segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Abismo de Lágrimas da Paixão - Capítulo 1 - A primeira novela Mexicana produzida na Bahia

Nota: todos os personagem e fatos desta novela são produtos de ficção e qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

Capítulo 1

Cena 1

Faziam uns 40 minutos que a menina andava pela mata sem se dar conta de sua localização. Perdida sim. Assustada nunca. A determinação era a mesma que a acompanhava em todas as suas ações. Mas, em La Província de Diepin dos Montes, um fim de mundo perdido ao norte do México, determinação e coragem não eram qualidades apreciadas em um ser humaninho do sexo feminino, mesmo sendo ela apenas uma pequena garotinha na graça de seus doze anos. Apesar da coragem para continuar, o sol começava a baixar e seus pensamentos lhe traíam conduzindo-a maliciosamente a fantasiosas imagens de SESABA.

SESABA era uma misteriosa entidade que assombrava Diepin dos Montes à gerações. Uma figura descrita das mais variadas formas, imprecisa, mas sempre impiedosa, a quem atribuíam várias mortes e sumiços não explicados de moradores da Província. Supostamente a entidade morava na Floresta Polititican, um bolsão de mata encravada no deserto árido do norte. A Floresta Polititican era conhecida por Floresta do Absurdo, pois impressionava pela imprevisibilidade e reviravoltas. Uma mata densa com árvores de médio e grande porte, características de vegetação tropical, que se misturava a cactos e vegetação arbustiva, típicas do clima seco e árido de La Província. A floresta tinha a propriedade de mudar completamente suas características, às vezes num ciclo inferior a dois anos. Era tão improvável que atraía pesquisadores de todo o mundo, bem como jornalistas, místicos e curandeiros.

Perambulando pela floresta, a pequena aos poucos percebeu que estava sendo seguida. Apressou o passo, começou a correr, mas o barulho parecia cada vez mais próximo, quando, do nada, vislumbrou uma gigantesca, feroz e assustadora Mucura. A Mucura arreganhou os seus dois únicos dentes de roedora descontrolada e levantou suas patas dianteiras alcançando quase 35 centímetros de altura, revelando também as garras afiadas. A pequena ofegante viu-se acuada, cercada de um lado por um nicho de densos arbustos e, do outro lado, por aquele animal insano, quando, quase que por encanto, entrou na sua frente, entre ela e a Mucura, aquela figura totalmente fora do contexto.

Era um menino franzino de aproximadamente treze anos, usando óculos e um traje bem almofadinha. Caminhava calmamente, munido de uma imensa lupa, absolutamente submerso na busca de sei lá o quê pelo chão da mata. Tão abstraído estava que não notou nem a menina, nem a Mucura, quando parou bem na frente da pequena.

Ele: - Oh! Perdón, não havia lhe visto. Buenas tardes señorita!
Ela: - Buenas tardes o cace...(Piiiiiiii), que espécie de maluco é você? Não vê que seremos atacados por aquele bicho?
Ele: - Qué pasa? De que bicho hablas?
Ela: - Daquele projeto de Demônio da Tasmânia. Tu, que és um chico, vas lá e acaba com o bicho de uma vez.

E a Mucura se aproximava ameaçadoramente.

Ele: Acabar com o bicho? No poderia jamais. Aquele animal é um inofensivo Gambá, popularmente chamado de Mucura. A mucura é um mamífero marsupial, assim como o canguru, pertencente à família Didelphidae,cujo nome científico é Didelphis sp. Habita as Américas desde o Canadá até o sul da Argentina. Sua presença na mata é fundamental para garantir...

Vapt!!! 

E a mucura voou caindo uns quatro metros distante, se levantou rapidinho e se picou no meio da mata. Enquanto o menino elucubrava sobre o fundamental papel da mucura na biodiversidade do bioma local, a menina achou um robusto galho caído no chão e mandou a ameaça para longe. Apesar de não aprovar a atitude dela, o menino encantou-se com a personalidade da pequena.

Quando voltou-se para ela novamente, seus olhos se cruzaram de forma curiosa e perturbadora. Foi como uma flecha quente e doce atravessando seus coraçõezinhos. Os dois se apaixonaram subitamente.

Ela: - Eu sou Marja. Marja Consuelo.
Ele: - Eu sou Felipe. Felipe Augusto. 

Cena 2

No retorno, Marja Consuelo logo que saiu da Floresta Polititican avistou na planície a fazenda de seu pai emoldurada pela luz do pôr do sol. A vista não era nenhuma novidade para ela, mas todas as vezes a paisagem lhe encantava. A Fazenda Directiva Harmoniosa era a mais bem sucedida propriedade rural da região. Um latifúndio cujos limites não podiam ser enquadrados pelos olhos. Grande produtora de gado, de bode e de avestruz. Seu pai, o Coronel Don José Anxieta Aguirré, era um eminente cidadão de La Província de Diepin dos Montes, que levava o comando da fazenda com rédeas curtas. Mas, diferente da maior parte dos fazendeiros da região, conseguia manter com seus empregados e colaboradores uma relação de respeito e harmonia.

A menina quando se aproximou, notou um movimento diferente na fazenda. Os cavalos estavam sendo atrelados à diligência para sair, e todos os empregados que passavam por ela baixavam o olhar demonstrando uma certa tristeza. Quando entrou na Casa Grande encontrou com sua prima Erla Joseane.  

Erla Joseane era filha de Dona Fátima Dolores Aguirré Munhoz, irmã de Don José Anxieta Aguirré. Fátima Dolores ficou viúva com a filha bebê, tendo logo se mudado para a fazenda para viver aos cuidados de seu irmão. Mesmo com os anos passados, ainda mantinha nos olhos o viço da juventude que abdicou para cuidar da filha, da sobrinha, do irmão e da casa na fazenda. As primas Erla Joseane e Marja Consuelo cresceram juntas, apesar da pouca afinidade.

Erla Joseane: - Marja Consuelo, su padre deseja hablar contigo.
Marja Consuelo: - Qué pasa prima? Donde vai a diligência?
Erla Joseane: - Melhor hablar con titio antes, no quiero estragar la gran surpresa. 

Cena 3

Toque, toque, toque. E Marja Consuelo abriu a porta do gabinete de seu pai.

Marja Consuelo: - Papa, posso entrar?
José Anxieta: - Si mi hija, por favor entre!
Marja Consuelo: - Quieres hablar comigo papa?
José Anxieta: - Si! Quiero que arrumes su mala ahora, vas viajar hoje para estudar no tradicional Colégio das Freiras dos Trabalhadores.
Marja Consuelo: - Mas como papa? Este colégio es na capital, tan lejos daqui. No posso ficar longe da fazenda.
José Anxieta: - Besteira! A fazenda vai seguir sem problemas, e usted, quando retornar, estará mais preparada para assumir o que é seu.
Marja Consuelo: - No papa, por favor. Posso estudiar aqui, sabes que me dedico. Encontraremos um tutor em La Província para que venha periodicamente me dar aulas.
José Anxieta: - Hija, deixe de tolices. O Colégio lhe preparará de uma forma que nenhum tutor na região poderia fazer.  Es fuerte, este tempo longe lhe fará bem. Ademais, sempre será minha hija preciosa. E eu já decidi. Partirá na diligência em quinze minutos. O trem para a capital não espera.
Marja Consuelo: - Quinze minutos? Este prazo es impossível. Por que não me avisou antes? Não tenho como planejar e preparar tudo neste prazo. A mala resultará um desastre. Por que és sempre assim?
José Anxieta: - No sei. Só sei que foi assim.

