terça-feira, 8 de novembro de 2016

Abismo de Lágrimas da Paixão - Capítulo 4 - A Primeira novela Mexicana produzida na Bahia

Nota: todos os personagem e fatos desta novela são produtos de ficção e qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

Cena do capítulo anterior...

Enquanto todos estavam entorpecidos pela comida e a dança, passava pelo portal de entrada da Fazenda Directiva Harmoniosa a homenageada dos festejos. A diligência trazia enfim Marja Consuelo, sem que ninguém no insólito banquete se desse conta.

Capítulo 4

Cena 1

Marja Consuelo desceu da diligência e ficou apreciando o banquete como a plateia de um espetáculo teatral. Todos continuaram a cena inalterados sem se dar conta de sua presença. Alguns dançavam em torno da mesa, outros sobre a mesa, e outros, mais afoitos, sob a mesa. A moça então pensou:

- Como tudo na fazenda mudou. Mudou para melhor, para muito melhor.

Nesta hora, Helen Suely, o único ser humano capaz de tomar alguma atitude naquele momento, pegou um panelão e começou a bater fortemente com uma colher de pau, acordando todos do transe e anunciando a chegada da homenageada. Aos poucos, um a um foi retornando à realidade e se recompondo, deveras constrangidos.

Don José Anxieta e Dona Fátima Dolores se apressaram para receber Marja Consuelo.

Don José Anxieta: - Minha hija querida! Que felicidade em tê-la de volta. Não percebi sua entrada.
Marja Consuelo: - Nem me contes papa!
Dona Fátima Dolores: - Pepa, minha sobrinha, como estas linda!

Marja Consuelo retornava à Diepin dos Montes no apogeu de seus vinte e dois anos, formada em Engenharia Ambiental pela Universidade do México. Havia crescido, mas não muito. Contudo, o que não tinha de tamanho ganhou em formosura. Tinha o sorriso fácil, grandes olhos de jabuticaba amendoados e cabelos negros a meia altura, com um corte moderno para aquela região do México. Imediatamente encantou a todos. Apesar de ninguém saber muito bem o que era e o que fazia uma engenheira ambiental, todos comentavam e repetiam sobre o feito com pompa e circunstância, como sendo uma grande coisa.

Erla Joseane: - Prima querida! Contava os dias para sua volta. Este aqui es mi marido, Thomaz Jorge. Es professor de filosofia na cidade.
Marja Consuelo: - Professor de filosofia? Que fantástico! Muito prazer Thomaz Jorge. Acho que terei mucho gusto de hablar contigo.
Thomaz Jorge: - O prazer é todo meu de finalmente conhecer-te.
Ivana Guadalupe: - Pepa! No sabes a falta que fizeste!
Marja Consuelo: - Si, minha amiga! Também senti tua falta.
Fátima Dolores: - Pepa, vamos colocar suas bagagens no gabinete até decidirmos onde irás ficar, pois seu antigo aposento está ocupado pelo jovem casal Erla Joseane e Thomaz Jorge.
Erla Joseane: - É que agora somos dois e precisamos de mais espaço.
Ivana Guadalupe: - Não se preocupem com essas coisinhas pequenas, já cuidei de tudo. Levei todas as coisas do casal para aquele quarto desocupado do fundo do corredor, que é maior, e arrumei as coisas de Pepa de volta em seu antigo quarto. Já vou acomodar também suas bagagens lá.
Marja Consuelo: - Querida amiga, não precisava se incomodar. Sabes que não me importo com essas coisas.

Erla Joseane ficou tão enfurecida que saía fumaça por seus ouvidos. Não lhe restou nada mais a fazer além de colocar mais aquele desaforo na conta de Ivana Guadalupe.

Cena 2

O solteirão convicto, Marcelo Jaime, ao ver Marja Consuelo sentiu seu coração bater como nunca antes. A moça, além dos atributos físicos, esbanjava vida, alegria e autoconfiança como ele nunca tinha visto em nenhuma outra mulher. Imediatamente acalentou o desejo de retomar os planos de unir as famílias pelo matrimônio.

Marcelo Jaime: - Mi hermano - se dirigindo à José Medeiros - vejo que a chica Marja Consuelo já es una bela muchacha, com idade para pensar em casar-se. Podemos retomar os velhos pla-pla-planos das duas famílias, não acha?
José Medeiros: - Claro! Seria um turbinamento para nostro comércio. Pero usted hablando sobre matrimônio? Que passa? Estás enfermo?
Marcelo Jaime: - No, apenas achei que seria uma boa hora para expandir os negócios.

Nesta hora chegou Don José Anxieta.

José Medeiros: - Veja amigo, Marcelo Jaime está interessado em retomar conversas sobre matrimônio com tu hija.
José Anxieta: - Hum...não sei! Marcelo Jaime não es um hombre sério. Trará muitas lamentações para mi hija.
José Medeiros: - Isso é passado! Hoje ele é um hombre muy sério e comprometido com a família.
José Anxieta: - Só se for hoje mesmo, porque até ontem tive notícias dele esbanjando la plata en la Casa de la Luz Roxa.

Marcelo Jaime, que ouvia tudo, não desistiu da ideia, mas resolveu investir em outra frente, porque Don José Anxieta já havia mostrado que seria osso difícil de roer. Partiu Marja Consuelo.

Encontrou a jovem rindo, conversando com Ivana Guadalupe.

Marcelo Jaime: - Buenas tardes senhoritas! - o rapaz chegou comendo uma coxinha.
Marja Consuelo e Ivana Guadalupe: - Buenas!
Marcelo Jaime: - Como estas diferente Marja Consuelo, os ares da capital lhe fizeram muy bien.

As duas perceberam logo o tom da abordagem. Ivana Guadalupe, então, pediu licença para cuidar de seus afazeres, mas antes cochichou com a amiga:

- O papo é furado mas o muchacho es muy guapo! - e saiu.

Marja Consuelo: - Acho que não foi bem os ares. Talvez tenha sido as amizades, as experiências, o conhecimento. Este tempo fora de Diepin dos Montes me proporcionou muchas coisas.

