quarta-feira, 11 de março de 2009

Por que não eu?




Era só mais um dia corrido de semana. Nossa heroína almoçou apressadamente e saiu para pegar o ônibus de volta para o trabalho. Naquele dia, por ironia do destino, ela havia saído com um discretíssimo modelito "vestida para matar". Toda de preto, com calça comprida e uma camisa de fino cetim de seda, mangas três-quartos e um laçarote no pescoço que chegava a esconder o queixo, contrariando um pouco as leis naturais do verão baiano. Antes de continuarmos nossa aventura, faremos uma breve pausa para uma nota. A fim de proteger a identidade da intrépida protagonista, adotaremos para ela o singelo pseudônimo de "Nice Maria".

Logo chegou o ônibus e ela entrou naquele veículo sem imaginar que embarcava numa viagem incerta, mistura de "Velocidade Máxima" e "Expresso do Oriente". Sentou próximo da frente e ficou apreciando a paisagem. Não demorou e entraram dois ladrões, que doravante chamaremos por meliante nº1 e meliante nº2, para não criar afinidade.

Armados até os dentes com duas facas de cozinha cegas e enferrujadíssimas, de aproximadamente 10cm cada uma, o meliante nº1 foi para frente, enquanto o outro procurava uma vítima na parte de trás da condução. De repente, Nice Maria é surpreendida, a passageira na sua frente é duramente ameaçada.

Meliante nº1: - Minha senhora, fique calma, mas isto é um assalto. Por gentileza, a Sra. poderia me entregar todos os seus pertences ou terei que ser indelicado.

Nice Maria arregalou os olhos. Aquilo estava realmente acontecendo com ela. Finalmente ela faria parte daqueles números estatísticos sobre a violência urbana. O evento, se bem conduzido, renderia histórias para rodas de amigas e ganharia um destaque especial no seu livro de memórias. Ela esticou-se na cadeira, arrumou os cabelos e esperou ser notada. Mas não foi o que aconteceu. O meliante nº1 continuava empenhado em convencer a passageira abordada a entregar qualquer coisa que fosse. Nice Maria já estava perdendo a paciência com a mulher, pensando com seus botões: "ô minha filha, libera o rapaz aí que eu estou na fila". Diante do impasse, ela falou:

- Ô moço...

Antes que ela concluísse, o meliante nº1 respondeu:

- Por favor senhorita, eu estou no meio de uma discussão, tenha um pouco de paciência!

Paciência? Aguardo uma chance como esta há 34 anos e ele me pede paciência, pensou ela. Numa atitude intempestiva, ela jogou a bolsa no chão, tentando fazer com que parecesse um acidente. O marginal não tomou conhecimento. Ela, indignada, levantou-se e foi tentar a sorte com o outro assaltante.

O meliante nº2 teve mais sucesso que o nº1. Abordou um fortão sentado no fundo do ônibus:

- Por obséquio, o Sr. poderia me passar a sua carteira?

O rapaz hesitou, mas diante da violência da intimação, não resistiu e entregou. O assaltante então foi em direção à outra moça. Nesta hora chegou Nice Maria, se posicionou próximo ao mesmo e esperou um contato. Joga cabelo pra lá, joga cabelo pra cá, e nada. Desesperada, pensava: "eu, linda, loura, com estonteantes olhos azuis, estou invisível por acaso?"

A essa altura do campeonato a classe estava indo embora e a Xêpa já queria baixar. Parecia que só um barraco bem armado resolveria a questão. Mas acabou tendo uma idéia melhor. Exímia dançarina de pagode, tecnobrega e axé, com especialização em "É o Tchan", foi para o centro do corredor e começou um solo que mataria de inveja Carla Perez. Os meliantes se olharam com cumplicidade e apressadamente bateram em retirada. Enquanto os dois saíam, Nice Maria, muito nervosa, esbravejava em alta voz:

- Eu sou funcionária pública concursada, servidora do Estado, eu tenho dinheiro porque não é nem meio do mês ainda. Qual é o problema de vocês, heim?

Os outros passageiros tentavam, inutilmente, acalmá-la.

À noite, no recesso do lar, gozando o descanso merecido, os meliantes nº1 e nº2 conversavam:

- É companheiro, nossa atividade laborativa não está fácil, a cada dia fica mais perigoso esse ofício.

- Então irmão, você viu aquela louca de hoje? Um transporte público que se considere "de qualidade" deveria exigir atestado de sanidade mental dos usuários. A mulher frustrou nossa ação, pôs em risco a nossa integridade física e a de todos os passageiros.

- É, ando pensando em investir em outra carreira. Na política, talvez, para não fugir muito desse ramo.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Em tempos de transição lingüística




Recentemente li um artigo de Miguel Sanches, na edição especial da revista Nova Escola, sobre a nova ortografia da língua portuguesa, o qual me fez atentar para algumas questões. Fui à banca de revista para comprar apenas um jornal e lá estava ela, a tal revista, acenando para mim como se não pudesse mais viver – ou escrever – sem suas preciosas orientações. Tudo bem, o assunto tratado merece mesmo atenção.

A mudança proposta é o resultado de um acordo para unificar a ortografia oficial dos países de língua portuguesa, a fim de aproximar as nações que falam e escrevem o português (Brasil, Portugal, Angola, Timor-Leste, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Moçambique) e fortalecer mundialmente o idioma. No Brasil, a mudança está em vias de ser confirmada por um decreto do Presidente, para entrar em vigor em 2009. A partir daí, todos os textos oficiais deverão seguir a nova gramática. Nas demais manifestações escritas, as duas regras conviverão pacificamente até o fim do ano de 2011, quando então a tolerância – ao menos acadêmica e oficial – será zero.