Cena 4

Marja Consuelo saiu descontrolada pela Casa Grande até o átrio. Sentou-se à beira da fonte luminosa e desatou a chorar. Nesta hora se aproximou Ivana Guadalupe.

Ivana Guadalupe Cervantes era cria da casa. Foi adotada por Don José Anxieta e sua falecida esposa quando tinha apenas cinco anos, e sempre foi um nó cego. Seus pais formavam um casal de famosos caçadores, conhecidos como "los Cervantes", os mais habilidosos e renomados caçadores do México, que foram atraídos para La Província de Diepin dos Montes pela fama de SESABA. Contudo, em Diepin dos Montes não tiveram tanta sorte. Entraram na Floresta Polititican munidos de armas, coragem e todas as preces empenhadas pelos moradores de La Província, que sofriam há anos com os ataques da entidade, mas não retornaram da mata. Seus corpos nunca foram achados. Ivana Guadalupe se lembrava de todo o acontecido e nutria em si um desejo seguro de tirar a limpo aquela história. Cresceu na Casa Grande entre a cozinha e a pouca atenção que recebia dos senhores, até que nasceu Marja Consuelo. Apesar da grande diferença de idade, as duas sempre foram amigas muito próximas.

Ivana Guadalupe: - Pepa - como Marja Consuelo era carinhosamente chamada na fazenda -, já sei que partes hoje para a Capital. Pero, no chores amiga! Passará rápido. Logo estarás de volta à fazenda.
Marja Consuelo: - No quero ir. Conheci hoje, na Floresta, um chico que capturou meu corazón. Logo ahora papa inventa isso. 
Ivana Guadalupe: - Um chico? Quien es?
Marja Consuelo: - Augusto. Felipe Augusto. Belo, forte, corajoso. Me salvou de um animal feroz na mata.
Ivana Guadalupe: - Que guapo! Es de alguma fazenda vizinha?
Marja Consuelo: - No sei dizer. Oh mi amiga, nunca mais voltarei a vê-lo. Sou tão infeliz.
Ivana Guadalupe: - Probezita!

Nessa hora Don José Anxieta apareceu na varanda do átrio e perguntou:

- E aí, já terminou a mala?

Ivana Guadalupe depois de consolar Marja Consuelo saiu para ver seus afazeres na cozinha. No caminho encontrou Erla Joseane.

Erla Joseane: - Ivana Guadalupe, - e jogou os cabelos para o lado - logo que Marja Consuelo por o pé fora da fazenda, quero que tires todas as suas tralhas de seu quarto e faça a mudança das minhas coisas para o quarto dela. Pegue tudo que for meu para arrumar no quarto de Marja Consuelo. As roupas, sapatos, chapéus, bolsas, joias, tudo enfim. Amanhã já quero amanhecer o dia no quarto novo. 
Ivana Guadalupe: - E por que eu faria isso? Você tem seu quarto, um quarto bom, na ala dos senhores.
Erla Joseane: - Mas usted es mesmo uma empregadinha jeca. O quarto de Marja Consuelo é bem maior e tem a melhor vista da Casa Grande. E sabe o que mais, o por quê não te interessa. Faça o que lhe mandei e acabou.
Ivana Guadalupe: - Sendo assim, faz você mesmo!

Ivana Guadalupe virou as costas e saiu. Erla Joseane ficou bufando de raiva e praguejando:

- Essa empregadinha só faz o que ela quer. Mas ela ainda vai se ver comigo. - e jogou os cabelos para o lado. 

Cena 5

Erla Joseane, ardilosa, foi ter com sua mãe. Encontrou Dona Fátima Dolores no salão de festas experimentando cortinas nas janelas. Dona Fátima Dolores era muito caprichosa com a decoração da fazenda. De três em três meses trocava as cortinas, as capas das almofadas, os tapetes e os arranjos das principais mesas e aparadores. A Fazenda Directiva Harmoniosa era conhecida na região por estampar sempre a mais nova tendência do Design Rural Mexicano.

Erla Joseane: - Madrezita, que cores lindas. A senhora sempre acerta nas combinações.
Fátima Dolores: - Hija querida, me ajudes. Qual preferes? A Marsala, a Orange new Black ou o Rosa Seco. Estoy torturada pela dúvida.
Erla Joseane: - No sei mama! A Orange new Black es alegre como tu sorriso e o Rosa Seco tem o tom de tuas faces. Contudo, acho que gosto mais da Marsala, porque é mais imponente.
Fátima Dolores: - É, você tem razão. A orange new black é a grande novidade da Tabela Pantone.
Erla Joseane: - Mama, usted sabe, Marja Consuelo partirá da fazenda sem data para voltar.
Fátima Dolores: - Si, sei! Coitadinha. Una chica tão delicada e tão longe dos cuidados da família. Me preocupo com ela. No faria isso com usted jamais.
Erla Joseane: - Si madre, também estou muy preocupada com ela e com su quarto.
Fátima Dolores: - Su quarto? Por que hija? 
Erla Joseane: - Veja bem mama,- jogando os cabelos para o lado - um quarto fechado por anos, sem ninguém usar, junta poeira, mofo, traças. Pode até criar ninhos de baratas e roedores. Estoy muy preocupada.
Fátima Dolores: - Si, minha bela, que problema monstro. O que podemos fazer sobre isso?
Erla Joseane: - Madre, pensei em me acomodar no quarto de Marja Consuelo enquanto ela estiver fora. Assim, posso cuidar de tudo para quando ela voltar encontrar seu quarto limpo e cheiroso. Para mi será terrível abandonar meus aposentos a ameaças de baratas e roedores, mas por mi prima faço qualquer sacrifício.
Fátima Dolores: - Serias capaz de fazer isso por su prima?
Erla Joseane: - Si madre! Acho que suportarei este fardo.
Fátima Dolores: - Hija amada, a nobreza de seu espírito me comove.

Erla Joseane saiu com o riso de canto de boca. Fátima Dolores ficou suspirando feliz e murmurando consigo.

- Como es boa essa chica. 
                                  
Cena 6

Ivana Guadalupe estava na cozinha lavando a louça do jantar quando ouviu distante o relinchar dos cavalos. Correu em disparada para a frente da fazenda. Ao chegar, a diligência já havia partido e ela só pode acenar de longe para Marja Consuelo.


- Vai em paz Pepa e não demores.

sábado, 3 de agosto de 2013

Qualidade do ar interno

Qualidade do Ar Interno, era o tema do seminário. É mais ou menos assim, aquele friozinho do ar climatizado, tão desejado para qualquer cidadão localizado entre a linha do equador e os trópicos, tem também seus efeitos colaterais indesejáveis, como o excesso de concentração de CO2 e o ressecamento do ar além do recomendado. O assunto está na pauta do dia, animado por princípios de qualidade ambiental e construção sustentável. Sendo assim, como profissional de arquitetura, me candidatei também.