Marcelo Jaime pensou consigo: - Ai Jesus, essa vai dar trabalho.

Marcelo Jaime: - Sim, tanto conhecimento e experiência para en-en en-enfiar em um fim de mundo desses. Me parece tempo per-per-perdido.

A proximidade com Marja Consuelo o deixava nervoso, o que intensificava a gagueira.

Marja Consuelo: - No penso assim. É uma região atrasada, sí, mas por isso mesmo tem tanto a se fazer. E com um poquito de vontade fica bem mais fácil.
Marcelo Jaime: - Já que é assim. Estou aceitando ajuda nas minhas exportações. Por que não passas lá na fazenda amanhã para me en-en-ensinar alguma coisa?
Marja Consuelo: - Nas exportações? No, chico. Tienes que começar pelas plantações. Com produtos melhores, exportas melhor.
Marcelo Jaime: - Entonces senhorita...tens planes pra mañana?
Marja Consuelo: - Que pena! Já tengo planos! Quem sabe outro dia.

Cena 3

Para um gringo saído de Harvard, a Meca do conhecimento científico racional, tudo em Diepin dos Montes era, no mínimo, inusitado. Por mais esforço que Yuri Willian fazia para acomodar fatos e personagens dentro da caixinha da razão, as peças pareciam escapar por todas as brechas e, às vezes, até mesmo pela barreira intransponível da matéria. Tudo naquele lugar, absolutamente tudo, lhe perturbava. Até um pouco mais do que isso. Diepin dos Montes lhe arrebatou o espírito que, como cientista, ele julgava não ter.

Quando já se preparava para despedir-se da festa, chegou Helen Suely carregando uma bandeja com seus preparados irresistíveis.

Helen Suely: - Senhor, lhe gusta mais uma tortinha salgada?
Yuri Willian: - Si, como no? It is wonderful! - se servindo de uma tortinha.
Helen Suely: - ?????????????????? - sem saber se ele estava achando aquilo bom ou ruim.

Yuri Willian mordeu e fechou os olhos longamente para apreciar cada sabor de forma calma. Não teve pressa. Por ele prolongaria o momento indefinidamente. Quando as pálpebras abriram, involuntariamente os olhos deram três giros e posaram displicentes no decote de Helen Suely. Ele, muito tímido, rapidamente desviou o olhar e exclamou:

- Your food is very delicious!
Helen Suely: - Que? Sinto mucho senhor, no compreendo o que dizes!

Ele aproximou o rosto e repetiu vagarosamente, articulando bem os lábios para que ela entendesse:

- Seu food é delicioso...

Helen Suely: - Como é? - Vapt!!!!

Não deu nem tempo de Yuri Willian concluir a fala. Helen Suely virou a mão na lata do jovem de um jeito que ele ficou ouvindo sinos por algum tempo. A Dona ficou virada no estopô e saiu esbravejando:

- Esses gringos abusados chegam aqui e pensam que são donos de tudo.

Yuri Willian, apesar do tabefe que levou, nem se incomodou. Ficou ali curtindo o gostinho da tortinha e a lembrança da bela Dona arretada.

Cena 4

Marja Consuelo conversou com todos. Trocou dicas de cozinha com Helen Suely e Irlan Pablo, matou a saudade das primas Diaz, conheceu seus noivos, os irmãos Ricos, interagiu com Thomaz Jorge até o limite do que pôde compreender, perguntou sobre as pesquisas de Yuri Willian e Ronaldo Alejandro, se esquivou de Marcelo Jaime, contou algumas de suas aventuras para Ivana Guadalupe e matou a saudade da família. Apreciou tudo na festa que a homenageava. Afinal, era muito bom estar de volta.
Contudo, aos poucos, foi sentindo vontade de se distanciar do burburinho. Se debruçou na balaustrada de uma das grandes janelas da casa, onde mirava ao longe a linha do horizonte na direção de Polititican, como quem procura algo que não consegue encontrar. Neste instante, a banda começou a tocar El día que me quieras, a música romântica de sua preferência:
Acaricia mi ensueño
El suave murmullo
De tu suspirar.
Como ríe la vida
Si tus ojos negros
Me quieren mirar...
...El día que me quieras...
...Que eres mi Consuelo.


Envolvida pelo romantismo da música, Marja Consuelo deixou que seus pensamentos lhe conduzissem a dez anos atrás, na misteriosa Polititican, quando teve seu coração roubado. Cerrou, então, seus grandes olhos negros, imaginando por onde andaria o jovem Felipe Augusto.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Abismo de Lágrimas da Paixão - Capítulo 3 - A Primeira novela Mexicana produzida na Bahia

Nota: todos os personagem e fatos desta novela são produtos de ficção e qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

Cena do capítulo anterior...

Quando a banda de músicos terminava de se posicionar e afinar os instrumentos, assustadoramente, ouviu-se os estrondos. Todos se entreolharam. Os mais assustados se jogaram no chão e os sem noção saíram correndo de um lado para outro sem saber para onde ir.

Eram dois tiros do lado de fora da Casa Grande.

Capítulo 3

Cena 1

Marcos Vinícius, capataz de confiança de Don José Anxieta, estava nos fundos da Casa Grande cuidando dos cavalos e diligências que transportaram os convidados até a fazenda, quando ouviu os disparos. De imediato largou os equinos, catou o rifle e, enquanto corria para a frente da fazenda, afivelou o cinto com munições enfileiradas e dois revólveres embainhados nos coldres. Chegou à varanda da frente armado até os dentes e encontrou Don José Anxieta saindo da casa, também segurando uma pistola.

Marcos Vinícius Perón era a segurança e o braça forte da Fazenda Directiva Harmoniosa. Um empregado fiel que trabalhava há muitos anos com Don José Anxieta e impunha respeito na propriedade e nas redondezas.