No artigo de Sanches, ao qual me referi no início, ele vislumbra que os cuidadosos escritores de hoje, que se esmeram em tantos acentos, hífens e tremas, serão rotulados como “os do tempo da trema”. E olha nós aí, no meio desse bolo.

Curso atualmente uma especialização na área de arquitetura e engenharia civil, na qual, na fase de conclusão, terei que produzir um artigo técnico de aproximadamente vinte páginas. Escrever não me assusta, até gosto. O que me deixa, no mínimo, insegura, é escrever em tempos de transição lingüística, mais precisamente no início de 2009, o primeiro semestre dos três anos do processo de mudança.

Fiquei matutando, se escrever conforme as novas regras, qualquer coisa entre 80% e 90% dos leitores iniciais pensarão: “a toupeira que escreveu isso não se deu o trabalho sequer de acionar o corretor ortográfico do Word”. Se escrever como hoje fazemos, meu querido artigo, daqui a três anos, será visto como uma coisa “do tempo que se escrevia 'jiboia' com acento” (porque não será mais assim). Não quero parecer nem mais burra, nem mais velha, do que realmente sou.

Seja como for, a coisa não é muito simples. Podemos nos preparar para alguns anos de dúvidas e muitas consultas aos manuais práticos, de preferência, de bolso. Para ter uma “idéia” (que perde o acento) a “saída” (que continua com acento) será “agüentar” (que perde a trema) algumas investidas na gramática para lembrar dos ditongos, hiatos e outros companheiros. Se o português, não o da padaria da esquina, mas sim, o idioma, já é confuso por sua enorme riqueza e algumas incoerências, então, o que esperar do futuro? O jeito (que é com “j”, e continua assim, apesar de ter som de “g”) é relaxar (que é com “x”, mas bem que poderia ser com “ch”) e, talvez (com “z”, mas por que não com “s”?) usar (com “s”, mas com o som descaradamente de “z”) a transição lingüística (que perde a trema) como desculpa para nossos deslises (que, pelo amor de Deus, é com “z”).

sexta-feira, 7 de março de 2008

Longe de ser uma crônica esportiva




Se tivesse como ofício ser cronista esportiva, teria sérias dificuldades para garantir o leite do meu filho. Acho que uma das qualidades da crônica de esporte é a de ser praticamente instantânea. O jogo ou a competição rolou a noite, no outro dia pela manhã lá está ela, estampando as percepções do cronista nas páginas do jornal. Quando tem o prazo mais estendido é, no máximo, semanal. Esta crônica é um pouco diferente, também foi motivada por um evento esportivo, mas que rolou em novembro de 2007. Trata-se do jogo de futebol Bahia x Vila Nova, que encerrou a participação do Esporte Clube Bahia no campeonato brasileiro de futebol da série C, resultando na ascensão do time para a série B. Comecei a escrever algumas linhas logo depois do evento, mas tempo passou e os pensamentos ficaram esquecidos na gaveta, pelo menos até agora.

Antes de qualquer coisa, vamos esclarecer: não sou Bahia desde criancinha. Meu primeiro time foi o Fluminense do Rio, paixão que herdei de meu pai. Já tive camisa, bóton e saía pelas ruas de Belém com bandeira em punho para comemorar as conquistas do clube. Contudo, crescendo no Pará, quando comecei a me entender como gente, achei que tinha que ter um time na terrinha. Novamente fui influenciada por papai, e não foi para puxar o saco, somente achava que ele era o maior conhecedor de futebol que existia e, se eram suas escolhas, era porque deveriam ser os melhores. Assim, optei pelo Paysandu, o conhecido Papão da Curuzu. O envolvimento com o Papão cresceu e acabei esquecendo um pouco o primeiro amor - o Fluminense. Estava no campo do Mangueirão com amigos quando o Paysandu, vencendo o Guarani por 2x0, foi campeão da Taça de Prata em 1991, subindo para a primeira divisão. O estádio estava lindo todo coberto de branco e azul calçola.
Quando me mudei para Salvador, me envolvi ainda mais com meu clube paraense. Acompanhava apaixonadamente os campeonatos e "batia boca" com os baianos sobre jogos e resultados. Comemorei a nova conquista do Papão na série B e a subida para a primeira divisão em 2001, a conquista da Copa dos Campeões em 2002 , a participação na Libertadores das Américas de 2003 e sua histórica vitória sobre o Boca Juniors dentro de La Bombonera por 1x0. Este episódio merece um breve comentário pela raça e bravura do feito.