Saí cedo para estar pontualmente às oito num hotel situado na orla, local do evento. Não consegui. Cheguei atrasada, correndo e um pouco perdida. Passei sem parar pela recepção do hotel perguntando:

- Onde é o seminário?
- O atendente da recepção respondeu apressado: - É no andar de baixo. É só descer as escadas.
- Obrigada!

Saindo das escadas encontrei um funcionário recolhendo o que parecia ter sido um café da manhã de recepção. Já fiquei "P" da vida por ter perdido a boca livre. Vi uma porta e entrei.

De cara levei um susto, era um seminário restrito. Haviam uns quinze gatos pintados, com fisionomias compenetradas, sentados em volta de uma mesa em forma de "U". O palestrante, um homem "elegantérrimo", bonito mesmo, fazia uma apresentação em PowerPoint com auxílio de Data Show. Que roubada, pensei. O tal homem parou de falar e perguntou:

- Você vai participar do evento?
- Respondi: - Sim, claro. Estou inscrita.

Chega pra lá, aperta um pouco e me acomodei numa cadeira, mas realmente fiquei constrangida. O público, mínimo, passou uns dez minutos, em revezamento, prestando mais atenção em mim do que no palestrante. Devia ser um grupo seleto, muito entendido em qualidade do ar interno. Pareciam não querer contribuição. Mas deixa comigo, vou me concentrar de um jeito que saio daqui expert.



E a apresentação foi desenrolando. Era tudo tão nebuloso, com minúcias biológicas. Que exagero! O nível era demasiadamente específico e começava a ver distanciar-se a tal expert. Me sentia a loura burra, sem imaginar como poderia aplicar alguma daquelas coisas num projeto de edificação. A atenção já ia longe, pensando: esse cara é um pedante, um gato, mas pedante. Deve estar todo mundo voando como eu. Até que comecei a captar alguma coisa e, então, era a minha deixa:



Palestrante: - ... como no papel da via condutora-alveolar na ventilação, tanto na entrada como na saída do ar.
Eu: - A via condutora-alveolar trabalha unicamente na ventilação? Quero dizer: com papel restrito à renovação do ar interno? Ou também trabalha na temperatura?
Palestrante: - Claro, interfere na temperatura, resfriando o sistema.
Eu: - Sendo assim, além de evitar as mudanças bruscas de trajeto e reforçar as soldas para favorecer a estanqueidade, acredito que a utilização de materiais isolantes na via condutora-alveolar deve ajudar também, conferindo maior eficiência ao sistema, não é? Neste caso, quais seriam os materiais mais indicados para essa função?
Palestrante: - Huuumm... - (pensativo) - Acredito que melhor seria prevenir para não precisar "emendas" ou "mudança de trajeto".
Eu: - Mas na prática isso é quase impossível, mesmo que o planejamento esteja redondinho. E você sabe, na hora de instalar, quem põe a mão na massa faz como quer.
Palestrante: (novamente pensativo) - ... É sem dúvida um ponto de vista interessante, mas vejo um pouco diferente. Para quem "põe a mão na massa", existem os protocolos cirúrgicos, além disso, a medicina preventiva tem evoluído muito, reduzindo a necessidade das interferências traumáticas, e nós, médicos, temos o compromisso de fomentar esse movimento.
Eu: - .............................????? - (com meio metro de queixo arrastando na mesa).

Nós médicos?! Nós quem, cara pálida? Estiquei o olho nos papéis da mulher sentada ao lado e dei um zum de fazer inveja a qualquer teleobjetiva, quando li em letras maiúsculas garrafais: NÚCLEO DE PNEUMOLOGIA DO HOSPITAL SÃO RAFAEL.

Como é que é? Pneumologia? Ai meu Deus, alguém me tira daqui! O seminário também era sobre "qualidade do ar interno", só que bem interno, precisamente do pulmão.

Plano "A": sair correndo. Considerei a chance de me bater outra vez com alguma daquelas figuras ou, pior, precisar de seus préstimos profissionais. Descartei a alternativa. Plano "B": acionar a chamada falsa do celular e sair para atender. Fala sério, é muita falta de educação ir para um evento como aquele e não desligar o celular. Posso passar por doida, mas por mal educada não. Plano "C": fingir um desmaio, mas como eram pneumologistas convictos, ainda era capaz de alguém inventar de fazer em mim uma respiração boca a boca. Se pelo menos fosse o palestrante...

Abandonei todos os planos de jerico e comecei a tossir. Uma tosse forçada, horrível, mas não tinha outro jeito, a encenação "meia boca" seria minha passagem para a liberdade. Ia tossir até minha presença ser incompatível com a continuidade da palestra. Deu até dó, eles ficaram tão preocupados e solícitos. Tirando o fato de estarem no lugar errado, na hora errada, até que eram gente boa. Pedi licença, quase sem conseguir falar (tudo fingimento) e saí. Quando passei da porta peguei uma carreira digna de São Silvestre, para não correr o risco de ver mais ninguém, e fui tirar satisfações com a recepção.

- Mas como pode? O convite está claro, é este hotel, esse dia, essa hora, vocês fizeram a maior confusão.
- O recepcionista: - Minha senhora, eu sinto muito, mas só está agendado aquele evento para hoje.
- Não é possível! Que desorganização!
- A senhora pode falar com o setor de organização de eventos para saber o que aconteceu.

- Claro, eu não ia deixar por menos. Fui falar com o setor de eventos. Queria saber do meu seminário. Chegando lá contei o que estava acontecendo. Obviamente não falei nada sobre meu breve curso de pneumologia, só cobrei explicações e providências. A moça que me atendeu parecia uma estagiária, tão meiguinha. Lendo meu convite, falou calmamente:

- É, a senhora tem razão, o evento é aqui no hotel.
- Eu não disse?
- O dia é esse mesmo.
- Você está vendo?
- Mas é do mês que vem.
- Como assim?

Ainda estou pensando até hoje se terei coragem de voltar no próximo mês para participar do seminário. Talvez se cortar o cabelo, pintar de outra cor, usar um chapéu, possa passar sem ser reconhecida.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

TPM



- Cachorrinhos lindos! Bom dia meus amores! Hã?!?.... Bom dia? O que é isso garota? Bom dia coisa nenhuma! Estou menstruada e tenho que estar espumando de TPM. "Cadê" menina? "Cadê" esses hormônios? Eeeei, tem alguém aí dentro

E assim ela tentava afastar o complexo que a assombrava há muitos anos: a não experiência da TPM.

- Vamos lá! Vamos lá! - Depois de uma compacta e poderosa mentalização, ela conseguiu encarnar a Bruxa de Blair. - Agora estou oficialmente de TPM. Me aguentem! - Logo que saiu cruzou com o vizinho e ...

Vizinho (sorrindo): - Bom dia vizinha!
Ela (secamente): - Só se for para você!
Vizinho: - ???????

