quarta-feira, 22 de julho de 2009

Corta o cabelo de onde?


Todo mundo passa por aqueles dias que é melhor não abrir a boca. Com a maior parte das pessoas isso acontece um dia ou outro. Comigo é mais freqüente. O problema maior é que a gente nunca sabe quando acordou com esta pré-disposição. Tanta tecnologia disponível e ninguém se tocou de bolar um alarme no celular para nos prevenir nesses dias sombrios. Ou talvez "os céus" pudessem nos proteger das derrapadas com inspirados presságios. Seja como for, alguém precisa tomar uma providência.

Como não me dou muito bem com os celulares e não costumo ser abençoada com tais revelações divinas, lá vou eu toda serelepe e desavisada para mais um dia de trabalho. Passei o dia até bem e parecia que ia voltar para casa sem nenhuma seqüela. Era o quê parecia. Lá pelo final da tarde, conversava com minha chefona, que é mais ou menos um feitor dos tempos modernos. Quando trocávamos algumas figurinhas chegou Aragon, nosso colega de trabalho. Só para ilustrar o tamanho da trapalhada que vem pela frente, vou descrever nosso personagem. Aragon é um engenheiro de segurança de cinqüenta e poucos anos, sério e muito tímido. Para termos uma idéia, ele fala de boca fechada. Quando está muito nervoso e alterado chega a abrir a boca cinco milímetros e meio e, se chegarmos a dez centímetros da fonte emissora do som, é até capaz que a gente consiga ouvir 70% do que ele fala. É um bom profissional, mas bem mais eloqüente na escrita. A “chefa” tinha alguns assuntos pendentes com ele e na mesma hora tirou o chicote do cinto e começou a cobrar os desdobramentos dos serviços.

Os dois seguiram debatendo os assuntos de trabalho. Na argumentação, Aragon, que normalmente é muito contido, gesticulava com as mãos na altura do baixo abdômen e região pubiana, com movimentos curtos e lentos. Como a conversa não era mesmo comigo, me permiti abstrair perdida nos meus pensamentos. Isso, para uma mente intelectual, significa absorver-se entre assuntos relevantes para a humanidade. Para uma cabeça loura, como é o meu caso, significa "só pensar besteira". Então, comecei a viajar nas mãos de Aragon, observando que seus dedos eram bem cabeludos, o que me lembrou um lobisomem ou, talvez, Tony Ramos, que é mais ou menos a mesma coisa. Era meramente uma observação, que faço questão de registrar que não me remeteu a nenhuma fantasia. Aprofundando-me mais na questão de alta complexidade, notei que, em uma das mãos, os dedos indicador e médio tinham os cabelos menores, como se tivessem sidos aparados. Totalmente alheia ao ambiente e às circunstâncias e, pior, no auge do meu surto delirante, usando um papel tipo ofício que tinha na mão, apontei para as mãos de Aragon, que nesta hora estavam na altura da região pubiana, e perguntei:

- Você corta o cabelo daí?????

Agora você, caro leitor, com todo o seu poder de imaginação, realize a cena. Imediatamente percebi o fora que tinha dado, mas a besteira já estava feita. Minha chefe, que estava de lado, como se estivesse em um filme em câmera lenta, virou a cabeça na minha direção e levantou o mais alto que pôde a sobrancelha de apenas um dos olhos. Sobre sua cabeça surgiu instantaneamente um balão com uma enorme interrogação mãe, rodeadas por inúmeras "interrogaçõeszinhas" filhas, brincando de roda em volta da genitora. Aragon, coitado, um pouco tonto ainda, lentamente baixou a cabeça e levantou a camisa, dando uma averiguada em sua calça. Sou capaz de apostar que ele pensou que estava com o zíper aberto. Quanto a mim, não me contive, desabei numa crise de riso, sem conseguir pronunciar uma palavra que pudesse explicar o ocorrido. Cinicamente, a chefona ainda teve o desplante de perguntar:

- Vocês querem que eu saia?

Com uma amiga dessas, quem precisa de inimigos? Continuei tentando pronunciar alguma coisa que pudesse ser entendida, mas os risos não deixavam, saindo apenas palavras cortadas.

- Nã-nã-não! - Dizia eu enquanto apontava as mãos dele, mas acho que isso só fazia piorar tudo. Meu colega, sem entender nada e expressando um certo medo de mim, já dava alguns pequenos passos para trás. Por fim, ainda sem parar de rir, consegui falar:

- Eu estou falando dos dedos!

A chefinha saiu rindo e Aragon, assombrado pelo terror de ficar sozinho comigo, bateu em retirada com passos largos e apressados. Fiquei enxugando as lágrimas da crise de riso, mas ainda sem conseguir parar de rir. No carro, voltando para casa, ia pensando uma maneira de esclarecer o mal-entendido, antes que os demais técnicos do órgão, avisados sobre minha excêntrica curiosidade, viessem todos me falar sobre seus hábitos higiênicos e seus cortes de preferência. 

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Talento para pular a cerca

Tudo na vida é uma questão de talento. Talento para a música, para representar, para cozinhar e até talento para "pular a cerca". Algumas pessoas trazem esse talento nato; outras conseguem desenvolver ao longo da vida. Por outro lado, existem aquelas que, coitadas, é melhor nem tentar. No meu caso, não posso reclamar, este é um talento que não me falta. Ei, antes que as mentes maliciosas comecem a fazer mau juízo, vou esclarecer. Estou falando daquela cerca com um monte de pauzinhos enfileirados, ligados por arame, só isso. Quanto a algumas amigas, não posso dizer o mesmo.




Em um belo dia desses, minha querida chefinha, Helen, me pediu carona na saída do trabalho. Helen é uma mulher alta, de um porte "mais ou menos" atlético, mas com uma desenvoltura física equivalente a de um lutador de sumo aposentado. Como o carro estava um pouco longe, sugeri que pulássemos uma pequena cerca para cortar caminho. Isso foi um processo. Levei alguns minutos para convencê-la que era uma ação segura, rápida e que podia, inclusive, ser divertido. Claro, tive que jurar que não havia, na história daquele estacionamento, nenhum registro de acidentes mortais com a bendita cerca. Quase convencida, ela topou.



Primeiro fui eu. Passei por umas "agaves", uma plantinha que parece um ouriço do mar, sem maiores prejuízos, pulei a cerca rapidamente e fiquei do outro lado esperando-a. Entre tantos "uis", "ais" e "ai meu Deus", saiu um longo "eu acho que não vou conseguuuuuiiiiiir!!!!!!" Para socorrê-la, segurei todas as suas tralhas, abaixei a cerca e apoiei sua mão. Com a ajuda, a atleta foi até ágil e não demorou mais do que dez minutos para transpor seu obstáculo. Para incentivar, falei só uma mentirinha: - você foi muito corajosa!