Sou Paysandu, sou loura, mas não sou burra. Sei que meu time, apesar das conquistas relevantes em âmbito regional, não tem grande expressão nacional, e muito menos internacional. Por outro lado, o Boca, ainda mais na Bombonera, é uma lenda. O mito da "panela de pressão" faz tremer qualquer adversário e, justiça seja feita, poucos são os desafiantes que lá se saem bem. Com o Papão foi um pouco diferente. O estádio fervia e logo no primeiro tempo, no calor dos acontecimentos, perdemos Robson com um cartão vermelho, nosso artilheiro conhecido como "Robgol". Para completar, no segundo tempo tivemos que engolir outro cartão vermelho, desta vez para o volante encrenqueiro Vânderson, que, como disse uma crônica da época, era "o mais argentino dos jogadores do time". Resumindo: o prognóstico era sombrio. Mas os paraenses, com muito açaí nas veias, não se entregam facilmente, e com nove jogadores em campo foram atrás do resultado. Foi dos pés de Iarley que saiu o gol que nos deu a vitória e levou à loucura os torcedores do Paysandu e do Boca que lá estavam, claro, por motivos diferentes. Naquela noite o Pará desceu quadrado goela abaixo de nostros hermanos porteños. No ano seguinte o Boca, reconhecendo o talento de nosso atleta, contratou Iarley para jogar na Argentina.
Mas os dias de glória ficaram distantes e fazia tempo que o Paysandu não me dava nem um motivozinho de alegria. Neste meio tempo comecei a namorar com um "baheea", ou melhor, um baiano torcedor do Bahia, e como coisa boa é namorar, iniciei também uma paquera com o time tricolor que, vamos reconhecer, tem lá seus encantos. O quê melhor que a Fonte Nova tremendo para seduzir uma pretendente à Bahia. Foi a tática utilizada pelo meu consorte para me envolver. Fomos, em plena quarta-feira, assistir Bahia x Nacional da Paraíba pelo octogonal final da série C, na Fonte Nova. O time disputava a vaga para a série B e vinha de alguns resultados não muito favoráveis. Pé-quente que sou, não perco viagem, nas poucas vezes que fui ao campo saí com resultado favorável. Desta vez não foi diferente, o Bahia ganhou por 3x0, com superioridade indiscutível. Tudo bem que o adversário não era lá essas coisas, a metade do time era roda-presa e a outra metade era deficiente visual. Não importa, o Bahia brilhou e ficou muito bem na foto. No campo devia ter em torno de quarenta e cinco mil pessoas, e foi suficiente para colorir e balançar a arquibancada. Como profissional da construção civil, não pude deixar de observar o estádio. Mesmo velho e mal conservado, o templo do futebol baiano cumpre sua função como arena. Quase lotado, me remeteu aos filmes épicos que revivem os gladiadores ou os jogos da antiguidade clássica, mas, que pena, sem um protagonista como Russell Crowe. De qualquer forma, o ambiente era realmente envolvente. Ponto para o Bahia.

Quatro rodadas depois, com o Bahia capengando no sobe-não-sobe para a segundona, lá vamos nós novamente para o campo assistir o duelo contra o Vila Nova de Goiás, no penúltimo jogo do campeonato. Se ganhasse, não dependeria de ninguém para subir e, claro, faria explodir a Fonte Nova. Se empatasse, estaria quase dentro, mas ainda dependendo de outros resultados. Se perdesse, aí meu filho, “só Jesus salva!”

Aos 44 minutos do primeiro tempo, Elias entra na grande área determinado a deixar seu nome registrado naquela tarde de domingo, mais o goleirão do Vila não deixa por menos e manda o afoito jogador para o chão.
_ É pênalti! É pênalti seu juiz, não "tá" vendo não?
E o árbitro confirmou. Convoca-se, então, o matador do time para a cobrança. Apresenta-se Nonato, com sua atlética silhueta de barril, para carimbar o passaporte do tricolor. O estádio mudo, todo de pé, esperava a hora de gritar com o peito aberto: goool!!!! Lá vai ele, com uma convicção de dar sono e então... filho da “P”, o cara perdeu o pênalti. Como ele conseguiu essa proeza? Não sei! Só sei que foi assim, e fim do primeiro tempo.

O segundo tempo foi àquela maravilha. O jogo estava tão interessante que não conseguia desviar minha atenção do gordinho sentado dois degraus abaixo na arquibancada. Acho que ele não sabia quem estava jogando, ou sequer que modalidade esportiva estava sendo celebrada. Seus olhos, cabeça, tronco e membros percorriam ansiosamente todo o estádio procurando qual seria a próxima guloseima que iria mastigar. Churrasquinho, pipoca, amendoim, sorvete, balinha e por aí vai. Era um filme engraçado de assistir. O fulano não parou de comer o jogo inteiro e consumiu tudo que podia ser comprado no local.

Fim de jogo: 0 x 0. Com os outros resultados do dia, o Bahia pôde comemorar: estava na segundona. Dá-lhe “Baheeeea”! O campo foi invadido e completamente tomado pelos torcedores. Mas não posso deixar de registrar o acontecimento triste da tarde. Ainda no segundo tempo, sem que a grande maioria dos presentes no local percebesse, parte da arquibancada do anel superior desabou de uma altura aproximada de 15 metros, matando sete pessoas. Sete torcedores que, como nós, saíram de casa para assistir um jogo e se divertir. Lamentamos! Alguns dias depois o Governador deu uma entrevista anunciando que iria demolir a Fonte Nova.

Morando em Salvador, desejei por muito tempo conhecer o famoso reduto do Bahia. Demorou bastante, mas a chance enfim chegou, e por uma grande ironia do destino, presenciei naquela triste tarde o último jogo do histórico estádio da Fonte Nova.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Era indizivelmente bom







Não há nada, para mim, mais iluminado que o sorriso do meu filho, um menino de quatro anos. O sorriso, o riso, a gargalhada. Ele é uma dessas crianças que tem o riso fácil, que ri com a boca, com os olhos, com o rosto e o corpo inteiro. Temos nossas brincadeiras costumeiras, endereços certos para chegarmos a boas doses de riso, mas, o mais legal é quando eles surgem por acaso, imprevistos.

Numa dessas noites qualquer, no meio da semana, estávamos o pequeno, Eliane - que trabalha na nossa casa - e eu, no recesso de nosso lar . No semestre anterior, ele havia desenvolvido com sua turminha da escola um projeto relacionado às brincadeiras infantis. Amarelinha, pega-pega, boca-de-forno, essas coisas que nossos avós já brincavam em seu tempo. O trabalho rendeu, além de muitas horas de deliciosa diversão entre eles, um caderno onde cada página traz a descrição de uma brincadeira escrita pelas próprias crianças. Que coisa linda que ficou! Aquelas mal traçadas linhas, letrinhas irregulares, palavras inacabadas. Com o caderno na mão, começamos aleatoriamente a investigar as brincadeiras.