José Anxieta: - Vamos Marcos Vinícius! Vamos averiguar o quê se passa. A segurança dos convidados é nossa responsabilidade. Mas veja, sejamos discretos, isto ainda é para ser um festejo.
Marcos Vinícius: - No se preocupe Senhor, serei preciso e discreto.
José Anxieta: - O plano é o seguinte: usted deve contornar o camino de entrada para estancar qualquer ameaça antes que passe pelo portão.
Marcos Vinícius: - No sei Senhor se és um bom plano! Penso que es mejor encontrar a fonte dos disparos no começo do camino para que nem cheguem a adentrar na fazenda.
José Anxieta: - ????????????????? - Faça o que achar mejor!

Marcos Vinícius partiu armado e determinado como se fosse o "duro de matar" das terras mexicanas, enquanto Don José Anxieta ficou na entrada da varanda tentando avistar de onde vinha os tiros. Quando o capataz descia as escadas da varanda, novos disparos foram ouvidos. O rapaz deu um pulo de susto rolando escada abaixo. Quando parou no pé da escada depois da última cambalhota, só conseguia pensar num lugar seguro para se esconder. Se arrastou ligeiro até alcançar um arbusto seco que não camuflava nem um de seus volumosos braços. Don José Anxieta, que assistia a cena, pensou:

- Mas agora é que deu mesmo!

Nesta hora apontou no caminho uma diligência atirando para cima. Era o transporte de Don José Medeiros Padilha e família, que vinha dando disparos para anunciar a chegada.

Don José Medeiros Padilha era um grande amigo e velho aliado político de Don José Anxieta. O eminente cidadão era um articulador político cheio de conversa e prosopopeias. Tinha, em sociedade com o irmão Marcelo Jaime, a Fazenda Obras de Vento em Popa, grande produtora e exportadora de milho e café. Don José Medeiros casou-se com Dona Ana Amélia Padilha, com quem teve apenas uma filha, a doce Márcia Regina. O irmão, Marcelo Jaime Padilha, era um solteirão convicto. Don José Anxieta recebeu a todos na varanda da casa.

José Anxieta: - Companheiro Don José Medeiros, queres me assustar e espantar meus convidados com todos esses disparos alarmantes?
José Medeiros: - No, no, meu amigo. No era minha intenção tumultuar sus festejos. Contudo, admito que o discretismo não é a minha maior qualidade. Usted me conheces,  gosto mesmo das chegadas carregadas no pirotecnismo.
José Anxieta: - Si, já conheço bem! - e desistindo de tentar explicar a inconveniência da ação, se voltou galanteador para as damas - Dona Ana Amélia Padilha, como estás? Vejo que a natureza tem sido generosa com vossa senhoria, estas cada dia mais encantadora. E tu, jovem Márcia Regina? - se voltando para a filha - O florescer da juventude lhe fez muy bien. Estás vendendo formosura!
Ana Amélia: - Encantada Don José Anxieta, o senhor como sempre muy gentil.
Márcia Regina: - Agradecida Don José Anxieta. E o senhor, como passa?
José Anxieta: - Muy bien, melhor ahora que mi hija está regressando à fazenda. E usted, Marcelo Jaime? Quando entrará enfim para a confraria dos hombres sérios de Diepin dos Montes?

Esta foi uma cutucada maliciosa de Don José Anxieta. Marcelo Jaime já beirava os quarenta anos mas não dava sinais de interesse de abrir mão da vida de Don Juan de La Província. Há muitos anos, logo que Marja Consuelo nasceu, chegaram a ensaiar algum arranjo para unir as famílias através do matrimônio dos dois. Mas hoje, diante da fama do rapaz, Don José de Anxieta mantinha as barbas de molho.

Marcelo Jaime: - Don José Anxieta, como sempre com pressa e com metas di-di-difíceis de al-al-alcançar. - denunciando a ligeira gagueira herdada por todos os homens de sua família. - Tenho certeza que com calma e passos seguros vamos muy lejos. Ademais, os afazeres das planilhas e medições de exportação me consomem a energia e todas las horas do dia e da noche.

E Don José Anxieta pensou consigo: pobre Marja Consuelo! Desse mato não sai coelho.

José Anxieta: - Vamos amigos, vamos todos adentrar e apreciar a festa que preparamos com muy carinho.

Cena 2

Thomaz Jorge depois de concluir sua labuta com as toalhas de mesa pôde enfim aproveitar a festa. Alegrou-se quando viu se aproximando seu mais recente amigo, Yuri Willian, acompanhado de Ronaldo Alejando.

Yuri Willian: - Olá my friend Thomaz Jorge! How are usted?
Thomaz Jorge: - Olá meu amigo Yuri Willian! Eu, depois de ter sido consumido pela essência da insustentável leveza das toalhas, devo confessar que estou com o espírito exaurido pela dialética.
Yuri Willian: - ????????? - O gringo não entendeu nenhuma palavra.

Yuri Willian Morris Tolstoievski era um jovem doutor, na faixa dos vinte e tantos anos, Phd em Zoobotânica e pesquisador titular da Universidade de  Harvard. Sua origem era russo-americana, o antagonismo encarnado da guerra fria que estava por vir. Herdou o Yuri Tolstoievski de seu pai, um russo bolchevique que lutou na revolução socialista ao lado de Lênin, e o Willian Morris da mãe, uma doce americana educada na mais tradicional família republicana americana. Como o amor transforma tudo, seus pais abriram mão de suas mais radicais convicções político-sociais para constituírem família nos Estados Unidos, filiando-se ao partido democrata. Yuri Willian foi criado na América e se transformou em um nome respeitado na comunidade científica mundial. Foi mandado por Harvard a La Província de Diepin dos Montes para, à frente de uma equipe multidisciplinar, pesquisar a fauna e a flora da Floresta Polititican. Entre os integrantes de sua equipe estava o doutorando e professor adjunto de Harvard, o mexicano Ronaldo Alejandro.

Yuri Willian: - Que problem my friend! I hope you melhorar sua dor de barriga logo.
Thomaz Jorge: - ????????? - não entendeu, mas deixou para lá.
Yuri Willian: - This is Ronaldo Alejandro Barden, membro da equipe de pesquisa e mexicano como tu, from sul del México.
Ronaldo Alejandro: - Como pasa?
Thomaz Jorge: - Muy bien amigo! Entonces, como vão as pesquisas? Quando conheceremos os mistérios que envolvem a indecifrável Polititican?
Yuri Willian: - Por enquanto solamente questions. Sua floresta es matéria para so many years de pesquisa. Es trabajo para muitas gerações de pesquisadores.

