segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Abismo de Lágrimas da Paixão - Capítulo 2 - A primeira Novela Mexicana produzida na Bahia

Nota: todos os personagem e fatos desta novela são produtos de ficção e qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

Cena do capítulo anterior...

Ivana Guadalupe estava na cozinha lavando a louça do jantar quando ouviu distante o relinchar dos cavalos. Correu em disparada para a frente da fazenda. Ao chegar, a diligência já havia partido e ela só pode acenar de longe para Marja Consuelo.

- Vai em paz Pepa e não demores.


Capítulo 2

Dez anos depois...

Cena 1

A Fazenda Directiva Armoniosa estava em festa. Finalmente, dez anos depois de ter partido para estudar na capital, Marja Consuelo estava voltando, e isso era motivo de alegria para seu pai, amigos e todos os empregados da fazenda. Don José Anxieta Aguirré, auxiliado por sua irmã, Dona Fátima Dolores, estavam organizando um grande festejo para recebê-la, e haviam convidado muitas pessoas queridas e ilustres de La Província de Diepin dos Montes.

No comando do banquete de almoço estava Helen Suely Castaño, a mais famosa quituteira da região. Helen Suely era uma bela dona no alto de seus quarenta anos, de pernas compridas e seios fartos que provocava suspiros por onde passava. Mas, apesar do sucesso arrebatador de seus quitutes e formosura, não rendia conversa e não se envolvia com ninguém. Faziam vinte quatro anos que havia lacrado seu coração.

Na graça de seus dezesseis anos apaixonou-se por Ivan Alberto Almodova, um aventureiro colombiano que, depois de roubar sua pureza e a esperança no amor, sumiu no mundo para nunca mais voltar. Azar no amor, sorte nos negócios. Helen Suely se associou a seu irmão, Irlan Pablo Castaño, e ergueu a mais conceituada casa de banquetes de La Província, "El Tacho dos Castaños", conhecida até na capital.

Na cozinha da Casa Grande da Fazenda Directiva Armoniosa conversavam...

Helen Suely: - Huuum! O aroma dessas folhas estão perfumando minha alma. Veja Irlan Pablo se já podemos depenar a avestruz.

Irlan Pablo era um sentimental. Apesar de labutar há anos com patos, galinhas, codornas, porcos e as mais variadas caças em estado de quem já passou dessa para melhor, ele não se acostumava. Sempre se emocionava com aqueles corpos sem vida.
                           
Irlan Pablo: - Ainda pode escaldar mais um pouquinho.
Ivana Guadalupe: - O que são essas coisas esquisitas aqui no balcão?
Helen Suely: - É uma centrífuga e um microondas. Tudo muito moderno e econômico. Eles funcionam com apenas um feixe de lenha. Demasiadamente eficientes.
Ivana Guadalupe: - E para que servem?
Helen Suely: - Esse tritura tudo, e este aqui descongela, cozinha e tem até função grill. Preciosidades que comprei de um caixeiro viajante. Ele viaja o país inteiro garimpando as novidades del Gran México para mim.
Ivana Guadalupe: - Dona Helen Suely, e esse mundo de flores sobre a mesa? Devo colocar num vaso?
Helen Suely: - Gostou? São muy ricas, no? Colhi no caminho para cá, assim como aquelas folhas, cascas de árvores, cogumelos selvagens e ervas. Vai tudo para a panela.
Ivana Guadalupe: - Para a panela? E essas coisas são de comer?
Helen Suely: - Tudo bem dosado pode ir para a panela. A diferença entre o remédio e o veneno es solamente a dose.

Ivana Guadalupe ajudava no que era possível, mas não conseguia entender as misturas que estavam sendo processadas. Helen Suely era uma verdadeira alquimista da cozinha. Misturava ervas com carnes, grãos com flores, legumes com castanhas, frutas com casca de árvores, sementes com cogumelos, e tudo, regado a muita pimenta, sempre dava certo. Não tinha receita, não seguia nenhum manual. Pegava, olhava, ouvia os ingredientes na manipulação, cheirava e experimentava. Nunca repetia. Era sempre uma experiência única dos cinco sentidos.

Ivana Guadalupe: - No sei como usted consegue fazer tantas coisas ao mesmo tempo e tudo sair tão delicioso.
Helen Suely: - Primeiro é preciso gostar. Depois, é necessário um poquito de paciência para tentar e errar algumas vezes. Se quiseres podes aprender.
Ivana Guadalupe: - No, no tengo planos para ser cozinheira.
Helen Suely: - E tens planos para ser o quê?
Ivana Guadalupe: - Caçadora!
Helen Suely: - Que bueno! Vais caçar o quê? Patos Selvagens? Perdizes? Posso ser sua cliente.
Ivana Guadalupe: Vou caçar Bruxas.
Helen Suely: Virgem Santíssima Mãe de Deus! Só de falares me arrepiei toda.
Ivana Guadalupe: - Mas posso caçar Lobisomens e Vampiros também, se la recompensa for muy buena. Serei a maior caçadora a noroeste do Golfo do México.
Helen Suely: - Cruz Credo, Credo em Cruz chica! Deus te benza!

