segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mas quem é ruivo na família?


Pois então, sou loura, meu ex-marido moreno claro e meu filho nasceu ruivo, ruivinho mesmo, com lindos cabelinhos cacheados cor de cenoura, que permanecem até hoje, aos seis aninhos. É uma coisa linda de ver, mas bastante difícil de explicar. Toda vez que ele é apresentado a alguém a conversa rola mais ou menos assim:

- Mas que lindo ele é! Você era ruiva?

- Não!

- O pai é ruivo?

- Não!

- E quem é ruivo na família?

- Ninguém!

Diante do impasse, para quebrar o clima das inúmeras interrogações que ficam pairando no ar, eu geralmente completo:

- Mas nós tínhamos um vizinho ruivo que era um espetáculo!

Todo mundo ri e fica mais a vontade, mas permanece aquela idéia fixa sobre mim: "puladora de cerca".

A história também me intrigava, mas não tinha nenhuma possibilidade de troca na maternidade, pois eu tinha visto ele sair de mim já ruivo depois de um demorado parto natural. Da mesma forma, não havia qualquer dúvida sobre a paternidade. Numa hora dessas somente a intervenção divina para explicar ou, quem sabe, alguma pegadinha da genética. Diante da dificuldade de comprovar intervenções divinas fui pesquisar a ciência dos genes.

Segundo consta, o fenômeno conhecido como "rutilismo" é provavelmente o resultado de uma mutação genética encontrada no décimo sexto cromossomo, o MC1R. Para que uma criança nasça ruiva é necessário que ambos os pais tenham a versão mutante do gene, e mesmo assim não existe nenhuma garantia que aconteça, visto que o gene é recessivo. Tente lembrar daquela aula de biologia do segundo grau, com os tais “azinho” e “azão”, heterozigotos e homozigotos, que metade faltou e a outra metade não prestou atenção. Falando de uma forma mais romantizada, o gene ruivinho não é muito eloqüente ao defender sua vez na fila, e só consegue se impor junto com seus pares. Ele pode ficar lá, escondidinho no organismo de indivíduos morenos ou loiros por várias gerações, esperando resignado a sua vez. Talvez por isso quando conseguem uma chance de surgir para o mundo são verdadeiras pimentas. Estão simplesmente tirando o atraso de gerações no silêncio e reclusão. Agora as coisas começavam a fazer sentido e reforçavam inclusive o depoimento de minha avó. Segundo ela, uma senhora de lindos olhos azuis piscina e cabelos que já foram castanhos claros, seu irmão e toda a sua descendência eram verdadeiramente ruivos ferrugem. E eu que sempre acreditei que ela havia carinhosamente inventado essa historinha para quebrar meu galho.

Somente isso já me dava condição de respirar mais aliviada. Apesar de ser uma conversa comprida e um pouco técnica demais para abordar todas as vezes que precisasse apresentar meu filho, pelo menos podia dizer que havia uma explicação plausível. Mas já que estava com a mão na massa, envolvida com minha pesquisa, não parei, e resolvi conhecer um pouco mais sobre o mundo e as especificidades dessas criaturas avermelhadas.

Descobri, por exemplo, que podemos descender em grande parte de ruivos, pois o tal MC1R, o gene que ao sofrer mutação produz cabelos vermelhos, foi encontrado numa análise de fósseis do homem de Neandertal, mas achei que a informação não acrescentou muito na minha cultura rubra. Gostei mais de saber que apenas 4% da população mundial é ruiva, com maior incidência na Escócia, onde um a cada 10 habitantes é ruivo. Eu bem que procurei, mas não encontrei nenhum estudo que indique o percentual dessas criaturas no Brasil e, especificamente, na Bahia, mas a julgar pelo entusiasmo que causam, acredito ser um percentual baixíssimo.

Por algumas ocasiões nesta década foi divulgada pela internet a provável extinção dos ruivos, talvez para aquecer o mercado de tintura para cabelos, com previsão para não haver mais nenhunzinho em 2060. Que absurdo, eu mesma sou a primeira a contestar, pois neste ano meu ruivinho estará com apenas 57 anos, na flor da idade e, mesmo que seus pêlos já estejam precocemente brancos sem possibilidade de identificação de rutilismo, ele, se Deus quiser, ainda estará aí com toda a disposição para perpetuar a espécie. Na verdade, o que acontece é que o gene, por ser recessivo, pode se tornar raro, mas não se extinguir, a menos que os ruivos ou portadores desta herança genética, desiludidos da vida, parem definitivamente de se reproduzirem. De qualquer forma a notícia, sem qualquer evidência científica sólida, não se sustentou.

No Brasil, um grupo de atores ruivos, com o bom humor que nos é característico, aproveitou a deixa e reivindicou, entre outras coisas, o direito a meia-entrada em dermatologistas, a isenção de imposto de renda para quem tem mais de 283 sardas no rosto e o firme compromisso do governo de aumentar a taxa de natalidade de crianças ruivas no país. Muito justo.

Mas voltando ao assunto da pimenta, busquei na pesquisa alguma explicação para a comum relação entre os pequenos ruivos e o temperamento hiper agitado, que quase sempre leva à carinhosa denominação de “pestinhas”. Nesta empreitada eu largava com uma ligeira vantagem, pois se fosse necessário um estudo de caso poderia lançar mão de meu exemplar caseiro e meus seis anos de observação muito próxima. Olhei, fucei, confrontei e nada. Não há qualquer fundamentação científica que ajude no desenvolvimento da hipótese. Poderia até afirmar que fiquei ligeiramente inclinada a dizer que tudo não passa de um mito criado pelo cinema, se minha experiência pessoal não gritasse justamente o contrário. Além de tudo, se não bastasse o talento natural para pegar fogo, o comportamento ainda é inflamado pelo famigerado apelido “cabelo de fogo”. Meu filhote mesmo adora o codinome, se sente o próprio e incorpora o personagem com absoluta desenvoltura.

Contudo, de todas as curiosidades que encontrei o que mais me interessou e que realmente pode ter um rebatimento prático importante é que os ruivos têm mais resistência a sedativos, precisando, em média, de vinte por cento a mais da dose de anestesia. Uma explicação é que a mesma mutação que interfere na pigmentação também poderia estimular a produção de um hormônio relacionado à dor. A outra possibilidade é um pouco mais complicada. De acordo com esta, pelo funcionamento incorreto do gene a melanina não tem um ponto de recepção ao qual se combinar, levando os pigmentos a procurarem outros receptores assemelhados para conectarem-se, como receptores de sinais de dor no cérebro. A conexão falha entre os pigmentos e os receptores de dor pode ser responsável pelo estímulo excessivo às respostas cerebrais à dor, levando a maior necessidade de anestesia. Olha só, uma característica física aparentemente tão despretensiosa influenciando numa questão realmente relevante no funcionamento do organismo. De qualquer forma, antes de sairmos super dopando os vermelhinhos, vale a pena discutir com os médicos para sabermos como isso é tratado pra valer.

Devo dizer que minhas horas de pesquisa foram bastante proveitosas. Agora sei que não posso divulgar que tenho em casa uma linda criatura em extinção, mas ainda posso afirmar tratar-se de um espécime raro, que também é muito chique. Além disso, conheci mais sobre as curiosidades do biótipo de meu pequeno, adquiri informações importantes sobre sua constituição genética e, melhor de tudo, me libertei definitivamente do rótulo de “puladora de cerca”. Hoje, quando ouço aquela maliciosa perguntinha “mas quem é ruivo na família?”, respondo tranquilamente sem me apertar:

- Veja bem, eu posso explicar!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Crônicas de viagem IV: Cidade Maravilhosa, em família



















Cristo redentor,
Braços abertos sobre a Guanabara...

Dentro do avião, sobrevoando o Rio de Janeiro, é inevitável cantarolar mentalmente a canção de Tom Jobin e Vinícius, sabiamente chamada de "Samba do Avião". Não sou carioca, nunca morei lá e minha ascendência não tem nem um pezinho no Rio, mas sou brasileira e não obstante o distanciamento genealógico e geográfico, a metrópole muito me emociona. Já havia passeado pela cidade outras quatro vezes, mas desde a última visita, lá se vão dezenove anos, e esta ida tinha algumas peculiaridades muito especiais. Levei meu pequeno, Cauê, com seis anos, e a viagem, com a desculpa de comemorar o aniversário de Karina, uma de minhas queridas cunhadinhas, reuniu toda a família mais próxima: papai, mamãe, meus três irmãos - Ricardo, Renato e Eduardo, minhas cunhadas - Lígia e a aniversariante, e minhas cinco sobrinhas - Taíssa (16 anos), Amanda (quase 15), Camila (11), Luiza (11) e Duda (4).

A programação era alugar três carros no aeroporto e ir direto para Búzios, onde ficaríamos quatro dias. E assim foi. Saímos no começo da tarde guiados por Ricardo, que além de ser naturalmente muito bem orientado, carregava com ele nosso único GPS. Esses aparelhinhos são ótimos, mas um tanto sistemáticos. Se não for tudo exatamente como eles querem a conversa desanda. Enquanto os satélites chegavam a alguma conclusão sobre a direção a tomar, Ricardo consultou um GPS alternativo na estrada. A morena, do alto de seu um metro e oitenta, indicou o rumo certo e tudo voltou ao eixo. Na rota da região dos lagos chegamos à Búzios sem maiores contratempos. Já havia passado um carnaval no balneário e ao retornar tive novamente a mesma impressão: ô lugarzinho abençoado!