Nesta hora chegou Erla Joseane.

Thomaz Jorge: - Chegue aqui "amore mio"! Deixe-me lhe apresentar Dr. Yuri Willian, chefe das pesquisas sobre a Floresta Polititican, e o Dr. Ronaldo Alejandro, membro de sua equipe. Eles atravessaram a fronteira para desvendar nossa rica floresta. Vieram diretamente dos Estados Unidos da América.

Os olhos de Erla Joseane brilharam como diamantes e ela disparou uma matraca descontrolada: - No es possible! Só pode ser o destino. - jogando os cabelos para o lado - Me contem, como es Hollywood? E las artistas? Son mesmo belas como nas películas que passam na cidade? Seja como for, beleza no es um problema para mim. Digam-me, o que devo hacer para tentar um teste de talentos. Sabem, yo posso cantar, dançar e interpretar qualquer personagem, mas prefiro las personagens protagonistas. Soy la mejor artística de La Província.

Ronaldo Alejandro ficou calado e quanto a Yuri Willian, a única palavra que o gringo realmente entendeu na acelerada comunicação de Erla Joseane foi "Hollywood", o resto deduziu por si. Então, rindo, respondeu:

- Sorry Miss, receio no poder ajudar! Ainda não tive opportunity de conocer Hollywood, mas, assim como usted, me gusta la ideia. Es que los afazeres da university são muitos. Quando criança, my parents me levaram à Califórnia, mas não cheguei a ir a Hollywood. Foi a única vez que vi o mar, e jamais poder esquecer. Is unforgettable.
Erla Joseane: - No creio nisso! No posso ter tão pouca suerte. Usted hay de conocer alguém que trabalhe em Hollywood, ou que conheça alguém que conheça, ou alguém que conheça alguém que conhece alguém que já foi lá.
Yuri Willian: - No, creio que no. I am so sorry!

Erla Joseane pensou consigo: - so sorry uma ova! Americano fajuto! – e saiu.

Ronaldo Alejandro apressou-se em pedir licença para Thomaz Jorge e Yuri Willian e atalhou Erla Joseane um pouco mais a frente.

Ronaldo Alejandro: - Permisso senhora, acho que talvez possa lhe ajudar.
Erla Joseane: - No creio! Yo no tengo nenhum interesse pelas esquisitices de Polititican.
Ronaldo Alejandro: - No senhora, no es isto. Conheço algunas personas em Hollywood, algunas até bastante influentes, e talvez possa conseguir uma oportunidade para usted. Yo mesmo já tive algunas participações em películas.

Na verdade Ronaldo Alejandro não sabia nada sobre Hollywood. Não tinha nem sequer passado por perto da Califórnia, e não conhecia ninguém no meio cinematográfico. Mas o rapaz era ambicioso e via em Erla Joseane uma oportunidade para se aproximar da família e entrar no seleto grupo dos influentes na política de Diepin dos Montes.

Erla Joseane: - A si, yo logo vi que usted era diferente do gringo. Me contes, que película? Yo conosco todas!
Ronaldo Alejandro: - Aquela...- tentando improvisar – no sei se conhece...aquela com... Valentino, Rodolfo Valentino.
Erla Joseane: - Virgem Maria de Guadalupe! Ele es mi ídolo maior. Yo no posso crer que usted conhece em pessoa. Que película foi? Me contes logo!
Ronaldo Alejandro: - Deixa eu ver se conheces mesmo todas. Ele vestia uma roupa...- e não conseguia lembrar de nenhuma imagem, nenhum título, nenhum personagem - ...trazia na cabeça um...
Erla Joseane: - ...Turbante! Si, claro! Um turbante!
Ronaldo Alejandro: - Si!
Erla Joseane: - No me contes que atuaste en la película "El Sheik", el gran conquistador de los desertos da Arábia.
Ronaldo Alejandro: - Claro! Foi una experiência inesquecível.
Erla Joseane: - Pero...quem era usted na película? Yo assisti sete vezes e no consigo me lembrar de tu rosto.
Ronaldo Alejandro: - Como no? Yo era aquele beduíno que usava um turbante e um lenço no rosto mostrando apenas o olhar penetrante.
Erla Joseane: - Si, claro! Ahora estoy reconhecendo sus olhos. Solamente os olhos apareciam, mas eram muy marcantes. Como não percebi antes? Usted foi muy corajoso saltando daquele corcel selvagem. Impressionante!
Ronaldo Alejandro: - Tudo pela arte!

E os dois pegaram numa longa conversa sem pé nem cabeça.

Cena 3

Don José Anxieta avistou entre os convidados Don Braz Norton Rico, o prefeito da sede de La Província de Diepin dos Montes, e foi ter com ele.

José Anxieta: - Senhor Prefeito, que honra recebê-lo em minha humilde fazenda.
Braz Norton: - A honra é minha pelo seu convite, Don José Anxieta.

Apesar do tratamento cordial e de não haver rivalidade política, a relação entre os dois não era exatamente as mil maravilhas. Don Braz Norton levava sua gestão com mão de ferro.

Braz Norton: - Observei que seu gado não tem mais trafegado por nossas rotas oficiais  pedagiadas. Não tem comercializado seu rebanho recentemente?

Don José Anxieta era austero com seus compromissos fiscais, mas se viu apertado com a pergunta. Não concordava com as medidas impositivas que Don Braz Norton empurrava goela abaixo dos fazendeiros e comerciantes locais e, para fugir dos pedágios proibitivos das novas rotas inauguradas pela prefeitura, estava usando velhas rotas desativadas.