Ivana Guadalupe ao longo dos dez anos que passou distante da amiga Marja Consuelo ficou cada vez mais calada, reclusa e misteriosa. Ninguém sabia o que se passava nos pensamentos da moça. Mas também, ninguém na fazenda se importava muito com isso.

De repente Helen Suely começou a ouvir gemidos no canto da cozinha. Quando olhou, Irlan Pablo estava se acabando em lágrimas.

Helen Suely: - Pelo amor de Deus mi hermano, que choradeira é essa?
Irlan Pablo: - No posso evitar. No consigo parar de pensar que essa pata, desfalecida em meus braços, até ontem nadava em um lindo lago seguida por sete patinhos. Arruinamos com todos os seus sonhos de mãe e pata.
Helen Suely: - Hermano, pense que ela se ofereceu em sacrifício para realizar o sonho de todos os convidados de comer um delicioso pato ao molho picante de papoulas e cogumelos selvagens.
  
Cena 2

Dona Fátima Dolores estava uma pilha de nervos. Fazia bastante tempo que não tinha tantos convidados na fazenda e a decoração tinha que impressionar. Havia mandado pintar a fachada da Casa Grande de amarelo mostarda, depois ficou indecisa com o rosa seco. Mandou trocar os castiçais da capela e, depois de vários projetos reprovados, se decidiu por uma nova placa para o portal de entrada da fazenda comunicando as boas vindas aos convidados. Ainda assim, achava que as toalhas de mesa não tinham ficado boas e decidiu pedir ajuda à filha para trocar todas.

Erla Joseane, que era agora uma bonita moça de vinte e cinco anos, havia casado com Thomaz Jorge, um professor de filosofia. Enquanto era apenas um namoro, Thomaz Jorge foi sua escolha. Mas quando seu tio, Dom José Anxieta, preocupado com o namoro caliente, forçou o casamento, Erla Joseane desgostou um pouco. Via no casamento um obstáculo para conquistar seu grande sonho: ser "artística".

Thomaz Jorge Bandeiras era um bom rapaz. Veio de outra província, onde frequentou a faculdade e se formou, para ministrar aulas nas melhores escolas da sede de Diepin dos Montes. Era meticuloso e não havia problema simples que ele não pudesse complicar.

Fátima Dolores: - Mira Erla Joseane, as toalhas de mesa estão um desastre. Tenemos que cambiar todas. Por favor hija, usted e Thomaz Jorge hão de me ajudar.
Erla Joseane: - Aaah, madre! - e jogou os cabelos para o lado - As toalhas não estão tão feias.
Fátima Dolores: - Tão feias? Ai meu Jesuszinho!
Erla Joseane: - E ademais, os convidados já estão chegando. Mira, lá estão chegando as primas Nathália Rosário e Vanessa Rosário.
Fátima Dolores: - No fale, estoy muy nervosa.
Thomaz Jorge: - Se acalme sogrinha. Vou lhe ajudar com as toalhas. Vou começar analisando melhor as que precisarão ser trocadas, depois refletirei um pouco sobre a essência da necessidade e, por fim, sobre a função estética do efeito no conjunto do ambiente. Enquanto isso, Erla Joseane pode ir receber as primas Diaz. Vamos sogra! Vamos juntos entender a insustentável leveza das toalhas.
Fátima Dolores: - Ai meu hijo, como es prático. Sendo assim, acho que será muy rápido.
Erla Joseane: - Vou breve madre para não deixar as primas esperando. - jogando os cabelos para o outro lado.

E Fátima Dolores aliviada concluiu:

Fátima Dolores: - Como es boa essa chica.



Erla Joseane: - Primas, como estão guapas!
Nathália Rosário: - Prima, a quanto tempo não nos vemos!
Vanessa Rosário: - Tu estás muy formosa!
Erla Joseane: Sí! O casamento me fez muy bien. Pena que ustedes ainda não tiveram a mesma suerte.
Nathália Rosário: - Mas isto vai mudar breve. Estamos noivas.
Vanessa Rosário: - Com casamento marcado.
Erla Joseane: (com imenso desdém) - Nossa, quase morri de emoção! E quem são os consortes?
Nathália Rosário: - Luis Augusto Rico!
Vanessa Rosário: - E Luis Henrique Rico!
Erla Joseane: - Que bárbaro! Os filhos do prefeito. - se mordendo de inveja.
Nathália Rosário: - Por falar neles...
Vanessa Rosário: - Lá vem os dois.
Nathália e Vanessa Rosário: - Permiso prima!

Cena 3

Luis Augusto Rico e Luis Henrique Rico eram filhos do prefeito Braz Norton Rico e já eram iniciados na política. Tinham, sem dúvidas, um futuro promissor neste cenário, mas apesar de tudo, a política não corria em suas veias.

