem machucá-las. A que alojou-se na área de serviço, para delírio de minhas sobrinhas, ele pegou com a mão e saiu mostrando para todo mundo. É praticamente um “Indiana Jones”. Só que a situação agora é outra e, apesar de não ter medo e ter muita afinidade com animais e ambientes naturais, não sou nenhuma “Jane”, e não tenho qualquer habilidade de captura.

Já na área de serviço, Eliane não quis nem entrar, de longe me apontou onde o bicho estava e saiu gritando. Quando olhei não acreditei. Só dava para ver a cabeça, parada, observando tudo. A questão é que a tal da cabeça devia ter uns seis centímetros de largura, o que indicava ser uma cobra de tamanho considerável. Além disso, não dava para ver cor ou padrão de desenhos do couro, que poderia dar dicas sobre a espécie. Isso ia exigir medidas extremas e provavelmente teria que contatar algum órgão especializado na captura e remoção. Saí e fui dar uma olhada na lista telefônica, mas a curiosidade foi maior e resolvi espiar novamente. O local onde ela estava escondida era um pouco escuro e tive que chegar realmente perto. Foi quando observei algumas coisas pontudas sobre a continuação da cabeça, ou seja, no pescoço, mas cobra não deveria ter pescoço. Cheguei mais perto e ela movimentou-se, então apareceram as garras. Garras? Cobra incomum, pensei. Foi aí que deu para sacar, não era uma cobra, era um camaleão, ou parente próximo, e o bicho não era pequeno. Então fiquei tranqüila, até onde sei, camaleões não mordem, picam ou oferecem maiores riscos.

Proibi terminantemente Eliane de enxotá-lo com vassoura ou qualquer outra coisa. A orientação era: deixe o animal na dele, a hora que resolver ir embora, ele vai. Acho que o bicho não corria risco mesmo, minha escudeira não ia entrar no ambiente enquanto ele permanecesse lá. Tentei de todas as formas amenizar seu sentimento de medo, dizendo que ele era como um dragãozinho dos contos de fada que não cuspia fogo, mas acho que ela não curtia muito as historinhas infantis. Todo esse alarde acabou assustando também meu garoto que, em geral, é bem despachado com os animais, mas nesse caso, só topou ver a um metro de distância e no meu colo. Não demorou muito para o bichinho ir embora por decisão própria e a paz voltar a reinar no lar. De pensar que ainda estávamos na terça-feira; mal podia esperar pelo resto da semana.

Ah, sobre o portão eletrônico, levei o controle para a assistência técnica, que me garantiu que o problema era a bateria, trocando-a na mesma hora. Mas, até hoje, ele ainda não funcionou.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Só mais um texto sobre a maternidade



São relativamente comuns os relatos sobre a experiência da maternidade e/ou paternidade. Textos apaixonados, em êxtase, ou angustiados e cheios de dúvidas, ou ainda, com um pouco de tudo, que são os que parecem mais próximos da vida real. Também tenho minhas histórias e impressões. Como minha experiência pessoal é a maternidade, vou me referir especificamente a ela, apesar de acreditar que tudo, ou quase tudo, se aplica integralmente também à paternidade.

Não fui mãe cedo. Tive meu único filho aos 34 anos, apaixonada pela idéia. Quando ele chegou, já tinha mais de 6 anos de casamento, tempo pelo qual adiei a gravidez por uma conjunção de motivos, mas acredito que, sobretudo, por puro medo. Por melhores que fossem meus sentimentos e relações com marido, pais, irmãos e amigos em geral, ainda assim era a personagem principal de minha própria vida, a pessoa mais importante. Não sei se era exatamente uma questão de egoísmo, traçava os caminhos conforme meus objetivos e, já no trajeto, sempre arrumava tempo e espaço para as pessoas e causas que me eram caras. Desta forma, quase sempre, fiz o que quis. A chegada do pequeno, neste contexto, mudou tudo. Ele passou a ser a pessoa mais importante de minha vida, o protagonista de minhas cenas e, não raro, me vejo ajustando o caminho, adiando, ou mesmo desistindo de projetos por sua causa.

Não ponho em dúvida que esse exercício de renúncia, entrega e disponibilidade me faz melhor. Claro que todo mundo, em maior ou menor medida, já experimentou os efeitos positivos do sentimento do amor ou outros, quase tão nobres quanto, mas a maternidade bagunça a gente de uma maneira diferente. É um processo diário e muito dinâmico, porque as figurinhas crescem sem pedir licença e, a cada diferente fase, os desafios insistem em te lembrar que, apesar de tudo que você viveu, ouviu ou leu sobre o assunto, não sabe de nada.