Com um suspiro aliviado e cheio de orgulho, Helen saiu andando ao meu lado. Achei que o assunto estava encerrado, mas enquanto íamos pelo passeio, ela me olhou com uma cara de choro, de dar pena, e disse:



- Aquela planta me furou e tem alguma coisa escorrendo na minha perna. - Já aos prantos, ela continuou:

- Eu acho que é saaaangue!!!!



O que é isso minha gente? Uma mulher com quase um metro e oitenta e mais os quinze centímetros de salto chorando porque se espetou numas plantinhas? Achei um exagero tremendo, mas para não parecer completamente insensível com suas lágrimas, fiz uma fingida cara de preocupada e, pegando em seu ombro, disse:



- Calma, deve ser impressão sua.



Quando entramos no carro, ela levantou a barra da calça e, para a minha surpresa, a perna estava toda desgraçada e o sangue escorria. Que miséria era aquela? Como a criatura conseguiu esta proeza é um mistério que deixaremos para o universo.



Saímos no carro com ela choramingando e reclamando. A minha vontade era de mandá-la engolir o choro e manter a compostura, mas, como uma boa amiga solidária, ia dizendo:



- Calma Helinha, já passou, já passou.



Nada mais que uns três minutos depois que havíamos saído, Helen, completamente transtornada e fora de si, deu um berro e começou a se saculejar toda gritando: - ai! ai! ui!.



Fiquei morrendo de medo. Não fazia idéia de seu elevado grau mediúnico e das inesperadas incorporações de espíritos comunicantes. Em fração de segundos a mulher arrancou a roupa ficando só de sutiã dentro do carro. Para mim, era a visão do inferno, mas uma platéia masculina até apreciaria a dona de sutiã se remexendo como uma dançarina indiana, até que, enfim, ela conseguiu pronunciar algo inteligível:



- Tem um bicho na minha roooooupa!!!!!!!



Era, realmente, o que faltava. Eu já havia pulado a tal cerca algumas dezenas de vezes e nunca tive qualquer surpresa. Com Helen, tudo aconteceu. Ela continuou sacudindo a roupa até que conseguiu pegar o inseto. Nesta hora os dois atracaram-se numa luta bárbara, misto de um espetáculo de gladiadores e um evento de "Vale tudo". O bicho, no alto dos seus dois centímetros e meio, levava uma pequena vantagem, mas Helen, guerreira, não desistia. Preocupada, falei qualquer coisa que desviou a atenção do coitado. Aproveitando-se da situação, numa ação não muito leal, ela desfilou o golpe fatal, vangloriando-se com uma gargalhada mais aterrorizante do que a da madrasta da Branca de Neve, quando enfim conseguiu que a pobre menina comesse a maçã. Agora estava eu em um carro com uma mulher seminua, toda descabelada, e um defunto. Se não bastasse toda a situação, a louca ainda ia me acusando de arriscar sua vida expondo-a em aventuras no mato.



Sem muito escrúpulo, desovamos o cadáver num matagal e fui deixa-lá. Por fim, ficou a moral da história: se tem uma criatura que pode deitar a cabeça no travesseiro e dormir como um anjo é o companheiro de Helen, porque a dona não tem o menor talento para "pular cerca". Já o meu amor...

domingo, 5 de julho de 2009

Memórias de viagens III: em trupe para Gramado

Se o casal de paraíbas viajando sozinhos protagonizam uma lista razoável de mancadas, imagina quando decidem sair em família. Foi o que aconteceu no último feriado de São João.



A turma, bastante eclética, tinha um grupo de crianças com três meninas, Gabi (8 anos), Cacá (6) e Lulu (6); os adolescentes e jovens adultos, com Nathália (14), Bruno (16), Paulinha (20) e Nanda (22); e os adultos, que acho desnecessário identificar as idades, com o casal Lula e Wilma, Luíza, a matriarca do grupo, e o casal de paraíbas. Ele, o paraíba, como sempre, elegeu-se o chefe da excursão, através de processos não muito legítimos. Ela, a paraíba, foi de curtição. O destino: uma semana em Gramado-RS. Mas essa aventura tem muitos capítulos, e para facilitar, vamos fatiá-la.




Capítulo I: Chegando Lá. Opção: "com emoção"



O grupo viajou dividido em dois. Passada a rotineira agonia do embarque, com os atrasos costumeiros e um congestionamento de gente no aeroporto de Salvador como eu nunca tinha visto antes, nos acomodamos no avião, ocupando nossos lugares marcados, a exceção de Paulinha, que conseguiu uma permuta com outro passageiro para ficar junto com Nathália e Bruno.



No vôo, com destino Porto Alegre, era programada uma escala em Sampa. Quando a aeronave pousou, o paraíba logo levantou-se e foi dar umas voltas para esticar o esqueleto. Neste meio tempo, três rapazes, jovens e muito educados, chegaram junto do trio Bruno, Nathália e Pulinha, e disseram, tranqüilamente, que aqueles assentos eram deles. Nossa ala jovem, completamente avoada, não se deu o trabalho sequer de verificar as passagens. Levantaram-se imediatamente e amontoaram-se no corredor, com umas carinhas de "o quê eu faço agora?"A paraíba, com uma calma que não lhe é peculiar, desconfiou do equívoco e foi checar os bilhetes de embarque. Na verdade, as poltronas dos rapazes realmente eram naquela fileira, mas do outro lado do corredor. Apenas um, o que sentou no lugar de Paula, estava totalmente certo. A paraíba explicou para eles a confusão e os dois, sem qualquer objeção, levantaram-se, permanecendo no lugar apenas o que estava correto.



Tudo tinha sido resolvido na mais completa ordem até que o paraíba, vendo tudo de muito longe e sem entender absolutamente nada, chegou intimando os rapazes, inclusive o pobre coitado que permanecia sentado no assento que era seu por direito. Nathália, totalmente sem graça, disse: "mas pai, esse lugar é dele!" A situação já estava um tanto constrangedora quando o garoto que era alvo da fúria do paraíba, mesmo estando todo certo e com uma gentileza incomum largou o golpe fatal, dizendo ao paraíba: "vocês querem ficar com esse lugar?" O paraíba, com um sorriso mais amarelo que suco de cajá, respondeu: "você faria isso?"