Pega-pega, esconde-esconde, vamos de amarelinha. Improvisamos a brincadeira dentro de casa, com as divisões da cerâmica do piso. O pequeno, radiante, explicava em detalhes como se brincava, enquanto eu e Eliane fingíamos nunca ter visto ou ouvido falar do joguinho. Uma peça de lego funcionou como pedrinha e pulamos um bom tempo.

Agora é a vez de três-três passará. Confesso que demorei um tempinho para entender como brincava, pois não tínhamos gente suficiente para fazer pra valer. Eliane, que participava de tudo, tem vinte e três anos, mas juro, olhando ela brincar ninguém daria mais do que sete. Que tal boca-de-forno?

-Boca de forno!
-Forno!
-Faz tudo que eu mandar?
-Faz!
-Se não fizer?
-Bolo!!!!

O líder tem que determinar a tarefa e o restante se esforçar para cumpri-la, se não leva bolo (palmada na mão). Pega aquilo, vai até não sei onde. As ordens não podem ser questionadas. Bolo pra cá, bolo pra lá.

Vamos, então, experimentar a corrida de caranguejo. Sentados no chão, anda de costas para trás com os pés e mãos no piso, e não pode sentar. Eliane tropeçou, o pequeno caiu de tanto rir e eu pude, enfim, atravessar a linha de chegada com folga.

Meu menino não parava de rir. Ele estava tão empolgado e feliz com aquela movimentação que as gargalhadas se sucediam por qualquer coisa que fosse. O pequeno rostinho alvo, contornado por cachinhos cor laranja, brilhava como uma luz de fonte inesgotável. "Era indizivelmente bom".

Essa frase, que adoro, não é minha; é de Vinícius, que escreveu para descrever na crônica "Menino da Ilha" suas experiências quando criança na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. A li por volta dos vinte e cinco anos e não esqueci mais. Acho que esperei por todo esse tempo para, olhando no rosto de meu filho, naquela noite, ter exatamente essa sensação: algo indizivelmente bom. Não falei nada, somente pensei com os meus botões, saboreando cada segundo. Valeu a pena esperar todos esses anos.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Memórias de viagens I: dois paraíbas na cidade grande


Ele, não exatamente um paraíba. Um baiano, da capital, muito tirado a esperto. Ela, veio de mais longe, do norte, quase da selva. Aparentemente desligada, imagem reforçada pelos longos cabelos dourados, mas era apenas um equívoco gerado pela aparência. Os dois, ele e ela, em São Paulo, por nove dias.

A programação era extensa. Muitas indicações de amigos, lugares que eles queriam rever, lugares novos para conhecer, eventos com data e hora marcadas. Nove dias dá para muita coisa. Mais ou menos. Se o horário médio para acordar não fosse 10h da manhã; se o percurso, em geral, não fosse uma pernada, um ônibus, metrô, troca de linha, metrô, pernada novamente (só num trecho); se não fosse o trânsito, as indecisões, as mancadas.

Vamos lá! Começaram pelo Museu do Ipiranga. Descolaram uma carona e ótimas companhias. Que bom! Era mesmo longe. O edifício, imponente, com três pavimentos, foi construído entre 1885 e 1890 para ser um monumento à Proclamação da Independência. Ele e ela arquitetos,"entendidos", investigaram o estilo arquitetônico, as ordens construtivas, a divisão espacial. Tinha acervo para várias horas de visitação. O cotidiano, a sociedade, o trabalho na grande São Paulo da virada do século 20. Maravilha, se o museu não fechasse às 18h e eles não tivessem chegado às 16h30. Corre, entra em sala, sai de sala. Olha, mas não lê, não dá tempo. No fim, a cada ambiente que saíam apressadamente, as portas fechavam-se atrás. O passeio no jardim, uma volta no parque, nem pensar. Não havia tempo, nem mais luz natural.

Precisavam ir à rua 25 de março. Muitas encomendas, muitas coisas para comprar. Relógios, brinquedos, lanternas, sutiãs, canetas, baterias. Olha, experimenta, pergunta o preço, pechincha, olha em outro lugar, pergunta, negocia, chora, deixa para outra hora. Saem com nada nas mãos.

Vamos ao MASP, conhecido dos dois. Exposição "Da Bauhaus aos dias de hoje"; arte conceitual. Diante de um bastão de aproximadamente 60cm, com anéis articulados e colorido como um berimbau do Mercado Modelo, definido como arte móvel, estabeleceu-se o silêncio. Se a intenção era provocar o deleite, não os tocou. Se era incomodar, eles poderiam sugerir algumas utilizações para o mesmo. Mas deixemos por conta da imaginação de cada um. Sentaram para assistir um vídeo, igualmente conceitual. Analisaram a composição, o ritmo, o vestuário, os personagens, as interpretações, a marca dos carros que protagonizavam as cenas, mas o quê dizer sobre o conteúdo do vídeo? Sobre a alma da obra? Não captaram. Tudo bem, é conceitual.

Haviam muitas recomendações para visitarem o Mercado Municipal. O prédio de época, o burburinho do movimento, o imperdível pastel de bacalhau. Ela, louca para ir. Ele, doido para sabotar o passeio. Vamos hoje. Não tem tempo, está fora da rota. E o que é que tem de bom lá mesmo? Não interessa! Vamos porque vamos! Que horas são? 13h30! Fecha às 15h. Corre, pergunta, anda mais rápido. Onde fica? Logo ali. Chegaram. Por fora, não era bem o que ela esperava. Por dentro, é só isso? Era tudo o que ele queria, e o comentário foi imediato: “vim de Salvador para ver cebola, tomate e batata?” Realmente a Feira de São Joaquim – em Salvador – era mais pitoresca. O prédio era feio e sujo, o movimento era nulo e o pastel de bacalhau não existia. Saíram decepcionados. Ele tripudiando. Ela “P” da vida. No dia seguinte, ao ver numa galeria comercial a foto de um lindo mercado, ela reconheceu a imagem que já havia visto em revistas e TV, e perguntou: “essa foto é do Mercado Municipal?” A resposta foi positiva. Eles tinham visitado o mercado errado.