Luis Augusto era claramente tímido e racional. Bom em cálculos, matemática e geometria, se envolvia e conhecia as obras de construção da administração de seu pai como se fosse o próprio empreiteiro responsável pelos serviços. Não havia aditivo certo, ele enxugava tudo.

Luís Henrique era um comerciante nato, capaz de vender sacos de areia para nômades no deserto. Hábil em fazer dinheiro, tentava convencer o pai a abrir um empório na cidade, mas sem sucesso até então.

Nathália e Vanessa Rosário: - Buenos dias muchachos!
Luis Augusto e Luis Henrique: - Muy Buenos dias chicas!
Nathália Rosário: - Donde está su padre?
Vanessa Rosário: - E su madre?
Luis Augusto: - Já virão!
Luis Henrique: - Dom José Anxieta faz questão da presença deles.
Nathália Rosário: - Si claro! - Acompanhando com o olhar e a cabeça a primeira bandeja de quitutes que passava.
Vanessa Rosário: - Será um prazer tê-los aqui. - Acompanhando com o olhar e a cabeça a segunda bandeja que passava.

As irmãs Nathália Rosário Diaz e Vanessa Rosário Diaz tinham uma dieta rigorosa. Comiam o dia todo, mas na hora certa, a coisa certa, na quantidade certa. Como já havia quase três horas que tinham feito a última refeição, o estômago já começava a dar sinais claros de insatisfação. O incômodo era tanto, que nem a presença dos noivos, que lhes agradavam bastante, conseguia desviar a atenção da fome.

Loucas para comer, dispensaram educadamente os noivos e se esquivaram até a copa para ver o que conseguiam.

Nathália Rosário: - Huum..! Amanteigados, não posso resistir.
Vanessa Rosário: - Melhor não. Esses amanteigados são carregados de gordura animal. Um veneno para o colesterol. Vamos experimentar esse empanado de perdiz.
Nathália Rosário: - Perdiz, jamais! Esses perdizes tem uma rota migratória que seguem religiosamente todos os anos. Quando matam um, o grupo todo fica desnorteado e não consegue seguir a rota, prejudicando todo o ciclo de reprodução e desenvolvimento.
Vanessa Rosário: - Ah! Coitadinhos!
Nathália Rosário: - Vamos comer essa torta de castanha.
Vanessa Rosário: - Nunca! Só de olhar você vê que está saturada de glúten e leite com lactose. Vamos experimentar a asinha de codorna grelhada.
Nathália Rosário: - Hermana? Imagine a agonia de uma pobre codorna que tem o ninho cheio de codorninhas para serem alimentadas, de repente se ver caçada abandonando os filhos à própria sorte.
Vanessa Rosário: - Não posso nem imaginar!

Não comeram nada. 

 Cena 4

Nessa hora começou a desembarcar na casa os músicos com seus instrumentos. Eram seis músicos liderados pelos irmãos Eldo Luis Castilho e Vitor Alonso Castilho. A banda tinha uma guitarrón tocada por Eldo Luis, um acordeon tocado por Vitor Alonso, e ainda um violão de seis cordas, uma flauta andina, uma viola sertaneja e um triângulo.

Vitor Alonso: - La cucaracha, la cucaracha...
Eldo Luis: - Pare pelo amor de Deus! Ou não conseguiremos mais trabalho pelos próximos dez anos. Te avisei ontem para não ires descer las corredeiras del Rio Elecciones. Tua voz não serve para nada hoje. Deixe que solamente eu cante.

Vitor Alonso não era mesmo nenhum grande talento da MPM - Música Popular Mexicana. Entrou nessa vida arrastado por seu irmão mais velho, Eldo Luis, este sim um talentoso músico de carreira.  O irmão mais velho se preocupava que o caçula se profissionalizasse na vida errante de fiscalização da natureza.  

Vitor Alonso era um incansável caçador de aventuras. Vivia a inventar atividades incomuns e perigosas na natureza exuberante e diversificada da região. Mas, de todas as suas loucas aventuras, a preferida era descer as corredeiras do Rio Elecciones com uma canoa e um remo de confecção indígena. Ele apreciava muito a atividade, mas ninguém disse que se saia bem nas empreitadas. Vez por outra passava umas temporadas estirado sobre uma cama se recuperando das sequelas.

O Rio Elecciones...Ah! Este era um capítulo a parte. Como toda a natureza de La Província de Diepin dos Montes, o rio era incomum e detentor de mistérios. Ele nascia na Floresta de Polititican ganhando logo um corpo denso, e tinha um ciclo bem definido de quatro anos. Passados os quatro anos, tudo podia acontecer. O rio podia seguir o mesmo curso com poucas novidades ou variações, ou tomar outra direção completamente diferente. O curso do Rio Elecciones era decisivo para La Província, e quando um novo ciclo vinha acompanhado de mudanças radicais, o impacto era grande na vida das pessoas. A expectativa de um novo ciclo do rio trazia para alguns apreensão, para outros esperança.