Novamente, todos acomodaram-se nos mesmos lugares do início da viagem, mas, provavelmente, aquele "tapa com luva de pelica" ficou latejando silenciosamente no rosto do paraíba pelo resto do trajeto. Quando chegamos em Porto Alegre, o tal rapaz, todo sorridente, com uma atenção no mínimo suspeita, se deu o trabalho de ir até Paulinha, que também o recebeu com um sorriso de orelha a orelha, para perguntar se a viagem tinha sido boa. Tanta gentileza estava, enfim, explicada.



Apesar de doido, o paraíba tem lá suas qualidades e, cheio de providência, tinha reservado o hotel e perdido algumas noites estudando o percurso no interativo "google earth". No aeroporto, ainda se achando o dono da excursão, tratou de pesquisar o táxi e acertar tudo, e, vamos combinar, considerando que seus serviços saem por custo zero, os mesmos são até satisfatórios.



Antes de sairmos em dois carros, os motoristas conversaram algo só entre eles. Quando os táxis pararam em frente ao hotel, o paraíba perguntou quanto era a corrida e começou a travar com o motora uma pequena discussão sobre o valor. Enquanto o embate inflamava-se, Wilma sentou na porta do hotel com uma fisionomia desolada e quase era possível ler num balãozinho sobre sua cabeça: "de novo não...". Lula assistia a tudo achando um pouco exagerado e Paulinha dizia: "ai meu tio".



De modo geral, ninguém estava entendendo muito a questão. A paraíba perguntou discretamente a Lula quanto tinha sido a corrida no carro deles e, para sua surpresa, Lula respondeu: "o taxista não disse o valor, falou apenas que era o mesmo de vocês". Então, caiu a ficha: o paraíba tinha toda a razão. Os dois motoristas combinaram para arbitrar um valor conforme o nível estimado de patetice dos turistas e, pelo jeito, fomos considerados de alto nível.



Antes de entrarmos no carro, o motorista havia informado que o valor não passaria de "x".Quando chegamos no hotel, o taxímetro informava um valor 25% menor que "x", e o motora teve a cara de pau de cobrar 30% a mais que "x", ou seja, quase o dobro do registrado pelo taxímetro. Deixando os tais "xis" para lá, em português claro, estávamos sendo roubados. Assim, a paraíba e Lula também entraram na discussão em incondicional apoio ao paraíba. Aos poucos, os gaúchos perceberam que não seria tão fácil e recuaram, cobrando o valor correto.



Ficamos nos instalando no hotel enquanto, em Salvador, o restante da turma embarcava rumo a Porto Alegre, com Luíza, Nanda, Lulu e Cacá. Para as pequenas, o avião era uma grande novidade. Logo que a aeronave decolou, Cacá informou que precisava urinar e Lulu apressou-se em anunciar: "ih, o motorista vai ter que parar o avião para Cacá fazer xixi."



No desembarque, longe de casa mais de 3.000km, um rosto familiar era como um oásis, e Luíza logo acenou de longe, quando veio a pergunta:
_Vó, para quem a Sra. está dando tchau? - perguntou Nanda.
_ Não é o seu pai ali? - respondeu Luíza.



Não era, mas deixa para lá.




Capítulo II: Turismo em Porto Alegre



É claro que os paraíbas ainda não tinham reservado, alugado ou programado nada em relação a carro ou qualquer outro transporte para o deslocamento de Porto Alegre para Gramado, e, diante da dificuldade em conseguir qualquer coisa no domingo, a subida para a serra teve que ser adiada para o dia seguinte. Tudo bem, vamos explorar a capital gaúcha.



Saíram todos muito arrumados, entre lã, couro e materiais com efeito térmico, com pelo menos quatro camadas de roupa, cada um, prevendo uma nevasca de surpreender o Alaska. Lula, um incansável atleta de maratonas, lamentou ter que ficar de pernas para cima no hotel o dia todo, mas submeteu-se a tal sacrifício para acompanhar Nanda, sua filha, que não se sentia muito bem.



Mapa na mão, lá se foi o restante do grupo em direção ao centro da cidade. Na caminhada até o metrô, o paraíba, com um senso de direção apurado e uma rara habilidade em leitura de mapas, tomou a frente e, mesmo sob o protesto da paraíba, elegeu o caminho. Não demorou para perceberem a furada que haviam entrado. O passeio para pedestres logo acabou. Dividindo a rua com os carros, atravessaram túnel e entraram numa via expressa. Diante do perigo da empreitada, resolveram enfrentar o matagal, resquício da Mata Atlântica, que margeava a pista. Mas o que era uma mata selvagem, a lama nos sapatos e alguns carrapichos na roupa diante da vontade louca de curtir o passeio. Vendo tanta animação, o sol não quis ficar de fora, e nos presenteou com um calor inesperado. Com o suor escorrendo, aos poucos, como cebolas perdendo as camadas, fomos arrancando as roupas. Andamos, andamos, e nada. Não avistávamos qualquer sinal de estação de metrô, de passeio para pedestre ou mesmo de gente, a não ser as que passavam por nós a oitenta quilômetros por hora, dentro dos carros. Por mais estranho que possa parecer a cena, aquilo estava hilário, e continuamos até que Luíza, tomando a frente, declarou: "eu vou voltar!" Na mesma hora, todos a seguiram, mesmo sob o protesto do paraíba, que insistia em dizer que a estação estava logo ali na frente.


Enfim na estação, chegou o metrô que nos levaria até a parada do Mercado. No rítmo baiano, começamos a ingressar no vagão um a um, até que a porta se fechou, para nossa surpresa, deixando Nathália de fora. O paraíba não contou conversa, desceu na estação seguinte para ir resgatar a filha, enquanto a outra filha, Gabi, em prantos, chamava pela irmã, achando que nunca mais a encontraríamos. O restante seguiu até a estação do mercado, para aguardar lá. Se não fosse pela preocupação e tristeza de Gabi, a situação inusitada, novamente, inspirava o riso. Apesar de tudo, como bons brasileiros, tínhamos esperança de conseguirmos passear na cidade ainda naquele dia.



Reunidos novamente, andamos pelo centro, fomos à Praça da Alfândega, onde entramos no Museu de Artes do Rio Grande do Sul; visitamos a praça da Matriz, passamos pelo Theatro São Pedro, o Palácio Piratini, sede do Governo, a Assembléia Legislativa, e conhecemos a Catedral Metropolitana, com uma enorme cúpula; depois, almoçamos no Galpão Crioulo. Uma parte do grupo debandou e foi conhecer também o Estádio Beira Rio e o mirante da TV. Por fim, depois de muito andar e de 327 registros fotográficos de Bruno e suas performances, terminamos o dia na Usina Gasômetro, antiga termoelétrica da cidade, à beira do rio Guaíba.