Nos acomodamos na pousada ainda encantados com a paisagem, a cidade, as edificações, tudo um charme. Cauê estava excitado com a movimentação da hospedagem e queria ver tudo ao mesmo tempo, a cem kilômetros por hora, sua velocidade habitual. Ainda com a memória de um ano atrás, quando hospedou-se numa pousada na praia de Jururê, próximo à Florianópolis, num quarto coladinho ao do tio Ricardo, saiu de nossos aposentos gritando tio Ricardo, tio Ricardo, e já foi abrindo a porta e entrando no apartamento junto ao nosso, sem me dar tempo de avisar que não era lá. No mesmo pé que entrou, saiu, mudo e branco como uma vela. Pegou o vizinho gringo de cueca.

Antes de sairmos para o jantar, que ainda era o almoço, recebemos a visita de Willian, Paula e Felipe, amigos de Eduardo e Lígia, com quem aproveitamos o drink de boas vindas oferecido pela pousada apreciando a vista dos barquinhos coloridos ancorados na praia da Armação. O festivo barman, muito conversador e enturmado, contou vários casos e comentou comigo:

- As crianças são animadas, mas aquele ruivinho é “parada dura”.

Resignada, respondi: - O ruivinho é meu.

O primeiro passeio foi pela Orla Bardot, que percorre toda a praia da Armação. O nome é uma homenagem à atriz francesa Brigitte Bardot, que esteve em Búzios na década de sessenta. E passeando pela orla, quem encontramos? A própria: Brigitte. É verdade, ela estava um pouco indiferente, dura, fria. Nem ligamos, enquanto ela ficava lá, toda estátua apreciando a vista, nos aproveitamos de sua presença e tiramos muitas fotos. Mas com Duda a conversa foi diferente. Rolou empatia instantânea e a pequena pegou no maior papo com aquele duro metal. Contou sobre nossa viagem, perguntou sobre ela e a convidou para ir conosco. Diante do absoluto silêncio de sua interlocutora a baixinha foi embora, mas não esqueceu. De vez em quando perguntava pela Brigitte, se preocupava com ela sozinha na chuva e em todos os passeios lembrava: - e se a gente convidar a Brigitte?

No dia seguinte, aproveitando o movimento do fim de semana fomos para a praia de Geribá e o anunciado passeio de barco ficou para a segunda-feira. Como combinado, na segunda nos mandamos para o píer e ficamos esperando Renato, que foi comprar o recarregador da bateria da máquina fotográfica. O recarregador ele não conseguiu, mas conseguiu deixar a gente esperando bastante. Por fim, considerando o tempo que estava nublado e um pouco instável, o comandante do barco sugeriu que deixássemos o passeio para o dia seguinte. Sem problemas.

Se na segunda o tempo não era promissor para um lindo passeio de barco pelas ilhas e praias de Búzios, na terça-feira era, no mínimo, desaconselhável. O dia amanheceu frio, chovendo e ventando. Mas não saímos dos quatro cantos do país para chegar lá e nos assustarmos com qualquer chuvinha. Comandante, queremos ir! Renato, para não fugir a regra, nos deu uma canseira novamente esperando ele que, desta vez, foi numa farmácia. A mais distante que ele achou.

Contrariando todos os prognósticos, o passeio, que tinha tudo para ser um desastre, foi maravilhoso. No barco era só a família e cantamos, dançamos, almoçamos e brindamos o aniversário de Karina, com ou sem chuva. Mauro, o comandante, carioca da gema, ia nos falando sobre o balneário. A aldeia de Armação de Búzios remonta aos mil e setecentos, quando era uma colônia de pesca de Baleias através de um mecanismo que eles chamam de armação, daí o nome do local. Apesar de hoje soar como um absurdo ecológico a pesca de baleias, era um processo artesanal de pouco impacto, que foi instinto ainda no século XVIII, quando chegaram à costa do Rio de Janeiro os navios baleeiros norte-americanos que, estes sim, quase extinguiram a espécie no período. Praias dos Ossos, Azeda, João Fernandes, das Virgens, da Tartaruga, ilha Feia, entre outros, percorremos o litoral recortado da península, repletos de enseadas protegidas pelo relevo, parando em vários lugares. A exceção de Renato e Karina, todos, não obstante o frio e a água geladíssima, caíram no mar. Papai e mamãe, fazendo bonito, chegaram a nadar até a ilha Feia, que nem é tão feia assim. Durante boa parte do passeio o comando do timão foi de Cauê, que se saiu muito bem. Além disso, nos atualizava constantemente sobre a existência e a profundidade dos peixes próximos, que ele checava a cada minuto pelo radar. Num momento coruja, fiquei observando minhas sobrinhas, já tão grandes e lindas, cada uma a seu jeito. Taíssa é a contestadora, Amanda a general. Camila tem um charme todo maroto e Luiza é pura meiguice. Sobre Duda, poderia dizer que ela é loura, e isso bastaria para ela, mas na verdade é muito mais.

Na quarta-feira estava programada a volta ao Rio, para assistir à noite o Fluminense jogar contra o Vitória no Maracanã, pela sexta rodada do Brasileirão de 2010. Apesar da correria de três carros em comboio pelas vias expressas do Rio, foi tudo bem até a parada para o almoço, num restaurante no Aterro do Flamengo. O Renato, claro, nos deixou esperando novamente, desta vez uma hora, enquanto ele foi comprar o bendito recarregador da bateria. Quando saímos, já com o estado de nervos alterados, faltou combustível em um dos carros, especificamente o que eu guiava, e mal deu tempo de chegar para o acostamento. Resolvida esta etapa, fomos em direção ao hotel, com o horário começando a apertar para o jogo. Mas esse, definitivamente, não era o meu dia de sorte. Em uma das sinaleiras fiquei para trás. Aí começou: telefona para um, liga para outro, ninguém atende, os celulares descarregando, o único com carga perdido dentro do carro tocando insistentemente sem ser localizado, todos falando ao mesmo tempo, ninguém se entendendo e a tolerância atingindo o nível zero, completamente perdidos pela cidade. Quando nos encontramos novamente já estávamos perto do hotel. Mamãe que, toda desligada, já havia entrado em um quarto alheio na pousada de Búzios, novamente no hotel do Rio, procurando o banheiro do seu quarto, entrou no quarto do vizinho, que era conjugado e estava com a porta destrancada. Sorriso amarelo e muitas desculpas resolveram o imprevisto. Enquanto isso, no quarto que eu dividia com Cauê e Renato, estávamos encantados com a vista de frente para a baía da Guanabara. Cauê "futucando" todas as novidades que encontrava, me perguntou sobre uma caixinha que, a princípio, olhando por alto, também não identifiquei o que era. Daqui a pouco ele chegou com o mistério esclarecido:

- Olha mãe, é para proteger a lanterna, para não molhar.

Peguei a embalagem para ver. Era um preservativo com instruções de uso ilustradas na caixa. Sobre a linda vista, depois descobrimos que o quarto de frente para a baía tinha sido especialmente reservado por Ricardo para papai e mamãe, e, por equívoco, nos mandaram para lá. Melhor relaxar e aproveitar.

Saímos para o Maracanã uma hora antes do jogo e aprendemos uma dura lição: nunca subestime um engarrafamento numa grande cidade. O trânsito não estava parado, mas estava quase. No carro que fui ficou logo clara a divisão dos grupos. Papai e Eduardo eram os pessimistas, mamãe e Taíssa eram as neutras e, no fundo do carro, Lígia, Duda e eu, éramos as otimistas, animadíssimas. Os pessimistas iam praguejando: “já perdemos o primeiro tempo”, “vamos perder o jogo”, “os carros não andam”, “vai chover”, “é capaz de alagar as ruas”. As neutras iam rindo dos dois grupos. As otimistas iam cantando: “O Maraca é nosso! Há, há, hu, hu! O Maraca é nosso! Há, há, hu, hu!” Depois do gol do Fred no primeiro tempo, que ficamos sabendo pelo rádio, adaptamos a música. “O Fred é nosso! Há, há, hu, hu! O Fred é nosso! Há, há, hu, hu!” E não tinha nada mais engraçado que ver Duda, aquele projeto de gente falando toda animada: “- Amiiiiga, o Fred é lindo!!!!” Para matar de raiva seu pai, um flamenguista doente.

Chegamos ao Maracanã no intervalo do jogo, com o placar 1x0 para o Flu. Encontramos com o resto da turma e Willian, o amigo do Eduardo, e fomos correndo para a arquibancada. Na entrada, uma bela surpresa. Tocava no som do estádio o hino do Fluminense. Foi de arrepiar. Papai, Amanda, Camila, Luiza, Ricardo, Renato e eu subimos a rampa que dava acesso à arquibancada cantando a plenos pulmões. Só para registrar, os únicos que desandaram e não são fluminenses na família são os flamenguistas Eduardo, Ligia e Taíssa. Duda ainda está confusa.