Quando a banda de músicos terminava de se posicionar e afinar os instrumentos, assustadoramente, ouviu-se os estrondos. Todos se entreolharam. Os mais assustados se jogaram no chão e os sem noção saíram correndo de um lado para outro sem saber para onde ir.


Eram dois tiros do lado de fora da Casa Grande. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Abismo de Lágrimas da Paixão - Capítulo 1 - A primeira novela Mexicana produzida na Bahia

Nota: todos os personagem e fatos desta novela são produtos de ficção e qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

Capítulo 1

Cena 1

Faziam uns 40 minutos que a menina andava pela mata sem se dar conta de sua localização. Perdida sim. Assustada nunca. A determinação era a mesma que a acompanhava em todas as suas ações. Mas, em La Província de Diepin dos Montes, um fim de mundo perdido ao norte do México, determinação e coragem não eram qualidades apreciadas em um ser humaninho do sexo feminino, mesmo sendo ela apenas uma pequena garotinha na graça de seus doze anos. Apesar da coragem para continuar, o sol começava a baixar e seus pensamentos lhe traíam conduzindo-a maliciosamente a fantasiosas imagens de SESABA.

SESABA era uma misteriosa entidade que assombrava Diepin dos Montes à gerações. Uma figura descrita das mais variadas formas, imprecisa, mas sempre impiedosa, a quem atribuíam várias mortes e sumiços não explicados de moradores da Província. Supostamente a entidade morava na Floresta Polititican, um bolsão de mata encravada no deserto árido do norte. A Floresta Polititican era conhecida por Floresta do Absurdo, pois impressionava pela imprevisibilidade e reviravoltas. Uma mata densa com árvores de médio e grande porte, características de vegetação tropical, que se misturava a cactos e vegetação arbustiva, típicas do clima seco e árido de La Província. A floresta tinha a propriedade de mudar completamente suas características, às vezes num ciclo inferior a dois anos. Era tão improvável que atraía pesquisadores de todo o mundo, bem como jornalistas, místicos e curandeiros.

Perambulando pela floresta, a pequena aos poucos percebeu que estava sendo seguida. Apressou o passo, começou a correr, mas o barulho parecia cada vez mais próximo, quando, do nada, vislumbrou uma gigantesca, feroz e assustadora Mucura. A Mucura arreganhou os seus dois únicos dentes de roedora descontrolada e levantou suas patas dianteiras alcançando quase 35 centímetros de altura, revelando também as garras afiadas. A pequena ofegante viu-se acuada, cercada de um lado por um nicho de densos arbustos e, do outro lado, por aquele animal insano, quando, quase que por encanto, entrou na sua frente, entre ela e a Mucura, aquela figura totalmente fora do contexto.

Era um menino franzino de aproximadamente treze anos, usando óculos e um traje bem almofadinha. Caminhava calmamente, munido de uma imensa lupa, absolutamente submerso na busca de sei lá o quê pelo chão da mata. Tão abstraído estava que não notou nem a menina, nem a Mucura, quando parou bem na frente da pequena.

Ele: - Oh! Perdón, não havia lhe visto. Buenas tardes señorita!
Ela: - Buenas tardes o cace...(Piiiiiiii), que espécie de maluco é você? Não vê que seremos atacados por aquele bicho?
Ele: - Qué pasa? De que bicho hablas?
Ela: - Daquele projeto de Demônio da Tasmânia. Tu, que és um chico, vas lá e acaba com o bicho de uma vez.

E a Mucura se aproximava ameaçadoramente.

Ele: Acabar com o bicho? No poderia jamais. Aquele animal é um inofensivo Gambá, popularmente chamado de Mucura. A mucura é um mamífero marsupial, assim como o canguru, pertencente à família Didelphidae,cujo nome científico é Didelphis sp. Habita as Américas desde o Canadá até o sul da Argentina. Sua presença na mata é fundamental para garantir...

Vapt!!! 

E a mucura voou caindo uns quatro metros distante, se levantou rapidinho e se picou no meio da mata. Enquanto o menino elucubrava sobre o fundamental papel da mucura na biodiversidade do bioma local, a menina achou um robusto galho caído no chão e mandou a ameaça para longe. Apesar de não aprovar a atitude dela, o menino encantou-se com a personalidade da pequena.

Quando voltou-se para ela novamente, seus olhos se cruzaram de forma curiosa e perturbadora. Foi como uma flecha quente e doce atravessando seus coraçõezinhos. Os dois se apaixonaram subitamente.

Ela: - Eu sou Marja. Marja Consuelo.
Ele: - Eu sou Felipe. Felipe Augusto. 

Cena 2

No retorno, Marja Consuelo logo que saiu da Floresta Polititican avistou na planície a fazenda de seu pai emoldurada pela luz do pôr do sol. A vista não era nenhuma novidade para ela, mas todas as vezes a paisagem lhe encantava. A Fazenda Directiva Harmoniosa era a mais bem sucedida propriedade rural da região. Um latifúndio cujos limites não podiam ser enquadrados pelos olhos. Grande produtora de gado, de bode e de avestruz. Seu pai, o Coronel Don José Anxieta Aguirré, era um eminente cidadão de La Província de Diepin dos Montes, que levava o comando da fazenda com rédeas curtas. Mas, diferente da maior parte dos fazendeiros da região, conseguia manter com seus empregados e colaboradores uma relação de respeito e harmonia.