Por hora, já estava de bom tamanho.






Capítulo III: A Odisséia de Subir a Serra




A segunda-feira prometia ser gloriosa. Acordamos empenhados em alugar os carros, arrumar tudo e se mandar. Luíza, cheia de aitude, não esperou ninguém. Ligou para algumas empresas, escolheu a sua e alugou um Palio preto, que rapidamente foi levado até o hotel. Lula e o paraíba decidiram-se por outra locadora e tiveram que atravessar a cidade de ônibus para ir buscar o carro. Enquanto isso, ficamos todos os demais aguardando no hotel.





Considerando o horário limite para o check-out, fechamos a conta e ficamos com a bagagem aguardando em um pequeno estar ao lado do hall do hotel. Gabi, Cacá e Lulu, que de santas não tem nada, estavam soltas, dando nó em pingo de éter. As três mexeram no computador destinado a utilização dos hóspedes e conseguiram desconfigurar absolutamente tudo. Como se não bastasse, Gabi achou no banheiro um frasco de lavanda com burrifador, para ser utilizado moderadamente dentro do próprio banheiro. Ela se encantou com o brinquedinho e borrifou lavanda em todo o hotel. Devo adimitir que ficou tudo muito cheiroso, mas a dona do hotel, que circulava por lá, pirou e saiu despejando desaforo em todos que estavam por perto. Pronto, nosso filme já estava queimado naquele hotel.


TEXTO EM ELABORAÇÃO


Depois de mais de três horas de espera, chegaram os dois. Lula com um Fiat Uno vermelho, e o paraíba com um branco. O grupo se dividiu em três carros. A turma jovem não abriu mão de ir com Luíza. As pequenas foram com Lula e os paraíbas saíram sós. Tudo arrumado, fomos em direção a Gramado. No caminho, os paraíbas na dúvida entre qual rumo seguir, estacionaram o carro atrás de uma viatura de polícia em Novo Hamburgo e desceram para perguntar. A recepção foi ótima e a conversa começou a ficar animada, com gesticulações exageradas e tal. Os outros dois carros só se aproximaram depois
Bateu o carro


Quando chegaram à Gramado, todos os contra-tempos foram compensados. A cidade é linda, realmente mais do que o esperado. Os três carros em comboio percorreram a cidade apreciando o estilo das edificações, a harmonia do urbanismo, a iluminação. Luiza, no carro com o grupo jovem, se encantava com todos os detalhes:


- Olha, que linda aquela casa! Oh, que graça aquele restaurante. Gente, que beleza é o paisagismo. Vejam as ruas, tudo tão limpo, iluminado.


Enquanto observava tudo, se afastava do centro seguindo o carro do Paraiba. Este, por sua vez, foi preciso. Com o google earth decorado, deu uma volta de apresentação na cidade e seguiu para o endereço da pousada.

Aguarde o restante do capítulo ...



terça-feira, 30 de junho de 2009

Mensagem Póstuma

Ele entrou na minha vida quase que por uma imposição. Nossos caminhos provavelmente espreitaram-se em muitas oportunidades, mas aguardaram o momento certo, mágico, para enfim, cruzarem-se.




Cheia de expectativas, iniciava uma nova página na minha vida profissional, em uma nova empresa, quando fomos apresentados. Confesso, não ouvi badalar de sinos, não senti calafrios e, posso supor, meus olhos não brilharam. Sua aparência não me atraiu e seu modo seco, impecavelmente profissional, que deu o tom de nossos primeiros contatos, não davam qualquer prenúncio da cumplicidade e afeto que alcançaríamos.



Aos poucos, como que tateando na penumbra, fomos relaxando. Eu, mais tímida e insegura no ambiente, limitava-me a assuntos de reuniões, troca de materiais técnicos e informações corriqueiras da empresa. Ele, querendo aproximação, arriscava temas sócio-políticos e piadas bizarras.



Assim, fomos nos chegando. Às vezes, com curiosidades e imagens de lugares longínquos e deslumbrantes ele me conduzia em viagens maravilhosas. Tinha também seus pontos fracos - todo mundo tem. Conseguia me tirar do sério com a insistência em me envolver em pirâmides e correntes e, pior, com a fixação em me evangelizar nos mais variados credos. Ainda assim, sua característica mais marcante era o humor. Amo quem me faz rir, quem com graça leva a vida e transforma infortúnios em momentos divertidos. Ele era assim, comigo e com todos. Extraía com perspicácia a comédia de nossa política, condição social e sexualidade.



Ah, por falar em sexualidade, nessa área nunca houve nenhum igual. Parecia não ter medo, não ter limites. Explorava, revelava, com sutileza e sensualidade, escorregando, por vezes, também na vulgaridade. Múltiplo, contraditório, diverso, polêmico. Esse era ele, assim éramos nós. Me perdi descobrindo todos os seus mecanismos e possibilidades.



Contudo, sua saúde era precária, sua estrutura genética desprivilegiada e seu sistema imunológico traiçoeiro. Como um ímã amaldiçoado atraía para si todos os vírus transeuntes. Já andava lento, disperso e, com freqüência, não estava acessível. Então, veio o golpe fatal. A liberdade de sua voz e seus pensamentos incomodou. A censura instalou o silêncio orquestrado pelo temor. Ele não resistiu.



Hoje, minha voz presa despede-se. Nossos amigos, em uníssono, choraram a limitação de nosso contato e agora choram a ruptura definitiva, com a imposição de sua substituição que culminou em sua morte sofrida. Descanse, sereno e convicto de que enquanto esteve entre nós foi um elo de integração e alegria.



Adeus, querido Lotus Notes, valoroso sistema amigo de intra e internet, nosso mensageiro remoto corporativo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A Revolução depois da Pílula


Outro dia estava em um setor da empresa que trabalho, onde também estavam mais nove colegas, todos arquitetos ou engenheiros. Analisava, concentradíssima, um projeto junto com um amigo, quando, de repente, ouvimos de uma colega:

"_Que bom seria se a gente, quando estivesse com muita vontade de fazer xixi e não pudesse se aliviar, tivesse a opção de entregar nossa "perseguida" para alguém fazer o favor de levar no banheiro."