No trânsito fechou carros, avançou um sinal, xingou motorista de taxi e não deu passagem para nenhum mísero pedestre. Tudo estava dando supercerto.
Entrando no trabalho...

Secretária: - Bom dia!
Ela: - Não estou para conversa hoje. - E orgulhosa complementou: - TPM!

9h, 10h, 10h30 e nada. Nenhum telefonema, nenhuma visita, nenhuma colega de trabalho para jogar conversa fora. Impaciente, ligou para a secretária.

- Norma, o que foi que aconteceu? O mundo acabou e ninguém ma avisou?!?
- A senhora disse que não queria falar com ninguém. TPM, lembra?
- Ô Norrrma, se eu não falar com ninguém, como vou demonstrar minha TPM? Pega esse telefone que Graham Bell teve o maior trabalho para inventar e liga para todo mundo. Eu disse todo mundo! Quero reuniões intermináveis, visita de representantes, a moça do cafezinho, gente tentando vender o que não me serve para nada. Eu quero uma multidão aqui e agora!

Vendo a confusão, a amiga que fica numa mesa próxima vai até a sua mesa, senta-se e pergunta:

- Qual é o seu problema?
- Problema? Nenhum! Eu só estou com TPM.
- Você não tem TPM.
- Eu sou uma mulher e tenho direito de ter TPM.
- Direito você tem, o que você não tem é a TPM. Não tem TPM, não tem cólica, não tem enxaquecas pré-menstruais. Na gravidez não teve enjoou, inchaço, desejo, nem depressão pós-parto.
- Que maravilha! Falta dizer que não tenho estrogênio, ovário, útero, que minha barba está bem feita e meu pênis tem um tamanho invejável.
- A amiga rindo: - Tente ver pelo lado positivo, querida. Se assim for, segundo o IBGE, como macho você tem grandes chances de ter um salário maior que o meu.
- Escuta aqui: não é porque você é minha amiga e porque lhe conto coisas íntimas, que te dou o direito de duvidar da legitimidade da minha TPM. Ó, e quer saber? Eu não tenho mesmo, não tenho nada, mas sou mulherrrr - segurando os peitos - e posso mensalmente encenar uma TPM bem convincente. Melhor que isso, posso encenar uma TPM descompensada, insana e muito perigosa. Se não gostar, me processe.
- Vou pensar no assunto! 

E a amiga saiu sem dar a menor moral para ela. Ela, por sua vez, embarcou em suas próprias palavras e imaginou-se perante um tribunal de júri onde, chorando emocionada, pressionada pelo promotor implacável, enfim confessa desesperada:

- Sim, eu confesso, mas não fui eu, foi a TPM! A TPM!

O advogado de defesa alega insanidade temporária. O júri, 90% de mulheres, se identifica com infortúnio e o juiz, que tem mulher em casa, profere o veredicto:

- No ato do crime a ré não gozava plenamente de suas faculdades mentais. Portanto, este tribunal considera a ré inocente. Você está livre minha filha, pode ir.

Abrem-se as portas do imponente prédio do Tribunal de Justiça. Os repórteres, aglomerados na escadaria, disputam a cotoveladas uma declaração sua. Quando, então, um microfone alcança seus lábios, ela, aliviada, serena, e totalmente realizada, declara:

- Foi a TPM!

domingo, 20 de novembro de 2011

Pé na estrada de coração aberto

 Nesse fim de semana um amigo, que teve recentemente a oportunidade de viajar durante um mês pela Índia, me falou encantado sobre sua aventura. Não se esquivou de falar da pobreza, dos contrastes sociais, do caos urbano e dos pedintes. Sim, ele esteve lá e viu tudo isso. Mas a questão toda é essa: ele enxergou as pessoas, a cultura, o país, no sentido mais amplo que se pode conceder ao verbo "enxergar". Com doçura e generosidade, me falou da receptividade indiana, do convívio com a família onde esteve alojado, da espiritualidade que ameniza as adversidades e torna a vida mais leve. Ele estava tão feliz em seus relatos que se esqueceu de falar dos monumentos de Jaipur e do esplendor do Taj Mahal. Acho que visitou essas atrações turísticas, mas parece que não foi o que mais lhe valeu em suas caminhadas.

Há muito tempo que esse tipo de percepção, dom ou, talvez, somente bom senso, que alguns trazem consigo e outros tantos viverão a vida inteira sem ter ideia do que seja, me desperta a atenção. Bom senso porque, no mínimo, mesmo que você tenha ganho de forma fabulosa toda a sua viagem num sorteio ou bingo, você está gastando nela um artigo que não se compra e que não volta atrás: o tempo. O seu precioso tempo. Sobre ele, só lhe cabe decidir se vai usá-lo bem ou mal, se vai se divertir ou se chatear, se vai crescer, expandir sua visão e horizontes ou se vai se entediar e só deixar o tempo passar. 

Talvez tenha atentado para isso em função do lugar de onde vim. Eu cresci no estado do Pará, cidade de Belém, considerada a metrópole da Amazônia, mas já estou há mais de dez anos morando longe do Estado. Minha origem geográfica quase sempre desperta muito interesse e curiosidade.  A vastidão de nosso país e as atraentes promoções turísticas para os destinos internacionais mais tradicionais, ou comerciais, deixam a Amazônia no fim da lista de "lugares a conhecer" de quase todas as pessoas, se é que ela consta na lista. Sendo assim, o norte do Brasil é um mistério para a grande maioria. As perguntas são as mais variadas, às vezes generalistas, algumas mais específicas e outras bem absurdas. Pessoalmente, tenho o maior prazer em falar de minha terra, mas devo confessar, não é para todo mundo. 

Belém é uma cidade sui generis que já completou trezentos e noventa e cinco anos de fundação. Uma aglomeração urbana às margens do rio Guamá e baía do Guajará. Quase uma península fluvial. Todos os dias desembarcam no cais do Ver-o-Peso as mais diversas iguarias trazidas de ilhas que rodeiam a capital, lugares que conservam a mata densa e exuberante. A metrópole tem uma história forte, com todos os ingredientes da colonização brasileira. Lutas sangrentas entre colonizadores e índios, missões religiosas, escravização africana e a cabanagem - uma das três maiores revoltas populares da história do país. Teve também os grandes ciclos de prosperidade, como o da borracha, que levou à cidade riqueza, cultura e um certo delírio de europeização, lhe conferindo no período o título de Paris n’América. O clima é quente e úmido; os paraenses são receptivos e muito dançantes; a arquitetura histórica é diversa e abundante; as frutas são exóticas; e a culinária, com influência indígena, é capaz de encantar qualquer gourmet. Resumindo, a história, a cultura e o patrimônio natural são enormemente ricos. Todos esses elementos estão ali, na cidade, impressos na paisagem urbana. Estão nas nuances dos tons de pele, no cheiro da comida, no movimento das águas, no frescor das sombras das mangueiras, mas, tem que se dispor a enxergar a cidade. Tem que cheirar, sentir, ouvir e ler nas entrelinhas o que não está explícito. Não é para qualquer um. Ah sim, claro! Ela tem um monte de problemas, não tenha dúvidas, e não os esconde. Belém transpira sua identidade, com qualidades e mazelas, para quem quer realmente conhecê-la. E para quem quer, pode crer, é um encontro especial.