A menina quando se aproximou, notou um movimento diferente na fazenda. Os cavalos estavam sendo atrelados à diligência para sair, e todos os empregados que passavam por ela baixavam o olhar demonstrando uma certa tristeza. Quando entrou na Casa Grande encontrou com sua prima Erla Joseane.  

Erla Joseane era filha de Dona Fátima Dolores Aguirré Munhoz, irmã de Don José Anxieta Aguirré. Fátima Dolores ficou viúva com a filha bebê, tendo logo se mudado para a fazenda para viver aos cuidados de seu irmão. Mesmo com os anos passados, ainda mantinha nos olhos o viço da juventude que abdicou para cuidar da filha, da sobrinha, do irmão e da casa na fazenda. As primas Erla Joseane e Marja Consuelo cresceram juntas, apesar da pouca afinidade.

Erla Joseane: - Marja Consuelo, su padre deseja hablar contigo.
Marja Consuelo: - Qué pasa prima? Donde vai a diligência?
Erla Joseane: - Melhor hablar con titio antes, no quiero estragar la gran surpresa. 

Cena 3

Toque, toque, toque. E Marja Consuelo abriu a porta do gabinete de seu pai.

Marja Consuelo: - Papa, posso entrar?
José Anxieta: - Si mi hija, por favor entre!
Marja Consuelo: - Quieres hablar comigo papa?
José Anxieta: - Si! Quiero que arrumes su mala ahora, vas viajar hoje para estudar no tradicional Colégio das Freiras dos Trabalhadores.
Marja Consuelo: - Mas como papa? Este colégio es na capital, tan lejos daqui. No posso ficar longe da fazenda.
José Anxieta: - Besteira! A fazenda vai seguir sem problemas, e usted, quando retornar, estará mais preparada para assumir o que é seu.
Marja Consuelo: - No papa, por favor. Posso estudiar aqui, sabes que me dedico. Encontraremos um tutor em La Província para que venha periodicamente me dar aulas.
José Anxieta: - Hija, deixe de tolices. O Colégio lhe preparará de uma forma que nenhum tutor na região poderia fazer.  Es fuerte, este tempo longe lhe fará bem. Ademais, sempre será minha hija preciosa. E eu já decidi. Partirá na diligência em quinze minutos. O trem para a capital não espera.
Marja Consuelo: - Quinze minutos? Este prazo es impossível. Por que não me avisou antes? Não tenho como planejar e preparar tudo neste prazo. A mala resultará um desastre. Por que és sempre assim?
José Anxieta: - No sei. Só sei que foi assim.

Cena 4

Marja Consuelo saiu descontrolada pela Casa Grande até o átrio. Sentou-se à beira da fonte luminosa e desatou a chorar. Nesta hora se aproximou Ivana Guadalupe.

Ivana Guadalupe Cervantes era cria da casa. Foi adotada por Don José Anxieta e sua falecida esposa quando tinha apenas cinco anos, e sempre foi um nó cego. Seus pais formavam um casal de famosos caçadores, conhecidos como "los Cervantes", os mais habilidosos e renomados caçadores do México, que foram atraídos para La Província de Diepin dos Montes pela fama de SESABA. Contudo, em Diepin dos Montes não tiveram tanta sorte. Entraram na Floresta Polititican munidos de armas, coragem e todas as preces empenhadas pelos moradores de La Província, que sofriam há anos com os ataques da entidade, mas não retornaram da mata. Seus corpos nunca foram achados. Ivana Guadalupe se lembrava de todo o acontecido e nutria em si um desejo seguro de tirar a limpo aquela história. Cresceu na Casa Grande entre a cozinha e a pouca atenção que recebia dos senhores, até que nasceu Marja Consuelo. Apesar da grande diferença de idade, as duas sempre foram amigas muito próximas.

Ivana Guadalupe: - Pepa - como Marja Consuelo era carinhosamente chamada na fazenda -, já sei que partes hoje para a Capital. Pero, no chores amiga! Passará rápido. Logo estarás de volta à fazenda.
Marja Consuelo: - No quero ir. Conheci hoje, na Floresta, um chico que capturou meu corazón. Logo ahora papa inventa isso. 
Ivana Guadalupe: - Um chico? Quien es?
Marja Consuelo: - Augusto. Felipe Augusto. Belo, forte, corajoso. Me salvou de um animal feroz na mata.
Ivana Guadalupe: - Que guapo! Es de alguma fazenda vizinha?
Marja Consuelo: - No sei dizer. Oh mi amiga, nunca mais voltarei a vê-lo. Sou tão infeliz.
Ivana Guadalupe: - Probezita!

Nessa hora Don José Anxieta apareceu na varanda do átrio e perguntou:

- E aí, já terminou a mala?