Acho desnecessário dizer que nossa interlocutora é completamente tresloucada e autora de pérolas divertidíssimas, e que, por isso, ninguém se espantou. Contudo, a declaração teve um impacto instantâneo no ambiente. Imediatamente, os abnegados colegas da ala masculina prontificaram-se a ajudar conduzindo a "senhorita" ao toalete, mas não obtiveram sucesso. Diante da elucubração filosófica, não houve quem não quisesse participar e colaborar na tese inédita no meio acadêmico.

Para começar, vamos esclarecer: não se trata, propriamente, de uma mutilação. A ação seria mais elaborada e nada dolorida. Poderia ser, por exemplo, um simples processo mecânico de "desatarraxamento", algo como rosqueamento ou fixação por pressão. A princípio, imaginar aquilo me pareceu terrível, mas o pensamento é livre, o debate estava divertido e todos sentiam-se a vontade para opinar.

É claro que sempre tem gente para querer se aproveitar e o instrumento poderia ser usado para propósitos menos práticos e muito menos nobres. Por exemplo, aquela classe dos maridos descontroladamente ciumentos obrigaria violentamente suas mulheres a deixarem suas perseguidas sob a permanente guarda do cônjuge. Por outro lado, a mulher, vitimada e cansada de tanta opressão, poderia alugar uma perseguida alheia para deixar sob os cuidados do marido e fazer livre uso da sua, enquanto o parceiro imagina controlar a situação.
Já as mulheres, solidárias como são, usarão o recurso para colaborar umas com as outras. Uma amiga bem descolada poderia levar a perseguida de outra amiga, encalhada e entediada, para dar umas voltas e quebrar a rotina. Ou talvez uma senhora, casada, em dificuldades para explicar onde deixou a "sua menina", poderia contar com a ajuda de uma amiga de fé, que juraria de pé junto que a senhora deixou a mesma com ela para ser depilada.

O que não ficou muito claro e suscita uma cuidadosa pesquisa científica é de quem seriam as sensações proporcionadas pela "dita cuja". Seria da proprietária ou da portadora? Complicado. Se for sempre da proprietária, não importando onde a perseguida se encontre, poderia ser prático em alguns aspectos, mas, ocasionalmente, poderia também promover algumas "saias justas".

Vejamos: você está numa reunião formal de trabalho. Com o modelito impecável e uma retórica eloquente, causando a "maior boa impressão". Empolgada, você começa a utilizar toda aquela sua lista de palavras que ninguém sabe o que significa, mas que causam o grande impacto, quando, repentinamente, enquanto sua perseguida é utilizada indevidamente em algum canto da cidade, seus olhos começam a revirar. Muita calma nessa hora. Pode se desculpar alegando ter um alto grau de mediunidade e estar recebendo um "espírito de porco". Seja como for, o melhor é pedir licença e tratar de resgatar o que lhe pertence.

Por outro lado, se a sensação é da portadora, o que seria até muito justo pelo ônus de ter que carregar e cuidar, dificilmente atingiríamos aquela relação de parceria e cumplicidade que geralmente nutrimos com nossa "amiga íntima".

Como podemos ver, o assunto é realmente polêmico. Longe de querer encerrar o debate, escrevo aqui apenas algumas observações pessoais, mas frisando que é uma tese aberta, em fase de desenvolvimento. De qualquer maneira, deixo claro que, quando chegar na fase dos experimentos com cobaia humana, a vaga não me interessa.

sábado, 16 de maio de 2009

Memórias de viagens II: os paraíbas entre "los hermanos"



Sim, os paraíbas desta vez foram mais ousados. Passaporte na mão, atravessaram a fronteira, enfrentaram o desafio do idioma e foram dar uma banda nos parceiros do Mercosul: Argentina e Chile. Ele se achando o chefe da excursão, ela se achando a intérprete do grupo.

Saída de Salvador com um pit stop no Rio de Janeiro, rumo à Buenos Aires. Era para ser uma breve parada na Cidade Maravilhosa, tipo desce, apresenta a documentação, despacha alguma coisa e vai embora, mas eles conseguiram o improvável: perderam o avião. Ele diz que foi ela. Ela diz que foi ele. Não interessa, ficaram os dois. Tudo bem, quatro horas depois eles embarcaram.
Como bons paraíbas do Norte e Nordeste, o frio era um desafio. No Brasil conseguiram descolar uns casacos emprestados. Ela, se deu bem, chegou desfilando um esportivo Paco Rabanne de couro marrom. Ele, desceu do avião parecendo um esquimó crescido além da conta. Era um bonito casaco, mas talvez fosse mais adequado para "A Era do Gelo I", quando o gelo ainda não tinha começado a derreter. Vamos trocar dinheiro.

No primeiro câmbio encontrado: - quanto é? - A moça é simpática, mas fala um pouco enrolado. Pero que sí, pero que no!!?! Saíram com os pesos na mão. Quanto foi mesmo? O quê? Fomos roubados! Vamos logo para Bariloche!
Que graça é Bariloche, a porta de entrada da Patagônia argentina. A cadeia de montanhas cobertas de neve, o centro cívico, a catedral, o lago Nahuel Huape, as tonalidades do céu ao entardecer. Mal podiam esperar para esquiar! O quê? Não tem neve? Esqui só daqui a dois meses? Mas como ninguém falou nada? Tudo bem, eram inúmeras opções de passeios mais ou menos radicais nas proximidades da cidade. Foram conhecer as cavernas "Los Leones", há 30km de Bariloche, com direito, segundo as propagandas, a vistas maravilhosas, pinturas rupestres, trechos de difícil acesso, lago no interior da gruta e breu total. Vistas maravilhosas sim, mas a caverna era curtinha, o lago pequenininho, o breu era olhando só para um dos lados da caverna e a pintura rupestre, tinha que usar muito a imaginação. Quanto ao trecho de difícil acesso, se você tem mais de 95 anos, é melhor não ir. De modo geral valeu, mas para quem anda pela Chapada Diamantina, o passeio parece um pouco aquém das expectativas.

Depois de andar o dia todo, o chuveiro quentinho do hotel era uma tentação. Também tinha uma água bem quentinha no bidê, diria atéuma "água escaldante", e ele descobriu isso da pior maneira possível.

A montanha "Tronador", aparentemente a mais alta da região, ainda tinha neve. Então, vamos conhecer. Passeio contratado, saíram com máquina fotográfica em punho, sonhando com a guerra de bola de neve. Os argentinos sabem mesmo valorizar suas atrações turísticas. Um galho atravessado na estrada transforma-se em um "fragmento vegetal centenário testemunho de civilizações pré-colombianas digno de parada para registros fotográficos". Os paraíbas embarcaram nessa. Fotografa isso, fotografa aquilo, e a bateria da câmera acabou antes da metade do passeio. Não tem problema, o importante era viver o momento. Várias paradas depois chegaram ao pé da montanha, realmente linda, mas, como é? Não pode subir? Não pode por quê? Adiada a batalha de neve.