José Anxieta: - É...os negócios não andam muito bem. Muita concorrência das províncias do leste.
Braz Norton: - É uma pena mesmo. Mas quando precisar, verás que primor de obras realizamos. As novas rotas são calçadas com pedra folheta sobre coxim de areia. Um verdadeiro tapete. Além disso, quem seria doido que se arriscar pelas rotas desativadas, sujeito a bandoleiros, acidentes e, muito pior do que isso, a pesadíssimas multas da prefeitura.
José Anxieta: - Só um louco! - com um sorriso bem amarelo.

Nesta hora chegou Dom José Medeiros.

José Medeiros: - Senhor Prefeito, que prazer imedível em revê-lo!
Braz Norton: - O prazer é todo meu. Imagino que o senhor José Medeiros também esteja tendo problemas com os negócios. - E saiu enigmático.

Don José Medeiros não entendeu o comentário, mas passava exatamente pelos mesmos problemas.

José Medeiros: - Então amigo, qual era o motivo de tanta confabulância?
José Anxieta: - Esse prefeito se acha o rei da cocada preta. Muito antes dele ser prefeito eu já era dono de boa parte das terras dessa região perdida no mundo.
José Medeiros: - Por falar em desencontrado no mundo, não tenho ouvido falar no espinhoso.
José Anxieta: - De quem hablas?
José Medeiros: - Hora de quem? De Don Carlos Frederico Escobar, é claro.

Don Carlos Frederico Escobar era um nome que se evitava falar. Era inimigo político declarado de Don José Anxieta e Don José Medeiros, mas isso era o que menos pesava em seu currículo. Carlos Frederico Escobar era descendente de uma linhagem espanhola miseravona. Seus ancestrais pertenciam a uma das primeiras famílias a chegar para colonização do México e a lenda do sobrenome Escobar trazia histórias sombrias que iam desde sangrentos capítulos de escravização do pouco que restou dos descendentes do povo Maia e, depois, dos escravos africanos, até recentes negócios escusos.

José Anxieta: - No tengo notícias recentes. Melhor assim.
José Medeiros: - No penso assim. Ele es muy perigosista. Quando está quieto é porque algo de muito ruim está arquiteturando naquela mente sombrinolenta.

A rivalidade de Don José Medeiros com Don Carlos Frederico ia além de questões políticas e comerciais. Don Carlos Frederico havia cortejado Dona Ana Amélia quando jovens, mas o namorico foi interrompido pelo arranjo da família da jovem para desposá-la com Don José Medeiros. Os mais conversadores diziam que Don Carlos Frederico nunca aceitou a separação e que, até os dias de hoje, ainda acalentava o sonho de ter Dona Ana Amélia. Esse conversê para Don José Medeiros era como apunhaladas em seu peito.

José Anxieta: - Deixe de besteiras! Quando está quieto é porque não está se mexendo, e pronto. Vamos tomar umas tequilas e dar boas risadas falando de coisas mais agradáveis.


Cena 4

Dona Fátima Dolores começou a chamar todos os convidados para a mesa do banquete que estava servida nos jardins da Casa Grande. A mesa tinha quase vinte metros de comprimento, coberta com tolhas brancas de renda sobre linho de cor crua. Os pratos estavam divinamente decorados com flores e frutas secas e o aroma dos quitutes de Helen Suely impregnava as narinas dos presentes e todo o jardim.

Os convidados se acomodaram e Dona Fátima Dolores, acompanhada do irmão Don José Anxieta, saudou a todos.

Tim, tim, tim. Don José de Anxieta bateu na taça de vinho chamando a atenção e passando a palavra para Dona Fátima Dolores.

Fátima Dolores: - Meus queridos amigos, es um grande prazer recebê-los em nossa casa em um momento de imensa alegria para nós, exatamente quando nossa princesinha Pepa, a doce Marja Consuelo, está chegando depois de tanto tempo longe. Esperamos que apreciem a comida, a bebida e, sobretudo, o design de interiores, que é de última. Ahora mi hermano, Don José Anxieta, gostaria de dizer algunas calorosas palavras para ustedes. Por favor, mi hermano.
José Anxieta: - Vamos comer!

Liberados, os convidados começaram a se servir e a degustar o banquete.

Dona Ana Amélia provou os rolinhos de defumado de avestruz e ofereceu para a filha Márcia Regina. As duas deram rapidamente a primeira mordida, mas, quando o rolinho alcançou o paladar, fecharam os olhos e desaceleraram o ritmo, mastigando calmamente como se aquela fosse a última refeição de suas vidas. As irmãs Diaz, que estavam esfomeadas, partiram para o prato com voracidade sem investigar os ingredientes, mas, da mesma forma, se renderam à experiência de saborear calmamente a explosão de sabor. Yuri Willian ao mastigar a avestruz  revirou os olhos dando duas voltas com as córneas. Aos poucos,  foram provando as variedades oferecidas e se rendendo à apreciação que extrapolava o paladar. Helen Suely havia realmente caprichado no molho de papoulas e cogumelos selvagens, e todos se entregaram sem ressalvas ao barato do banquete.

Durante o almoço, Erla Joseane enxergou Thomaz Jorge como a muito tempo não o via. Os dois degustaram o almoço servindo um ao outro diretamente na boca, para mão falar do baile de mãos por baixo da mesa.

Dona Ana Amélia também abriu mão dos talheres e serviu Don José Medeiros como quem alimenta um bebê. E assim fizeram todos os outros convidados. Deixaram de lado os talheres e oscilaram o comportamento agindo ora como crianças, ora como bichos livres despreocupados com os grilhões da etiqueta.

Dona Fátima Dolores, que comeu bastante, se animou bastante também. Quando a música embalou, foi a primeira a levantar. Enrolou a toalha de renda na cintura, pôs uma flor no cabelo, e encarnou a cigana Sandra Rosa Madalena, com uma performance que faria babar Sidney Magal. O sucesso foi tanto que o prefeito Braz Norton deixou a esposa sentada e levantou-se para dançar com ela.

Ivana Guadalupe catou outras duas toalhas de mesa para cobrir a cabeça dos irmãos Eldo Luis e Vitor Alonso, travestindo-os de árabes para apreciar a dança do ventre que ela se esforçava para dançar como se fosse a odalisca preferida do harém. Movimentos ondulados de quadris deixaram os irmãos um pouco sonsos, se esquecendo completamente da banda e suas obrigações profissionais.