Ao entrarmos na arena, que visão! O Maracanã é realmente tudo que sempre ouvi falar. Um templo apoteótico do esporte que mexe com as nossas emoções. Recomeça o jogo. Tudo que ficamos sabendo do primeiro tempo não se repetiu no segundo. O Flu, que havia começado o jogo com boa movimentação, toque de bola e ameaçador, voltou do intervalo com o pé no freio e não assustava ninguém. O resultado foi o crescimento do Vitória, que aos 39 minutos carimbou o gol: 1x1. Mas nosso otimismo não foi em vão e o sofrimento durou muito pouco. Três minutos depois, Alan não desperdiçou sua chance e marcou: 2x1 para o Flu, placar final. E enfim pudemos conferir o estádio sacudindo as bandeiras tricolores ao maravilhoso som de gooooooolllll!!! Foi a primeira vez que fui ao Maracanã, mas a mamãe, ao tirar por seus comentários, foi a primeira vez que ela ouviu falar em futebol. Toda interessada, perguntou:

- Almiro, quem é aquele homem de camisa amarela correndo no campo?

Um tempo depois, indignada, ela quis saber: - Por que o jogador do Flamengo não parava de segurar o jogador do Fluminense?

Mais na frente, assustada e preocupadíssima quando um jogador caiu: - Ai meu Deus, o quê vão fazer agora?

E nós ficamos a nos perguntar: - Quem se candidata a explicar o impedimento?

Uma regra de quase todas as viagens é desregular completamente a rotina de alimentação, e nessa excursão não foi diferente. Mudaram os horários, as quantidades ingeridas e, principalmente, a qualidade dos alimentos. Experimentamos muitos peixes, mariscos e saborosos temperos exóticos. Em um desses almoços, num restaurante muito conceituado do Leblon, papai escolhia com todo o cuidado seu prato, pois apesar de muito apreciar peixes e mariscos, tem uma séria alergia a camarão e afins. Depois de olhar e analisar cuidadosamente, encantou-se com um prato à base de “cavaquinha”. Em dúvida, perguntou:

- Elcy, cavaquinha é peixe ou marisco?

Mamãe: - Acho que é peixe e pelo jeito deve ser delicioso. Prova Almiro!

Animadíssimo, ele pediu o “peixe”, e como o casal tem um rol de conhecimentos bem mais amplo que os nosso, ninguém questionou. Foi só acabar de comer, na mesma hora ele começou a sentir algo incomodando. Tomou imediatamente um ante-alérgico oferecido por Karina. O remédio deve ter diminuído os efeitos da reação alérgica mas não a impediu completamente. Em poucas horas sua boca fazia inveja em Angelina Jolie e os olhos não deixavam nada a dever para Rocky Balboa na derradeira luta de cada um dos episódios de sua saga. A cavaquinha, que agora sabemos tratar-se de um crustáceo de alto potencial alergênico, rendeu uma noite de cama para o papai e alguns dias com os olhos ainda um pouco inchados.

Durante a estadia fomos ainda no Jardim Botânico, nas pedras do Arpoador, na Lapa, na feirinha de Ipanema, assistimos algumas peças e passeamos de bondinho até o morro da Urca e o Pão de Açúcar. Nesta empreitada, do alto do Pão de Açúcar, contemplando com Cauê a grande cidade recortada por morros, vegetação e mar, cheguei próximo ao seu ouvidinho e sussurrei:

- Olhe bem meu filho. Você ainda vai viajar muito na sua vida, mas acredito que não irá conhecer cidade mais linda no mundo.

A minha intenção não era sugestioná-lo, queria apenas que ele registrasse na memória aquele momento, que fotografasse mentalmente para comparar com tudo que ele ainda vai ver, e então tirar suas próprias conclusões. No futuro veremos se funcionou. Talvez para ele seja cedo ainda para formar qualquer conceito, mas para mim não. Ainda quero ver muita coisa e conhecer muitos lugares mágicos, mas por enquanto posso dizer que voltei do Rio com a impressão que tinha antes bastante reforçada: que Cidade Ma-ra-vi-lho-sa.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Um filme de terror




Sabe aqueles eventos que os preparativos bagunçam toda a sua vida? Pois então, eu estava diante de um: o casamento da minha querida prima. Um casamento à noite por si só já tem sua pompa e circunstância, mas, se não bastasse, eu ainda era madrinha e as comemorações eram em outro Estado.

Além do planejamento da viagem, havia mais uma série de questões a serem cuidadosamente tratadas. Para começar, que roupa usar? É claro que eu não tinha nada no armário para isso. E o cabelo, o quê fazer? Domar os cachos ou adestrá-los, eis a questão. Saindo do capítulo "cabelos", vêm o capítulo "acessórios": bijus, bolsa, sapato. Acessórios na vida de uma mulher “é tudo” e haviam muitas considerações e simulações a serem feitas. Mas, de todos os itens a serem resolvidos, o que mais me preocupava era a famigerada maquiagem.

Do alto dos meus quarentinha confesso um pouco constrangida que muito pouco, ou quase nada sei sobre a arte de empastar o rosto com aqueles produtos “carésimos” cujas melhores marcas é necessário um biquinho para pronunciar o nome. As desculpas são variadas e quase todas bem esfarrapadas, mas a dura verdade é que eu não tenho a menor idéia do que fazer com aquele monte de pincéis e pozinhos coloridos. Muito bem assessorada por minhas amiguinhas encarei os fatos e fui à luta.

Depois de algumas pesquisas em sites especializados e um workshop organizado pelas companheiras, me lancei às compras, acompanhada das amigas Del e Jó. No shopping, entramos numa loja especializada com várias cadeiras e espelhos para maquiagem no local. A vendedora, muito pintada, falou dos produtos e, gentilmente, perguntou se eu não gostaria de experimentar, tipo assim: uma maquiagem sem compromisso. Era tudo o que eu queria, vinte minutos toda relaxada, enquanto alguém delicadamente passava algumas coisinhas no meu rosto para depois eu sair linda e com todos os trâmites da make-up dominados.

- Claro! Por que não? - Respondi.

Sentei e começou. Se você é como eu, aproveite a mamata e anote a seqüência dos passos. Primeiro: limpeza. Água e sabão nem pensar, é totalmente over. Use um produto específico que vai lhe custar algumas dezenas de reais. Segundo: tônico, para re-equilibrar o ph da sua pele. Nem parece eu falando. Terceiro: a preparação com corretivo, base e pó facial. Agora vamos parar com essa numeração que minha cabeça loura não consegue raciocinar num plano organizado. Até aí tudo estava indo muito bem. A moça exagerou um pouco em cada item, mas nada preocupante, ainda parecia equilibrada e eu ainda achava que ia ficar bonita. Então, começou o filme de terror.

Ela pegou uma brocha, parecida com aquelas de pintar muro, besuntou numa sombra dourada extravagante e passou na minha pálpebra sem dó nem piedade. A brocha não prima pela precisão, mas confere bastante agilidade. Com duas pinceladas meus olhos ficaram como duas pepitas de ouro. Del e Jó, que estavam até então boiando, acordaram assustadas e curiosas para saber onde ia dar aquilo.

- Bem, o evento é à noite, não é? – A louca enquanto me pintava ia conversando com ela mesma. – Então pode usar um tom mais escuro. O preto vai ficar ótimo!

Encharcou outra brocha na sombra preta e mandou ver em torno dos meus olhos, próximo aos cílios. Arrematou com delineador e rímel, e pediu que eu conferisse. Para as circunstâncias, um exame de corpo delito seria mais apropriado. Mas ela continuava empolgada.

- Está ficando ótimo! Hora do blush. O blush é muito importante, ele levanta a maquiagem e dá um ar saudável.

Neste caso levantava até defunto, porque ela pegou o rolo de pintar parede e passou do maxilar até as olheiras com a voracidade de um felino faminto. Na verdade, eu já estava com medo. Olhava para minhas amigas com os olhos compridos, suplicando ajuda, socorro, qualquer interferência sensata ou desesperada, que me tirasse das mãos daquela mulher perigosa. Mas nada, as duas moscas mortas continuavam impassíveis, com a boca aberta.

A artista, enquanto pintava, toda esbaforida com os movimentos e confusa com tantos pincéis e produtos, me falava como havia se destacado no curso de maquiagem que tinha feito. Acho que muito atarefada com a atividade, acabou esquecendo de mencionar que o curso foi por correspondência, em hebraico arcaico, sem fotos ou ilustrações.

- Agora o toque final: o iluminador!

Começaram, então, longos movimentos verticais, horizontais e diagonais, por todo o rosto, totalmente inspirados em Daniel Sam do memorável "Karatê Kid", na primeira versão, quando no seu processo de aprendizado dos mistérios das lutas marciais foi escravizado pelo Sr. Miyagi, lavando e pintando toda a área de seu deck com tais movimentos. Mas não, ela não se contentava em somente imitar um grande sucesso do cinema internacional, ela tinha que inventar, e introduziu também gigantescos movimentos circulares. Quando acabou, somente com a minha cara eu era capaz de iluminar uma cidade de vinte mil habitantes. No embalo, pegou um batom bem melequento, cortou um pedaço e colocou sobre os meus lábios, como uma fatia de goiabada sobre o queijo. Totalmente sem noção, largou a bomba:

- Pronto! E aí, gostou????

Na hora me pintou a dúvida: “me atraco com essa mulher, furo seus 'zóios' e quebro todos os dedos para nunca mais ela fazer uma sandice desta com mais ninguém, ou faço uma cara de deslumbrada dizendo que o local e hora não merecem tal obra prima, esfregando e lavando o rosto totalmente e imediatamente para não sobrar qualquer vestígio”. Como boa garota que sou, fiquei com a segunda opção, mas alguém precisa tomar uma providência sobre aquela moça.