Voltemos à 25 de Março. Olha mais um pouco. Pesquisa preço, garantia. No bom chinês: - Este “zafira”? - Este “nô zafira”! - Depois a gente volta.

Numa leva só, visita à Estação da Luz, Museu da Língua Portuguesa e Pinacoteca do Estado. A secular estrutura de ferro da estação, a tecnologia e exposição interativa do moderno museu, o bonito prédio e o rico acervo da pinacoteca. E lá mesmo, lá pelas tantas da visitação, depois de várias obras e artistas de projeção nacional e internacional, ele conclui: “gostei de tudo, mas realmente identifiquei-me com essa tela”, apontando para a mesma. Ela ficou chocada. Tratava-se de um óleo sobre tela de aproximadamente 2,50m x 2,00m, de Cândido Portinari. Na obra, datada de 1948 e intitulada “Floresta”, via-se dois veados estáticos no primeiro plano, contemplando a pasmaceira da mata, vários outros veados saltitantes no segundo plano, e diversos outros animais mimosos espalhados pelo quadro. O quê exatamente ele quis dizer com “identifiquei-me”? Vamos embora, que é melhor.

Corrida no Parque Ibirapuera, sushi, shopping center, pizza, Jóquei, barzinhos, lojas de fantasias, outra pizza, festa. É ótimo ir a Sampa. E, antes do avião rumo à Salvador, para finalizar, só mais um pulinho na 25.

É preciso saber viver



São inevitáveis, com o passar dos anos, as reflexões sobre o tempo vivido, o tempo a ser vivido, as avaliações diante do espelho, os balanços de vida. Hoje, a poucos anos de emplacar os quarenta, me pego às vezes divagando sobre o tema. Claro que em âmbito nacional e mundial temos muitos exemplos de pessoas que souberam viver muito bem os anos que lhe foram concedidos, e outras tantas que, por outro lado, passaram por aqui, ninguém sabe para que. Mas não quero falar de grandes feitos, e nem preciso recorrer a figuras públicas. Tenho em mente vivências mais simples, pessoas comuns, pessoas que fazem parte de minha vida.

Há poucos dias estava em Sampa. Minha amiga, minha irmã, Simone Carol, para mim somente Rocqueira, que mora na super metrópole, completou quarenta anos de vida em outubro e festejou a data com uma balada. Catei o namorado e fomos juntos dividir com ela esse momento. Lelé, nosso xodó de longa data, que divide o AP com Rocqueira e muitas histórias conosco, já estava arquitetando as comemorações desde o início do ano. A festa foi ótima, embalada por uma banda que colocou todo mundo para dançar. A aniversariante reuniu em torno de 60 pessoas. Como diz ela, todas queridas, especiais. Não tenho dúvidas da recíproca do sentimento de quem lá estava por ela. Alguns, como eu, saíram de longe, da Bahia, de Belém, do Rio, especialmente para o evento. Não é para menos, Rocqueira é uma dessas pessoas que não passa despercebida por quem cruza o seu caminho. Aquela figura que ama demais, odeia demais, se é para rir, morre de rir, se é para chorar, espero que saiba nadar. Segundo ela, tem múltiplas personalidades. Quando doce e meiga, quer dizer, "doce e meiga" ela nunca é. Corrigindo, quando calma, paciente e mais cordata, é Simone. Quando "sobe nas tamancas", é Carol. Quando equilibrada, é Simone Carol.

Seja como for, nos conhecemos na escola quando tinha 15 anos. Ela não chegava a ter dois anos a mais, mas estava anos luz na minha frente. Era descolada, namoradeira, atleta de destaque e extremamente popular. Eu não era exatamente uma completa idiota; já era falante, extrovertida, de muitos amigos, mas aparentemente não tínhamos muito em comum. Mesmo assim, a empatia foi instantânea. Em pouco tempo nos tornamos parceiras no estudo (eu estudava e ela colava), nos esportes (ela jogava e eu torcia), nas baladas, viagens e projetos. Quando chegou o vestibular, coube a mim a responsabilidade de definir seu destino profissional. Escolhi seu curso superior, e acho que me saí bem, até melhor do que na minha própria escolha. O tempo passou e, em alguns momentos, foi padrasto com minha amiga. Mas o grande lance é justamente esse: dos limões que caíram em seu colo, ela soube espremer e fazer uma limonada, nem sempre doce. Hoje, ela vive um delicioso momento profissional e pessoal. Nada caiu do céu, foi construído pedra por pedra, com alegria, lágrimas, questionamentos, parcerias e muita determinação. Ela tinha mesmo razões para comemorar.

Voltando à festa, tivemos lá U2, Skank, Lulu Santos, Jota Quest, Paralamas e muitos outros. Começamos dançando em torno das mesas, mas em pouco tempo estávamos no gargarejo, pulando como "sapos na frigideira". Considerando a faixa etária dos convidados, ao pularmos, quase tudo em nossa anatomia pulava junto. Paula, nossa coligada, também de Belém, muito "presepeira" como sempre, lançou uma dança apropriada para situação: quando pulava, segurava os peitos, cada um com uma mão. Rapidamente, toda a mulherada aderiu à inovação e ficou bonito de ver, um grupo considerável de mulheres na beira do palco, cantando, pulando e segurando os peitos. De repente, quando olhamos, estava meu namorado também saltitando no salão com as mãos firmemente agarradas aos peitos. Paula se aproximou e explicando o porque de sua dança, disse: "é porque eu estou menstruada!". Ele, sem perder tempo, respondeu: "eu tambémmmm!!!!" Foi tudo muito divertido e Rocqueira, sem beber nada, estava embriagada de felicidade.