Parece bairrista. Pode ser, mas essa mesma disposição me acompanha nas mais diversas trips. Claro, nem todas me comovem, por maior que seja meu esforço de respirar o lugar, mas com freqüência tenho boas coisas para contar, e não preciso nem ir muito longe pra isso. Um bom exemplo são minhas andadas pela Bahia. Em função do meu trabalho, às vezes preciso viajar pelo interior do estado, muito de carro. Em algumas situações são cidades com certo porte, em outras são lugares que escaparam de povoado. Por mais singela que seja a contribuição da excursão, quase sempre o saldo é positivo. Além disso, vamos combinar, que delícia são aquelas feirinhas de beira de estrada, com artesanato, frutas do local e especialidades que você só encontra com aquela qualidade e aquele preço ali, só ali. Sem falar, é claro, dos comerciantes, que tratam você como o evento do dia.

Uma viagem pode ter diferentes motivações. Pode ser planejada ou improvisada, ser um sonho acalentado há anos ou um árduo compromisso. Pode-se ir longe ou aqui do lado. Às vezes é uma fuga emocional, e sendo assim, pode não cumprir muito bem sua função. Pode transcorrer sem quaisquer sobressaltos ou ter imprevistos diplomáticos, dissabores de fuso, de clima, altitude, idioma, cultura. Seja como for, quase sempre é um ato voluntário e dispendioso, que pode ser melhor vivenciado se reduzirmos a bagagem. Não falo de malas, cada um sabe de suas necessidades. Falo da bagagem das idéias pré-concebidas, dum formato muito rígido do que esperamos encontrar e experimentar. Não dá para aventurar-se pelo mundo procurando em todos os lugares as nossas próprias projeções. A viagem pode até cumprir com louvor todos os propósitos pré-determinados, mas é muito bom estar livre de grilhões para flexibilizar, se necessário for, esses tais propósitos durante o trajeto, e permitir-se encantar com as surpresas que quase sempre nos esperam quando saímos de casa e colocamos o pé na estrada de coração aberto.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ai se eu te pego, ai, ai





Ai se eu te pego, ai, ai. Se te pego preparava quitutes ou pedia um delivery, mas serviria numa mesa lindamente iluminada a luz de velas, só para te impressionar. Me ofereceria em pessoa como bandeja de sushi, ou toparia rapar junto um tacho de brigadeiro. Engordava dez quilos, emagrecia vinte, se preciso fosse. Desvendaria a astrologia, a física quântica, o mercado de ações, a política econômica do governo. Falaria doce como um doce de cupuaçu. Só pegaria no violão para te cantar. Cantava baixinho, no pé do teu ouvido, músicas que falassem de amor, do meu amor por ti. Chorava sem ter porquê. Riria pelo mesmo motivo. Dançaria contigo, dançaria para ti. Talvez até acordasse cedo, bem cedo, para ver-te sob a luz dos primeiros raios de sol.
Ai se te pego. Aprenderia a contar piadas para te arrancar risos. Parava de fumar, e para ter algum sacrifício nisso, até começaria a fumar. Te calçaria um patins pra ver-te cambaleando pedindo o meu apoio ou fingiria eu cambalear para pedir o teu. Nos dias de loucura, te amarrava no pé da cama para ter certeza de que não fugiria. Ai se te pego, pegaria com cuidado cirúrgico, para sentir a pressão e a temperatura de cada centímetro. Sem pressa, ou com pressa. De um jeito ou de outro, ai se te pego.

Um dia desses me deparei com escritos de Vinícius e adivinhem? Era sobre uma dona, sobre uma bela dona, um doce amor. Mas sendo Vinícius, sobre o que mais poderia ser? O texto dedicado a uma amiga tinha mais ou menos a forma de um brainstorm de delírios amorosos, desfilando as cândidas ou tórridas intenções, aparentemente frustradas, sempre iniciadas por "se fosses louca por mim". Quando li, pensei comigo: - espera aí, eu também tenho um amigo assim, e ai se eu te pego.


Mas eu não pego, e se não o pego, não sei se me serve outro alguém. Chego a pensar que nem de longe ele desconfia de tamanhas pretensões. Ou talvez desconfie, quem sabe tenha até certeza de minhas sórdidas intenções não reveladas, veladas numa timidez que me paralisa ou na total falta de oportunidade de encontros tão casuais, quanto breves. Para minha tortura, o excomungado passeia impune, com o ar displicente que somente os inocentes conseguem ter. Quando fala, tem aquela voz grave e calma que tritura os meus sentidos. Quando ri mostra os dentes. Para quê mesmo uma pessoa tem tantos dentes? Tantos dentes lindos devem ser para mastigar minha paz. Tudo bem, mastigue, mastigue vagarosamente e se delicie, e com licença ao escritor dândi, se você não demorar muito posso esperá-lo por toda a minha vida, tenho mesmo muito tempo. E assim vou ficando, de longe, e de longe imaginando: ai se te pego, ai, ai.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Serviços de cuidadora Kung Fu






Whooooau! I feel good, I knew that i would now.
I feel good, I knew that I would now.
So good, so good, Igot you.

Cantou o despertador tentando me convencer que eu estava animadíssima em acordar às cinco e meia da manhã. Tudo bem, a história era mais ou menos a seguinte.

Minha amiga Alida seria operada aquela manhã do outro lado da cidade e eu iria acompanhá-la. Não estava fazendo isso só porque há dois anos ela havia feito exatamente o mesmo por mim, mas, sobretudo, porque ela é uma grande amiga. Além disso, a danada tinha me feito uma proposta indecente do tipo “nós somos liberadas do hospital meio dia e você ganha atestado para o dia inteiro”. - Feito, “tô” dentro!

Saí de casa pouco depois das seis, peguei Alida e, como havia sido marcado, às sete horas em ponto nós estávamos na porta do hospital. Entramos, nos identificamos e ficamos esperando o atendimento. O hospital, do tipo day hospital, era um brinco: claro, espaçoso, limpo, bem decorado, café expresso, TV a cabo e aqueles lanchinhos de máquina. Era um pouco frio, mas em Salvador isso é uma qualidade maravilhosa. Aquilo ia ser uma moleza, um dia de lazer no meio da semana. Sete e dez, sete e vinte, sete e meia e nada. Ninguém nem olhou para nossa cara inchada de sono. Admito que não era exatamente uma bela visão, mas espera aí, por que mesmo que mandaram a gente estar aqui as sete? Finalmente, sete e trinta e cinco chamaram Alida e começaram o atendimento.

Mandaram a gente para um apartamento bem pequenininho, para ser mais exata: minúsculo. Enquanto a enfermeira preparava Alida, a pré-operada relacionava as minhas inúmeras possibilidades para aquela manhã.

- Você pode ler, dar uma volta no hospital, assistir TV na sala de espera, conversar com as enfermeiras...
E eu pensando: - Meu Deus, isso é praticamente um Resort.