Não preciso nem dizer que tive que suar muito ainda para equacionar o item "maquiagem" nos preparativos para o casório, bem como todos os demais itens para não fazer feio num dia tão especial para minha priminha. No final, deu tudo certo, mas o saldo não foi positivo. Desde então evito ir àquele shopping, ou quando é imprescindível, passo há léguas da bendita loja. Até hoje tenho pesadelos horríveis com aquela mulher, vestida numa camisa de força, usando uma focinheira, cheia de pincéis, correndo ensandecida atrás de mim pelos corredores do shopping.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A pinça da ponta dourada

Vamos falar agora de uma coisa realmente importante: a pinça. Sim, a pinça de tirar pêlos, um a um. Precisei da minha, que já estava comigo há uns quinze anos, para cuidar de um ferimento na pata da minha cachorra. Aos que dirão "eeecaaa!!!", devo informar que adoro este ofício de veterinária de fim-de-semana. Mas, voltando ao nosso assunto, fiquei sem pinça. Resignada, saí o quanto antes para comprar uma.
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Cheguei à loja toda displicente e pedi uma pinça. A atendente parou, me filmou da cabeça aos pés e, olhando-me com firmeza no fundo dos olhos, perguntou com um tom sóbrio e revelador:
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- A senhora quer “a pinça da ponta dourada”?
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Não foi uma pergunta qualquer, todo o contexto foi rodeado por uma aura tão especial que nesta hora o céu se iluminou de dourado ao som de uma linda melodia celestial. O quê seria “a pinça da ponta dourada"? Ainda perplexa, fui me dirigindo lentamente ao local onde ficavam as demais pinças. Neste momento a moça disse que não adiantava, “a pinça da ponta dourada" não ficava junto com as outras. Que ótimo! Uma pinça que não se mistura com qualquer um. Então ela foi ao caixa, pegou uma chave especial e andou até um armário lacrado. Destrancou o armário, abriu uma gaveta e sacou de lá um instrumento delicado, alongado e com deslumbrantes pontas douradas reluzentes que ofuscaram meu olhar. Ela colocou a relíquia na mão e esticou o braço para que eu pudesse pegar.
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Lentamente toquei com as pontas dos dedos na jóia, primando por um cuidado que não me é peculiar, segurando-a em seguida. Oh meu Deus, o que teria de tão especial aquela pinça? E o pior, quanto custaria? Provavelmente não seria para o meu bolso. Cheia de coragem, perguntei:
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- Quanto é?



- Veja bem, é R$10,00, mas é para a vida toda.


Eu sabia, enquanto as demais pinças não ultrapassavam os R$2,00, a pinça da ponta dourada era R$10,00. Tive que rapidamente fazer algumas considerações. Além de umas continhas básicas, pensei: se eu novamente precisasse da pinça para cuidar da patinha da minha cachorra, não teria coragem de usar a de ponta dourada para auxiliar na assepsia das feridas abertas. A pinça valeria a vida de minha cachorra? Acho que sim. Decidida, falei:


- Eu quero a pinça. Você divide no cartão?
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Saí da loja segurando a bolsa como quem protege uma preciosidade e fui correndo para casa experimentar meu novo brinquedinho. Chegando lá me dirigi diretamente para o espelho para usar a sobrancelha como cobaia, e devo reconhecer, não é propaganda enganosa. A ponta dourada se encaixa com precisão cirúrgica na base, juntinho da raiz do pêlo, puxando o cabelo inteirinho. A raiz sai todinha e o percentual de pêlos quebrados cai a zero. Me empolguei e sai arrancando os cabelinhos enquanto no espelho revelava-se uma nova mulher.
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Amigas, acreditem, é um verdadeiro milagre. O alto investimento inicial é integralmente recompensado pela inestimável satisfação de olhar aquela pele lisinha e livre de fiapinhos indesejáveis ao redor de uma sobrancelha de contornos perfeitos. Sem falar de outras partes do corpo que podem adquirir também contornos perfeitos. Mas fiquem muito atentas para não levarem gato por lebre. A pinça da ponta dourada é uma pinça longa, de design limpo, toda prateada, somente com as pontas douradas e brilhantes, uma verdadeira obra de arte. Concluindo, valeu os R$10,00 parcelados e o risco de vida permanente ao qual condenei minha cachorra. E São Francisco de Assis que me perdoe.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O perigo mora ao lado

Ai “Jisus”! Não quero fazer alarde, nem muito menos bancar o “cavaleiro do Apocalipse”, mais me sinto impelida por minha responsabilidade social a dividir com o maior número de pessoas possível as informações que recentemente entraram em minha vida como uma avalanche.




Atualmente estou lendo, interessadíssima, uma publicação sobre os "sociopatas", ou podemos chamar também de "personalidades anti-sociais", ou "personalidades psicopáticas", ou outras tantas identificações, mas que referem-se à mesma coisa: os terríveis, assustadores e enigmáticos "Psicopatas". O livro é uma publicação séria, talvez um pouco sensacionalista e repetitiva, de uma psiquiatra que nos últimos tempos caiu nas graças da mídia. Em seu trabalho ela aborda os traços mais característicos da personalidade destes seres, a forma como costumam agir e o elevado potencial destrutivo inerente à sua natureza.

Segundo a autora, os psicopatas são indivíduos que têm suas funções cognitivas em perfeito estado, mas são desprovidos da capacidade de sentir afeto genuíno, ou, como ela mesma afirma, incapacitados de amar. Conseqüentemente, lhes faltam ética, moral, solidariedade, compaixão e por aí vai. Em geral são pessoas inteligentes, articuladas, sedutoras e agradáveis, mas não se iludam, para atender às suas ambições mais fúteis são dissimuladas e capazes de atos sórdidos, insensíveis e cruéis, planejados em detalhes e executados com precisão. Em geral, temos a tendência de associar a palavra psicopata àqueles “miseravões”, matadores sanguinários, tipo serial killer, mas a maldade pode ser bem mais sutil.



Até aí, tudo ótimo, afinal, informação nunca é demais. O problema é que, involuntariamente, alheia ao prudente distanciamento crítico, às vezes as informações começam a associarem-se a fatos da vida real, de nosso cotidiano, correndo o risco de extrapolar o limite da razoabilidade e criar um universo paralelo onde tudo e todos atingem facilmente a categoria de suspeitos, com sérios sintomas de psicopatia. Desde que iniciei a leitura, transformei meus ambientes de convívio em laboratórios e meus amigos, colegas e conhecidos em estudo de caso. Contrariando os que dirão que como psiquiatra sou uma excelente arquiteta, nas próximas linhas não vou me ater apenas a relatar fatos verídicos, e preocupantes, de pessoas que fazem parte do meu convívio. Instrumentalizada com os fundamentos recém adquiridos, vou me aventurar por terrenos movediços para uma leiga, analisando os desvios de caráter dos envolvidos.



Para começar, para qualquer pessoa com o mínimo de clareza e de bom senso, qual é o candidato número um a psicopata frio e calculista? O chefe, sempre, é claro! E quanto mais imediata for a chefia, mais elevado tende a ser o grau de psicopatia. A minha chefinha é um caso clássico. Ela é bonita, muito articulada e bem relacionada. Sorrindo, submete com requintes de crueldade seus subordinados às tarefas técnicas mais estapafurdias. As jornadas de trabalho propostas são absolutamente insanas, chegando a mais de trinta horas semanais, vampirizando todos até a última gota de sangue. Em geral, consegue manter a fachada de profissional equilibrada, mas quando a máscara cai, aos berros revela sua verdadeira face: ciumenta, possessiva e controladora. Em seu ambiente de trabalho é inadmissível reunir mais de duas pessoas sem sua presença, ou a confraternização é caracterizada como motim de cunho altamente subversivo, com sanções severas. Desconfio de suas ambições, mas pela frente ela vai se deparar com outro chefe, igualmente suspeito: o diretor do departamento. Alicerçado na inteligência privilegiada, na leitura dinâmica e no raciocínio extremamente célere, congrega rapidamente as informações manipulando-as conforme suas conveniências. Letrado em direito e na área um, usa sua habilidade com as palavras para justificar suas alterações comportamentais que culminam em rompantes de fúria, quando suas orientações expressas são sumariamente ignoradas. Se um sozinho é uma grave ameaça, os dois juntos constituem o prenúncio de problemas de dolorosas implicações.

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Uma característica constante nos elementos com esse distúrbio psíquico é buscar ocupar posições estratégicas para suas pretensões. Nesta linha de pensamento, uma função bastante almejada é a de secretária, que tudo ouve e tudo sabe. Na empresa que trabalho temos um exemplo. Ela secretaria os assessores da diretoria do departamento e, vamos considerar, “ô baixinha sangue ruim”. Essa pessoa não pode ser considerada exatamente uma psicopata. Pela estatura, ela poderia ser enquadrada, no máximo, como uma psico”patinha”. Para um olhar desavisado pode passar por uma mulher sã, desembaraçada e simpática, apesar de temperamental. Mas, determinadas atitudes denunciam sua perversidade sórdida. Por exemplo, sua recusa doentia em assinar por mim meu ponto de freqüência quando me atraso, negando o favor com absoluta frieza e insensibilidade. Isso não pode ser um comportamento normal de uma criatura que tem a capacidade de nutrir afeição, ainda mais porque o favor é suplicado com tanto carinho e emoção. Considero ela um perigo iminente para o grupo.