E o idioma, uma delícia. Entende-se tudo. Pararam para fazer algumas ligações internacionais, comprar jornal e etc. Depois de muito blá, blá, blá no telefone, o senhor que os atendia entregou a conta comentando:

- ¿Muchas novias, heim?
Tradução: "Muitas namoradas, heim?"
Ele não ouviu, não entendeu e deixou para lá. Ela, muito entendida de espanhol, largou a pedrada: - Si, muchas novidades.
O senhor continuou: - ¿Es muy celosa?
Tradução: És muito ciumenta?
Ela, sem entender muito bem o porquê da pergunta e completamente desnorteada, responde: - Si, muy celosa.
Tradução do que ela entendeu e pensava estar falando: “Sim, muito cheirosa”. Por hoje está bom, pega o jornal e adios!
Não dá para visitar a região sem pensar em saborear os vinhos, mesmo para os que não são exímios apreciadores, como os paraíbas. Acompanhado de parrilla, fondue ou truta, sempre ia bem. Mas foi num pequeno barzinho underground, intitulado Che (do Guevara, só para esclarecer), ainda em Bariloche, em parceria com uma pizza bem mais ou menos, que rolou o momento mais descontraído e prazeroso do vinho, talvez o mais agradável momento a dois da viagem.

Sem rumo certo, foram parar em San Martin. Pura sorte. Trata-se de uma pequena cidade linda encravada num vale no fim dos "Sete Lagos", com gabarito de no máximo três pavimentos e arquitetura dos Alpes. Optaram por uma exploração by bike. O "tur" rendeu bons momentos, lindas vistas, lindas fotos e, para ele, dores na região dos "países baixos". De San Martin, agora, para o Chile. Destino: Pucon. Foi de lá que saíram para a expedição no vulcão Vila Rica.
Neste dia tudo estava perfeito. Os paraíbas estavam se falando, o céu estava claro, sem previsão de chuva ou neve, e o frio não chegava a ser assustador. A subida não é só para profissionais, mais está longe de ser uma empreitada fácil, basta dizer que muita gente não se atreve a ir e outros tantos ficam pelo caminho. A cidade fica 800 metros acima do nível do mar, subiram mais 600 metros de carro, 400 metros de teleférico e 847 longos metros andando até o cume, de onde puderam ver a cratera do vulcão, com 600 metros de profundidade. No grupo haviam dois chilenos (os guias), uma australiana, um inglês, dois franceses, uma colombiana, um tcheco e os dois paraíbas, os autênticos representantes do Brasil. Também haviam pelo menos mais uns três pequenos grupos explorando o vulcão naquele mesmo dia. Entre português, espanhol, inglês, portunhol e outros dialetos improvisados, entenderam-se todos. Durante a caminhada, aos poucos, as pessoas iam se distanciando, ficando algumas para trás, voltando a se reunir novamente a cada parada. Cada trecho vencido era uma vitória da vontade de estar lá, de chegar, de vivenciar tudo aquilo. De cima, sacudidos intensamente pelo vento, entre a fumaça e um forte odor de enxofre, víamos a cratera, e ao redor do monte, um imenso deserto de nuvens. Foi, sem dúvida, um desafio recompensador e o momento mais emocionante da viagem.
No Chile, ainda foram conhecer Santiago, depois voltaram para a Argentina, passaram por Mendonza e finalizaram a viagem em Buenos Aires, apreciando um elaborado espetáculo de tango. Tirando o que não prestou, foi tudo ótimo. De qualquer maneira, viajar é mesmo sempre bom. Só para registrar: na volta, chegaram no horário e não perderam o vôo.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Por que não eu?




Era só mais um dia corrido de semana. Nossa heroína almoçou apressadamente e saiu para pegar o ônibus de volta para o trabalho. Naquele dia, por ironia do destino, ela havia saído com um discretíssimo modelito "vestida para matar". Toda de preto, com calça comprida e uma camisa de fino cetim de seda, mangas três-quartos e um laçarote no pescoço que chegava a esconder o queixo, contrariando um pouco as leis naturais do verão baiano. Antes de continuarmos nossa aventura, faremos uma breve pausa para uma nota. A fim de proteger a identidade da intrépida protagonista, adotaremos para ela o singelo pseudônimo de "Nice Maria".

Logo chegou o ônibus e ela entrou naquele veículo sem imaginar que embarcava numa viagem incerta, mistura de "Velocidade Máxima" e "Expresso do Oriente". Sentou próximo da frente e ficou apreciando a paisagem. Não demorou e entraram dois ladrões, que doravante chamaremos por meliante nº1 e meliante nº2, para não criar afinidade.

Armados até os dentes com duas facas de cozinha cegas e enferrujadíssimas, de aproximadamente 10cm cada uma, o meliante nº1 foi para frente, enquanto o outro procurava uma vítima na parte de trás da condução. De repente, Nice Maria é surpreendida, a passageira na sua frente é duramente ameaçada.

Meliante nº1: - Minha senhora, fique calma, mas isto é um assalto. Por gentileza, a Sra. poderia me entregar todos os seus pertences ou terei que ser indelicado.

Nice Maria arregalou os olhos. Aquilo estava realmente acontecendo com ela. Finalmente ela faria parte daqueles números estatísticos sobre a violência urbana. O evento, se bem conduzido, renderia histórias para rodas de amigas e ganharia um destaque especial no seu livro de memórias. Ela esticou-se na cadeira, arrumou os cabelos e esperou ser notada. Mas não foi o que aconteceu. O meliante nº1 continuava empenhado em convencer a passageira abordada a entregar qualquer coisa que fosse. Nice Maria já estava perdendo a paciência com a mulher, pensando com seus botões: "ô minha filha, libera o rapaz aí que eu estou na fila". Diante do impasse, ela falou:

- Ô moço...

Antes que ela concluísse, o meliante nº1 respondeu:

- Por favor senhorita, eu estou no meio de uma discussão, tenha um pouco de paciência!

Paciência? Aguardo uma chance como esta há 34 anos e ele me pede paciência, pensou ela. Numa atitude intempestiva, ela jogou a bolsa no chão, tentando fazer com que parecesse um acidente. O marginal não tomou conhecimento. Ela, indignada, levantou-se e foi tentar a sorte com o outro assaltante.