Ivana Guadalupe depois de consolar Marja Consuelo saiu para ver seus afazeres na cozinha. No caminho encontrou Erla Joseane.

Erla Joseane: - Ivana Guadalupe, - e jogou os cabelos para o lado - logo que Marja Consuelo por o pé fora da fazenda, quero que tires todas as suas tralhas de seu quarto e faça a mudança das minhas coisas para o quarto dela. Pegue tudo que for meu para arrumar no quarto de Marja Consuelo. As roupas, sapatos, chapéus, bolsas, joias, tudo enfim. Amanhã já quero amanhecer o dia no quarto novo. 
Ivana Guadalupe: - E por que eu faria isso? Você tem seu quarto, um quarto bom, na ala dos senhores.
Erla Joseane: - Mas usted es mesmo uma empregadinha jeca. O quarto de Marja Consuelo é bem maior e tem a melhor vista da Casa Grande. E sabe o que mais, o por quê não te interessa. Faça o que lhe mandei e acabou.
Ivana Guadalupe: - Sendo assim, faz você mesmo!

Ivana Guadalupe virou as costas e saiu. Erla Joseane ficou bufando de raiva e praguejando:

- Essa empregadinha só faz o que ela quer. Mas ela ainda vai se ver comigo. - e jogou os cabelos para o lado. 

Cena 5

Erla Joseane, ardilosa, foi ter com sua mãe. Encontrou Dona Fátima Dolores no salão de festas experimentando cortinas nas janelas. Dona Fátima Dolores era muito caprichosa com a decoração da fazenda. De três em três meses trocava as cortinas, as capas das almofadas, os tapetes e os arranjos das principais mesas e aparadores. A Fazenda Directiva Harmoniosa era conhecida na região por estampar sempre a mais nova tendência do Design Rural Mexicano.

Erla Joseane: - Madrezita, que cores lindas. A senhora sempre acerta nas combinações.
Fátima Dolores: - Hija querida, me ajudes. Qual preferes? A Marsala, a Orange new Black ou o Rosa Seco. Estoy torturada pela dúvida.
Erla Joseane: - No sei mama! A Orange new Black es alegre como tu sorriso e o Rosa Seco tem o tom de tuas faces. Contudo, acho que gosto mais da Marsala, porque é mais imponente.
Fátima Dolores: - É, você tem razão. A orange new black é a grande novidade da Tabela Pantone.
Erla Joseane: - Mama, usted sabe, Marja Consuelo partirá da fazenda sem data para voltar.
Fátima Dolores: - Si, sei! Coitadinha. Una chica tão delicada e tão longe dos cuidados da família. Me preocupo com ela. No faria isso com usted jamais.
Erla Joseane: - Si madre, também estou muy preocupada com ela e com su quarto.
Fátima Dolores: - Su quarto? Por que hija? 
Erla Joseane: - Veja bem mama,- jogando os cabelos para o lado - um quarto fechado por anos, sem ninguém usar, junta poeira, mofo, traças. Pode até criar ninhos de baratas e roedores. Estoy muy preocupada.
Fátima Dolores: - Si, minha bela, que problema monstro. O que podemos fazer sobre isso?
Erla Joseane: - Madre, pensei em me acomodar no quarto de Marja Consuelo enquanto ela estiver fora. Assim, posso cuidar de tudo para quando ela voltar encontrar seu quarto limpo e cheiroso. Para mi será terrível abandonar meus aposentos a ameaças de baratas e roedores, mas por mi prima faço qualquer sacrifício.
Fátima Dolores: - Serias capaz de fazer isso por su prima?
Erla Joseane: - Si madre! Acho que suportarei este fardo.
Fátima Dolores: - Hija amada, a nobreza de seu espírito me comove.

Erla Joseane saiu com o riso de canto de boca. Fátima Dolores ficou suspirando feliz e murmurando consigo.

- Como es boa essa chica. 
                                  
Cena 6

Ivana Guadalupe estava na cozinha lavando a louça do jantar quando ouviu distante o relinchar dos cavalos. Correu em disparada para a frente da fazenda. Ao chegar, a diligência já havia partido e ela só pode acenar de longe para Marja Consuelo.


- Vai em paz Pepa e não demores.

sábado, 3 de agosto de 2013

Qualidade do ar interno

Qualidade do Ar Interno, era o tema do seminário. É mais ou menos assim, aquele friozinho do ar climatizado, tão desejado para qualquer cidadão localizado entre a linha do equador e os trópicos, tem também seus efeitos colaterais indesejáveis, como o excesso de concentração de CO2 e o ressecamento do ar além do recomendado. O assunto está na pauta do dia, animado por princípios de qualidade ambiental e construção sustentável. Sendo assim, como profissional de arquitetura, me candidatei também.

Saí cedo para estar pontualmente às oito num hotel situado na orla, local do evento. Não consegui. Cheguei atrasada, correndo e um pouco perdida. Passei sem parar pela recepção do hotel perguntando:

- Onde é o seminário?
- O atendente da recepção respondeu apressado: - É no andar de baixo. É só descer as escadas.
- Obrigada!