E Alida continuava: - ...e ainda pode deitar aqui na cama e dormir até eu chegar.

Nessa hora a enfermeira muito sisuda deu um salto e disse:

- Não pode! A cama tem uma assepsia de preparação para receber o paciente. O acompanhante não pode deitar de jeito nenhum.

Me assustei com tanta inflexibilidade e fiquei conversando com meus botões: - Tudo bem, não “tô” nem fazendo questão dessa cama dura mesmo. Fica com ela pra você.

Prepararam Alida e pouco antes das nove levaram minha amiga para a sala de cirurgia. Sentei na cadeira, fiz um pensamento positivo para ela, abri o livro e comecei a ler. Li, li bastante. Depois de um tempo me arrumei de lado na cadeira, ajeitei a posição e continuei lendo. Li mais um bocado e virei para o outro lado na cadeira. Li mais um tanto e a bunda já pedia socorro, sem contar o ar condicionado que, cá pra nós, devia estar meio desregulado, aquele frio não era normal.  Escorreguei o quadril no assento na esperança vã de, talvez, aquela peça de mobiliário insensível se compadecesse de mim e, milagrosamente, reclinasse o encosto. Mas não aconteceu. Também já me incomodava todo aquele tempo com os pés para baixo. Dei uma olhada para a cama e na mesma hora desviei o olhar. Nem pensar garota, lembra da assepsia da cama e da saúde de sua amiga, isso sem falar na enfermeira nazista. Olhei de novo e na mesma hora esqueci todos os pensamentos anteriores e só imaginei o conforto de minhas pernas para cima descansando sobre aquele colchão macio. Acho que não tem problema colocar os pés aqui no cantinho. Botei as pranchas sobre a cama, relaxei e continuei minha leitura. Mas não demorou muito e começou o outro tormento. O frio era insuportável. Eu não tinha idéia que esse hospital funcionava como frigorífico clandestino nas horas vagas. O tempo passou e a posição estava confortável, mas não conseguia me concentrar na leitura porque o barulho do meu maxilar batendo de frio era ensurdecedor. Vou reclamar! Não, não vou reclamar! Será que o convite informava que o traje era esquimó completo? Eu não li. Levantei e comecei a investigar tudo no quarto, o objetivo era me movimentar. Abri o pequeno armário, estudei os objetos, a estrutura da cama, o controle das funções da cama e, quando não tinha mais nada para fazer, fui tomar um café lá fora.

Voltei para o quarto e comecei a ler novamente com as pernas para cima. Aproximadamente onze e meia alguém mexeu na porta e eu dei um pulo em pé, morrendo de medo que a enfermeira fundamentalista islâmica me visse toda espalhada com os pés na cama. Mas não, era o médico. O Doutor era um velho conhecido, o mesmo que me operou dois anos antes e namorado de outra amiga. Conversamos e ele me deu excelentes notícias sobre a cirurgia. Logo Alida estaria no quarto (e eu pensando: nada de perna para cima de novo). Continuando, ele informou que entre doze e doze e trinta nós estaríamos liberadas. Liguei para os pais de Alida e tranqüilizei-os, tudo estava dentro dos conformes.

Meio dia trouxeram a operada para o quarto. Ela estava bem, com boa aparência. Um pouco pálida, talvez, os lábios brancos, tinha uma touca na cabeça, usava aquelas batas de hospital e tinha nas pernas, operadas e rígidas, mais atadura que a mais caprichada múmia da dinastia de Tutankamon. É, pensando melhor, não tinha boa aparência. Mas isso não era o mais importante, a cirurgia tinha sido um sucesso. Estava acordada, mas um pouco grog ainda pelo efeito da anestesia. Então, perguntei:

- Como você está?

- Ela balbuciou algumas palavras dizendo: - ... ... ... ...!!

Não tenho idéia do que ela disse, mas não importa. Alida aos poucos foi recobrando a consciência e melhorando um pouco a fala. Logo depois entrou outra enfermeira, perguntou tudo, explicou tudo e no final saiu com a pérola:

- Entre três e três e meia o anestesista deve passar aqui para liberar vocês.

Pensei: - Ei, espera aí! Como assim “três e meia”? E toda aquela conversa de meio dia livre com atestado para o dia todo?

Com toda a tranqüilidade argumentei: - Mas o médico esteve aqui e disse que até meio dia e trinta estaríamos saindo.

E a enfermeira respondeu: - Mas quem libera é o anestesista, quando termina o efeito da anestesia.

Que ótimo, pela articulação da fala de Alida até meia noite a gente está em casa com certeza. A enfermeira saiu e eu não conseguia mais ficar sentada e não conseguia mais ler nem uma placa de trânsito. O que eu poderia fazer para passar o tempo? Pensa, pensa. Claro! Eu estava numa fase super puxada no treino de Kung fu, me preparando para o exame de faixa, tentando treinar todos os dias. Aquele lugar era perfeito para praticar. Afastei os móveis para abrir espaço e comuniquei para Alida minha intenção. Ela arregalou um par de olhos imensos e tentou levantar o tronco, parecia mesmo entusiasmada. Então ela começou a falar gesticulando numa linguagem toda enrolada um monte de palavras que não entendi, mas tenho certeza que era qualquer coisa tipo “ótima idéia” ou talvez “que bom, vai ser maravilhoso para a gente se distrair”. Sendo assim, comecei a treinar.

Iniciei com as defesas pessoais, passei para golpes e depois para o kati, que no Kung fu é o equivalente ao kata do Karatê. O kati tem que ser perfeito: técnico, plástico, cheio de energia. Reduzi o espaço das movimentações, mas tentava fazer os golpes corretamente. Ha! Siki! Ik! Que são os Kiais, aqueles gritos que a gente solta junto com os golpes. Acho que Alida estava empolgadíssima, porque ela não parava de se mexer a cada movimento mais brusco meu e falar sem parar coisas que eu não entendia. Até que Ha! Acertei o soro de Alida, que ficou balançando para um lado e outro puxando a agulha que estava enfiada no seu braço. Com o barulho que fez e o grito que Alida soltou, a primeira coisa que pensei foi na enfermeira bisneta de Conan, o bárbaro. Imaginei ela entrando pela porta com uma espada para me fatiar em centenas de pedaços. Depois lembrei que, talvez, Alida precisasse de socorro. Será que ela está bem? Tirando a poça de soro que fez embaixo do acesso da agulha e o fato dela estar um pouco mais pálida e quase sem sentidos, tudo parecia estar normal. Mas, por via das dúvidas, suspendi o treino.

Fomos liberadas às duas e meia, não sei por que. Levei Alida para casa e saí com a sensação de dever cumprido. Tudo havia sido perfeito. Quando cheguei em casa já eram quatro da tarde e eu estava quebrada daquela cadeira dura, de modo que não pude curtir muito as duas horas livres que me sobraram. Quanto a Alida, ela saiu com atestado para quinze dias, mas já têm uns vinte dias que ela operou e ainda não voltou para o trabalho. Tenho pensado em passar uma dessas tardes com ela, para distraí-la, acho que ela vai gostar.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Amigo é tudo


Rômulo: - Você está com alguém?