Os irmãos Rico dançavam apaixonadamente com suas noivas, as irmãs Diaz, quando, vinte minutos depois, perceberam que os casais estavam trocados. Destrocaram e tudo continuou no mesmo jeito de antes.

Marcos Vinícius, que em geral era de pouca conversa e tirado a brabo, puxou Márcia Regina para uma rumba louca, sacolejando a menina como uma boneca de pano. Os dois subiram na mesa dando um espetáculo de dança invejável, sendo ovacionados pelo público. No giro derradeiro, Marcos Vinícius lançou a moça com tanta força para o alto que não conseguiu ver onde ela foi parar.

Empolgado pelo sucesso de Marcos Vinícius e Márcia Regina, Irlan Pablo subiu do outro lado da mesa e começou a dançar o Lepo-Lepo.

Ronaldo Alejandro zanzava de um lado para outro procurando um par, mesmo que fosse uma vassoura para balançar o esqueleto com ele, quando ouviu um grito ficando cada vez mais perto. Olhou para cima e avistou Márcia Regina, que só agora retornava caindo do lançamento de Marcos Vinícius. Com a graça de Deus, ele aparou a moça sem maiores estragos. Entrelaçou as pernas com a chica e os dois se entregaram ao arroja. A sofrência foi tanta que a metade dos convidados desatou no choro descontrolado.

Don José Medeiros e Dona Ana Amélia dançavam bem lentamente, de rostos colados, como se nada mais existisse no mundo.

Thomaz Jorge, que estava para a dança como a chuva está para o deserto, lembrou-se de uma matéria de periódico que falava de um ritmo bandido caliente que nascia na Argentina, o tango, e agarrou Erla Joseane na dança com uma pegada que deixou a moça toda molinha.

Don José Anxieta vestiu uma toalha de mesa como uma capa e encarnou El Zorro, ziguezagueando uma colher de cozinha como se fosse uma espada mortal.

Marcelo Jaime, absolutamente hipnotizado pelos jogos de ombros da cigana Sandra Rosa Madalena, não contou conversa, roubou a dama de Braz Norton e deu piruetas como um bailarino russo do Bolshoi.

O gringo Yuri Willian nem se mexeu, estava em transe profundo e, nos seus delírios, só tinha olhos para Helen Suely.

A responsável por todo aquele espetáculo surreal, Helen Suely, tinha uma regra: quanto trabalhava não comia.  Assim, passeava impune pelos convidados, vista por eles como se andasse em câmera lenta sobre as nuvens. Os cabelos e a saia levantavam ao vento, revelando os contornos das pernas compridas. Para os homens, e, porque não, àquela altura do campeonato para as mulheres também, era uma cena  inspiradora, estimulante, arrebatadora.

Enquanto todos estavam entorpecidos pela comida e a dança, passava pelo portal de entrada da Fazenda Directiva Harmoniosa a homenageada dos festejos. A diligência trazia enfim Marja Consuelo, sem que ninguém no insólito banquete se desse conta.



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Abismo de Lágrimas da Paixão - Capítulo 2 - A primeira Novela Mexicana produzida na Bahia

Nota: todos os personagem e fatos desta novela são produtos de ficção e qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

Cena do capítulo anterior...

Ivana Guadalupe estava na cozinha lavando a louça do jantar quando ouviu distante o relinchar dos cavalos. Correu em disparada para a frente da fazenda. Ao chegar, a diligência já havia partido e ela só pode acenar de longe para Marja Consuelo.

- Vai em paz Pepa e não demores.


Capítulo 2

Dez anos depois...

Cena 1

A Fazenda Directiva Armoniosa estava em festa. Finalmente, dez anos depois de ter partido para estudar na capital, Marja Consuelo estava voltando, e isso era motivo de alegria para seu pai, amigos e todos os empregados da fazenda. Don José Anxieta Aguirré, auxiliado por sua irmã, Dona Fátima Dolores, estavam organizando um grande festejo para recebê-la, e haviam convidado muitas pessoas queridas e ilustres de La Província de Diepin dos Montes.

No comando do banquete de almoço estava Helen Suely Castaño, a mais famosa quituteira da região. Helen Suely era uma bela dona no alto de seus quarenta anos, de pernas compridas e seios fartos que provocava suspiros por onde passava. Mas, apesar do sucesso arrebatador de seus quitutes e formosura, não rendia conversa e não se envolvia com ninguém. Faziam vinte quatro anos que havia lacrado seu coração.

Na graça de seus dezesseis anos apaixonou-se por Ivan Alberto Almodova, um aventureiro colombiano que, depois de roubar sua pureza e a esperança no amor, sumiu no mundo para nunca mais voltar. Azar no amor, sorte nos negócios. Helen Suely se associou a seu irmão, Irlan Pablo Castaño, e ergueu a mais conceituada casa de banquetes de La Província, "El Tacho dos Castaños", conhecida até na capital.

Na cozinha da Casa Grande da Fazenda Directiva Armoniosa conversavam...

Helen Suely: - Huuum! O aroma dessas folhas estão perfumando minha alma. Veja Irlan Pablo se já podemos depenar a avestruz.

Irlan Pablo era um sentimental. Apesar de labutar há anos com patos, galinhas, codornas, porcos e as mais variadas caças em estado de quem já passou dessa para melhor, ele não se acostumava. Sempre se emocionava com aqueles corpos sem vida.
                           
Irlan Pablo: - Ainda pode escaldar mais um pouquinho.
Ivana Guadalupe: - O que são essas coisas esquisitas aqui no balcão?
Helen Suely: - É uma centrífuga e um microondas. Tudo muito moderno e econômico. Eles funcionam com apenas um feixe de lenha. Demasiadamente eficientes.
Ivana Guadalupe: - E para que servem?
Helen Suely: - Esse tritura tudo, e este aqui descongela, cozinha e tem até função grill. Preciosidades que comprei de um caixeiro viajante. Ele viaja o país inteiro garimpando as novidades del Gran México para mim.
Ivana Guadalupe: - Dona Helen Suely, e esse mundo de flores sobre a mesa? Devo colocar num vaso?
Helen Suely: - Gostou? São muy ricas, no? Colhi no caminho para cá, assim como aquelas folhas, cascas de árvores, cogumelos selvagens e ervas. Vai tudo para a panela.
Ivana Guadalupe: - Para a panela? E essas coisas são de comer?
Helen Suely: - Tudo bem dosado pode ir para a panela. A diferença entre o remédio e o veneno es solamente a dose.