Dois anos atrás, Luana, sua irmã, também completou quarenta anos, e também com uma festa maravilhosa. O agito foi em Belém, ao som de "Acorda Alice", uma banda especializada em tocar rock nacional dos anos 80. Na mesma época, uma outra amiga nossa, uma mulher bonita, cheia de saúde, com uma família aparentemente estruturada e um emprego invejável, chegava aos seus quarenta anos, e passou o período a base de antidepressivos, para segurar a onda. É...poucos sabem decifrar os mistérios da vida, ou mesmo sem decifrá-los, sabem fazer do tempo, das venturas e desventuras parceiros e aliados. Que Deus me permita desfrutar sempre da companhia dessas pessoas e da sabedoria que elas derramam pelo caminho.

O Cone


"Que cone?" Essa pergunta, aparentemente inocente, despretensiosa, mudou todo o curso de nossa noite. Ela, Paula, poderia ter dito: "Claro! O cone, eu vou pegar." Ou talvez: "O cone? Sem problemas, eu devolvo!" Mas não, ela tinha que dizer :"que cone?". Bem, o que esperar de uma louca? Loucuras, é claro! Melhor assim, nosso passeio foi bem mais emocionante a partir de então.
Era só mais uma noite, como outra qualquer, de um fim de semana em Belém. No carro estavam Paula (22 anos) dirigindo, Suzane (22) no banco do carona, Mônica (21) e eu (20) no banco de trás. Organizávamos uma festa no sítio do amigo Fernando, mais uma de nossas inesquecíveis festas. De tempos em tempos programávamos uma, em sítios ou em casas na orla de Mosqueiro, balneário numa ilha fluvial do Pará. Não fazíamos esforço para divulgar. As baladas eram tão boas, que o boca-a-boca encarregava-se de promover, aí cada um trazia alguma coisa, contribuía de algum jeito, e a farra ia até o sol raiar. Como aconteciam em lugares afastados, grande parte da turma dormia no local, jogada onde desse. Uma característica era comum a quase todos esses eventos: ao terminar, o ambiente estava completamente devastado, algo semelhante aos efeitos do "Katrina". Ouve uma vez que, sem querer, tocamos fogo no muro da casa. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos, mas acho que o dono da casa não considerou o desfecho exatamente um "final feliz".
Voltando à nossa noite, no carro conversávamos sobre uma maneira de facilitar a localização da entrada do sítio, que não era muito visível, quando vimos na rua um desvio sinalizado com vários cones. Fala sério, que falta iria fazer um conezinho entre tantos. Paramos e Paula e Suzane desceram, uma abriu a mala e a outra jogou o cone dentro. Ao entrarem no carro, ouvimos: "piiiiiiiiiii". Era o apito de um guardinha que estava por perto, apreciando a cena.
Jovem, simpático e sorridente, o rapaz, vendo quatro garotas sozinhas, chegou cheio de graça junto do carro e abaixou-se na janela do motorista, onde estava Paula. A partir daí o diálogo foi surreal. O militar, "tirando a maior onda", falou:
- Oi meninas! Será que dava para vocês devolverem o cone?
Paula: - Que cone?
Ele: - O cone que vocês acabaram de pegar.
Paula: - Cone? Eu não peguei cone nenhum. Do quê você está falando?
Ele: - Espera aí! Eu estava ali do outro lado e vi tudo. É o cone que está no porta-malas.
Paula, tirando uma de indignada: - Você está me chamando de ladra?