Por falar em ler, desde a gravidez, me lancei numa frenética busca do conhecimento através da literatura especializada em bebês, educação e psicologia infantil. Tentava antecipar meus conhecimentos às fases, na ilusão inocente, quase burra, que, para aquela fase seguinte, estaria melhor preparada. Fui tão feliz neste projeto que, há tempo, não leio nada sobre o tema. Não que o conhecimento desses profissionais, que pesquisam uma vida inteira o assunto, não ajude, mas nossa intuição e bom senso são bem mais determinantes na vivência. De resto, vejo que o melhor é relaxar e aproveitar, aproveitar muito, porque passa rápido demais e, se é nossa responsabilidade e compromisso contribuir positivamente na formação dos pequenos, eles, sem qualquer compromisso ou responsabilidade, fazem muito mais pela gente. O banho de chuva, as brincadeiras que só nós entendemos, o acordar preguiçoso envolvido em carinhos e declarações de amor eterno, são momentos que, junto com ele, quando tudo está fluindo bem, me dão a sensação de que nada mais importa. Além disso, me sinto estimulada de outras formas, porque o rapazinho, apesar de tão novo, mostra que sabe (ou pensa que sabe) o que quer.

Confesso que neste quesito ajudo um bocado. Mais ou menos desde os seus dois anos e meio, pratico com ele um exercício de argumentação e contra-argumentação. Grande parte das vezes que ele quer algo (coisa ou atividade) e tal desejo não me parece uma boa idéia naquela hora, quando sou questionada sobre a negativa, respondo somente: “me convença”. Acho que não preciso dizer que choros, birras e tolices em geral, não são considerados na discussão. Só valem argumentos, e é surpreendente o que pode sair de uma cabecinha que ainda não tem nem quatro anos de vida. São sacadas, improvisos e tentativas de manipulação que me divertem e me provocam. Às vezes, o debate se estende longamente, nem sempre terminando bem. Não alivio porque ele é criança. Se o argumento não convence, paciência, ele não leva.

Há algum tempo, introduzi em nossa relação o conceito de “direito”, no sentido de prerrogativa para fazer ou deixar de fazer algo. A partir daí, passou a ser comum em nossos diálogos colocações como: “você tem direito de falar isso” ou “não tem direito de fazer aquilo”. Quando brigávamos, ele, muito invocado, me “xingava” de feia e, por vezes, tentava me bater. Eu o segurava e dizia com firmeza:
- Você tem direito de me achar feia, é um direito seu, mas não tem direito de me bater.
Tempo depois, enquanto brincávamos relaxadamente, ele, de forma carinhosa, me chamou de feia. Eu rebati:
- Poxa filho, você me acha feia? Fiquei triste!
Ele, sem pensar, respondeu de pronto: - Não fica triste mãe, é um direito meu te achar feia.
 Na hora, só consegui pensar em palavras pouco amistosas para dizer ao Sr. Nelson Aguiar e Sra. Rita Camata, respectivamente autor e relatora do Estatuto da Criança e do Adolescente, que conferiu direitos a essas criaturas.

Em outra oportunidade, fui pega de surpresa por uma dúvida sua que me pareceu um pouco precoce. Sua babá trouxe à nossa casa o enteado, um ano mais novo que meu garoto, para passar um dia conosco. Os dois rapidamente entenderam-se e começaram a brincar. O anfitrião teve um comportamento exemplar, mostrou todos os brinquedos e os emprestou sem reservas. O visitante encantou-se com tudo e, absorvido entre tantos brinquedos, não deu muita atenção para o novo amigo. Meu gatinho sentiu e, sem falar nada, levantou-se e ficou observando a cena um pouco afastado.Não demorou muito, perguntou:
- Será que ele gostou de mim ou só gostou dos meus brinquedos?

Outro desafio é o permanente processo de interação entre o que oferecemos dentro de nosso mundinho controlado, ou relativamente controlado, que é nossa casa, e as contribuições externas. Dentro, em certa medida, posso selecionar os estímulos e equilibrar as doses. Fora, os estímulos vêm de um sem número de fontes e, portanto, não há muito como controlar. Nessa linha, poderia falar de alimentação, comportamento relacionado a várias questões e outros, mas vou me referir somente a um aspecto. Meu garoto é uma criança bonita, de uma beleza diferente em nossa região. Para completar, é comunicativo, carismático e bastante sedutor. Colocações do tipo: “mamãe, por que todo mundo me chama de lindo?” Ou “todo mundo quer meu cabelo e me pede um pedaço!” Ou ainda “Todo mundo me ama, não é mamãe?”, chegam a me preocupar sobre como os tão constantes e entusiasmados comentários se processam na cabecinha dele. Além disso, somamos o fato dele ser baiano e, como tal, "não nasce, estréia", ser filho único e leonino, autêntico. Resumindo, ele é vaidoso, adora ser o centro das atenções e, realmente, “se acha”. Entendo que é importante que ele aprecie sua própria imagem, sinta-se querido e admirado, mas procuro ter cuidado com os exageros. Tento mostrar que não precisa ser, necessariamente, sempre assim e, na medida do possível, mudo o foco e chamo a atenção para outras qualidades menos “espetaculosas” que ele tem, ou que não tem, mas que é bom que desenvolva.