Ivana Guadalupe ajudava no que era possível, mas não conseguia entender as misturas que estavam sendo processadas. Helen Suely era uma verdadeira alquimista da cozinha. Misturava ervas com carnes, grãos com flores, legumes com castanhas, frutas com casca de árvores, sementes com cogumelos, e tudo, regado a muita pimenta, sempre dava certo. Não tinha receita, não seguia nenhum manual. Pegava, olhava, ouvia os ingredientes na manipulação, cheirava e experimentava. Nunca repetia. Era sempre uma experiência única dos cinco sentidos.

Ivana Guadalupe: - No sei como usted consegue fazer tantas coisas ao mesmo tempo e tudo sair tão delicioso.
Helen Suely: - Primeiro é preciso gostar. Depois, é necessário um poquito de paciência para tentar e errar algumas vezes. Se quiseres podes aprender.
Ivana Guadalupe: - No, no tengo planos para ser cozinheira.
Helen Suely: - E tens planos para ser o quê?
Ivana Guadalupe: - Caçadora!
Helen Suely: - Que bueno! Vais caçar o quê? Patos Selvagens? Perdizes? Posso ser sua cliente.
Ivana Guadalupe: Vou caçar Bruxas.
Helen Suely: Virgem Santíssima Mãe de Deus! Só de falares me arrepiei toda.
Ivana Guadalupe: - Mas posso caçar Lobisomens e Vampiros também, se la recompensa for muy buena. Serei a maior caçadora a noroeste do Golfo do México.
Helen Suely: - Cruz Credo, Credo em Cruz chica! Deus te benza!

Ivana Guadalupe ao longo dos dez anos que passou distante da amiga Marja Consuelo ficou cada vez mais calada, reclusa e misteriosa. Ninguém sabia o que se passava nos pensamentos da moça. Mas também, ninguém na fazenda se importava muito com isso.

De repente Helen Suely começou a ouvir gemidos no canto da cozinha. Quando olhou, Irlan Pablo estava se acabando em lágrimas.

Helen Suely: - Pelo amor de Deus mi hermano, que choradeira é essa?
Irlan Pablo: - No posso evitar. No consigo parar de pensar que essa pata, desfalecida em meus braços, até ontem nadava em um lindo lago seguida por sete patinhos. Arruinamos com todos os seus sonhos de mãe e pata.
Helen Suely: - Hermano, pense que ela se ofereceu em sacrifício para realizar o sonho de todos os convidados de comer um delicioso pato ao molho picante de papoulas e cogumelos selvagens.
  
Cena 2

Dona Fátima Dolores estava uma pilha de nervos. Fazia bastante tempo que não tinha tantos convidados na fazenda e a decoração tinha que impressionar. Havia mandado pintar a fachada da Casa Grande de amarelo mostarda, depois ficou indecisa com o rosa seco. Mandou trocar os castiçais da capela e, depois de vários projetos reprovados, se decidiu por uma nova placa para o portal de entrada da fazenda comunicando as boas vindas aos convidados. Ainda assim, achava que as toalhas de mesa não tinham ficado boas e decidiu pedir ajuda à filha para trocar todas.

Erla Joseane, que era agora uma bonita moça de vinte e cinco anos, havia casado com Thomaz Jorge, um professor de filosofia. Enquanto era apenas um namoro, Thomaz Jorge foi sua escolha. Mas quando seu tio, Dom José Anxieta, preocupado com o namoro caliente, forçou o casamento, Erla Joseane desgostou um pouco. Via no casamento um obstáculo para conquistar seu grande sonho: ser "artística".

Thomaz Jorge Bandeiras era um bom rapaz. Veio de outra província, onde frequentou a faculdade e se formou, para ministrar aulas nas melhores escolas da sede de Diepin dos Montes. Era meticuloso e não havia problema simples que ele não pudesse complicar.

Fátima Dolores: - Mira Erla Joseane, as toalhas de mesa estão um desastre. Tenemos que cambiar todas. Por favor hija, usted e Thomaz Jorge hão de me ajudar.
Erla Joseane: - Aaah, madre! - e jogou os cabelos para o lado - As toalhas não estão tão feias.
Fátima Dolores: - Tão feias? Ai meu Jesuszinho!
Erla Joseane: - E ademais, os convidados já estão chegando. Mira, lá estão chegando as primas Nathália Rosário e Vanessa Rosário.
Fátima Dolores: - No fale, estoy muy nervosa.
Thomaz Jorge: - Se acalme sogrinha. Vou lhe ajudar com as toalhas. Vou começar analisando melhor as que precisarão ser trocadas, depois refletirei um pouco sobre a essência da necessidade e, por fim, sobre a função estética do efeito no conjunto do ambiente. Enquanto isso, Erla Joseane pode ir receber as primas Diaz. Vamos sogra! Vamos juntos entender a insustentável leveza das toalhas.
Fátima Dolores: - Ai meu hijo, como es prático. Sendo assim, acho que será muy rápido.
Erla Joseane: - Vou breve madre para não deixar as primas esperando. - jogando os cabelos para o outro lado.

E Fátima Dolores aliviada concluiu:

Fátima Dolores: - Como es boa essa chica.