O quê dizer, então, de meu namorado? Por algum tempo aquela conversa mole me envolveu de uma maneira que impediu a compreensão racional dos fatos. Agora, começo a ter um entendimento melhor. Ele é capaz de atingir o êxtase em caloradas discussões travadas com call centers dos mais diversos produtos e serviços, em embates diários que chegam a durar horas, preterindo, inclusive, uma deliciosa companhia feminina. Além disso, um companheiro que não aparece com mimos surpresa em datas improváveis e que não leva café da manhã na cama para a sua amada, não pode ser boa coisa. Tecnicamente, poderia ser considerado como um psicopata de grau elevado, pelas conseqüências nefastas de suas ações, ou falta delas, num coração sensível. Mas vou enquadrá-lo inicialmente num grau moderado, pois os danos podem ser remediados caso ocorra uma imediata mudança de atitude, tipo um presentinho hoje mesmo.



Outro indivíduo exacerbadamente suspeito é o síndico do meu condomínio. As tais taxas extras só podem ser coisa de quem não tem uma gota de sentimento e afeto por nossos rendimentos. E a frieza e a indiferença com que somos avisados reforça minha tese. Geralmente são correspondências impessoais, como quem dialoga com uma caixa registradora, que fazem rodeios e mise-em-scène de motivos para no final nos golpear duramente. Esse senhor me preocupa e deve ser vigiado de perto.



Apesar da inquestionável eloqüência dos relatos e argumentos acima expostos, que baseiam minhas suspeitas quanto ao caráter patológico dos estudos de caso, devo registrar que o diagnóstico está numa etapa clínica bastante inicial, sujeito ainda a retoques. Contudo, já é possível constatar, mesmo sob a tutela do inseparável otimismo que me caracteriza, que o mundo é sim um lugar perigoso para passear, trabalhar e viver, e a natureza humana pode ser, por vezes, surpreendentemente desagradável. Portanto, concluo este aprendiz de laudo clínico afirmando que a palavra de ordem deve ser “cautela”, pois o inimigo espreita e o perigo pode estar ao seu lado.


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Brinquedinhos imprevisíveis



Quanto mais a hora da partida aproximava-se, mais aquela bendita "lista de coisas a fazer antes da viagem" atormentava a sua paz. No início, nada menos que 90% das coisas resolvidas eram admissíveis, depois passou para 75%. O tempo correu e 40% já eram negociáveis. Agora, a poucas horas de entrar no avião rumo à BH, qualquer coisa em torno de 7,5% era completamente aceitável.

Havia alguns meses que a viagem estava sendo minuciosamente planejada, junto com uma turma de quase trinta pessoas. O motivo? Uma amostra internacional de teatro na capital mineira. Ela, como uma das protagonistas do grupo, não poderia ficar de fora desta. Aproveitando a oportunidade, convidou o maridão para acompanhá-la, afinal, nenhuma oportunidade de quebrar a rotina de um casório de 29 anos pode ser desperdiçada. Antes de fechar a mala, o toque final: escondeu lá no fundo o brinquedinho surpresa que estava levando para o seu amor. Ele não perdia por esperar.

O apetrecho estava comprado há algumas semanas, aguardando a hora certa para ser usado. A compra em si já foi uma festa a parte. Uma senhorita em cima de um belo salto chegou a seu local de trabalho carregando uma maletinha rosa choque, tão inocente como os acessórios da doce Barbie. Enquanto passava pelas mesas do escritório falava com uma e outra, até chegar ao fundo da sala, onde sentou, cruzou as pernas, descansou a maleta sobre o colo e abriu o recipiente como quem abre "as portas da esperança". Daí para frente ninguém pode conter aproximadamente 10 mulheres enlouquecidas beirando o estado de luxúria. Da malinha saíram várias preciosidades, entre elas óleo comestível de massagem, calda quente de menta, pasta de uva, pomadinha picante, canetas com tinta comestível, peças íntimas de vestuário e joguinhos eróticos. Ela encantou-se com tudo. Inicialmente pensou em levar a calda de menta e a pasta de uva, já pensando no slogan de propaganda "senta que de menta e chupa que é de uva". Depois resolveu comprar o baralho de posições e uma caneta sabor doce de leite. Como não segurou a onda, inaugurou o baralho logo no fim de semana seguinte e esforçou-se bastante para executar com precisão os contorcionismos propostos, ignorando inclusive os efeitos lombares e cervicais que, com toda certeza, perdurariam por vários dias. Agora era hora de inaugurar a caneta de doce de leite, e só de pensar lhe dava água na boca.

Tudo em relação à viagem foi decidido entre o grupo de teatro: o local da estadia, as peças a serem encenadas e as apresentações imperdíveis. O item "hotel" foi um parto a fórceps. Uns achavam caro demais, outros achavam ruim demais, outros, longe demais. Depois de muito "trololó" e pesquisas na internet chegou-se ao consenso quanto a um simpático hotel três estrelas, localizado no centro da cidade. Chegando lá, a conclusão que pareceu mais obvia era: as fotos expostas na internet não eram daquele lugar, ou as mesmas tinham sofrido uma séria intervenção no Photoshop. De qualquer maneira, a propaganda foi enganosa. O hotel era velho, feio e sujo, muito sujo. As três estrelas prometidas eram, possivelmente, as que podiam ser vistas ao cair da noite, pelos três buracos da cortina.

Os compromissos do evento internacional eram puxados, com apresentação todos os dias, não sobrando muito tempo para namorar. No penúltimo dia, os dois já na loucura por um momento a sós, deram um "zig" no grupo e se mandaram mais cedo para o hotel. No apartamento, tentaram abstrair-se do ambiente e concentrar-se no ritual. Ela procurou algo para vendar os olhos dele. Como naquele hotel não havia nada que pudesse ser chancelado pela vigilância sanitária, tirou a parte de baixo de seu babydoll e amarrou na cabeça do marido. A sorte é que de olhos vendados ele não podia conferir o resultado, mas era um armengue de dar dó. O short ficou todo contorcido, com metade da renda para cima e a outra metade para baixo, como um tapa-olho caído até a bochecha. Se não fosse pela cor da peça, verde cana, ele poderia até ser confundido com o capitão gancho fantasiado de baiana do acarajé, claro, depois de um arrastão dos mais violentos. Mas isso tudo não tinha a menor importância, ela ainda estava excitadíssima.

Cuidadosamente, ela o despiu e pediu com uma voz de seda para que ele se deitasse. Sacou a caneta e iniciou os desenhos pelo rosto, para percorrer todo o corpo em direção aos pés. Timidamente, começou com o básico: uma bola representando a cabeça e cinco tracinhos representando o corpo. Mais a vontade, deu asas ao romantismo, com coraçõeszinhos e uma casinha no alto do morro. Depois ousou com flores, bichos exóticos e tribais. Na coxa esquerda anotou a receita da pamonha mineira que havia experimentado naquela tarde e, não contendo seus impulsos profissionais, rabiscou uma planta baixa, dois cortes e uma fachada frontal. Já que estava empolgada e com tempo sobrando, aproveitou para arquitetar as soluções do projeto pendente do necrotério estadual. A essa altura ela estava na canela, com o doce se misturando nos pêlos da perna. Curiosa para apreciar sua obra, deu uma olhada geral no conjunto.

Quando viu, não pôde acreditar. Não era possível enxergar um centímetro da pele do seu amor. O doce de leite virou uma calda melequenta que escorreu por todo o corpo fazendo com que ele parecesse um boneco de lama se desmanchando. Se a agonia da meleca não bastasse, ainda havia o risco de morte pelo fato dele ter alto nível de diabetes. Ele lá, de olhos vendados, todo deitadão, não entendia muito bem o que acontecia, mas estava apreciando tudo. Assustada, mas sem querer estragar o momento, partiu para cima dele com meio metro de língua, lambendo tudo que encontrava pela frente. Ele, evidentemente, foi à loucura. Já enjoada de tanto açúcar, buscou no banheiro uns pedaços de papel higiênico, que no primeiro contato com o doce, se desfizeram ficando pregados no corpo. Beirando o desespero, molhou a toalha e começou a esfregar nele com movimentos pesados, explicando tratar-se de uma técnica oriental de estimulação. Cansada, propôs logo os “finalmentes”. Tirou o babydoll que tapava os olhos dele e a brincadeira ficou animada, não obstante o prega-prega da coreografia.

Depois de tudo, ela não podia ver ou sentir a kilômetros o cheiro de doce de leite, e a idéia de um banho lhe pareceu a coisa mais excitante da tarde. Quando chegou ao banheiro, ao olhar-se no espelho teve vontade de chorar. Seus cabelos estavam em pé em pequenos grupos, como se tivesse sido vítima sem defesa de uma descarga elétrica de alta voltagem. Mesmo depois do banho, a cabeleira nunca mais voltou a ser como antes.

O evento acabou e, enfim, chegou a hora de voltar. O hotel, para redimir-se dos muitos contratempos, ofereceu para cada quarto um brinde surpresa, embalado para presente numa caixinha. Ele, muito feliz com a experiência, planejava ansioso a próxima viagem. Ela, um pouco enjoada ainda, ia precisar de um tempo maior para se animar. Já no avião, voltando para Salvador, ela resolveu conferir o mimo oferecido pelo hotel. Quando abriu quase caiu para trás. Era meia dúzia de tabletes do mais autêntico doce de leite mineiro. Com o estômago embrulhando, exclamou apressadamente em alta voz:

- Comissária, por favor, um saquinho urgente!!!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

E você, também vai dançar?