Nove meses atrás, pulamos uma fogueira. Eu e o pai do pequeno nos separamos. Desde então, vivemos somente ele e eu, com direito a babá durante o dia, enquanto trabalho, para os horários em que ele também não está em suas atividades externas. Antes que possa parecer que o pai sumiu, esclareço que não foi o que aconteceu. Ele continua presente e participativo, um bom pai, mas não mais faz parte de nosso convívio diário. Não tenho ainda uma avaliação muito clara de como nossa relação de mãe e filho evoluiu nesse período. Existiram fases em que ele demonstrou nitidamente estar sentindo a separação. Já em outras, agia como se sempre tivesse sido assim. No mais, o próprio convívio oscila muito de dia para dia, às vezes, de minuto para minuto. Um acontecimento recente me deu uma boa idéia dos picos de oscilações que nossa relação pode atingir, e das “saias justas” que tais situações podem proporcionar.

Há duas semanas, quando voltávamos de avião para Salvador, o rapazinho, agora com pouco mais de três anos, protagonizou o maior “piti” feito por uma criança que já tive oportunidade de presenciar. Existiam alguns atenuantes para aquele comportamento. Ele foi acordado às 3:00h da madrugada e se recuperava de uma inflamação na garganta, que lhe rendeu, além de umas febres de mais de 39ºC, algumas privações e uns procedimentos nada agradáveis para as crianças, relativos a exames médicos. Mas tudo isso ainda não me pareceu suficiente para justificar um show daquela proporção.

Enquanto entrávamos no avião, ele ia falando: “eu quero sentar na janela”. A cada janela vazia por onde passávamos, ele perguntava: “é essa?” Infelizmente, nossos lugares eram marcados, e não contemplavam janela. Constatado o fato, assim que sentamos, ele começou a chorar e gritar: “eu quero uma janela!” Todos já haviam entrado e sentado, e os comissários se preparavam para a decolagem. Quando ele começou a espernear, tirei-o de seu lugar e o segurei firmemente sentado em meu colo, tentando conter braços e pernas que, a essa altura, se debatiam, atingindo a mim e a poltrona da frente. Como costumo fazer nessas situações, não me alterei. Normalmente o teria levado para um local mais reservado, até que se acalmasse, mas, neste caso, não era possível. Mantive a calma, falando em seu ouvido: “quando você parar, nós conversamos”. Mas ele não parou tão rápido. A comissária veio até nós e perguntou: “_você quer um chocolate?” Antes que ele falasse qualquer coisa, respondi que não era para dar nada a ele. Da mesma forma, o rapaz que sentava na janela de nossa fileira ofereceu de maneira simpática o seu lugar. Agradeci, mas recusei. Seria o fim, depois de tudo, premiá-lo com um chocolate ou com a janela. Entre os gritos de “me solta”, percebia a reação das pessoas no avião, que iam desde o riso, até os olhares e murmúrios que, apesar de não poder ouvir, compreendia tratar-se de qualquer coisa sobre a minha falta de competência em educar e estabelecer limites. Não tenho idéia de quanto tempo durou aquela situação, mas quando ele parou, o avião ainda não havia saído do lugar. Coloquei-o de volta em sua poltrona. Em experiências semelhantes que vivemos, quando ele acalmava-se, pedia desculpas dizendo, com convicção, que não iria fazer mais isso. Era quando aproveitava para estabelecer um diálogo, estimulando-o a falar sobre o que tinha motivado a reação intempestiva, e então, juntos, buscávamos alternativas mais positivas para a demonstração de seus sentimentos. Mas, dessa vez, ele estava realmente com sono. Ficou calado e, aproximadamente, cinco minutos depois, dormia com a cabeça encostada em meu colo. Que bom, porque eu não tinha mesmo condições emocionais de conversar nada.

Enquanto o devolvia para seu lugar, minhas lágrimas começaram a descer insistentemente. Estando num lugar público e sendo, no momento, o centro das atenções, me vali dos longos cabelos para esconder o rosto e um constrangimento um pouco dolorido. Por fim, fui também vencida pelo sono. Adormeci, entre muitas reflexões, com a nítida sensação de que a festa está apenas começando.