Saindo das escadas encontrei um funcionário recolhendo o que parecia ter sido um café da manhã de recepção. Já fiquei "P" da vida por ter perdido a boca livre. Vi uma porta e entrei.

De cara levei um susto, era um seminário restrito. Haviam uns quinze gatos pintados, com fisionomias compenetradas, sentados em volta de uma mesa em forma de "U". O palestrante, um homem "elegantérrimo", bonito mesmo, fazia uma apresentação em PowerPoint com auxílio de Data Show. Que roubada, pensei. O tal homem parou de falar e perguntou:

- Você vai participar do evento?
- Respondi: - Sim, claro. Estou inscrita.

Chega pra lá, aperta um pouco e me acomodei numa cadeira, mas realmente fiquei constrangida. O público, mínimo, passou uns dez minutos, em revezamento, prestando mais atenção em mim do que no palestrante. Devia ser um grupo seleto, muito entendido em qualidade do ar interno. Pareciam não querer contribuição. Mas deixa comigo, vou me concentrar de um jeito que saio daqui expert.



E a apresentação foi desenrolando. Era tudo tão nebuloso, com minúcias biológicas. Que exagero! O nível era demasiadamente específico e começava a ver distanciar-se a tal expert. Me sentia a loura burra, sem imaginar como poderia aplicar alguma daquelas coisas num projeto de edificação. A atenção já ia longe, pensando: esse cara é um pedante, um gato, mas pedante. Deve estar todo mundo voando como eu. Até que comecei a captar alguma coisa e, então, era a minha deixa:



Palestrante: - ... como no papel da via condutora-alveolar na ventilação, tanto na entrada como na saída do ar.
Eu: - A via condutora-alveolar trabalha unicamente na ventilação? Quero dizer: com papel restrito à renovação do ar interno? Ou também trabalha na temperatura?
Palestrante: - Claro, interfere na temperatura, resfriando o sistema.
Eu: - Sendo assim, além de evitar as mudanças bruscas de trajeto e reforçar as soldas para favorecer a estanqueidade, acredito que a utilização de materiais isolantes na via condutora-alveolar deve ajudar também, conferindo maior eficiência ao sistema, não é? Neste caso, quais seriam os materiais mais indicados para essa função?
Palestrante: - Huuumm... - (pensativo) - Acredito que melhor seria prevenir para não precisar "emendas" ou "mudança de trajeto".
Eu: - Mas na prática isso é quase impossível, mesmo que o planejamento esteja redondinho. E você sabe, na hora de instalar, quem põe a mão na massa faz como quer.
Palestrante: (novamente pensativo) - ... É sem dúvida um ponto de vista interessante, mas vejo um pouco diferente. Para quem "põe a mão na massa", existem os protocolos cirúrgicos, além disso, a medicina preventiva tem evoluído muito, reduzindo a necessidade das interferências traumáticas, e nós, médicos, temos o compromisso de fomentar esse movimento.
Eu: - .............................????? - (com meio metro de queixo arrastando na mesa).

Nós médicos?! Nós quem, cara pálida? Estiquei o olho nos papéis da mulher sentada ao lado e dei um zum de fazer inveja a qualquer teleobjetiva, quando li em letras maiúsculas garrafais: NÚCLEO DE PNEUMOLOGIA DO HOSPITAL SÃO RAFAEL.

Como é que é? Pneumologia? Ai meu Deus, alguém me tira daqui! O seminário também era sobre "qualidade do ar interno", só que bem interno, precisamente do pulmão.

Plano "A": sair correndo. Considerei a chance de me bater outra vez com alguma daquelas figuras ou, pior, precisar de seus préstimos profissionais. Descartei a alternativa. Plano "B": acionar a chamada falsa do celular e sair para atender. Fala sério, é muita falta de educação ir para um evento como aquele e não desligar o celular. Posso passar por doida, mas por mal educada não. Plano "C": fingir um desmaio, mas como eram pneumologistas convictos, ainda era capaz de alguém inventar de fazer em mim uma respiração boca a boca. Se pelo menos fosse o palestrante...

Abandonei todos os planos de jerico e comecei a tossir. Uma tosse forçada, horrível, mas não tinha outro jeito, a encenação "meia boca" seria minha passagem para a liberdade. Ia tossir até minha presença ser incompatível com a continuidade da palestra. Deu até dó, eles ficaram tão preocupados e solícitos. Tirando o fato de estarem no lugar errado, na hora errada, até que eram gente boa. Pedi licença, quase sem conseguir falar (tudo fingimento) e saí. Quando passei da porta peguei uma carreira digna de São Silvestre, para não correr o risco de ver mais ninguém, e fui tirar satisfações com a recepção.

- Mas como pode? O convite está claro, é este hotel, esse dia, essa hora, vocês fizeram a maior confusão.
- O recepcionista: - Minha senhora, eu sinto muito, mas só está agendado aquele evento para hoje.
- Não é possível! Que desorganização!
- A senhora pode falar com o setor de organização de eventos para saber o que aconteceu.