Eu estava achando aquele papo muito engraçado. Suzane, como habitual, olhava tudo por cima, como se não tivesse nada a ver com ela. Mônica mexia-se pra lá e pra cá, agoniada, preocupada e murmurando: "devolve esse cone". Mas a conversa prolongou-se e Paula não arredou o pé da postura de moral ilibada que adotou. Ele tinha imaginado tudo aquilo e ela estava ofendidíssima. Claro, diante da insistência em negar, em chamar ele de doido e quase que exigir um pedido formal de desculpa, o rapaz começou a  mudar o tom da conversa. Já não pedia mais nada, ele exigia, mas não surtiu o menor efeito com minha amiga tresloucada. A artista continuava irredutível; já com o apoio inigualavelmente cínico de Suzane. Eu ria, ria muito, e Mônica arrancava os cabelos, beirando um ataque histérico. Foi quando, para nossa falta de sorte, passou pelo local uma viatura da polícia militar, e o guardinha pediu reforço para conter quatro perigosas meliantes.
O oficial desceu e educadamente pediu o cone. Paula, fingindo estar descontrolada, esbravejou que não tinha cone algum e que aquele homem estava a ofendendo, chamando-a de ladra. A discussão, já envolvendo todos, prolongou-se e esquentou um tanto. Diante do impasse, o tenente exigiu que ela abrisse o porta-malas para mostrar, então, que o cone não estava lá. Paula não hesitou: abriu a porta carro e saiu determinada em direção ao fundo do veículo, com uma pequena distância das "autoridades". Chegando ao porta-malas, abriu-o totalmente, enquanto eles aproximavam-se. No exato momento que iam olhar, ela bateu a porta com uma senhora porrada e gritou: "Viu? Eu disse que não tinha cone nenhum!". Os caras enlouqueceram. O oficial pegou-a pelo braço firmemente e falou: abre esse porta-malas agora, que eu não estou brincando. Ela abriu e, claro, o cone estava lá.
Diante dos fatos, o quê fazer? Poderíamos dizer que estávamos sendo filmados e que tudo não passava de uma pegadinha; ou talvez, que éramos alunas de teatro e que aquilo era um laboratório, uma performance. Na hora não pintou. Não tinha o quê dizer; não havia defesa. Vamos todos para delegacia. Paula, sem perder o rebolado, voltou para a direção do carro e o tenente foi para o carona, mandando que Suzane afastasse para o meio para ele sentar na ponta. Mas não existia acento no meio. Suzane, "malaca", com toda a tranqüilidade, enquanto discretamente cutucava Paula, argumentou docemente com o militar: "Calma! Eu passo para trás e o senhor vai no meu lugar." Foi só o tempo dele colocar as duas pernas para fora e ficar de pé.
"Velozes e Furiosos" perdia fácil para nossa arrancada cinematográfica, com um solo de pneus para ser ouvido na outra quadra. Ele, coitado, ainda tentou correr segurando na porta do carro, mas não deu. Fomos embora em alta velocidade, seguidas pela viatura. Avança sinal, vira daqui, estica dali, e os homens da lei continuavam atrás. Dentro do carro, apesar da tensão, nos divertíamos um tanto, entre muitos gritos e alguns comentários de Mônica, do tipo: "eu acho que isso não vai dar certo!" Em determinado momento, o Monza de Paula, que corria até bem, conseguiu abrir uma certa distância. Viramos à esquerda e, logo depois da curva, vislumbramos a entrada estreita de uma vila. Paula embicou com tudo, vila a dentro, desligou o carro, apagou todas as luzes, e ficamos ali, abaixadas, mudas, esperando. Logo depois enxergamos de longe a viatura passar direto, voando.
Não tenho idéia do tempo que aguardamos, acho que em torno de vinte minutos. Considerando que estávamos nas proximidades do JB - um barzinho das antigas e um dos nossos pontos de encontro -, deixamos o carro na vila e fomos correndo para o bar, nos escondendo em qualquer árvore ou poste a cada veículo que passava. Chegando lá, encontramos Mauricinho, Tonho, Fernando e outros. Depois de relatar a aventura - com alguns exageros - fomos andando para a casa da Suzane, uma quadra depois, enquanto Mauricinho buscava o carro.
No fim, tudo ficou bem. Foi nossa noite de "As Panteras", não a única, mas uma das mais engraçadas e emocionantes. Quando nos reencontramos, quase sempre nos lembramos da aventura, como brincadeiras deliciosas que não podem ser reeditadas, mas que, em seu tempo, foram bem aproveitadas.


quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Bons momentos




Quanto vale um momento de muito prazer? Tem preço? Então, quanto valeria um momento de êxtase? Ei, espera aí! Não é bem disso que estou falando! É muito bom também, mas não é o tema. Abstraia e vamos começar novamente, canalizando para um lado mais subjetivo. Então, quanto vale? Acho que vale investimentos, algumas doses de sacrifício e inúmeras horas de espera, se necessário. Neste fim de semana que passou, vivi um destes momentos.

Deitada sobre um grande platô de pedra na gruta do Lapão, depois de descer em um rapel na negativa de aproximadamente 55m, contemplava o imenso salão na chegada da gruta, observando o restante do grupo descer, um a um. Aparentemente poderia parecer apenas mais um lugar privilegiado pela beleza natural, mas todo o contexto, para mim, significava mais. Acho que ninguém realmente notou o que se passava comigo naquele momento, também achei desnecessário comentar. Curti, solitariamente, cada segundo da experiência. Quando a lágrima rolou vagarosamente, celebrando a felicidade de estar viva naquele lugar, naquele exato momento, enxuguei rapidamente, não por não querer compartilhar, mas por não querer verbalizar nem um instante do que se passava.

A Chapada tem mesmo esse poder. Para situar, estou falando da Chapada Diamantina,e a gruta onde estávamos localiza-se a aproximadamente uma hora e trinta minutos de caminhada pela trilha a partir de Lençois. Já havia andado algumas vezes pela região, em trakings de três ou quatro dias sem vestígios de civilização, e conhecido lugares muito especiais, mas cada lugar e momento tocam a gente de maneira diferente. Além disso, por razões diversas, havia seis anos que não pisava naquelas terras. Foi bom voltar.

Gostaria de poder multiplicar esses momentos de êxtase diante de acontecimentos imprevistos. Talvez exatamente por assim ser tais momentos, imprevistos e não reproduzíveis, sejam eles tão especiais. Mas alguns ingredientes necessários para que aconteçam são possíveis de identificar: 1) lugares mágicos; 2) se acompanhada, que seja de pessoas especiais; e pelo menos nestes momentos, 3) ter “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”.