Então atire a primeira pedra quem nunca passou pela solitária experiência de, na beira de uma pista de dança, ao som de uma convidativa melodia, sentir por dentro todo o seu corpo e alma dançando enquanto externamente, estático, estampa um sorriso amarelo de "eu hoje estou cansado". Os motivos podem ser os mais variados. Absoluta falta de habilidade, paralisante timidez, desconcertante escassez de par ou, pior, "enraivante" constatação de que o objeto de seu desejo está muito bem acompanhado. Não importa, seja como for, é frustrante. Quase todo mundo tem uma história engraçada, "ou não", como diria o filósofo Caetano, para contar sobre suas aventuras na pista de dança ou na beira desta. Já ouvi algumas, mas tem uma, em especial, que me diverte mais.

Tenho um amigo e colega de trabalho sergipano que é conhecido na empresa como pé-de-valsa. Sempre impecavelmente bem vestido, com uma fala grave, pausada e em tom moderado, vive escondido atrás de uns óculos, mas quando se espalha no salão ninguém junta. Segundo ele, quando era jovem, ia às festas com os amigos e enquanto a música rolava ficavam todos parados, as meninas de um lado e os rapazes de outro. De vez em quando os garotos sorteavam um mártir, que com muita coragem e resignação atravessava o salão como quem vai para a guilhotina e arriscava convidar a dama, quase sempre levando um toco que o deixava desconsertado pelo resto da noite. Revoltados com tantos mal-tratos, os garotos articularam-se e bolaram um plano no mínimo maquiavélico. Elegiam a mais "patricinhas", as bem sebosas mesmo e, em revezamento, viravam uma sarna atrás da vítima até que ela, para se livrar daquela moléstia, topava dar a honra de uma dança para qualquer um que fosse. Então os outros se posicionavam nas proximidades. A dança começava e quando a coitada já estava mais relaxada, talvez até gostando, o seu algoz a segurava firmemente pelos dois braços afastando-a uns dois palmos e dizendo em alta voz: - Você peidou!!!! - Depois disso o descarado saía sem mais explicação deixando a garota petrificada no meio do nada. Foi mais ou menos nessa época que o mercado de trabalho para psicólogos e psicanalistas “bombou” em Aracajú. Muitas garotas conseguiram superar o trauma e levam uma vida normal. Mas outras, atualmente senhoras, deixam pomposas somas nos consultórios de psicanálise até os dias de hoje.

Não faz muito tempo que as aulas de Dança de Salão popularizaram-se como a redenção para as famigeradas timidez e falta de habilidade. A atividade alcançou a mídia, virou argumento de filmes, pano de fundo de novelas e, no Brasil, até competição em instrutivo programa domingueiro de variedades, onde o intrépido apresentador, conhecido pela sutileza que mataria de inveja qualquer rinoceronte, nos brinda com apresentações de famosos dançando variados ritmos, e não posso negar que me delicio com o quadro.
Quanto à telona, Fred Astaire já fazia babar gerações anteriores, e aquele sim, sabia o que fazia. Mais recentemente, outros superstars não tão hábeis no bailado, mas muito mais talentosos no sexy appeal, como Antonio Banderas e Richard Gere, protagonizaram fitas que também giravam em torno do tema. O filme estrelado por Gere em 2004, por exemplo, que foi traduzido como "Dança Comigo", foi um remake de um filme japonês homônimo, de 1996, e trata de um advogado de meia idade um tanto entediado que encontra na dança de salão um sopro de alegria para sua vida. A versão americana desenrola a trama em torno dos dramas pessoais do protagonista. Já a versão original, a japonesa, propõe um elemento a mais, tendo em vista que no contexto nipônico tem-se também o paradoxo entre a introspecção da cultura oriental e a natural exposição da dança. No mais, tem aquele jeitinho todo especial das produções japonesas, que conseguem dizer tudo sem precisar falar nada. Seja como for, nas duas versões, bem como no “Vem Dançar” de Banderas, a dança quebra tabus e une diferentes tribos.

Como todo mundo, também já estive algumas vezes paralisada na margem da pista, mas quase sempre, por pior que seja o resultado, prefiro me arriscar nos rodopios. Sendo do Pará, adorava jogar os cabelos pra lá e pra cá ao som da lambada de Beto Barbosa, isso sem contabilizar o carimbó, o brega, o tecnobrega e por aí vai. Para um olhar mais especializado devia parecer uma afronta à boa dança, mas quem liga? Além disso, a herança genética me empurra para o meio do salão. Meus pais não podem ouvir uma música com um pouco mais de dois metros quadrados de área disponível que levantam e saem girando abraçados. Nesse embalo, são parceiros de dança há mais de quarenta anos e conseguiram disseminar por toda a prole o gosto pela brincadeira.

De olho nas benesses físicas, psicológicas e sociais que a atividade pode promover, empresas investem nas aulas como programa de valorização dos recursos humanos, e o órgão que trabalho embarcou nessa também. Contratou um casal de professores que com extrema paciência nos ensinam os segredos dos primeiros passos. Fácil não é, mas é gostoso. Alguns têm mais ritmo, outros mais coordenação e outros, bem, tem vontade, pelo menos. Não acho que chegaremos a uma companhia de dança, mas tenho certeza que vamos nos divertir.

Na nossa turma tem um colega, aquele mesmo do "você peidou!", que adora tirar uma onda de Richard Gere em "Dança Comigo". Ele freqüenta as aulas no turno da noite e não perde uma oportunidade de mostrar seus talentos, mas não falou nada em casa para a mulher sobre o curso. Num dia desses, um canal aberto da TV exibiu o citado filme. Ele fez de tudo para dispersar a esposa, mas não conseguiu tirá-la da frente do televisor no horário marcado. Enquanto o filme ia se desenrolando ele puxava outros assuntos, mas a patroa parecia hipnotizada pela fita e enquanto assistia, comentava:
- Mas olha o papelão que esse homem está fazendo, dançando por aí escondido da mulher e da família. Ah se fosse comigo!
Ele, cada vez mais encolhido na poltrona, tentava convencê-la: - Veja bem, ele não está fazendo nada de mais.    
Não tenho dúvidas que a atividade proporciona muitas coisas salutares, que vão além de uma boa oportunidade de exercitar o jogo da sedução ou dar um “zig” inocente na mulher. Fisicamente favorece o equilíbrio, a coordenação, o ritmo e até a queima de algumas calorias. Contudo, acredito que os maiores benefícios são relativos à autoestima. Numa sala espelhada você se vê mais, melhora uma postura aqui, dá um jeitinho no cabelo ali, observa seu movimento, sua silhueta, se conhece melhor, se aprecia. De modo geral, com espelhos ou não, temos a oportunidade de vivenciar um conjunto de situações que nos torna mais íntimos com nós mesmos. São detalhes, às vezes coisas que passam despercebidas, mas que ajudam a transpor o muro da timidez e fortalecer a autoconfiança. Paralelamente, num movimento antagônico ao da percepção de si mesmo, também faz o favor de nos expor, com direito a alguns deslizes, propiciando uma descontraída integração com os demais.

Dançar sincronizado com vasto repertório de passos, dançar o feijão com arroz levando umas pisadas aqui e ali. Dançar rápido, dançar lento, dançar para dar show, dançar para consumo próprio, acompanhado ou desacompanhado. Não importa muito, o importante é dançar para se divertir, para ousar, para transpor, para se permitir. Ei, e quanto a você que está aí lendo muito bem acomodado nesta cadeira, também vai dançar?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Negro Gato


"Eu sou um negro gato de arrepiar

Essa minha história é mesmo de amargar
Só mesmo de um telhado, aos outros desacato
Eu sou um negro gato
Eu sou um negro gato".

Lá ia ele cantando. Na verdade a afinidade ia além do gosto pela melodia. Um negro gato era exatamente o que ele era: um bichano de pêlo curto e negro, estatura mediana para a espécie e uma soberba em nada compatível com a realidade. Falador, articulador e muito hábil no network , há algum tempo era considerado como um procurador dos interesses da comunidade “miante” do bairro, apesar de estar longe de ser uma unanimidade. Recentemente havia tomado para si a responsabilidade sobre a reforma do "beco da PGE". Nada a ver com a prestação de um serviço comunitário ou algo semelhante, ele pensava no upgrade que isso poderia render em seu status. Assim, tornou-se o maior militante da causa. 


O beco da PGE era o mais freqüentado ponto de encontro da turma do bairro. Um local para altos conchavos, cantoria, por o papo em dia e conhecer quem de novo pintava no meio da gataiada. Ficou conhecido como beco da PGE por conta de Mafalda, uma gata malandra, típica vira-lata, que andava por aqueles arredores em épocas passadas. Ela costumava dar golpes nos colegas, além de provocar a ira dos humanos, roubando quitutes deixados a vista por qualquer janela entre aberta. Certa vez, Francesco, um cozinheiro italiano de uma cantina do beco, conhecido por sua pouca paciência com os bichanos, deixou uma almôndega de isca sobre o balcão da cozinha, enquanto fervia um caldeirão de água. Quando Mafalda apareceu, não deu outra, despejou sobre ela a água fervente que, por sorte, pegou de banda. Desta vez não teve malandragem certa, Mafalda ficou “cheia de cheios e vazios”, parcialmente pelada. A bicharada, que não engolia muito a senhorita, não perdoou, e batizou o beco: "beco da Pobre Gata Escaldada", que mais tarde foi abreviado para "beco da PGE".