O meliante nº2 teve mais sucesso que o nº1. Abordou um fortão sentado no fundo do ônibus:

- Por obséquio, o Sr. poderia me passar a sua carteira?

O rapaz hesitou, mas diante da violência da intimação, não resistiu e entregou. O assaltante então foi em direção à outra moça. Nesta hora chegou Nice Maria, se posicionou próximo ao mesmo e esperou um contato. Joga cabelo pra lá, joga cabelo pra cá, e nada. Desesperada, pensava: "eu, linda, loura, com estonteantes olhos azuis, estou invisível por acaso?"

A essa altura do campeonato a classe estava indo embora e a Xêpa já queria baixar. Parecia que só um barraco bem armado resolveria a questão. Mas acabou tendo uma idéia melhor. Exímia dançarina de pagode, tecnobrega e axé, com especialização em "É o Tchan", foi para o centro do corredor e começou um solo que mataria de inveja Carla Perez. Os meliantes se olharam com cumplicidade e apressadamente bateram em retirada. Enquanto os dois saíam, Nice Maria, muito nervosa, esbravejava em alta voz:

- Eu sou funcionária pública concursada, servidora do Estado, eu tenho dinheiro porque não é nem meio do mês ainda. Qual é o problema de vocês, heim?

Os outros passageiros tentavam, inutilmente, acalmá-la.

À noite, no recesso do lar, gozando o descanso merecido, os meliantes nº1 e nº2 conversavam:

- É companheiro, nossa atividade laborativa não está fácil, a cada dia fica mais perigoso esse ofício.

- Então irmão, você viu aquela louca de hoje? Um transporte público que se considere "de qualidade" deveria exigir atestado de sanidade mental dos usuários. A mulher frustrou nossa ação, pôs em risco a nossa integridade física e a de todos os passageiros.

- É, ando pensando em investir em outra carreira. Na política, talvez, para não fugir muito desse ramo.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Em tempos de transição lingüística




Recentemente li um artigo de Miguel Sanches, na edição especial da revista Nova Escola, sobre a nova ortografia da língua portuguesa, o qual me fez atentar para algumas questões. Fui à banca de revista para comprar apenas um jornal e lá estava ela, a tal revista, acenando para mim como se não pudesse mais viver – ou escrever – sem suas preciosas orientações. Tudo bem, o assunto tratado merece mesmo atenção.

A mudança proposta é o resultado de um acordo para unificar a ortografia oficial dos países de língua portuguesa, a fim de aproximar as nações que falam e escrevem o português (Brasil, Portugal, Angola, Timor-Leste, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Moçambique) e fortalecer mundialmente o idioma. No Brasil, a mudança está em vias de ser confirmada por um decreto do Presidente, para entrar em vigor em 2009. A partir daí, todos os textos oficiais deverão seguir a nova gramática. Nas demais manifestações escritas, as duas regras conviverão pacificamente até o fim do ano de 2011, quando então a tolerância – ao menos acadêmica e oficial – será zero.

No artigo de Sanches, ao qual me referi no início, ele vislumbra que os cuidadosos escritores de hoje, que se esmeram em tantos acentos, hífens e tremas, serão rotulados como “os do tempo da trema”. E olha nós aí, no meio desse bolo.

Curso atualmente uma especialização na área de arquitetura e engenharia civil, na qual, na fase de conclusão, terei que produzir um artigo técnico de aproximadamente vinte páginas. Escrever não me assusta, até gosto. O que me deixa, no mínimo, insegura, é escrever em tempos de transição lingüística, mais precisamente no início de 2009, o primeiro semestre dos três anos do processo de mudança.

Fiquei matutando, se escrever conforme as novas regras, qualquer coisa entre 80% e 90% dos leitores iniciais pensarão: “a toupeira que escreveu isso não se deu o trabalho sequer de acionar o corretor ortográfico do Word”. Se escrever como hoje fazemos, meu querido artigo, daqui a três anos, será visto como uma coisa “do tempo que se escrevia 'jiboia' com acento” (porque não será mais assim). Não quero parecer nem mais burra, nem mais velha, do que realmente sou.

Seja como for, a coisa não é muito simples. Podemos nos preparar para alguns anos de dúvidas e muitas consultas aos manuais práticos, de preferência, de bolso. Para ter uma “idéia” (que perde o acento) a “saída” (que continua com acento) será “agüentar” (que perde a trema) algumas investidas na gramática para lembrar dos ditongos, hiatos e outros companheiros. Se o português, não o da padaria da esquina, mas sim, o idioma, já é confuso por sua enorme riqueza e algumas incoerências, então, o que esperar do futuro? O jeito (que é com “j”, e continua assim, apesar de ter som de “g”) é relaxar (que é com “x”, mas bem que poderia ser com “ch”) e, talvez (com “z”, mas por que não com “s”?) usar (com “s”, mas com o som descaradamente de “z”) a transição lingüística (que perde a trema) como desculpa para nossos deslises (que, pelo amor de Deus, é com “z”).

sexta-feira, 7 de março de 2008

Longe de ser uma crônica esportiva




Se tivesse como ofício ser cronista esportiva, teria sérias dificuldades para garantir o leite do meu filho. Acho que uma das qualidades da crônica de esporte é a de ser praticamente instantânea. O jogo ou a competição rolou a noite, no outro dia pela manhã lá está ela, estampando as percepções do cronista nas páginas do jornal. Quando tem o prazo mais estendido é, no máximo, semanal. Esta crônica é um pouco diferente, também foi motivada por um evento esportivo, mas que rolou em novembro de 2007. Trata-se do jogo de futebol Bahia x Vila Nova, que encerrou a participação do Esporte Clube Bahia no campeonato brasileiro de futebol da série C, resultando na ascensão do time para a série B. Comecei a escrever algumas linhas logo depois do evento, mas tempo passou e os pensamentos ficaram esquecidos na gaveta, pelo menos até agora.