Lana: - Mais ou menos!

Lise: - Como é mais ou menos? O cara é mais ou menos? Os pegas são mais ou menos? Às vezes vocês estão mais, à vezes menos?

Lana: - Mais ou menos é "mais ou menos". Ó, quer saber, não vou dizer, não interessa pra vocês!

Mas eles - Lise e Rômulo - estavam determinados a saber da vida de Lana, dar opinião, encher o saco. É verdade, havia um "Q" de preocupação, de real interesse pelo bem estar da amiga que havia saído de um namoro longo há poucos meses e andava um pouco errante pelo caminho. Algo em torno 15% de preocupação sincera. Os outros 85% era pura falta de assunto, busca incansável por matéria de pirraça, procura frenética por um bom motivo para tirar sarro o resto do dia. No ambiente de trabalho, Lana estava sentada trabalhando no computador, rodeada pelos dois inquisidores que permaneciam em pé, numa posição ostensivamente intimidadora.

Rômulo: - "Tá" ou não "tá"? Ele é o quê? É um peguete?

Lana: - Nós estamos nos conhecendo, saindo para conversar, só isso.

Lise: - Saindo para conversar? Conversar o quê? Que tanto de conversa é essa? Isso é realmente uma coisa bem mais ou menos.
Lana: - Pode esquecer, não vou dar informações. Não passo recibo de jeito nenhum.

Rômulo: - E qual é o nome dele?

Lana: - Não vou dizer!

Lise: - Então a gente conhece.

Lana: - Não, não conhece.

Rômulo: - Então por que não diz?

Lana: - Porque eu não quero!

Lise: - Humm... grrrrrooooossssa! Mas, o que ele faz?

Lana: - Não vou dizer.

Rômulo: - Então ele não faz nada, é vagal, vagabundo mesmo.

Lise: - Pode ser que ele viva de renda ou more com a mãe.

Lana: - Nada a ver, eu só não quero falar.

Rômulo: - Porque boa coisa não é.

Lana: - Êêêê porre!

Lise: - Ele é um porre? Ele toma porre? Amiga, alcoólatra não!

Lana: - Não, porre são vocês, ele é arquiteto, "tá" bom?

Rômulo: - "Tá" médio! Nós somos do ramo e bem sabemos que arquiteto não é lá essas coisas.

Lise: - E o nome, como é?

Lana: - Já falei demais.

Lise: - Então o cara é velho demais, ou novo demais, ou é casado, ou pior, é ex-gay.

Lana: - Ou talvez eu seja reservada, ou não queira estampar minha vida num outdoor, ou simplesmente não quero colocar o assunto em pauta.

Rômulo: - Se não tem nada pra esconder, qual é o problema? A menos que tenha pra esconder.

Lana: - O nome dele é Nel.

Rômulo: - Nel? O que é Nel? Nel não é nada. Não é nome, não é título. Pelo amor de Deus, isso é o quê? Ajuda, vai? Nel de quê?

Lana: - Nel é apelido.

Lise: - Huuummm... vamos tentar. Nel arquiteto... arquiteto Nel.... Ele faz projeto? Constrói? Trabalha com arquitetura de interior? Se for arquitetura de interior, não dá outra, o pitbull é Lassie. Olha, não estou lembrando de nenhum arquiteto "Nel" na cidade. Diz logo, qual é o ramo da arquitetura que ele atua?

Lana: - A formação dele é arquitetura, mas na verdade ele trabalha como artista plástico.

Rômulo: - AR-TIS-TA-PLÁS-TI-CO? Fala sério! Isso é profissão?

Lana: - Meu Deus, nem parece que estou conversando com duas pessoas de nível superior e razoavelmente, quero dizer, bem "razoavelmente" cultas. Artista plástico é profissão sim, e ele tem muito trabalho.

Lise: - "Nel artista plástico", ainda não disse nada. O nome, diz o nome do Michelangelo!

Lana: - Para me livrar de vocês eu estou fazendo qualquer coisa. É Nel, Nelmar Forte.

Em menos de dois segundos os curiosos estavam sentados, cada um em um computador, investigando a vida do pretendente. Mais dez minutos e o relatório estava pronto. Levantaram no Google o nome completo, filiação, cidade de origem, endereço residencial e comercial, marca e ano do carro, todas as exposições e premiações dos últimos cinco anos e todas as inserções na mídia falada, escrita e "internáutica". Investigaram nas redes sociais os amigos e, por fim, descobriram um site que promovia seus workshops. Migraram para o Excel e organizaram uma planilha detalhada de quantos alunos por workshop e quantos workshops por mês o sujeito precisaria fazer para sustentar uma família de pai (o artista plástico), mãe (Lana), uma criança (que ela já tinha), dois jovens (filhos dele) e mais uma prole de uns dois pimpolhos que eles, juntos, providenciariam. Soma, divide, “noves fora” cai seis, passa oito e o resultado foi... satisfatório. O rendimento era suficiente para manter um bom padrão de vida para a grande família.

Rômulo e Lise: - Aprovado!

E Lana só pôde constatar: "amigo é tudo".

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Milagre da Reprodução





Muito bem, agora chegou minha hora e minha vez de contribuir de forma definitiva com a ciência, ampliando possibilidades para as teorias da "Geração Espontânea" e da "Origem das Espécies". Primeiramente devo informar que isso não nasceu numa vontade repentina e irresistível de escrever meu nome entre os grandes vultos da ciência. Não, não fiz planos, não tinha pretensões, mas de repente, não mais que de repente, a sorte me sorriu e me deu de presente a chance de observar bem debaixo do meu nariz a vida surgir e multiplicar-se sem pedir licença.


O local foi o mais improvável possível: um departamento de projetos, com muitos computadores, algumas pranchetas, mesas e bastante papéis, como um ambiente de escritório, inóspito para o delicado florescer da vida. Trabalho lá. Na rotina diária, além do desenvolvimento de projetos, está o despacho de processos, o envio de CIs (Comunicações Internas), a resposta a ofícios, a troca de mensagens e arquivos via e-mail. Um sobrepor de atividades que envolvem muitas folhas de celulose. Minha mesa nunca foi um exemplo de organização, longe disso. Os papéis vão se acumulando na ordem dos mais urgentes ou importantes para os menos, até o dia que a situação fica insustentável e tenho que tomar uma atitude corajosa: arrumar a mesa. Foi logo após um desses raros momentos de coragem que algo chamou minha atenção.



As pilhas de papéis ficavam organizadas por categorias, um montinho só de processos, outro só de projetos, outro que agrupava CIs e ofícios, e outro unindo relatórios e notas técnicas. Nitidamente, de um dia para o outro, aparentemente durante a noite, os grupos que eram organizados com apenas uma categoria de documento permaneciam inertes, enquanto que os grupos que juntavam duas categorias cresciam a olhos nus. Estranhei, mas minha formação cartesiana não podia ficar somente no “achismo”. No fim do dia me posicionei em frente à mesa com o celular e, enquanto simulava fazer uma ligação, fotografei discretamente as pilhas de papéis de vários ângulos, sem que elas se dessem conta. No dia seguinte, cedo, logo quando cheguei, repeti as fotos. Fui para o computador, calibrei a escala das fotos e medi pilha por pilha. Não deu outra, os montes cresceram em média doze milímetros durante apenas uma noite.