A empreitada da reforma era realmente grande. O beco precisava de tudo: reorganização do lay-out dos latões de lixo, penumbra adequada, isolamento acústico para possibilitar as serestas até altas horas e por aí vai. O Negro Gato contava com algumas parcerias. Tinha Tássio, um gatinho mestiço, rechonchudo, muito boa praça, que fazia o meio de campo com a comunidade, já que o Negro Gato não contava com a simpatia da galera. Os dois juntos lembravam Manda-Chuva e Batatinha, um sempre mandando e o outro sempre obedecendo, mesmo que a sabedoria notadamente não residisse na fonte do comando. Contudo, sua maior aliada era Sandra Espatódia, uma gata refinada, quase legítima angorá que, por qualquer contra-tempo, descia do salto e armava um barraco. Diziam as más línguas que ela tinha vivido um romance tórrido com o Negro Gato, que acabou com bate-boca e pancadaria de fundo passional, deixando o Negro Gato em recesso para reabilitação física durante algum tempo. Verdade ou não, o fato era que ele demonstrava um certo medo da dona. Apesar do grande interesse e empenho do trio, nenhum deles entendia nada do ofício. Tássio, bem relacionado, propôs que pedissem ajuda, e foi ele mesmo que sugeriu o nome: - Por que não falamos com Anita?

Anita era uma gata tímida, moradora da rua de cima, que nada investia em marketing pessoal, mas reconhecida pela extrema competência na área. Entre outras coisas, foi a mentora intelectual da reorganização do lay-out do "Beco das Flores", a projetista da reforma da "Esquina da Pata Suja" e a principal responsável pela revitalização da "Baixa do Corre do Tamborim", com o trabalho premiado pela UNICAT e destaque na revista Felino's News.

A idéia foi prontamente aceita, apesar das desconfianças de Sandra Espatódia. Tássio se incumbiu de agendar uma reunião. No dia marcado, lá estavam os três esperando quando surgiu Anita do outro lado da rua, com os sedosos pêlos brancos no balanço da leve brisa que soprava. Aquilo para o Negro Gato foi a visão do paraíso, seu queixo caiu alguns centímetros e foi impossível evitar a baba. Era como se tudo em volta estivesse congelado e só existisse Anita, atravessando a rua em movimentos lentos e graciosos. Acordando do transe, se recompôs rapidamente, reorganizou a postura, estufou o peito e partiu em direção à visitante, cheio de clichês, patas e dedos. Aquilo de cara assustou Anita que, apesar de simples, tinha o comportamento de uma "aristogata".

As reuniões foram sucedendo-se com muitas indefinições e algumas contribuições da comunidade. Mais latas de lixo ou menos latas? Ia ser prevista a circulação de roedores, com algum entretenimento relacionado, tipo pegue-e-pague, ou não? Já se falava até em erguer um monumento à Mafalda, a "Pobre Gata Escaldada". Neste ínterim, o Negro Gato, cada dia mais encantado, não perdia qualquer oportunidade de roçar os pêlos em Anita e ronronar próximo aos seus ouvidos. Ela, com total asco, fugia "como o diabo foge da cruz", mas a situação já estava chegando num ponto insustentável, agravada ainda mais pelas escancaradas demonstrações de ciúmes de Sandra Espatódia. O Negro Gato sacava tudo e com habilidade atiçava a discórdia que massageava seu ego doentio. Tássio, com excelente humor e senso de oportunidade, amenizava o clima e o trabalho ia se desenrolando. Aparentemente a situação parecia equilibrada, mas Sandra Espatódia era ardilosa e, enquanto forjava uma atitude mais calma, armava um plano para atingir sua arqui-rival.

Anita, apesar de circular livremente pelas ruas, era a queridinha de uma madame moradora de um dos mais tradicionais edifícios do bairro. A senhora mantinha em seu luxuoso apartamento uma almofada confortável de penas de ganso, sempre limpinha, para o deleite de sua pequena. Por conta disso, Anita carregava no pescoço uma medalhinha de identificação, o que liberava sua passagem nas dependências do prédio e lhe dava um ar ainda mais distinto. Contudo, já haviam alguns dias que a tal medalha andava perdida, e isso deixava a gata angustiada.

Quando chegou o primeiro dia de lua cheia do mês, uma turma de gatos não identificados armou na frente da residência da madame uma algazarra sem precedentes. A cantoria e bateção de latas perdurou até altas horas da madrugada. A viatura da polícia esteve no local duas vezes, tentando dispersar o movimento, sem obter sucesso. Ao amanhecer o cenário era catastrófico. As latas de lixo estavam reviradas e havia resíduos de natureza diversa espalhados pela rua, passeio e até entrada da portaria. No meio de tudo, foi achada a medalhinha de Anita. A sentença do síndico e conselheiros do prédio foi imediata: Anita estava terminantemente expulsa daquela Maison. Enfim o mistério que tanto lhe preocupava foi esclarecido, sua medalha desaparecida estava com Sandra Espatódia, que soube usá-la muito bem. Desolada, a gatinha saiu meio sem rumo, cantarolando em murmúrios melancólicos:

"De manhã eu voltei pra casa
Fui barrada na portaria
Sem filé e sem almofada
Por causa da cantoria"

Ainda fragilizada, ela levantou a cabeça e tocou a vida, mergulhando fundo na reforma do beco da PGE. Conciliou interesses, harmonizou propostas e fez questão de cuidar sozinha do tão esperado monumento à Mafalda. No dia da inauguração estavam todos lá: a gataiada do bairro, os amigos, a imprensa e até algumas autoridades. O beco estava irreconhecível, sofisticadamente lindo e original. O Negro Gato não podia conter-se de tanto orgulho. Todos o congratulavam apesar de terem absoluta convicção de que a mente pensante por trás de tudo era a de Anita. A inauguração do monumento à Mafalda, que estava coberto por um manto encarnado, era o momento mais aguardado da festa, e seria uma surpresa para todos, já que Anita providenciou tudo sozinha. Na hora marcada, o Negro Gato pegou o microfone e, após um enfadonho discurso de auto-promoção, anunciou com toda a pompa e circunstância a homenagem à gata que deu o nome ao beco, puxando com um movimento brusco o manto que cobria a escultura. Foi quando ouviu-se um longo "oooohhhhh!!!!!", seguido de risos e muitas gargalhadas.

Para o espanto geral, a escultura retratava com impressionante perfeição a imagem do Negro Gato vestido com uma ceroula, na fisionomia uma expressão de dor e medo, encolhido numa postura ultrajante para o gênero masculino, tentando se proteger de Sandra Espatódia. Esta, na obra de arte, estava em posição ameaçadora, com os olhos explodindo em ira, trajando um babydoll dois números abaixo do seu, com os pêlos enrolados em bobs e segurando um rolo de macarrão, que usava para espancar o Negro Gato. A imagem era grotescamente real. Aproveitando o burburinho e galhofada que a surpresa gerou, Anita saiu à francesa com um doce gostinho de vingança na boca, enquanto ensaiava timidamente alguns passos e cantava:

"Nós gatos já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora, senhorio
Felinos, não reconhecerás"

O beco da PGE continua um sucesso incontestável, divertido, polêmico e formador de opinião. Dizem até que foi em suas noitadas que foram lançados pelo menos dois dos principais candidatos ao mais alto cargo do Estado. Contudo, a sigla do aclamado beco, com todo respeito à memória de Mafalda, sua musa inspiradora, tem novo significado em homenagem a suas mais recentes celebridades, sendo hoje, então, "o beco do Pobre Gato Espancado"

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Atividade Alternativa


Recentemente, num curso de pós, a professora de "Sistemas das Organizações" foi categórica em afirmar que devemos ter uma atividade alternativa à nossa atividade oficial, e que, de preferência, esta atividade deve ter pouco ou nada a ver com nossa profissão. Segundo ela, o mercado de trabalho hoje é muito dinâmico e ninguém está seguro onde está, podendo vir a ter que se adaptar à funções pouco afins com as que exerce atualmente. Além disso, atividades diferentes oxigenam nosso cérebro e sempre abrem novas possibilidades.

O grande barato do estudo continuado é justamente esse, permanecer disposto a sacudir nossas idéias e paradigmas, mas esse toque não foi exatamente uma revelação para mim. Profissionalmente abracei a carreira de arquiteta, apesar de hoje muito pouco arquitetar e exercer mais uma função de gestora de projetos da área. Mas como alternativa profissional nunca almejei paisagismo, design, decoração ou qualquer coisa que passasse perto da arquitetura. Na verdade, me entreguei a delírios muito diferentes e nada ortodoxos. Sonho ser patinadora de supermercado, aquele pessoal que fica agilizando o vai e vem de produtos pelos corredores da loja. Imaginem, ser paga para passar o dia inteirinho deslizando sobre patins num piso lisinho como uma peruca depois da chapinha, desviando de uma prateleira aqui, de um cliente ali. É a glória! Também considero com carinho a idéia de ser bailarina de banda de música de grande sucesso. Tenho uma certa intimidade com a dança e, sobretudo, adoro o ofício. Então, nada melhor do que unir o agradável ao rentável. Acordar pela manhã com a dura tarefa de ter que dançar por horas ensaiando, concluindo o dia com uma apresentação para alguns milhares de pessoas gritando enlouquecidas pelo show. Se não bastasse tudo isso, ainda ter que viajar em turnês pelo país e até pelo exterior. Parece um sonho. Por mais bizarro que possa parecer, quando entro neste transe só me vem à cabeça a banda "Calypso" com seu frenético tecnobrega. Cada um tem o sonho que merece.