Antes de qualquer coisa, vamos esclarecer: não sou Bahia desde criancinha. Meu primeiro time foi o Fluminense do Rio, paixão que herdei de meu pai. Já tive camisa, bóton e saía pelas ruas de Belém com bandeira em punho para comemorar as conquistas do clube. Contudo, crescendo no Pará, quando comecei a me entender como gente, achei que tinha que ter um time na terrinha. Novamente fui influenciada por papai, e não foi para puxar o saco, somente achava que ele era o maior conhecedor de futebol que existia e, se eram suas escolhas, era porque deveriam ser os melhores. Assim, optei pelo Paysandu, o conhecido Papão da Curuzu. O envolvimento com o Papão cresceu e acabei esquecendo um pouco o primeiro amor - o Fluminense. Estava no campo do Mangueirão com amigos quando o Paysandu, vencendo o Guarani por 2x0, foi campeão da Taça de Prata em 1991, subindo para a primeira divisão. O estádio estava lindo todo coberto de branco e azul calçola.
Quando me mudei para Salvador, me envolvi ainda mais com meu clube paraense. Acompanhava apaixonadamente os campeonatos e "batia boca" com os baianos sobre jogos e resultados. Comemorei a nova conquista do Papão na série B e a subida para a primeira divisão em 2001, a conquista da Copa dos Campeões em 2002 , a participação na Libertadores das Américas de 2003 e sua histórica vitória sobre o Boca Juniors dentro de La Bombonera por 1x0. Este episódio merece um breve comentário pela raça e bravura do feito.

Sou Paysandu, sou loura, mas não sou burra. Sei que meu time, apesar das conquistas relevantes em âmbito regional, não tem grande expressão nacional, e muito menos internacional. Por outro lado, o Boca, ainda mais na Bombonera, é uma lenda. O mito da "panela de pressão" faz tremer qualquer adversário e, justiça seja feita, poucos são os desafiantes que lá se saem bem. Com o Papão foi um pouco diferente. O estádio fervia e logo no primeiro tempo, no calor dos acontecimentos, perdemos Robson com um cartão vermelho, nosso artilheiro conhecido como "Robgol". Para completar, no segundo tempo tivemos que engolir outro cartão vermelho, desta vez para o volante encrenqueiro Vânderson, que, como disse uma crônica da época, era "o mais argentino dos jogadores do time". Resumindo: o prognóstico era sombrio. Mas os paraenses, com muito açaí nas veias, não se entregam facilmente, e com nove jogadores em campo foram atrás do resultado. Foi dos pés de Iarley que saiu o gol que nos deu a vitória e levou à loucura os torcedores do Paysandu e do Boca que lá estavam, claro, por motivos diferentes. Naquela noite o Pará desceu quadrado goela abaixo de nostros hermanos porteños. No ano seguinte o Boca, reconhecendo o talento de nosso atleta, contratou Iarley para jogar na Argentina.
Mas os dias de glória ficaram distantes e fazia tempo que o Paysandu não me dava nem um motivozinho de alegria. Neste meio tempo comecei a namorar com um "baheea", ou melhor, um baiano torcedor do Bahia, e como coisa boa é namorar, iniciei também uma paquera com o time tricolor que, vamos reconhecer, tem lá seus encantos. O quê melhor que a Fonte Nova tremendo para seduzir uma pretendente à Bahia. Foi a tática utilizada pelo meu consorte para me envolver. Fomos, em plena quarta-feira, assistir Bahia x Nacional da Paraíba pelo octogonal final da série C, na Fonte Nova. O time disputava a vaga para a série B e vinha de alguns resultados não muito favoráveis. Pé-quente que sou, não perco viagem, nas poucas vezes que fui ao campo saí com resultado favorável. Desta vez não foi diferente, o Bahia ganhou por 3x0, com superioridade indiscutível. Tudo bem que o adversário não era lá essas coisas, a metade do time era roda-presa e a outra metade era deficiente visual. Não importa, o Bahia brilhou e ficou muito bem na foto. No campo devia ter em torno de quarenta e cinco mil pessoas, e foi suficiente para colorir e balançar a arquibancada. Como profissional da construção civil, não pude deixar de observar o estádio. Mesmo velho e mal conservado, o templo do futebol baiano cumpre sua função como arena. Quase lotado, me remeteu aos filmes épicos que revivem os gladiadores ou os jogos da antiguidade clássica, mas, que pena, sem um protagonista como Russell Crowe. De qualquer forma, o ambiente era realmente envolvente. Ponto para o Bahia.

Quatro rodadas depois, com o Bahia capengando no sobe-não-sobe para a segundona, lá vamos nós novamente para o campo assistir o duelo contra o Vila Nova de Goiás, no penúltimo jogo do campeonato. Se ganhasse, não dependeria de ninguém para subir e, claro, faria explodir a Fonte Nova. Se empatasse, estaria quase dentro, mas ainda dependendo de outros resultados. Se perdesse, aí meu filho, “só Jesus salva!”

Aos 44 minutos do primeiro tempo, Elias entra na grande área determinado a deixar seu nome registrado naquela tarde de domingo, mais o goleirão do Vila não deixa por menos e manda o afoito jogador para o chão.
_ É pênalti! É pênalti seu juiz, não "tá" vendo não?
E o árbitro confirmou. Convoca-se, então, o matador do time para a cobrança. Apresenta-se Nonato, com sua atlética silhueta de barril, para carimbar o passaporte do tricolor. O estádio mudo, todo de pé, esperava a hora de gritar com o peito aberto: goool!!!! Lá vai ele, com uma convicção de dar sono e então... filho da “P”, o cara perdeu o pênalti. Como ele conseguiu essa proeza? Não sei! Só sei que foi assim, e fim do primeiro tempo.

O segundo tempo foi àquela maravilha. O jogo estava tão interessante que não conseguia desviar minha atenção do gordinho sentado dois degraus abaixo na arquibancada. Acho que ele não sabia quem estava jogando, ou sequer que modalidade esportiva estava sendo celebrada. Seus olhos, cabeça, tronco e membros percorriam ansiosamente todo o estádio procurando qual seria a próxima guloseima que iria mastigar. Churrasquinho, pipoca, amendoim, sorvete, balinha e por aí vai. Era um filme engraçado de assistir. O fulano não parou de comer o jogo inteiro e consumiu tudo que podia ser comprado no local.

Fim de jogo: 0 x 0. Com os outros resultados do dia, o Bahia pôde comemorar: estava na segundona. Dá-lhe “Baheeeea”! O campo foi invadido e completamente tomado pelos torcedores. Mas não posso deixar de registrar o acontecimento triste da tarde. Ainda no segundo tempo, sem que a grande maioria dos presentes no local percebesse, parte da arquibancada do anel superior desabou de uma altura aproximada de 15 metros, matando sete pessoas. Sete torcedores que, como nós, saíram de casa para assistir um jogo e se divertir. Lamentamos! Alguns dias depois o Governador deu uma entrevista anunciando que iria demolir a Fonte Nova.

Morando em Salvador, desejei por muito tempo conhecer o famoso reduto do Bahia. Demorou bastante, mas a chance enfim chegou, e por uma grande ironia do destino, presenciei naquela triste tarde o último jogo do histórico estádio da Fonte Nova.