- Claro, eu não ia deixar por menos. Fui falar com o setor de eventos. Queria saber do meu seminário. Chegando lá contei o que estava acontecendo. Obviamente não falei nada sobre meu breve curso de pneumologia, só cobrei explicações e providências. A moça que me atendeu parecia uma estagiária, tão meiguinha. Lendo meu convite, falou calmamente:

- É, a senhora tem razão, o evento é aqui no hotel.
- Eu não disse?
- O dia é esse mesmo.
- Você está vendo?
- Mas é do mês que vem.
- Como assim?

Ainda estou pensando até hoje se terei coragem de voltar no próximo mês para participar do seminário. Talvez se cortar o cabelo, pintar de outra cor, usar um chapéu, possa passar sem ser reconhecida.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

TPM



- Cachorrinhos lindos! Bom dia meus amores! Hã?!?.... Bom dia? O que é isso garota? Bom dia coisa nenhuma! Estou menstruada e tenho que estar espumando de TPM. "Cadê" menina? "Cadê" esses hormônios? Eeeei, tem alguém aí dentro

E assim ela tentava afastar o complexo que a assombrava há muitos anos: a não experiência da TPM.

- Vamos lá! Vamos lá! - Depois de uma compacta e poderosa mentalização, ela conseguiu encarnar a Bruxa de Blair. - Agora estou oficialmente de TPM. Me aguentem! - Logo que saiu cruzou com o vizinho e ...

Vizinho (sorrindo): - Bom dia vizinha!
Ela (secamente): - Só se for para você!
Vizinho: - ???????

No trânsito fechou carros, avançou um sinal, xingou motorista de taxi e não deu passagem para nenhum mísero pedestre. Tudo estava dando supercerto.
Entrando no trabalho...

Secretária: - Bom dia!
Ela: - Não estou para conversa hoje. - E orgulhosa complementou: - TPM!

9h, 10h, 10h30 e nada. Nenhum telefonema, nenhuma visita, nenhuma colega de trabalho para jogar conversa fora. Impaciente, ligou para a secretária.

- Norma, o que foi que aconteceu? O mundo acabou e ninguém ma avisou?!?
- A senhora disse que não queria falar com ninguém. TPM, lembra?
- Ô Norrrma, se eu não falar com ninguém, como vou demonstrar minha TPM? Pega esse telefone que Graham Bell teve o maior trabalho para inventar e liga para todo mundo. Eu disse todo mundo! Quero reuniões intermináveis, visita de representantes, a moça do cafezinho, gente tentando vender o que não me serve para nada. Eu quero uma multidão aqui e agora!

Vendo a confusão, a amiga que fica numa mesa próxima vai até a sua mesa, senta-se e pergunta:

- Qual é o seu problema?
- Problema? Nenhum! Eu só estou com TPM.
- Você não tem TPM.
- Eu sou uma mulher e tenho direito de ter TPM.
- Direito você tem, o que você não tem é a TPM. Não tem TPM, não tem cólica, não tem enxaquecas pré-menstruais. Na gravidez não teve enjoou, inchaço, desejo, nem depressão pós-parto.
- Que maravilha! Falta dizer que não tenho estrogênio, ovário, útero, que minha barba está bem feita e meu pênis tem um tamanho invejável.
- A amiga rindo: - Tente ver pelo lado positivo, querida. Se assim for, segundo o IBGE, como macho você tem grandes chances de ter um salário maior que o meu.
- Escuta aqui: não é porque você é minha amiga e porque lhe conto coisas íntimas, que te dou o direito de duvidar da legitimidade da minha TPM. Ó, e quer saber? Eu não tenho mesmo, não tenho nada, mas sou mulherrrr - segurando os peitos - e posso mensalmente encenar uma TPM bem convincente. Melhor que isso, posso encenar uma TPM descompensada, insana e muito perigosa. Se não gostar, me processe.
- Vou pensar no assunto! 

E a amiga saiu sem dar a menor moral para ela. Ela, por sua vez, embarcou em suas próprias palavras e imaginou-se perante um tribunal de júri onde, chorando emocionada, pressionada pelo promotor implacável, enfim confessa desesperada:

- Sim, eu confesso, mas não fui eu, foi a TPM! A TPM!

O advogado de defesa alega insanidade temporária. O júri, 90% de mulheres, se identifica com infortúnio e o juiz, que tem mulher em casa, profere o veredicto:

- No ato do crime a ré não gozava plenamente de suas faculdades mentais. Portanto, este tribunal considera a ré inocente. Você está livre minha filha, pode ir.

Abrem-se as portas do imponente prédio do Tribunal de Justiça. Os repórteres, aglomerados na escadaria, disputam a cotoveladas uma declaração sua. Quando, então, um microfone alcança seus lábios, ela, aliviada, serena, e totalmente realizada, declara:

- Foi a TPM!