Aquele fenômeno que acontecia sobre a minha tutela me tirou as noites. Tinha que haver uma explicação para tal aberração. Passada a inicial confusão mental fui me consultar com os moderninhos pais dos burros, o casal Wikipédia e Google, mas ainda estava muito raso. Parti para as revistas científicas e os clássicos da literatura especializada, passeando por Darwin, e então as coisas começaram a fazer sentido.


Identifiquei que as pilhas que cresciam uniam sempre documentos do gênero masculino - reprodutores - a documentos do gênero feminino - matrizes. Ou seja, o ofício à CI, o relatório à nota técnica, e assim por diante. Bastante sugestivo. A primeira providência foi separar por gênero. Não se tratava de um ato de repressão ao amor livre, mas uma etapa de verificação de possibilidades num estudo científico, com algum prejuízo para as partes envolvidas, admito. Durante uma semana a interferência surtiu nítido efeito, o acúmulo da papelada não aumentou mais do que o normal esperado pela produção do trabalho. Na segunda semana três ocorrências puderam ser notadas. Número um: a movimentação dos documentos, com troca de posições e aproximação dos gêneros. Número dois: onde não havia possibilidade de aproximação entre os dois gêneros, iniciou-se um processo de auto fecundação com o gradual desenvolvimento do hermafroditismo. Número três: o retorno gradual do aumento das pilhas. Era a vida procurando seus meios. Numa ação mais insensata, fiquei até mais tarde no trabalho e na hora de fecharem a empresa me escondi entre mesas e cadeiras para observar durante a noite. Até altas horas estava tudo um marasmo tão grande que acabei cochilando. Lá pelas quatro da madrugada acordei com um ki-ki-ki, ká-ká-ká geral. Os documentos conversavam, sussurravam e riam entre si, como uma festinha em petit comité. Quando começou a fase do roça-roça e do nheco-nheco catei minha bolsa e parti a mil. Curiosidade científica tem limite, já tinha visto o necessário.


Não havia mais dúvida, o chamego entre seres aparentemente inanimados era, sim, bastante animado. Enfim encontramos a verdadeira razão para o amontoado de papéis na minha mesa. E eu, que durante tanto tempo fui difamada e injustamente rotulada como desorganizada, malucada e descabelada enquanto tentava me achar nos tortuosos caminhos do meu canto de trabalho. Mas a redenção chegou e da escuridão da incompreensão saí para a luz do reconhecimento de minha significativa contribuição para a ciência. Não, não, não quero louros, quero apenas gozar da paz da certeza que só cumpri com o meu dever: observei, registrei e relato aqui, agora, para o mundo, mais um capítulo do maravilhoso milagre da reprodução.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Panndora Surfistinha





Definitivamente estou no ramo errado. Enquanto o blog da Panndora tem uns trinta visitantes por mês e em média três ou quatro comentários, o blog da Bruna Surfistinha batia fácil quase duas mil visitas e comentários em poucos dias. O quê que ela tem que eu não tenho? Não responda! Eu mesma sou capaz de imaginar uma lista de atributos que a garota tem com os quais não fui agraciada pela natureza. Mas não é só isso, tem um ingrediente a mais. A primeira vista a pimenta neste caso parece ser o tema central do blog. Um tema excitante, estimulante, perturbador, quente, provocante, ardente, condimentado, incendiador, "tá" bom, "tá" bom, me empolguei. Recompondo-me, o papo que rolava era sexo, não sei se "do bom" ou se "do bem", mas era sexo, e sobre sexo (ou sob, ou ora um, ora outro) todo mundo quer falar, ouvir, comentar, dar opinião, contar piada, contar vantagem, enfim, participar. Se o problema todo for esse minha gente, os problemas acabaram. Para colocar um tempero nesse blog é só jogar o assunto na mesa. Mas será mesmo o sexo a verdadeira azeitona desta empada?

Para investigarmos as reais motivações que levaram os internautas a tornarem-se seguidores fiéis do endereço na web, vamos passear no universo do blog e analisar os visitantes lançando mão de algumas hipóteses aparentemente plausíveis diante do contexto apresentado no longa metragem da Surfistinha.

Verificando friamente os relatos da profissional obstinada imortalizados na telona, vemos que nem todos seus associados buscavam nela a satisfação sexual. Sim, havia uma latente carência afetiva que a moça sabiamente soube detectar e tirar proveito, cumprindo com louvor todos os papéis que lhe eram atribuídos. Tudo bem, não podemos ignorar as ardentes horas de puro prazer, as surubas apimentadas e as festas de luxúria, mas isso era só um detalhe.

Da mesma forma aconteceu com o site. O endereço já tinha algum sucesso baseado no tema sexo e nas horas ociosas de quem não tinha uma companhia real e palpável, e nada mais proveitoso para fazer. Mas o lance “bombou” mesmo quando sua idealizadora teve a grande sacada: começou a conferir estrelas -  de uma a cinco - por desempenho dos seus clientes. Nada mais sedutor para a vaidade masculina, nada mais estimulante para o instinto competitivo dos machões. Se o cara era bem sucedido, ele acompanhava o site com empenho para saber se seria superado, por quem seria, como aconteceria coisa tão improvável, quando tal tragédia assolaria este mundo e por quantos infiéis. Se era mal sucedido, acompanhava atentamente para achar pelo menos um coitado que tivesse sido mais infeliz, afinal, ele não poderia ser o pior de todos, ah, isso não mesmo. Considerando que a moça tinha em média quatro "visitas"  (visitas reais, físicas, ao vivo e a cores) por dia, perfazendo vinte e oito por semana e cento e vinte por mês, e supondo que os seus clientes acompanhavam o comparativo de desempenho pelo menos 20 vezes ao mês, durante pelo menos três meses depois de sua curta estadia com a garota, isso totalizaria, depois de três meses de atividades ininterruptas, uma média de 7200 de visitas no site ao mês. Ai que inveja mortal. 

Resumindo, detectamos mole duas motivações regadas de testosterona que garantiram o sucesso internáutico da musa e a transformaram na mais celebre rameira brasileira de todos os tempos. Caso o atento leitor não tenha intuído, atinado ou percebido, o sexo atuou em tudo como um pano de fundo, apenas o cenário, a desculpa que justificava tanto interesse.

Por absoluta sorte do leitor, inspirada nas sábias palavras da Surfistinha, "eu hoje não estou dando, estou distribuindo". Distribuindo sapiência para concluir que, baseada nas pertinentes hipóteses, inteligentes suposições e sábias conjecturas aqui abordadas, para incrementar os acessos a este endereço internáutico é necessário apenas alguns poucos recursos que mexam profundamente com a vaidade masculina, ou outros instintos e sensações que não são necessariamente nobres, mas que podem ser igualmente - e tão facilmente - explorados, além, é claro, de muita, muita sorte. Porque, como diz a pop guru Rita Lee, "sexo é escolha, amor é sorte". “Bombar” na net também.