Aos vinte e cinco anos, na praia de Ajuruteua, localizada em Bragança - Pará, vivi uma sensação semelhante. Tinha ido acampar nas dunas da praia com meu namorado, que algum tempo depois viria a ser meu marido. Chegamos quando anoitecia e, rapidamente, tivemos que descarregar o material para montar o acampamento antes que escurecesse. Quando tínhamos tirado tudo do carro e a barraca estava em pé, mas ainda não totalmente fixada no chão, fomos surpreendidos por uma tempestade de areia. Mal podíamos enxergar, víamos apenas os vultos enquanto ainda foi possível ver, porque com pouco tempo a areia entrou nos olhos e não consegui mais abri-los. Ele, por usar óculos, teve uma certa vantagem, e conseguiu localizar-se e tomar as providências necessárias: colocar eu e toda a “tralha” de volta no carro. Não seria mais possível acampar. Aguardamos um tempo dentro do carro até que a tempestade se dissipasse para irmos procurar uma pousada. Quando parou, resolvi tomar um banho de mar, para tirar a areia grudada no corpo. Ele ficou esperando no carro. Não sei qual era a lua no dia, mas o céu estava limpo e a noite nem tão clara, nem tão escura. A maré estava baixa, tanto que chegando à água não tinha mais contato visual com ele. Quando comecei a entrar no mar, não creditei no que vi. A sensação foi uma mistura de surpresa, medo, curiosidade e deslumbramento. À medida que ia entrando e mais volume de água deslocando, mais brilhava a água em milhões de gotículas fosforescentes esverdeadas. Pelo amor de Deus, o que era aquilo? Nunca tinha visto, nem ouvido falar em algo semelhante. Saí correndo para buscá-lo, mas fui com um pouco de medo que fosse um delírio meu que não pudesse ser compartilhado ou que, sendo real, quando voltasse não existisse mais. Ao chegar, não falei e nem expliquei nada, disse apenas que tinha que ir comigo para ver algo e tinha que ser já. Quando voltamos, as luzes ainda estavam lá. Entramos no mar e nadamos maravilhados. Sentados no raso, ficávamos extasiados quando, ao jogar a água para cima, ela caía rolando pelos nossos corpos dividida em milhares de pontos luminosos. Simplesmente brilhávamos. Naquele momento, aquilo para mim era um milagre. Não queria saber se tinha uma explicação científica, se era uma interferência alienígena, ou se os dois dividiam um delírio. Era simplesmente um milagre.

Ao retornar para Belém, contei para algumas pessoas, que também não sabiam do que  tratava-se e escutavam a história com uma certa desconfiança. Quase um ano depois, assistindo na TV um programa de ecologia, descobri tratar-se de um fenômeno da natureza chamado bioluminescência, onde microorganismos em suspensão na água tornam-se fluorescentes, provavelmente em função de alterações de concentrações de nutrientes na água. Meu lado racional gostou de ter a informação, mas prefiro guardar a lembrança como a de um milagre que tive o privilégio de presenciar.

Outra vez, quatro anos antes, quando tinha vinte e um, estava na ilha do Marajó com um grupo de dez amigos. Essa maravilha localizada no Pará é considerada a maior ilha flúvio-marítima do mundo, cercada pelo Oceano Atlântico e pelos rios Amazonas e Tocantins, com uma característica rara: praias onde as águas ora estão doces, ora estão salgadas. Passávamos o dia na praia de Joanes, no município de Salvaterra. Não sei como as coisas estão por lá hoje, mas nessa época, em 1990, a praia ainda era bem selvagem, e a vegetação chegava até a areia. Depois de curtir algumas atrações do local, como as ruínas de pedra da velha igreja jesuíta erguida no século XVII, fomos – eu, uma amiga e dois amigos – explorar a área. Entrando um pouco pela mata, nos deparamos com uma velha casinha de madeira, bem humilde. Encostado na janela estava um velhinho, sozinho, contemplando placidamente a calmaria do lugar. Ele era franzino e tinha a barba e os cabelos longos, bem branquinhos, uma imagem que lembrava o misterioso “véio do rio”, da memorável novela “Pantanal”. Puxamos conversa e ele falava pouco, mas papo vai, papo vem, fomos parar nos fundos da casa, onde havia um igarapé na beira da varanda com uma canoa encostada. Pedimos emprestada a canoa e saímos os quatro, igarapé à dentro.

O termo igarapé é de origem indígena e significa “caminho de canoa”, o que estava totalmente condizente com a situação. O caminho era um “furo”, entretenimentos naturais da ilha, que são braços de rios ou de igarapés por onde só podem navegar pequenas embarcações, porque são margeados por vegetação nativa com trechos bem estreitos. Nosso roteiro não devia ser muito conhecido e visitado, pois era tudo muito selvagem. No trajeto, aos poucos a conversa foi cessando para dar lugar ao som da mata. Ouvíamos um sutil barulho do movimento da água provocado pela canoa e o remo, galhos quebrando pelo agito dos bichos e a música, às vezes discreta, às vezes estridente, entoada pelos pássaros e outros animais. Em determinados momentos o caminho ficava tão apertado e a mata tão densa que chegava a fazer um túnel e tínhamos que abaixar na canoa para conseguirmos passar. A energia era indescritível. Uns quatro anos depois, voltei ao local. Corri tudo procurando a velha casinha, a canoa, o “véio do rio”, mas não achei. Perguntei para uns nativos, e ninguém conhecia ou lembrava ter visto ou ouvido falar. Tenha lá uma explicação lógica, ou seja uma alucinação coletiva, eu vivi aquilo e isso ninguém me tira.

Ao contrário do que possa parecer pelos relatos anteriores, pelo menos para mim, estar rodeada pela natureza não é pré-requisito indispensável para viver experiência semelhante. Em outra oportunidade tive a mesma sensação dentro de uma igreja completamente vazia. Não estava lá por motivação religiosa ou turística. Simplesmente estava lá, sozinha, atrás de uma balaustrada no primeiro pavimento, observando a nave principal, o altar, as imagens; tudo muito singelo. A igreja era a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Belém. O início da construção atual data do século XVIII e o projeto foi doado pelo arquiteto italiano Landi, que assina várias outras edificações do mesmo período que são referência na cidade. Na literatura existem alguns relatos da labuta dos negros carregando pedra e outros materiais durante a noite, para erguer seu templo. Não sei exatamente o que me comoveu, mas passei alguns minutos mágicos envolvida pela atmosfera daquele lugar.

Voltando à viagem deste fim de semana, nem todos os momentos foram “sublimes”, mas quase tudo foi divertido. Voltei com algumas feridas nos pés, mas o que é isso diante de todo o contexto. Concluindo, não posso indicar endereços certos para vivências especiais como as relatadas, mas se é para arriscar um local bastante propício, o lugar é exatamente esse: Chapada Diamantina. Confira você mesmo.