Contudo, os fatos têm revelado que não sou a única acalentar o sonho de atividades desconexas com a oficial. Vejam o caso daquela professorinha de Salvador, que durante o dia dedicava-se candidamente ao magistério para a primeira infância em uma escola particular da capital baiana, e à noite, ao apagar das luzes, se liberava ao som do pagode "todo enfiado" na picante casa de shows Malagueta. Reconheço que seus remelexos estavam longe de ser um inocente ofício, mas nesta história não consegui ainda identificar o que é mais deplorável. Se é a própria coreografia ou se é a nojenta hipocrisia da mídia e da sociedade, que ora festeja o estilo musical e suas coreografias vulgares e ora, sedentos de notícias sensacionalistas e seus respectivos "Judas", aclamam a mulher como inimiga pública número um, num uníssono "joga pedra na Gení", adormecendo no esquecimento escândalos políticos muito mais ofensivos para a moral e os bons costumes. Opiniões a parte, a gente tem que reconhecer: a moça tinha um certo talento para o show business. Com a celebridade alcançada depois do post no "You Tube" e as mais de cem mil visitas, acho que a garota considerou a possibilidade de tornar esta a sua atividade principal, fazendo a extravagância de atuar paralelamente, na surdina, quem sabe, como docente do ensino infantil.

Existem, contudo, aquelas atividades que não são programadas, nunca foram objeto de desejo e não tem nenhum glamour, mas quando menos se espera o talento bate a porta de uma forma tão contundente que fica difícil ignorar. Assim aconteceu com uma amiga. Ela estava indo muito bem na sua vida profissional no serviço público, com o trabalho reconhecido e grandes perspectivas de crescimento. Dinheiro também não era o problema, e a vidinha seguia seu curso de forma muito tranqüila, beirando o enfadonho. Em um belo dia, quando chegava para a labuta, se deparou com alguns colegas de trabalho cumprimentando outro colega. Alegre e solícita como sempre, de longe veio pulando e cantando:.
- "Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida".
Quando alcançou nosso amigo, pulou sobre ele com um forte abraço e alguns beijos. Não contente, sem dar tempo para o cara sequer respirar, emendou:

- "A chuva cai, a rua inunda, ô fulano eu vou comer seu bolo. É vatapá, é carurú, ô fulano eu vou comer o seu bolo."

Quando acabou, ofegante com tanta felicidade e diante dos olhares estupefatos dos demais, disse:

- Eu não sabia que era o seu aniversário!

- Não é! - Respondeu ele, continuando: - foi meu pai que morreu.

Apesar do absurdo da situação, o mico quebrou o clima e relaxou inclusive nosso colega em luto. A história correu os corredores da empresa e, tratando-se de uma pessoa tão sensível e inteligente, pensamos todos que ela havia, a duras penas, aprendido a lição. Como a gente se engana com as pessoas. Poucos meses depois, novamente quando chegava para o trabalho, ao abrir a porta viu duas colegas de trabalho abraçadas. Sem pensar duas vezes, já saiu gritando:

- Amiiiiiga, não sabia que era seu aniversário. "É big, é big, é big, é big, é big! É hora, é hora, é hora, é hora, é hora! Ah! Tchim! Bum! Êêêêêê!!!!!!!"

A louca foi tão segura nas suas afirmações que acabou confundindo todo mundo. A que estava sendo abraçada virou para a que estava abraçando e perguntou:

- É seu aniversário?

- Não! - Respondeu ela. - É seu?

- Não! 

Foi só então que a desvairada resolveu perguntar: - Então qual é o motivo de tanto abraço?

A abraçada respondeu: - Foi meu irmão que morreu!
A trapalhada foi tanta que a história chegou a mim por nossa colega que havia perdido o ente querido, confessando que, apesar de tudo, também deu suas risadas.
Diante da repercussão dos "causos" e os consecutivos comentários e incentivos, minha amiga começou a vislumbrar a possibilidade de lucrar com seus talentos naturais. Não demorou e apareceu logo uma candidata à sócia que, com talentos semelhantes, costuma atrapalhar-se nos cumprimentos das cerimônias fúnebres, distribuindo parabéns para todos os parentes do defunto. As duas abriram uma empresa que tem a finalidade de animação de velórios, enterros, missas de sétimo dia, cerimônias de cremação e semelhantes. Os negócios vão de vento em pôpa e as empresárias já estão estudando a possibilidade de abrir franquias com a venda do know-how. São realmente garotas empreendedoras. Admiro a criatividade e atitude, mas peço a Deus não ter a oportunidade de prestigiar seus serviços tão cedo. 

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Corta o cabelo de onde?


Todo mundo passa por aqueles dias que é melhor não abrir a boca. Com a maior parte das pessoas isso acontece um dia ou outro. Comigo é mais freqüente. O problema maior é que a gente nunca sabe quando acordou com esta pré-disposição. Tanta tecnologia disponível e ninguém se tocou de bolar um alarme no celular para nos prevenir nesses dias sombrios. Ou talvez "os céus" pudessem nos proteger das derrapadas com inspirados presságios. Seja como for, alguém precisa tomar uma providência.

Como não me dou muito bem com os celulares e não costumo ser abençoada com tais revelações divinas, lá vou eu toda serelepe e desavisada para mais um dia de trabalho. Passei o dia até bem e parecia que ia voltar para casa sem nenhuma seqüela. Era o quê parecia. Lá pelo final da tarde, conversava com minha chefona, que é mais ou menos um feitor dos tempos modernos. Quando trocávamos algumas figurinhas chegou Aragon, nosso colega de trabalho. Só para ilustrar o tamanho da trapalhada que vem pela frente, vou descrever nosso personagem. Aragon é um engenheiro de segurança de cinqüenta e poucos anos, sério e muito tímido. Para termos uma idéia, ele fala de boca fechada. Quando está muito nervoso e alterado chega a abrir a boca cinco milímetros e meio e, se chegarmos a dez centímetros da fonte emissora do som, é até capaz que a gente consiga ouvir 70% do que ele fala. É um bom profissional, mas bem mais eloqüente na escrita. A “chefa” tinha alguns assuntos pendentes com ele e na mesma hora tirou o chicote do cinto e começou a cobrar os desdobramentos dos serviços.

Os dois seguiram debatendo os assuntos de trabalho. Na argumentação, Aragon, que normalmente é muito contido, gesticulava com as mãos na altura do baixo abdômen e região pubiana, com movimentos curtos e lentos. Como a conversa não era mesmo comigo, me permiti abstrair perdida nos meus pensamentos. Isso, para uma mente intelectual, significa absorver-se entre assuntos relevantes para a humanidade. Para uma cabeça loura, como é o meu caso, significa "só pensar besteira". Então, comecei a viajar nas mãos de Aragon, observando que seus dedos eram bem cabeludos, o que me lembrou um lobisomem ou, talvez, Tony Ramos, que é mais ou menos a mesma coisa. Era meramente uma observação, que faço questão de registrar que não me remeteu a nenhuma fantasia. Aprofundando-me mais na questão de alta complexidade, notei que, em uma das mãos, os dedos indicador e médio tinham os cabelos menores, como se tivessem sidos aparados. Totalmente alheia ao ambiente e às circunstâncias e, pior, no auge do meu surto delirante, usando um papel tipo ofício que tinha na mão, apontei para as mãos de Aragon, que nesta hora estavam na altura da região pubiana, e perguntei:

- Você corta o cabelo daí?????

Agora você, caro leitor, com todo o seu poder de imaginação, realize a cena. Imediatamente percebi o fora que tinha dado, mas a besteira já estava feita. Minha chefe, que estava de lado, como se estivesse em um filme em câmera lenta, virou a cabeça na minha direção e levantou o mais alto que pôde a sobrancelha de apenas um dos olhos. Sobre sua cabeça surgiu instantaneamente um balão com uma enorme interrogação mãe, rodeadas por inúmeras "interrogaçõeszinhas" filhas, brincando de roda em volta da genitora. Aragon, coitado, um pouco tonto ainda, lentamente baixou a cabeça e levantou a camisa, dando uma averiguada em sua calça. Sou capaz de apostar que ele pensou que estava com o zíper aberto. Quanto a mim, não me contive, desabei numa crise de riso, sem conseguir pronunciar uma palavra que pudesse explicar o ocorrido. Cinicamente, a chefona ainda teve o desplante de perguntar:

- Vocês querem que eu saia?

Com uma amiga dessas, quem precisa de inimigos? Continuei tentando pronunciar alguma coisa que pudesse ser entendida, mas os risos não deixavam, saindo apenas palavras cortadas.

- Nã-nã-não! - Dizia eu enquanto apontava as mãos dele, mas acho que isso só fazia piorar tudo. Meu colega, sem entender nada e expressando um certo medo de mim, já dava alguns pequenos passos para trás. Por fim, ainda sem parar de rir, consegui falar:

- Eu estou falando dos dedos!

A chefinha saiu rindo e Aragon, assombrado pelo terror de ficar sozinho comigo, bateu em retirada com passos largos e apressados. Fiquei enxugando as lágrimas da crise de riso, mas ainda sem conseguir parar de rir. No carro, voltando para casa, ia pensando uma maneira de esclarecer o mal-entendido, antes que os demais técnicos do órgão, avisados sobre minha excêntrica curiosidade, viessem todos me falar sobre seus hábitos higiênicos e seus cortes de preferência.