Erla Joseane: - Primas, como estão guapas!
Nathália Rosário: - Prima, a quanto tempo não nos vemos!
Vanessa Rosário: - Tu estás muy formosa!
Erla Joseane: Sí! O casamento me fez muy bien. Pena que ustedes ainda não tiveram a mesma suerte.
Nathália Rosário: - Mas isto vai mudar breve. Estamos noivas.
Vanessa Rosário: - Com casamento marcado.
Erla Joseane: (com imenso desdém) - Nossa, quase morri de emoção! E quem são os consortes?
Nathália Rosário: - Luis Augusto Rico!
Vanessa Rosário: - E Luis Henrique Rico!
Erla Joseane: - Que bárbaro! Os filhos do prefeito. - se mordendo de inveja.
Nathália Rosário: - Por falar neles...
Vanessa Rosário: - Lá vem os dois.
Nathália e Vanessa Rosário: - Permiso prima!

Cena 3

Luis Augusto Rico e Luis Henrique Rico eram filhos do prefeito Braz Norton Rico e já eram iniciados na política. Tinham, sem dúvidas, um futuro promissor neste cenário, mas apesar de tudo, a política não corria em suas veias.

Luis Augusto era claramente tímido e racional. Bom em cálculos, matemática e geometria, se envolvia e conhecia as obras de construção da administração de seu pai como se fosse o próprio empreiteiro responsável pelos serviços. Não havia aditivo certo, ele enxugava tudo.

Luís Henrique era um comerciante nato, capaz de vender sacos de areia para nômades no deserto. Hábil em fazer dinheiro, tentava convencer o pai a abrir um empório na cidade, mas sem sucesso até então.

Nathália e Vanessa Rosário: - Buenos dias muchachos!
Luis Augusto e Luis Henrique: - Muy Buenos dias chicas!
Nathália Rosário: - Donde está su padre?
Vanessa Rosário: - E su madre?
Luis Augusto: - Já virão!
Luis Henrique: - Dom José Anxieta faz questão da presença deles.
Nathália Rosário: - Si claro! - Acompanhando com o olhar e a cabeça a primeira bandeja de quitutes que passava.
Vanessa Rosário: - Será um prazer tê-los aqui. - Acompanhando com o olhar e a cabeça a segunda bandeja que passava.

As irmãs Nathália Rosário Diaz e Vanessa Rosário Diaz tinham uma dieta rigorosa. Comiam o dia todo, mas na hora certa, a coisa certa, na quantidade certa. Como já havia quase três horas que tinham feito a última refeição, o estômago já começava a dar sinais claros de insatisfação. O incômodo era tanto, que nem a presença dos noivos, que lhes agradavam bastante, conseguia desviar a atenção da fome.

Loucas para comer, dispensaram educadamente os noivos e se esquivaram até a copa para ver o que conseguiam.

Nathália Rosário: - Huum..! Amanteigados, não posso resistir.
Vanessa Rosário: - Melhor não. Esses amanteigados são carregados de gordura animal. Um veneno para o colesterol. Vamos experimentar esse empanado de perdiz.
Nathália Rosário: - Perdiz, jamais! Esses perdizes tem uma rota migratória que seguem religiosamente todos os anos. Quando matam um, o grupo todo fica desnorteado e não consegue seguir a rota, prejudicando todo o ciclo de reprodução e desenvolvimento.
Vanessa Rosário: - Ah! Coitadinhos!
Nathália Rosário: - Vamos comer essa torta de castanha.
Vanessa Rosário: - Nunca! Só de olhar você vê que está saturada de glúten e leite com lactose. Vamos experimentar a asinha de codorna grelhada.
Nathália Rosário: - Hermana? Imagine a agonia de uma pobre codorna que tem o ninho cheio de codorninhas para serem alimentadas, de repente se ver caçada abandonando os filhos à própria sorte.
Vanessa Rosário: - Não posso nem imaginar!

Não comeram nada. 

 Cena 4

Nessa hora começou a desembarcar na casa os músicos com seus instrumentos. Eram seis músicos liderados pelos irmãos Eldo Luis Castilho e Vitor Alonso Castilho. A banda tinha uma guitarrón tocada por Eldo Luis, um acordeon tocado por Vitor Alonso, e ainda um violão de seis cordas, uma flauta andina, uma viola sertaneja e um triângulo.

Vitor Alonso: - La cucaracha, la cucaracha...
Eldo Luis: - Pare pelo amor de Deus! Ou não conseguiremos mais trabalho pelos próximos dez anos. Te avisei ontem para não ires descer las corredeiras del Rio Elecciones. Tua voz não serve para nada hoje. Deixe que solamente eu cante.

Vitor Alonso não era mesmo nenhum grande talento da MPM - Música Popular Mexicana. Entrou nessa vida arrastado por seu irmão mais velho, Eldo Luis, este sim um talentoso músico de carreira.  O irmão mais velho se preocupava que o caçula se profissionalizasse na vida errante de fiscalização da natureza.  

Vitor Alonso era um incansável caçador de aventuras. Vivia a inventar atividades incomuns e perigosas na natureza exuberante e diversificada da região. Mas, de todas as suas loucas aventuras, a preferida era descer as corredeiras do Rio Elecciones com uma canoa e um remo de confecção indígena. Ele apreciava muito a atividade, mas ninguém disse que se saia bem nas empreitadas. Vez por outra passava umas temporadas estirado sobre uma cama se recuperando das sequelas.

O Rio Elecciones...Ah! Este era um capítulo a parte. Como toda a natureza de La Província de Diepin dos Montes, o rio era incomum e detentor de mistérios. Ele nascia na Floresta de Polititican ganhando logo um corpo denso, e tinha um ciclo bem definido de quatro anos. Passados os quatro anos, tudo podia acontecer. O rio podia seguir o mesmo curso com poucas novidades ou variações, ou tomar outra direção completamente diferente. O curso do Rio Elecciones era decisivo para La Província, e quando um novo ciclo vinha acompanhado de mudanças radicais, o impacto era grande na vida das pessoas. A expectativa de um novo ciclo do rio trazia para alguns apreensão, para outros esperança.

Quando a banda de músicos terminava de se posicionar e afinar os instrumentos, assustadoramente, ouviu-se os estrondos. Todos se entreolharam. Os mais assustados se jogaram no chão e os sem noção saíram correndo de um lado para outro sem saber para onde ir.


Eram dois tiros do lado de fora da Casa Grande.